domingo, 13 de outubro de 2019

Parem de matar nossas crianças!



Nota do Movimento de Mulheres Olga Benario expressa repúdio à política genocida do Estado brasileiro.

"Apenas em 2019, 16 crianças foram baleadas  no Brasil pelas mãos do Estado. Agatha, Marcos, Victor, Leticia, Lauane, Kauã.  Segundo um levantamento feito pelo Joining Forces, o Brasil é o país com maior risco de violência contra crianças e adolescentes no mundo. 
Mas não é só assim que o Estado brasileiro tem matado nossos filhos e filhas.
No Brasil são 17,3 milhões de pessoas com até 14 anos em situação de pobreza. 34 % vivem em lares com uma renda inferior à 350 por pessoa. 49, 7% das crianças e adolescentes brasileiros são tem acesso a pelo menos um dos direitos fundamentais, previstos em lei pelo ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente, como educação, proteção contra o trabalho infantil, moradia, água e saneamento básico.
Por isso, afirmamos que o  Estado mata!
Mata ao negar atendimento básico de saúde. O Estado mata ao negar o acesso à alimentação adequada nas escolas. Mata ao fechar escolas ou não abri-las em alguns locais: são 8,8 milhões de crianças e adolescentes fora das escolas. Mata ao permitir o desmatamento da Amazônia. Mata ao não garantir moradia digna e saneamento básico. São 13,3 milhões de crianças e adolescentes sem acesso à saneamento e 7,6 milhões sem acesso à água e 5,9 milhões de crianças e adolescentes sem teto.
Nossas crianças também são vítimas da violência sexual: segundo o anuário da violência, 4 meninas de até 13 anos são estupradas por hora no Brasil.
Nossas crianças estão morrendo! E não qualquer criança. Estão morrendo as crianças negras, as crianças indígenas, as crianças moradoras das periferias, aquelas que moram nos interiores de nosso país, as crianças sem teto.
Não podemos permitir isso!
Nós, do movimento de mulheres Olga Benário nos solidarizamos com as mães de cada criança que estado matou, seja por bala, seja por omissão e nos comprometemos a lutar até que a todas as crianças seja garantido o direito a uma vida digna, à saúde de qualidade, educação, lazer, cultura, moradia, etc. Um Estado que precariza tanto a vida de crianças a ponto de matá-las precisa ser combatido, e é papel das mulheres serem vanguarda nesse processo.
Seguimos em luta pela vida de nossas crianças!"

Movimento de Mulheres Olga Benário


terça-feira, 8 de outubro de 2019

Outra Política: o que aprender com BH

Douglas Resende e Jean-Claude Bernardet lançam um olhar sobre a experiência que sacudiu a esquerda em Minas Gerais e tentam descobrir como ela pode ajudar a encontrar saídas no deserto político brasileiro


Sob os viadutos, as Assembleias Populares Horizontais. Ao contrário do que ocorreu na maior parte das cidades, Junho de 2013 ajudou a organizar uma nova esquerda em BH | Foto: upslon.

Douglas Resende, entrevistado com Jean-Claude Bernardet
MAIS:
Este texto foi publicado originalmente no blog que Jean Claude Bernardet mantém em Outras Palavras — e onde escreve sobre Cinema, Cultura e Política. Pode ser acessado aqui.
A sequência de derrotas sofridas desde o golpe de 2016 continua atordoando a esquerda institucional brasileiro. O sintoma mais nítido é a perda de horizontes utópicos. Diante de um governo que opera em modo de devastação frenética, escasseiam alternativas. Raras vezes há, inclusive, resistência – ao desmonde da Petrobrás, à censura das obras artísticas por instituições como a Caixa ou ao aumento dos assassinatos policiais, por exemplo. Os partidos comportam-se como se esperassem um fato salvador – um vazamento arrasador da Vaza Jato, por exemplo.
É em meio a este deserto de vontades que algumas ações irrompem e se destacam. Há cerca de uma década, Belo Horizonte testemunha uma delas. Começou ainda no governo Lula, quando se combinavam elementos contraditórios: garantia de novos direitos sociais, emergência das periferias e especulação imobiliária incendiada. Em diversos pontos da capital mineira – assim como em muitas metrópoles brasileiras – surgiram resistências.
Mas, por motivos que é preciso examinar mais cuidadosamente, em BH elas aglutinaram-se e se aprofundaram. A energia das periferias, e de alguns bairros da classe média, atraiu a atenção de estudantes e professores da UFMG dispostos a ir além dos corredores acadêmicos. Surgiram as Assembleias Populares Horizontais, que ocupavam baixos de viadutos. O conjunto da obra foi impulsionado pelo vendaval de 2013 – mas, ao contrário do que se deu em quase todo o país, em Minas ficaram sementes de organização. Em especial, um movimento, o Muitas, que combinava elementos chave. Atuava no território, reivindicava o Direito à Cidade, era claramente feminista e multiplicava encontros entre Periferias e Centro, que repercutiam inclusive num novo carnaval de rua.
Em 2016, novo passo. Embora veja a política muito além das eleições, o movimento também as disputou – de maneira muito inovadora e efetiva, como se verá a seguir. Num ano em que a esquerda colecionou sofridas derrotas, Áurea Carolina, uma candidata negra lançada pelo Muitas (sob a legenda do PSOL) foi a vereadora mais votada.
O experimento de BH tem atraído a atenção de quem vê o Brasil com inquietude e senso de urgência. O cineasta e crítico Jean-Claude Bernardet e o jovem documentarista e professor Douglas Resende, por exemplo. Jean-Claude é, além de diretor, roteirista, ator, escritor e um dos grandes conhecedores do cinema brasileiro, ativista e analista político há décadas. Douglas, hoje professor de Cinema e Vídeo da Universidade Federal Fluminense (UFF) em Niterói, é autor de curtas como “Avenida Junho” e “O primeiro dia depois do fim do mundo”, e do média metragem “Memórias de Izidora”. Sua busca é, como diz Bernardet, “criar um espaço comum na prática do documentário; articular as políticas da cidade e do documentário – Sempre pensando na formação de comunidades”.
Douglas participou ativamente de todo o processo de mobilização política que desembocou na formação do Muitas, em BH. Foi sobre este tema que ele e Jean-Claude dialogaram, na entrevista a seguir. (A.M.)

Douglas Resende, hoje professor na UFF, foi participante ativo dos processos políticos que levaram à formação do “Muitas” em Belo Horizonte

Jean-Claude Bernardet – Você esteve em São Paulo e me relatou aspectos da vida política de Belo Horizonte, falou das Muitas. Me interessei por não ser um movimento centralizado, o militante não espera que o cidadão chegue até ele, mas é ele que se desloca.
Douglas Resende – Posso falar dessa experiência mais como observador, testemunha um tanto distanciada desse processo específico, mas com uma relação afetiva forte com as pessoas e movimentos que o compõem. Estive mais presente em BH nos anos que precederam a criação das Muitas.
Tem algo importante que é específico de BH. A cidade tem um problema que esteve constantemente na pauta dos novos movimentos sociais – a questão do espaço público.
BH é uma cidade um tanto claustrofóbica, há uma falta de espaços de convívio, parques, praças… Uma cidade árida, quase não tem água, pouco verde. Urbanisticamente, é uma cidade trágica. Uma angústia compartilhada pela juventude principalmente. Há uns dez anos, começou um movimento de ocupação das ruas, de praças que eram abandonadas ou cujo uso era cerceado pela administração de um prefeito-empresário que se esforçava por privatizar esses espaços ou por “protegê-los” da própria população. Esses novos movimentos começaram a se encontrar, a se formar, a atuar juntos, na rua.

Batalha de MCs no Viaduto Santa Tereza: um dos pontos de encontro entre Periferias e Centro

Por volta de 2008-2009 esses novos movimentos começam a ganhar visibilidade, O movimento de moradia era especialmente forte. Uma juventude com muita energia, aliada a famílias de baixa renda, com grandes dificuldades de pagar aluguel, inicia uma série de grandes ocupações de terra na cidade, recolocando em pauta o problema central do acesso à terra, da “justiça socioespacial”, do “direito à cidade”, uma expressão que começou a ter bastante adesão. A ocupação Dandara, na região norte da cidade, foi a mais marcante nesse momento. Uma ocupação planejada por uma organização chamada Brigadas Populares, formada sobretudo por advogados.
Nesse contexto das ocupações urbanas, vão ressurgindo pequenos blocos de carnaval pela cidade, o que era uma coisa surpreendente, porque BH não tinha nenhum carnaval. Com os blocos, começa a se dar uma outra forma de ocupação dos espaços públicos. Era uma reação a essa “claustrofobia”, que provocava isolamento e nos distanciava da política.

Jean-Claude Bernardet, cineasta, escritor e ativista, fala no Festival de Cinema de Tiradentes

JCB – Que idade você tinha na época?
DR – Um pouco menos de 30. O carnaval é importante porque graças a ele começaram a se formar pequenas comunidades espalhadas pela cidade, atravessadas por um sentido político forte. Elas surgiam em conexão com as questões políticas e urbanas mais imediatas. Então os blocos começam a ocupar os espaços em diálogo com outros movimentos políticos, inclusive os de moradia, contagiando esses movimentos com paixões, alegria, com a festa.

As ocupações das ruas pela multidão em 2013 aconteceram em BH de uma maneira singular, porque ajudaram a fortalecer os movimentos de esquerda que se formavam e a criar outros. Isso fica evidente naqueles registros das Assembleias Populares Horizontais (APHs) que aparecem no Avenida Junho, o filme em que você fez uma intervenção na montagem. Reuniam, às vezes, milhares de pessoas debaixo de um viaduto para discutir as pautas políticas mais importantes da cidade.
JCB – Onde?
DR – Debaixo do viaduto Santa Tereza, no centro da cidade. As APHs aconteceram a cada 2ou 3 dias ao longo de junho. E ali se formavam grupos de trabalho, como o da “reforma urbana”, o de mobilidade – uma pauta importante naquele momento. Este último, por exemplo, se desdobrou num novo movimento, atuante nos anos que se seguiram: o Tarifa Zero BH. Dali surgiram outros grupos que, ao longo dos anos, se desdobram em outros novos movimentos sociais. Forma-se um novo contexto de movimentos na cidade, descolados dos antigos, com novas propostas, novas perspectivas políticas e constituídos de uma pluralidade de sujeitos. Desde grupos militantes e famílias sem-teto que ocupavam terras que não cumpriam sua função social. Com essas ações diretas, grupos como as Brigadas Populares e o Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB) fazem um trabalho de base importante. Envolvem inclusive professores e estudantes universitários, especialmente da Escola de Arquitetura da UFMG, que até hoje dão suporte técnico às ocupações e outros territórios da cidade. Surgiam redes de advogados, arquitetos, artistas etc., que uniam seus esforços para atuar em vários territórios da cidade. Isso tudo se intensifica em 2013. Nesse ano se dão duas ocupações urbanas de naturezas muito diferentes mas igualmente marcantes para BH – a Izidora, uma enorme ocupa de moradia numa das franjas da cidade, e o Espaço Comum Luiz Estrela, que tomou e reabriu um casarão histórico abandonado pelo Estado havia 20 anos.

Ocupação Izidora, onde ocorreram muitas das reuniões que levaram à formação do Muitas

JCB – Situado onde?
DR – No bairro Santa Efigênia, região central, você esteve lá. Ali se formou uma comunidade ligada às artes, ao patrimônio histórico, à permacultura… A ação direta que abre as portas e janelas do casarão, em outubro de 2013, foi uma intervenção política e estética no cotidiano daquele bairro, com um trabalho intenso de teatro, de vídeo, arquitetos e advogados que recebiam a Polícia Militar montados…
JCB – Montados?
DR – Se travestiam, usavam fantasias como num bloco de carnaval, ao mesmo tempo em que falavam uma linguagem jurídica impecável.

Havia então essa pluralidade incrível. Militantes de movimentos populares com discursos marxistas de repente eram contagiados por expressões do carnaval, conviviam com anarquistas, artistas, moradores de rua… Naquele momento usamos muito a palavra “comum”, evocando um espectro político que se referia a processos mais horizontalizados. Um “espaço comum” parecia uma ideia que dava conta dessa pluralidade de vidas. Perturbar a ordem do privado e do público era uma preocupação política e estética forte.

Fiz uma contextualização um pouco caótica desse ambiente político e cultural efervescente na cidade com muitas ações diretas, para chegar onde você queria. Lembro que no campo institucional tínhamos o oposto, vivíamos um governo municipal terrivelmente fascista.
JCB – Não era mais o PT?
DR – Depois de mais de dez anos no poder, o PT articulou uma coligação com o PSDB, o que foi uma tragédia. Em 2008, o então prefeito Fernando Pimentel, um dos quadros mais conservadores e neoliberais do PT, se alia ao Aécio Neves e decidem criar um personagem, o Marcio Lacerda, filiado ao PSB. Ele nem existia como político, era um empresário super-rico, com casa numa ilha em Angra dos Reis, sempre foi o prefeito mais rico do Brasil. As máquinas do PT e do PSDB, que ocupavam a prefeitura de BH e o governo de Minas, o elegeram uma vez. Depois, mesmo com o PT assumindo o erro e rompendo com Lacerda, ele conseguiu se reeleger, numa derrota traumática de Patrus Ananias, que tinha sido um ótimo prefeito nos anos 90. Lacerda ficou longos oito anos. Importaram do Rio de Janeiro o secretário de planejamento urbano, Marcelo Faulhaber, um economista com um pensamento empresarial, ultra-neoliberal.

“Praia da Estação”, na antiga estação central de BH. Em metrópoles dominadas pelo automóvel e cimento, criação autônoma de espaços de lazer tem forte sentido político

Pensavam a cidade como negócio particular. Essa coligação eliminou inteiramente o dissenso na política em Minas, não havia mais oposição. Conchavados, os dois partidos implantaram seu projeto e não havia resistência. Era uma situação institucional ruim, repressora, tínhamos que reagir às constantes investidas violentas do capital, como remoção de comunidades, vendas de propriedades públicas, privatização dos espaços públicos etc. Os anos Lacerda foram marcados por esse embate de uma política institucional ultra-conservadora e uma realidade político-social efervescente, com uma juventude ativa que criava ao mesmo tempo formas de resistência e novas comunidades político-culturais. Esse descompasso provocava um grande cansaço e seguidas derrotas diante da máquina estatal.
Foi então que começou a circular um chamado para um encontro numa certa tarde de sábado, um sábado de 2015. Compareceram umas 30 a 40 pessoas que se reuniram em círculo num gramado do Parque Municipal. Eram pessoas ligadas a diferentes comunidades da cidade, todas essas que já mencionei – movimentos de moradia, do Tarifa Zero, ocupações urbanas, blocos de carnaval, advogados, arquitetos, artistas, ativistas em geral. Durante todo o encontro praticamente não se mencionou a palavra “eleição”, mas de algum modo todo mundo ali sabia que estávamos reunidos para pensar um projeto para as eleições municipais de 2016. Isso de não ter se discutido as eleições naquele primeiro encontro me pareceu de uma maturidade política importante, não havia ansiedade para se tomar decisões rápidas, ao mesmo tempo se mantinha a inquietação necessária para gerar um movimento.
O que acontece a partir dessa conversa? Decide-se que haveria outro encontro, e que ele se daria num território de resistência, uma luta urbana que ficou conhecida como Parque Jardim América, num bairro residencial na região oeste da cidade.
JCB – Bairro residencial elegante?
DR – Não, de classe média modesta. Ali tem uma área verde que ocupa um quarteirão inteiro e, dado o seu valor de mercado e o fato de ser uma propriedade privada, uma grande construtora decide comprar o terreno para realizar um empreendimento imobiliário. Além de eliminar a área verde, isso traria um impacto sensível no bairro, uma perda da qualidade de vida – aumento do trânsito, da temperatura etc. Se inicia então uma mobilização entre os moradores no sentido de impedir o empreendimento. Creio que uma das lideranças desse movimento havia comparecido àquele primeiro encontro no Parque Municipal e convidou para que a reunião seguinte fosse no Parque Jardim América. E assim aconteceu.
Agora com uma divulgação maior e mais pessoas participando, um bairro de família mineira tradicional que não tinha uma vida política e cultural intensa, naquele dia recebeu um fluxo de pessoas vindas de outros lugares da cidade, de outras comunidades que se misturavam aos moradores locais.
Veja aí de novo o tema da pluralidade de lugares que mencionei antes. Nesse segundo encontro as questões específicas do bairro e do Parque Jardim América foram debatidas mas em relação com outras resistências da cidade, com outros territórios. É interessante notar que aquele território já era chamado de “parque” antes de o ser, ou seja, o parque começa a existir no imaginário, projetado pela vontade da própria comunidade num enfrentamento com o poderoso capital imobiliário.

Carnaval de rua. Também em BH, ele ressurgiu. Com algo a mais: forte presença dos blocos na periferia | Foto: Samuel Costa, Hoje em Dia

Nesse segundo encontro, surge o convite para um terceiro, numa outra comunidade de resistência. Foi no Cafezal da Serra, uma vila do Aglomerado da Serra, a maior favela de BH, na região centro-sul. Num certo momento, a vila iria passar por uma intervenção urbanística. Técnicos da prefeitura vieram com um diagnóstico que apontava o lugar como área de risco e que, por isso, seria necessário remover algumas dezenas de moradias. A população, que vivia ali havia décadas, se mobilizou para que a intervenção não acontecesse. Iniciaram a plantação de árvores frutíferas, bananeiras em especial, que ajudam a dar sustentação ao terreno. Enquanto isso, professores da UFMG e da PUC ofereceram um apoio técnico à comunidade e fizeram uma análise do solo, concluindo que os técnicos da prefeitura estavam equivocados. Mostraram que as placas geológicas daquele terreno estavam dispostas de forma a dar estabilidade à encosta, e com o trabalho da comunidade e o seu pomar não haveria risco de deslizamento. Logo, não haveria necessidade de remoção. Nascia assim um território de resistência e um espaço de convívio da comunidade, que ficou conhecido como pomar do Cafezal e passou a existir na cartografia afetiva da cidade.
O encontro se dá nesse espaço de resistência – mais um! Ali se discute de novo o caso específico de resistência daquele território em relação com o contexto macro da cidade e com a presença de muitas pessoas de outras comunidades. Me lembro bem que esteve presente nesse encontro um morador de um bairro chamado Ribeiro de Abreu, situado no outro extremo da cidade, na região norte, por onde corre o Ribeirão do Onça. Há alguns anos, a comunidade do bairro desenvolve um trabalho de revitalização do ribeirão. De forma autônoma, em mutirões dos moradores, constroem aos poucos o que passaram a chamar de Parque Linear do Ribeirão do Onça. Aquele morador do bairro que estava presente à reunião no pomar do Cafezal faz o convite para que o próximo encontro se dê em sua comunidade. De novo, mais um encontro vai se dar num espaço de resistência, situado numa franja da cidade, pouco ou nada frequentado por quem está no centro e que passa a existir nessa cartografia que vai se constituindo.
No ano seguinte, em 2016, o bloco de carnaval Tico Tico Serra Copo escolhe o bairro como trajeto e leva centenas de pessoas pra lá, criando um trânsito de pessoas de outros territórios. O bloco terminou o seu cortejo às margens do rio, numa bela praia, mas com água ainda poluída, já que a sua limpeza não depende só da comunidade. Foi um momento forte de criação de laços entre grupos e lugares diferentes da cidade. No bloco, as pessoas se conhecem, conversam, criam relações.

Carnaval de rua: o bloco Filhos de Tcha Tcha na Ocupação Izadora, em 2015

O quinto encontro, se não me engano, foi no Espaço Comum Luiz Estrela, que já mencionei. Mais uma comunidade de resistência da cidade. Digo resistência porque todos esses territórios têm uma proposta de autonomia na produção do espaço e de enfrentamento do capital e dos poderes dominantes que querem impor um modelo de relações com os espaços, com a vida, à revelia das pessoas. São situações em que as comunidades tomam o poder de produzir o espaço, independente do Estado e do capital, até onde seja possível.
No encontro do Estrela, o tema da eleição já estava colocado e já se discutia quem seriam as pessoas que, digamos, se sacrificariam para assumir a tarefa de atuar na política institucional. A pauta desse encontro era qual seria o nome dessa espécie de plataforma que se organiza. Surge então o termo “Muitas”, que tem a ver com essa multiplicidade de territórios, de pessoas, de relações.
O tema da eleição passa a ser crucial. 2016 se aproxima, deve haver definições para a participar do jogo eleitoral. Mas como fazer para que um movimento não-partidário caiba num pensamento eleitoral? No Brasil, ao contrário de outros países, não é possível se candidatar a cargos executivos ou legislativos sem filiação a um partido. Esses novos movimentos sociais não estavam, em geral, conformes às velhas formas políticas, do partido, do sindicato… Mas, ainda assim, havia nos encontros pessoas que eram ao mesmo tempo parte dos movimentos e filiadas ao PSOL, talvez o único partido que se permita estabelecer relações com esses movimentos políticos contemporâneos.
Eu me lembro que, a caminho daquele primeiro encontro na tarde de sábado no Parque Municipal, eu conversava sobre esse impasse com um amigo. E comentei: “Acho que a única saída seria usar o CNPJ do PSOL.” Pedi que não comentasse isso na reunião porque provavelmente haveria pessoas do PSOL e isso pegaria mal naquele momento. Ele me desobedece: não apenas reproduz o comentário como me dá o crédito. Recebo olhares de reprovação das pessoas ligadas ao partido. Mas é exatamente isso que viria a acontecer. Em algum momento desse processo – quando eu já não acompanhava mais os encontros – as Muitas reivindicam ao PSOL participar das eleições pelo partido. Esses membros do PSOL levam a demanda ao partido, que apresenta intensa resistência.

Áurea Carolina comemora, com apoiadores, eleição para a Câmara, em 2016 | Foto: Aline Correia

JCB – As Muitas apoiaram um candidato?
DR – Não. As Muitas propõem candidatas, são as próprias Muitas que se candidatam, entendeu? Houve uma batalha intensa no partido mas o núcleo do PSOL que defendia as Muitas acaba vencendo, o que chega a causar um certo trauma no partido. Então as Muitas apontam um grupo de candidatas a vereadoras.
JCB – Vereadoras?
DR – Sim, disputar a prefeitura naquele momento seria um passo maior que as pernas.
JCB – Só mulheres?
DR – A maioria mulheres, uma trans, alguns homens. Dentre elas, a Áurea Carolina, uma jovem negra com muita desenvoltura. Ela estava na casa dos 30 e vinha de uma intensa atuação no campo de políticas para juventude. Tinha trabalhado, inclusive, como educadora no campo do audiovisual, na AIC (Associação Imagem Comunitária). Entre as outras candidatas estavam a Cida Falabella e a Bella Gonçalves, cientista política e militante das Brigadas Populares, organização na qual atua há anos no campo do direito à moradia.
A campanha das Muitas se dá através de uma grande rede de voluntários, pessoas ligadas aos movimentos e comunidades que compõem a plataforma e outras que foram aderindo ao longo do processo, e também com financiamento via doações de pessoas física através de crowdfunding. De repente as Muitas revelam uma forte capacidade de mobilização, atraindo sobretudo uma juventude disposta a atuar politicamente.
Áurea acaba tendo a maior votação da história da Câmara Municipal de BH: 17 mil votos contra 11 mil do segundo lugar, que era um desses homens brancos, velhos, já com vários mandatos, a cara clássica do político. O PSOL nunca havia elegido um vereador em BH. Com essa votação, a Áurea leva mais uma vereadora das Muitas, a Cida Falabella.
JCB – Uma atriz?
DR – Sim, atriz e encenadora muito politizada, com uma pesquisa brechtiana. Mantém um teatro no bairro Serrano, divisa com Contagem, a ZAP 18 – Zona de Arte da Periferia, onde me lembro ter visto, há uns 15 anos, uma bela montagem de Mãe Coragem. Ela segue uma linha política interessante: trabalha com temas do território. Ela teve uns 3.500 votos, mas foi puxada pela votação da Áurea e eleita pelo coeficiente eleitoral.
Agora – isso é importante – ao invés de criar gabinetes individuais, como é o normal, elas criam o que passa a se chamar até hoje uma “Gabinetona”, onde ficam as duas vereadoras eleitas mais a Bella Gonçalves, que não havia sido eleita mas teve pouquíssimos votos a menos que a Cida. Por isso, acabou sendo acolhida pelos mandatos das duas, integrando também a Gabinetona. Esse modo coletivo de organizar os mandatos causou impacto na Câmara diante da lógica individual tradicional dos gabinetes. Era um novo modo de ocupação daquele espaço.

As quatro candidatas eleitas pelo “Muitas”: Cida Falabella, Andreia de Jesus, Bella Gonçalves e Áurea Carolnia

O caso desse mandato coletivo em BH é singular, porque um único gabinete acolhe vários daqueles movimentos que participaram da criação da plataforma e agora participam ativamente do mandato. Cria-se então na Câmara um trânsito de sujeitos outros, corpos que jamais tinham tido presença legítima ali dentro, algo que há pouco tempo parecia impossível.
No momento atual estamos perdendo muito no campo democrático, obviamente. Mas por outro lado há também criação de possibilidades que não existiam no campo da esquerda, de uma esquerda renovada, que não se adequa tão docilmente às lógicas partidárias tradicionais. A Gabinetona é um bom exemplo disso.
As Muitas entram na Câmara, na política institucional. Dois anos depois vêm as eleições federais. Áurea Carolina e as Muitas decidem que ela vai se candidatar a deputada federal. É de novo uma campanha colaborativa. Muita gente panfleta nas ruas da cidade. Nos vídeos de propaganda das candidatas das Muitas, cada uma pede votos para outra candidata; e a outra pede voto para uma terceira dentro da plataforma. Há uma mudança sensível nos discursos, nas formas de abordar a eleição, o voto.
Áurea foi a quinta deputada mais votada de Minas, bem mais que o Aécio Neves, por exemplo. Ela teve voto em 95% dos municípios mineiros, de novo uma votação expressiva. Ela é a única eleita das Muitas para esse cargo, mas o movimento consegue eleger também uma deputada estadual, a Andreia de Jesus, outra jovem mulher negra, militante das Brigadas Populares, aquele mesmo movimento que vinha tendo uma intensa prática de ação direta de ocupação de terrenos sem função social, tanto na periferia como em prédios do centro, mas também com atuação em diversas outras frentes políticas.
Apesar da saída da Áurea, as Muitas continuam na Câmara de BH, Bella Gonçalves assume, agora oficialmente como vereadora da Gabinetona. A ocupação se amplia para a Assembleia de Minas e o Congresso, com a Áurea – a bancada do PSOL junto com Freixo, Erundina e companhia.
JCB – E o trabalho da Áurea e da Cida como vereadoras foi o que vocês esperavam?
DR – Vivendo agora no Rio, acompanho esse trabalho de longe. Mas é certo que não há grandes frustrações. Tanto que a Áurea se elege expressivamente deputada federal. Claro que há tensões internas. Por mais que a Gabinetona instaure na Câmara um modo de trabalho mais horizontal e coletivo, tem que conviver com a centralidade dos vereadores, das lideranças… Surgem conflitos entre os diferentes movimentos e organizações que compõem esse trabalho. Não é um contexto de consenso, há muitos dissensos; imagino que isso consuma parte das energias. Talvez essa seja a maior dificuldade: produzir um trabalho que consiga lidar com essa multiplicidade radical. A Gabinetona possui quase uma centena de pessoas trabalhando diretamente no mandato coletivo… Não dá pra ser fácil.
Outro problema é ser minoria na Câmara. O que tem ajudado, em algum nível, é que ganhou um prefeito um tanto mais progressista, com um certo populismo, o Alexandre Kalil. Ele foi presidente do Galo
[o Clube Atlético Mineiro]
durante anos. Ganhou as eleições com um discurso que agradava a esses novos movimentos, embora num primeiro momento esse campo tenha lançado a campanha “não vote goleiro [em referência à candidatura de João Leite pelo PSDB] nem cartola, vote Izidora 99”, sugerindo voto nulo com um manifesto pró-ocupação Izidora. Mas o fato é que o prefeito tem cumprido alguns compromissos importantes com os movimentos, como o reconhecimento de algumas ocupações urbanas, incluindo a Izidora, e o convite para que Juca Ferreira assumisse a secretaria de Cultura.
JCB – O sucesso eleitoral alterou alguma coisa nos movimentos sociais? Ganhamos, e por isso continuamos? Ou já ganhamos e arrefeceu?
DR – Acho que fortaleceu, porque parte desses movimentos começam a ganhar uma estrutura e recursos para trabalhar, começam a participar do trabalho na Câmara e a interferir em alguma medida na política pública. Por exemplo: a Gabinetona lançou já duas edições de um edital com recursos vindos da doação dos salários das suas vereadoras, com prêmios de R$ 5 mil para 15 projetos sociais e culturais da cidade. Isso diz algo importante tanto sobre um modo heterodoxo de gestão de recursos, como sobre formas possíveis de “democracia direta”, incentivando a participação política efetiva na cidade.
Sua pergunta tem a ver com um perigo de cooptação?
JCB – Sim.
DR – Acho que não.
JCB – O PT fez muito isso.
DR – O caso das Muitas é diferente. É uma concepção de política distinta da dos partidos até então. Qual foi o impacto no PSOL? Considero, no Brasil contemporâneo, o gesto político mais radical de um partido: se abrir a uma plataforma política que vai se candidatar em seu nome, onde ele mesmo não possui centralidade, onde o partido não tem poder absoluto. Posso estar enganado, mas… Esse processo já provoca deslocamentos, perturbações na ordem partidária eleitoral.

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Amazônia em perigo: Bispos da América do Sul se reúnem no Vaticano


O Sínodo para a Amazônia
Por Levon Nascimento* 



Em outubro próximo ocorrerá o Sínodo para a Amazônia. De acordo com o portal A12, do Santuário de Aparecida, “o Papa reunirá no Vaticano, entre os dias 6 e 27 de outubro [de 2019], bispos dos nove países que abrangem a região Pan-Amazônica. Desse território, em números arredondados, 67% pertence ao Brasil, 13% ao Peru, 11% à Bolívia, 6% à Colômbia, 2% ao Equador e 1,1% à Venezuela, Suriname, Guiana e Guiana Francesa”.

O sínodo é uma reunião eclesiástica prevista no Decreto Christus Dominus (n. 5, p. 244), do Concílio Vaticano II, que tem por objetivo discutir assuntos de interesse da Igreja e auxiliar o papa na tomada de decisões que passam a valer para todo o catolicismo.

No anúncio, em outubro de 2017, o Papa Francisco expressou que “o objetivo principal é identificar novos caminhos para a evangelização daquela porção do Povo de Deus, especialmente dos indígenas, frequentemente esquecidos e sem perspectivas de um futuro sereno, também por causa da crise da Floresta Amazônica, pulmão de capital importância para nosso planeta”.

Seria um evento comum, não fosse o fla-flu ideológico cultivado pela extrema-direita estadunidense com ramificações em grupos religiosos e governos da América Latina.

Mistura de bizarrice e ignorância, católicos extremistas e governos direitistas, como é o caso do Brasil de Bolsonaro, afirmam que o papa e os bispos estão realizando o sínodo para promoverem a ideologia comunista dentro da Igreja e na América Latina. Em outras palavras, os prelados católicos preparam a revolução do proletariado para a Amazônia. Deliram.

Teorias conspiratórias sempre existiram, mas na era da internet, da pós-verdade e das fake news as coisas ficam dramáticas. Uma visita às caixas de comentários dos vídeos promocionais do sínodo no YouTube e em outras redes sociais, inclusive do Vatican News, portal de notícias da Santa Sé, revelará o peso da paranoia. Acusam o papa e o episcopado de heresia, de conspurcação (que palavrão!) da fé católica, de assimilação das divindades indígenas (deus Tupã), de quererem abolir o celibato clerical e de comunismo (sempre o comunismo!).

É a reedição pós-moderna daquela velha história contada por Dom Helder Câmara, o falecido arcebispo de Olinda e Recife: “Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto por que eles são pobres, chamam-me de comunista”. Resumindo: a Igreja não pode levar o povo a pensar; a missão é “salvar almas”. Teologia raquítica!

É tão assustador que não se pode admitir que seja algo espontâneo. Na verdade, a recente declaração de guerra de Steve Bannon a Francisco não pode ser descartada como uma das forças por detrás da revolta dos tradicionalistas contra o Sínodo para a Amazônia.

Bannon foi conselheiro de campanha de Donald Trump, insuflou o Brexit na Inglaterra, assessorou a família Bolsonaro durante as eleições de 2018 e tem estendido os tentáculos ao projeto xenófobo/racista da extrema-direita europeia. É chegado de bispos e cardeais ultraconservadores dos Estados Unidos, opositores de Francisco. Sua receita é a do estímulo a violências simbólicas e a discursos de ódio contra os inimigos. Por todo canto onde passa proliferam milícias digitais que disseminam fake news de moralismo e fundamentalismo cristão. Quem não se recorda do mentiroso Kit Gay e de outras falsificações divulgadas à exaustão pelos religiosos apoiadores de Bolsonaro em 2018?

Para Bannon e seus seguidores, o Papa Francisco é um entrave à expansão do ultraliberalismo econômico, uma vez que o pontífice argentino é hoje a maior liderança do mundo contra o aquecimento global e as políticas de repressão a imigrantes africanos e latino-americanos ditadas pelos países desenvolvidos do sistema capitalista. O papa também é o grande denunciador do processo de empobrecimento de enormes parcelas da humanidade, enquanto a minoria enriquece como nunca na história.

Enquanto muitas igrejas neopentecostais e grupos católicos pneumáticos seguem firmes na definição de Karl Marx, servindo de “ópio” para entorpecer e distrair mentes e corações pela América, as ações fraternas incentivadas por Francisco causam calafrios nos centros de decisões do capital.

No Brasil, em fevereiro, a imprensa noticiou que o serviço de inteligência do Governo Bolsonaro (se é que há, já que não funcionou para prevenir os incêndios criminosos na Amazônia), dirigido pelo General Heleno, espionava bispos e cardeais e assinalava o sínodo como um problema, justamente por que inevitavelmente apontaria que Bolsonaro apoia a exploração desregrada da região, em favor do agronegócio e da mineração e em prejuízo do meio ambiente e dos povos indígenas. Sem precisar do sínodo, as queimadas amazônicas de agosto revelaram essa tragédia ao mundo.

Pelo visto, Francisco incomoda dentro e fora da Igreja, não por ser comunista ou esquerdista, mas porque vive a centralidade da mensagem de Jesus, o Evangelho, quanto à misericórdia e à compaixão para com a humanidade toda, especialmente os pobres e pequenos, e por que não se intimida de anunciar a centenária doutrina social da Igreja Católica, por ele resumida nos novos termos “ecologia integral” e “cuidado com a casa comum”.

Nas palavras do próprio papa, durante a homilia de 24/05/2018: “‘Aquele padre é comunista!’. Mas a pobreza está no centro do Evangelho. A pregação sobre a pobreza está no centro da pregação de Jesus: ‘Bem-aventurados os pobres’ é a primeira das Bem-aventuranças!”; ou ainda, em 11/11/2016: “São os comunistas que pensam como os cristãos. Cristo falou de uma sociedade onde os pobres, os frágeis e os excluídos sejam os que decidam. Não os demagogos, mas o povo, os pobres, os que têm fé em Deus ou não, mas são eles a quem temos que ajudar a obter a igualdade e a liberdade”.

Os grupos fundamentalistas católicos que hoje atacam o sínodo são os mesmos que antes idolatravam o conservadorismo de João Paulo II e Bento XVI. Para esses, o engajamento evangélico de Francisco é heresia e comunismo. Não deixa de ser irônico observá-los incomodados com o ocupante do trono de São Pedro. Justo eles que, no passado recente, juravam lealdade incondicional a Roma.

Penso que essa mesma gente crucificaria Jesus Cristo novamente, caso o Mestre de Nazaré viesse salvar adúlteras de pedradas e conversar com prostitutas e pecadores na atualidade. São os hodiernos sepulcros caiados; por fora, muita pompa litúrgica e estética; por dentro, rancor, ignorância e ódio aos que não se enquadram na ortodoxia burguesa.

De qualquer forma, viva o Sínodo para a Amazônia! Todo apoio a Francisco!

* Levon Nascimento é professor de História, mestre em Políticas Públicas e cristão-católico. Mora em Taiobeiras, no norte de Minas.

domingo, 6 de outubro de 2019

Os poetas analfabetos do sertão

Os poetas analfabetos do sertão que foram parar sem querer no YouTube e viraram sucesso

O mundo do agricultor Leonardo Bastião se resume ao sítio onde mora
Descrição de chapéuBBC News Brasil
VITOR TAVARES
SÃO PAULO
O mundo do agricultor Leonardo Bastião se resume ao sítio onde mora, na zona rural de Itapetim, no sertão do Pajeú pernambucano. De lá, ele quase nunca sai. E, desse universo, tira a inspiração para fazer poesia:
"A sombra que me acompanha/ Não é a que me socorre/ Se eu andar, ela anda/ Se eu correr, ela corre/ E é mais feliz do que eu/ Não adoece nem morre."
Só que Bastião, de 74 anos, não sabe ler nem escrever. Palavras, rimas e métricas brotam na cabeça, no improviso. Mas décadas de composição da poesia popular repentista —inspirada pela caatinga, pelos problemas de alcoolismo, pelo sexo, pelo solo castigado, pela seca, pelos bichos— nunca ganharam qualquer registro.
Pelo menos, era assim até 2008. Foi nessa época que o comerciante Bernardo Ferreira, de 57 anos, nascido no sítio vizinho ao de Bastião, comprou uma câmera em São Paulo e começou a filmar a vida da pacata Itapetim, de 14 mil habitantes, e o que saía da cabeça e da boca de Bastião e de outros poetas desse pedaço de sertão
 
Como a única rede social que Ferreira conhecia era o Orkut, foi lá que postou um vídeo do poeta Bastião. O registro bombou, mas desagradou o artista, que não queria aparecer.
 
Ferreira pediu perdão, mas continuou gravando. Conta que queria agora guardar os vídeos para si, fazer um arquivo para poder acessá-los no futuro. Foi quando ouviu falar de "um tal de YouTube".
"Me falaram que era na internet, que eu abria uma conta, ficava com uma senha como a de banco e, quando quisesse ver, era só entrar lá. Eu não sabia que os vídeos estavam sendo expostos pro resto do mundo", disse Ferreira à BBC News Brasil.
Alguns dos vídeos começaram a receber milhares de visualizações sem que ninguém se desse conta disso durante cinco anos. Mesmo sem título, descrição, thumbnail e outras configurações que os profissionais aprendem, um mar de gente interessada no sertão e nos poetas iletrados foi chegando, comentando, compartilhando…
"Eu só colocava os números '1, 2, 3' [no título], não sei como descobriram."
Foi só em 2013 que Jefferson Sousa, de 25 anos, filho de Ferreira, percebeu o que estava acontecendo. Ele acessou o email no novo smartphone do pai e ficou impressionado com o que viu: "Tinha 3 mil emails não lidos, dizendo 'fulano' comentou… Foi quando fui olhar o que era e tinha 200 mil visualizações mensais", conta.
Hoje, o canal de Ferreira, batizado de Bisaco do Doido, tem 32 mil inscritos e acumula mais de 14 milhões de visualizações. Um documentário sobre Leonardo Bastião, o poeta que fez mais sucesso no canal, foi produzido e dirigido por Jefferson e ganhou o mundo.
"O poeta analfabeto" já foi exibido em festivais de cinco países, como Rússia, França, Índia e Bósnia, onde ganhou na categoria "melhor roteiro". No último dia 28 de setembro, o filme foi exibido em praça pública, em Itapetim.
Bastião assistiu em pé, ao lado de Jefferson e Ferreira, e foi tietado pelo público que foi ver a história dele no telão. A prefeitura da cidade reproduziu versos do poeta em alguns prédios públicos.

Documentar a história

Nas gravações, Bastião aparece dizendo que não se considera poeta. Diz que a poesia que faz é fácil e que pega apenas "carona" nas coisas da natureza, feitas por Deus. Assim como ele, há outros poetas declamando ou cantando repente em sítios, bares e praças na região. Uma cultura passada de geração para geração na base da oralidade.
Ferreira afirma que queria dar uma nova dimensão à arte que considera tão importante e representativa da sua região. Hoje conselheiro tutelar, já foi dono de loja de discos de vinil e vendia cópias de filmes e CDs, com a chegada dos computadores. Era como se levasse a cultura para dentro de Itapetim. Agora, leva de lá para fora.
"Aqui tem e tiveram muitos poetas que, com tempo, ficaram sem nenhum registro. A poesia deles só segue adiante quando um decora e sai falando por aí. Eu queria era registrar e ficar guardado, como fotos antigas, que as pessoas olham e reconhecem os traços na geração da nova da família", explica Ferreira.
Se passa um dia sem postar um vídeo, o dono do Bisaco do Doido diz que, provavelmente, está doente. Quando Ferreira sabe de alguém que está declamando poesia nos sítios, ele vai atrás para filmar: "Eu vou nas brenhas mesmo. Tem poeta que não sabe nem o que é celular, muito menos internet."
Jefferson, que se formou em jornalismo no Recife, até tentou dar umas dicas para o pai "profissionalizar" o canal. Mas logo percebeu que não fazia sentido. "Queria organizar, mas vi que isso ia mudar quem ele era. Ele conquistou o público do jeito dele, desse modo artesanal, então ia mudar essa originalidade".
O documentarista diz que o retorno financeiro é pouco, mas já paga o emplacamento anual do carro do pai. O computador segue com mais de 20 gigabytes de arquivos de vídeos não publicados.
Com toda a repercussão do Bisaco, mais pessoas foram procurá-lo, e eventos de cultura popular passaram a ser organizados na região. Alguns artistas famosos do Nordeste e turistas chegam a procurar Bastião no seu sítio.
E a visibilidade do canal reverberou também na esfera pública. De acordo com o secretário de Cultura de Itapetim, Alisson Alves, dos turistas que buscam a cidade, muitos chegam até lá porque viram as atrações e histórias no Bisaco do Doido.
"Todo mundo aqui que teve algum tipo de repercussão passou pelas câmeras dele. Não só Bastião, mas a igreja matriz, as pinturas rupestres", conta. Alves também destaca a realização de eventos culturais na cidade, impulsionados pelo que os vídeos amadores mostram.
"Fiquei muito surpreso e muito grato com isso tudo, porque é povo de uma cidade tão pequena e escondida que está sendo visto pelo mundo. As redes sociais abriram a porta para que vejam como essa região é rica", conta Ferreira. O poeta Bastião, entretanto, não costuma ser muito receptivo a visitantes desconhecidos e se recusa a dar entrevistas.
No fim de 2018, após uma proposta de um empresário paraibano e com o impulso da divulgação de Ferreira e Jefferson, foi publicado um livro com mais de 200 versos de Bastião, Minha Herança de Matuto (Grupo Claudino), com uma tiragem de 1000 exemplares. A renda foi toda para o poeta e usada para reconstruir a sua casa, que havia desmoronado.
Quando Jefferson foi gravar o documentário, já em 2019, Bastião já se enxergava mais como artista. Mas não quis falar seus versos – na verdade, preferiu falar da vida e suas tristezas.
"Ele estava mais introspectivo e foi uma relação mais pessoal. Ele ficou muito próximo da minha família, do meu pai, minha mãe, e assim pude entender mais a relação dele com a natureza e o universo dele e como ele enxerga 'o pingo da água na folha que a abelha bebeu', que a gente, na correria, nem percebe", relata.

A poesia e o Pajeú

No Pajeú, há tantos poetas que, reza a lenda, quem bebe da água do rio que batiza a região sai fazendo música e poesia por aí. A área formada por 17 cidades é famosa em Pernambuco por ser berço de diversos artistas de poesia popular como Lourival Batista, o "Louro do Pajeú" ou ainda "o rei do trocadilho".
Um dos pioneiros em documentar a poesia da região, o professor de filosofia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Marcos Nunes, em seu último levantamento, catalogou 270 poetas só em Itapetim.
Apesar de não ter uma explicação exata para o fenômeno, Nunes diz que a mais aceita é que seja uma consequência da história do colonização do Nordeste brasileiro. Esse modelo de poesia cantada, de cancioneiro, no improviso, tem suas raízes nos aedos gregos – os poetas antes da invenção do alfabeto – e na chegada dos mouros à Península Ibérica, onde hoje estão Espanha e Portugal.
"Com a descoberta do Brasil, foi aí que tivemos a chegada desses cantadores no litoral. Com as perseguições, parte desse pessoal entra no território e vai parar na 'cabeça' do Pajeú, na Paraíba", explica Nunes, autor dos livros Itapetim: Cidade das Pedras Soltas (editoras CEHM/Fidem/Condepe) e Itapetim, Ventre Imortal da Poesia (editoras CEHM/Fidem/Condepe/Cepe).
O primeiro cantador de viola de que se tem notícia no Brasil é Agostinho Nunes da Costa, filho de João Nunes da Costa, um judeu que veio da Galícia para o Recife nas primeiras décadas do século 18. Cristão novo, ele foi perseguido e foi morar em João Pessoa e continuou fugindo até parar numa fazenda onde iria começar o núcleo populacional da atual cidade de Teixeira, na Paraíba.
O pesquisador relata até um roteiro geográfico da poesia: de Teixeira, que fica na divisa com Pernambuco, descendo junto ao leito do rio. Resultado: quanto mais distante da "cabeça" do rio Pajeú, menos poetas. Itapetim é o primeiro município nessa rota.
Segundo Ferreira, nas ruas da cidade, não é preciso marcar hora para encontrar uma poeta: "A poesia brota como uma cacimba que brota água". Numa região onde as pessoas conhecem a história pela poesia não registrada em papel, os vídeos, o livro e o documentário são enxergados como uma forma de sedimentar uma cultura única e extremamente rica.
"A diferença para os poetas letrados é que esses não têm de fato tanto vocabulário e cultura. Mas muitas vezes parece que o poeta letrado é muito mecânico. Quando vem desse povo simples, é de coração, de sentimento", opina Nobre.
E Ferreira completa: "Quem não é poeta aqui, é doido. E eu sou um doido que documenta tudo isso".
Em um dos vídeos que fizeram sucesso no Bisaco do Doido (acima), Bastião está no seu sítio, com o inseparável chapéu, e faz versos sobre a sua história e a "herança" que recebeu do pai:
"Nasci na casa atrasada/ Sou filho de Luisinho Bastião/ Fiz muitas letras no chão/ Mas o lápis era a enxada/ E morreu à míngua, sem nada/ E minha herança foi assim/ Meio quadro de terra ruim/ Que ainda hoje eu defendo/ E nem abandono nem vendo/ O que pai deixou pra mim."
BBC NEWS BRASIL