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terça-feira, 28 de maio de 2019

Serro: Codema admite irregularidades em licenciamento da mineração

Problemas teriam ocorrido na fase inicial do processo. Presença da Herculano Mineração no município dividiu plateia.

Ainda foram criticados no debate os impactos da atividade na região, como riscos à segurança hídrica e à agricultura familiar

Ainda foram criticados no debate os impactos da atividade na região, como riscos à segurança hídrica e à agricultura familiar - Foto: Ricardo Barbosa
Questionada por pesquisadores e movimentos ambientais, a atividade minerária pretendida pela empresa Herculano no município do Serro (Região Central do Estado) dividiu opiniões entre moradores que lotaram audiência pública realizada na cidade nesta quinta-feira (21/5/19), pela Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG).
Solicitada pela deputada Beatriz Cerqueira (PT), a reunião teve o objetivo de discutir violações de direitos humanos cometidos pela empresa no processo de licenciamento. A mineradora é acusada de fraudar estudo para liberar a extração e de não ter ouvido previamente populações que serão afetadas pelo empreendimento, a exemplo das comunidades quilombolas que vivem na região.
Essas irregularidades foram admitidas pela atual presidente do Conselho Municipal do Desenvolvimento do Meio Ambiente (Codema) do Serro, Vanessa de Fátima Terrrade.
Ela participou da audiência na fase em que inscritos fazem uso da palavra após os convidados e disse que as irregularidades teriam inclusive motivado a renúncia do presidente anterior do Codema, Paulo Procópio, em abril passado.
As irregularidades mencionadas ocorreram quando da declaração de conformidade do empreendimento, dada pelo conselho em 2018 e uma exigência para se dar início ao processo de licenciamento.
Além de problemas quanto ao processo no Codema, foram criticados no debate impactos da atividade na região, como riscos à segurança hídrica e à agricultura familiar, aumento da violência e do tráfego de caminhões pesados nas rodovias, conforme destacado pela maioria dos convidados da mesa e pelas deputadas Beatriz Cerqueira (PT) e Andréia de Jesus (Psol).
Já na plateia, comunidades presentes, do Serro e cidades vizinhas, se dividiram. De um lado do auditório, contra a mineração, moradores afixaram cartazes pela defesa da água, do turismo e do patrimônio local; do outro, pessoas a favor vestiram camisetas em defesa da empresa e expuseram faixas dizendo que a atividade trará mais empregos, desenvolvimento e dignidade social.
Alternativas - "Compreendemos a necessidade de emprego num País com milhões de desempregados, mas é preciso pensar em outras alternativas e cobrá-las do governo do Estado", frisou Beatriz Cerqueira.
Ela lembrou a situação de famílias e trabalhadores afetados pelos rompimentos de barragens da mineradora Vale em Mariana (Central) e em Brumadinho (RMBH) e defendeu que as pessoas conheçam mais sobre a realidade por trás da mineração.
Em uma plateia dividida, defensores da mineração argumentam que atividade trará emprego
Em uma plateia dividida, defensores da mineração argumentam que atividade trará emprego - Foto: Ricardo Barbosa
Os melhores empregos ficam com pessoas de fora da localidade, muitos dos empregados são contratados por empresas terceirizadas, sem garantias e com alta rotatividade, enumerou a deputada, que também citou impactos ambientais e sobre o modo de vida de comunidades que vivem na região.
"Os conselhos como o Codema são importantes e não se pode abrir mão deles, mas se houve como nesse caso irregularidade ou pressão e tentativa de cercear a manifestação da população, a sociedade pode sentar e cobrar do governo", acrescentou a deputada Andréia de Jesus.
Visita e reunião – A comissão ainda visitará nesta quarta (21), às 8 horas, a Comunidade Quilombola de Queimadas, na zona rural de Serro, que poderá ser impactada pela mineração.
Na sequência, as parlamentares anunciaram um encontro com o prefeito do Serro, Guilherme Simões Neves. A expectativa é que o Ministério Público esteja presente e que sejam discutidos estudos independentes aos da empresa Herculano que tratam dos impactos do empreeendimento pretendido.
Segundo o promotor Henrique Moreira, a decisão do Codema estaria na contramão do plano diretor do município do Serro, que defende resguardar os mananciais, além de o Codema ter se baseado em dados equivocados, conforme citou. "Não se trata de sermos contra ou a favor da mineração, desde que resguardados os direitos e a lei", frisou.
Prefeito fala em pressão e Codema rebate
Conforme também anunciou a presidente do Codema em sua fala, o órgão se reunirá ainda nesta quarta (22.05) pela manhã, para voltar a tratar da questão minerária envolvendo a Herculano na região.
Vanessa Terrade citou que a súmula vinculante 473 do Supremo Tribunal Federal (STF) preconiza que a administração pública deve revogar atos inoportunos ou anular atos ilegais, o que no seu entendimento pode ser feito pela prefeitura diante das irregularidades constatadas no processo do Codema.
"Queremos a ajuda do prefeito, vamos evocar a súmula, ou esperar por um controle externo à administração pública?", indagou ela quanto ao que ocorrerá com a declaração de conformidade já concedida à empresa.
Participando na mesa de convidados em fase anterior da audiência, o prefeito do Serro, Guilherme Simões Neves, disse que pela lei o processo está a cargo do Codema. "Pressões são naturais de um lado e de outro", considerou ele, ao dizer que providências poderão ser tomadas caso haja prova de culpa em alguma irregularidade do processo.
Federação vê omissão do legislativo municipal
Matheus Gonçalvez disse que quilombolas deveriam ter sido consultados sobre empreendimento
Matheus Gonçalvez disse que quilombolas deveriam ter sido consultados sobre empreendimento - Foto: Ricardo Barbosa
O advogado da Federação das Comunidades Quilombolas, Matheus Gonçalvez, lembrou que, conforme convenção da Organização Internacional do Trabalho (OIT) da qual o Brasil é signatário, os quilombolas, por serem comunidades protegidas pela União, deveriam ter sido os primeiros a serem consultados previamente sobre o empreendimento.
Ele ainda denunciou que a mineradora estaria pressionando por autorização de suas atividades, inclusive fazendo doações para eventos à prefeitura. Disse ainda que a Câmara Municipal do Serro estaria sendo omissa ao não debater a questão.
O geógrafo Frederico Gonçalvez , da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), por sua vez, insistiu na abordagem de erros cometidos pela empresa em estudos apresentados ao Codema. Segundo ele, a análise cartográfica, contrariando esses estudos da mineradora, mostra que haverá sim impacto direto nas águas subterrâneas da região causado pela extração de minério.
Divisão - Moradora da vizinha Santo Antônio do Itambé, Lira Baracho disse temer que os efeitos da mineração respinguem em seu município. "Temos o Parque Estadual do Pico do Itambé, onde vivem espécies endêmicas e onde a mineração e seus efeitos não são bem vindos", disse.
"O emprego na mineração não vai durar para sempre e ainda vai destruir tudo", foi o que afirmou Paulo Sérgio Ferreira, da Comunidade Condado.
O vereador do Serro contestou. "De qual projeto precisamos então, se vivemos uma situação difícil em tudo, na saúde, no emprego, na segurança", disse ele, resumindo o sentimento dos apoiadores da mineração.
Consulte o resultado da reunião.

Fonte: site da Assembléia Legislativa de Minas Gerais.

Fonte

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Mineração no Serro: Suspensão de pauta no Codema e compromissos do prefeito de ouvir a população

Prefeitura assume compromisso após mobilização popular contra mineração no Serro, no Alto Jequitinhonha.

Votação foi tirada de pauta até que irregularidades no empreendimento sejam resolvidas.

Brasil de Fato | Belo Horizonte (MG)
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Empresa anunciou que vai recorrer da decisão. Por outro lado, as comunidades anunciam o fortalecimento da luta / Foto: Tiago Geisler
A reunião do Conselho de Desenvolvimento do Meio Ambiente (Codema) do Serro, em Minas Gerais, marcada para esta quarta-feira (16.01) foi cancelada ao final da tarde de terça-feira (15.01). O presidente do conselho, Paulo Sergio Torres Procópio, comunicou aos demais conselheiros sobre o cancelamento da reunião após receber uma recomendação do Ministério Público de Minas Gerais orientando a retirada de pauta do pedido de anuência ambiental efetuada pela mineradora Herculano até que as irregularidades constatadas no empreendimento denominado “Projeto Serro” sejam resolvidas.
De acordo com o documento do Ministério Público, o Codema deve consultar o Ibama antes da apreciação do pedido da empresa devido à previsão de destruição de áreas de Mata Atlântica pelo projeto. A recomendação aponta ainda outras irregularidades no projeto da Herculano, como a ausência de prova suficiente que comprove a posse do direito minerário envolvendo o empreendimento; inexistência de processo válido de licenciamento ambiental e a ausência das necessárias audiências públicas.
Concomitante à recomendação do MPMG, o juízo da comarca do Serro deferiu, em parte, as medidas liminares pleiteadas pelo mandado de segurança impetrado pela Federação Quilombola de Minas Gerais - N’Golo. O professor de direito da PUC e advogado da Federação, Matheus Mendonça, explica o que implica a decisão do juízo. “A medida liminar deferida pelo juízo da Comarca do Serro ordena que o Codema se abstenha de deliberar sobre a conformidade do empreendimento minerário até que sejam sanadas as seguintes questões procedimentais: primeiro, seja comprovada a titularidade do direito minerário, com apresentação da cessão de direito minerário averbada pelo DNPM (Departamento Nacional de Política Minerária); segundo, a formação de autos de processo administrativo, com a autuação, rubrica e numeração de todos os documentos; e, terceiro, a realização de consulta livre, prévia e informada dos órgãos representativos da comunidade quilombola de Queimadas, com obtenção do consentimento da comunidade”.
Sobre o procedimento adotado pelo Ministério Público, Mendonça comenta que será necessária uma autorização do Ibama antes de o Conselho decidir sobre a declaração de conformidade para a empresa.
Mobilização popular conquista compromissos da Prefeitura 
Foto: Tiago Geisler
Apesar de a reunião do Codema ter sido cancelada, cerca de 150 pessoas realizaram um ato nas ruas do Serro para denunciar o projeto da Herculano e pressionar o Conselho e Prefeitura para demarcarem a área pretendida pela mineradora como um território livre de mineração. A manifestação foi realizada com muita animação e diálogo com a população na rua. Havia inúmeras faixas, cartazes, músicas e gritos de ordem.
Os manifestantes foram recebidos pelo prefeito Guilherme Simões Neves. “Estou preocupado, acompanhando a discussão e não irei fazer nada contra a vontade popular”, afirmou o prefeito.
Ao final da reunião, o prefeito se comprometeu com os presentes que vai se esforçar para convencer o Codema a analisar o pedido de declaração de conformidade somente após a empresa apresentar o EIA/RIMA ao Conselho, for realizado um processo de consulta à comunidade quilombola de Queimadas e uma Audiência Pública sobre o tema no município.
Juliana Stelzer, coordenadora estadual do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM), celebra as repercussões ocorridas na semana. “A recomendação do Ministério Público e a decisão da juíza do Serro são elementos importantes que comprovam as inúmeras irregularidades do processo conduzido pela Herculano. A mobilização de hoje foi fundamental para dialogar com a população e pressionar o prefeito sobre a necessidade de demarcação da área pretendida pela empresa como um território livre de mineração. Temos percebido que cada vez mais pessoas estão se somando na luta com clareza de que o projeto trará mais prejuízos que os supostos benefícios propagandeados pela empresa. Isso é uma conquista da luta popular e iremos intensificá-la no próximo período”, afirma Stelzer.
Para Stelzer, a situação econômica do Serro é muito vulnerável e isso facilita o discurso da empresa de que a implantação do projeto pode trazer benefícios à cidade. “Essa é uma estratégia utilizada pelas mineradoras, tentar persuadir a população prometendo benefícios econômicos. Porém, é muito comum um grande descontentamento do conjunto das cidades após a implantação do empreendimento. Os empregos exigem formação técnica que muitas vezes os moradores do município não possuem, e isso faz com que a maioria das contratações sejam de outros locais. Além do mais, os prejuízos causados com a vinda desses projetos na vida do povo são muito grandes e, no caso do Serro, a questão da água e os impactos nas comunidades rurais são muito preocupantes. Um dos compromissos que assumimos com o prefeito foi de contribuir para busca de melhorias econômicas para o Serro. A mineração não é solução e não pode ser vista como uma alternativa econômica para o município”, defende a coordenadora do MAM.
Devido à decisão judicial, o Codema fica impedido de deliberar sobre a anuência para empresa enquanto ela não certificar a devida regularidade do processo. A empresa anunciou que vai recorrer da decisão. Por outro lado, as comunidades anunciam o fortalecimento da luta pelo direito de dizer “não” à mineração e em defesa de um projeto econômico que traga benefícios ao conjunto da população com emprego, renda e justiça social.