terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Aos 86 anos, morre Dona Salomé, a torcedora-símbolo do Cruzeiro

Não há um metro quadrado da casa de Salomé Silva, no Bairro Inconfidentes, em Contagem, que não lembre sua maior paixão, o Cruzeiro.

A torcedora-símbolo do Cruzeiro, Maria Salomé da Silva, a Dona Salomé, de 86 anos 
morreu de problema cardíaco na madrugada desta terça-feira (10.12), em Belo 
Horizonte. De acordo com seu filho, Roberto da Silva, ela morreu no hospital, 
após passar mal no Mineirão, no último domingo (08.12), antes da confusão 
generalizada, quando o time foi rebaixado para a Série B do Campeonato 
Brasileiro. Foi socorrida pelo Corpo de Bombeiros e levada a uma Hospital. 
Salomé tinha problema de hipertensão.
Conhecida como Dona Salomé, a torcedora é conhecida por toda a torcida cruzeirense 
e era funcionária do clube. Ela não faltava a quase nenhum jogo e acompanhava 
o time de coração em outros esportes também, como o vôlei.
Nas redes sociais, torcidas de inúmeros clubes renderam homenagens à dona Salomé, 
como era conhecida entre torcedores cruzeirenses, e prestaram condolências aos 
amigos e familiares próximos a ela. 
Apaixonada pelo time celeste, Maria Salomé era presença carimbada nas partidas 
disputadas pelos elencos cruzeirenses, quer do futebol, quer do vôlei, sempre ao 
lado de sua raposa de pelúcia – mascote do time.  
"Ela disse que se não estivesse no Mineirão no domingo, passaria mal do mesmo jeito",
comentou o filho.
O diretor-superintendente o Cruzeiro, Ronaldo de Assis Carvalho, disse 
que a notícia os pegou de surpresa, mas que certamente o clube vai 
prestar as homenagens que a torcedora símbolo merece.
Dona Salomé deixa o único filho, Roberto da Silva, de 61 anos, e três netos. 
A família ainda não decidiu sobre o velório e o enterro.
"MORA DENTRO DO MEU CORAÇÃO”
Não há um metro quadrado da casa de Salomé Silva, no Bairro Inconfidentes, em 
Contagem, que não lembre sua maior paixão, o Cruzeiro. Bandeirões enfeitam o lado 
de fora da casa, um pedaço de grama sintética serve de tapete na sala, uma raposa 
empalhada decora a sala, fotos com ex-jogadores e dirigentes enfeitam o armário da 
cozinha e antigos banners fora a área de lavar, onde vivem seus papagaios, que levam 
o nome de Adilson Batista e Marcelo Moreno.
Salomé nasceu na zona rural de Bom Despacho e mudou-se para Belo Horizonte 
em 1958, para trabalhar em casas de família. A paixão pelo Cruzeiro veio com o 
marido, que jogava em um time amador em Bom Despacho cujo as cores eram azul 
e branco. Ao longo das décadas, o laço com o Cruzeiro foi ficando mais forte, 
com os primeiros títulos no Mineirão.
“Dia de jogo do Cruzeiro, eu nem consigo comer direito, perco a fome, perco o sono. 
Eu sofro por causa do time, mas ele me dá só alegria”, conta Salomé, Hoje, gabando-se 
de ter faltado a apenas 22 jogos no Mineirão, um no Independência e um em Sete 
Lagoas.
Desde a década de 1990, Salomé é funcionária do Cruzeiro, trabalhando como 
faxineira no clube do Barro Preto. Em dia de jogos, sai do trabalho direto para o 
Mineirão e encara dois ônibus de volta para casa, chegando em Contagem por 
volta de 2h. “Sou apaixonada pelo Cruzeiro e é o time que me mantém firme".
Fonte: www.superesportes.com.br e G1

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Governo Bolsonaro é um novo tipo de ditadura, afirma cientista político espanhol

O sociólogo espanhol Manuel Castells, durante o seminário
O sociólogo espanhol Manuel Castells, durante o seminário "Comunicação, Política e Democracia", na FGV Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo
RIO — O Brasil está vivendo um novo tipo de ditadura, que tem como pilares a disseminação de notícias falsas e sucessivos ataques à Educação . Essa é a visão do espanhol Manuel Castells , um dos principais teóricos da comunicação e autor de livros como “A Sociedade em Rede” e “Galáxia da Internet”.
Em entrevista ao GLOBO, ele afirmou que o país só conseguirá evitar um futuro totalitário caso as escolas desempenhem bem seu papel . Nesse sentido, criticou o projeto do governo Bolsonaro de criar escolas militares , com foco na disciplina.
Castells diz ainda que os cidadãos que “querem estabelecer a verdade” precisam retomar o protagonismo nas redes.
O espanhol visitou o Rio para participar do seminário “Educação, Cultura e Tecnologia: Escola do Século XXI”, promovido pela Prefeitura de Niterói, e para palestrar sobre “Comunicação, política e democracia”, na FGV.
Hoje, no Brasil, há pessoas que dizem que o nazismo era de esquerda, que as vacinas são ruins e que a terra é plana. Como isso é possível na era da informação?
Primeiro, as pessoas não funcionam racionalmente e sim a partir de emoções.As pesquisas mostram cientificamente que a matriz do comportamento é emocional e, depois, utilizamos nossa capacidade racional para racionalizar o que queremos. As pessoas não leem os jornais ou veem o noticiário para se informar, mas para se confirmar. Leem ou assistem o que sabem que vão concordar. Não vão ler algo de outra orientação cultural, ideológica ou política. A segunda razão para esse comportamento é que vivemos em uma sociedade de informação desinformada. Temos mais informação do que nunca, mas a capacidade de processá-la e entendê-la depende da educação e ela, em geral, mas particulamente no Brasil, está em muito mau estado. E vai ficar pior, porque o próprio presidente acha que a educação não serve e vai cortar os investimentos na área. Por um lado, temos mundos de redes de informação, de meios que invadem o conjunto de nosso pensamento coletivo, e ao mesmo tempo pouca capacidade de educação das pessoas para entender, processar, decidir e deliberar. Isso é o que chamo de uma era da informação desinformada.
As universidades públicas e os professores brasileiros estão sob ataque?
Vocês estão vivendo um novo tipo de ditadura. As instituições estão preservadas, mas se manipulam tanto por poderes econômicos, quanto por poderes ideológicos. O Brasil, nesse momento, perdeu a influência da Igreja Católica que foi muito tradicional durante muito tempo na História, mas ganhou algo muito pior que são as igrejas evangélicas, para quem claramente não importa a ciência e a educação, porque quanto mais educadas e informadas estejam as pessoas, mais capacidade terão de resistir à doutrinação. O mesmo acontece com o presidente (Bolsonaro) e com o regime que está instalando. Não se pode fazer uma ditadura antiga, que se imponha com o exército, mas uma ditadura Orwelliana, de ocupar as mentes. Isso se faz acusando de corrupção qualquer tipo de oposição. Como a corrupção está em toda parte, então persegue-se apenas a corrupção de políticos e personalidades que se oponham ao regime. Esse tipo de ditadura só pode funcionar com um povo cada vez menos educado e mais submetido à manipulação ideológica.
Como essa manipulação é exercida?
Nosso mundo da informação é um mundo baseado nas redes sociais e nas redes sociais há de tudo. Elas permitem a autonomia dos indivíduos, acreditávamos que era um instrumento de liberdade e é, mas é uma liberdade que é usada tanto pelos manipuladores como pelos jovens que tentam mudar o mundo. Foram desenvolvidas técnicas muito poderosas de desinformação e manipulação, que incluem a utilização massiva de robôs manipulados por organizações como o Movimento Brasil Livre (MBL) e financiadas pela extrema direita internacional, que estão preenchendo as redes sociais e manipulando-as muito inteligentemente, de forma que a construção coletiva do que ocorre na sociedade está totalmente dominada por movimentos totalitários, que querem ir pouco a pouco anulando a democracia. Por isso, é preciso atacar a educação, atacar os professores, as universidades, as humanidades e as ciências sociais, que são áreas que nos permitem pensar. Tudo o que significa pensar é perigoso. Por isso, digo que é uma ditadura, ainda que de novo tipo. É uma ditadura da era da informação.
O que as escolas brasileiras precisam ter para mudar a realidade do país?
Primeiro: recursos. Mesmo que haja mudanças na pedagogia, se não há recursos, se não pagam e não respeitam os professores e se não há menos alunos por classe, (não adianta). É preciso uma formação inicial melhor dos professores e também uma reciclagem contínua, sobretudo, nas escolas mais longínquas do Brasil. Precisamos de bons professores imediatamente, não podemos esperar vinte anos para produzir os educadores que vão educar os jovens. E como fazer isso? Com educação virtual a distância. Precisamos reforçar as universidades virtuais, fazer com que haja programas de formação virtual, mas não de segunda categoria. Estou na Universidade Aberta da Catalunha, que tem 65 mil estudantes 100% na internet, e funciona muito bem. Os estudantes de lá têm os mesmos diplomas que os demais e não há nenhuma diferença de qualidade e nem de mercado para eles.
Você falou muito sobre a importância da valorização do professor. Atualmente, o professor mais conhecido do país, Paulo Freire, está sendo alvo de ataques.
Isso significa que tudo que é criação de uma cidadania informada, educada e autônoma, é um perigo para uma ditadura sutil, que precisa de pessoas que não sejam bem educadas, que sejam desinformadas e manipuláveis. Os três princípios de Paulo Freire são: aprender pela experiência— hoje em dia encontramos tudo na internet, há possibilidade de fazer grupos de aprendizagem na internet—, autonomia dos alunos para educar-se para buscar a informação, e professores para guiá-los. Agora que temos tecnologia, não só internet, mas as conexões rápidas, é possível revolucionar facilmente a escola seguindo os princípios de Paulo Freire. Por que se ataca Paulo Freire? Porque no mundo, e não só no Brasil, ele é um símbolo. Eu conheci Paulo Freire na Universidade Stanford e lá ele era adorado, porque seus princípios são adaptados ao que é a nova sociedade: criar pessoas livres e autônomas, capazes de promover sua própria aprendizagem, guiados por seus professores. Isso é muito perigoso para aqueles que querem manipular. Paulo Freire é liberdade, e a liberdade é agora o maior obstáculo que existe para que se siga desenvolvendo essa ditadura sutil que estão tentando impor ao Brasil.
O governo anunciou recentemente que pretende criar mais de 100 novas escolas militares, com uma forte disciplina. Qual sua opinião sobre essa iniciativa?
A autonomia é fundamental. O que precisamos hoje é de pessoas educadas para pensar autonomamente, porque há uma quantidade de informação tão grande que precisamos ser autônomos em construir nossas opiniões e tomar decisões. Hoje em dia, existem robôs cada vez mais avançados, e as escolas não podem ser produtoras de robôs. (A formação de) gente que simplesmente obedece, segue o que está programado e aceita tudo é um princípio de militarização não só da escola, mas da sociedade. A grande questão do Brasil nesse momento é que se não houver uma grande reação da sociedade contra essas medidas que chamo de uma ditadura de novo formato, o Brasil será transformado em uma sociedade totalitária.
O governo anunciou que fará o Enem, a principal via de acesso a universidades públicas, totalmente digital até 2026. Temos condições de fazer isso bem em um país com dimensões continentais e muito desigual?
A capacidade dos jovens de utilizar meios digitais hoje em dia está muito mais disseminada que a educação. Não teremos problema com a digitalização de um jovem, qualquer jovem sabe usar um computador conectado que se chama smartphone. Bom, nem todos sabem, mas quase todos. Então o problema é que há muitas zonas onde não há conexão ou são muito ruins. Nos Estados Unidos, a primeira aplicação na universidade é digital, mas lá as universidades organizam isso de maneira fácil e pedagógica e todos têm a conexão necessária.
Na sua opinião, qual o papel das redes sociais na eleição de Jair Bolsonaro?
Foi um papel fundamental. Bolsonaro é um pensamento totalitário, mas ele foi eleito democraticamente. Portanto, a grande pergunta é: por que uma maioria clara dos brasileiros elegeu Bolsonaro? Uma coisa é a democracia e outra são os resultados da democracia. Hitler foi eleito democraticamente.Tenho tentado dar uma resposta sobre isso não só para o Brasil, mas para o mundo, porque aconteceu o mesmo em outros lugares, como (Donald) Trump (nos Estados Unidos). O que mostro é que as pessoas em todo o mundo já não acreditam na classe política, nos partidos, nas formas do que chamávamos de democracia liberal, porque elas se corromperam. Os políticos se apropriaram da democracia e do Estado para eles mesmos. A confiança entre governantes e governados se rompeu. Então, qualquer pessoa com capacidade de mobilização e de carisma, apoiado por recursos econômicos muito importantes dos grupos poderosos de sempre — que temem que as pessoas sejam capazes de controlar suas próprias vidas e não se deixem manipular e explorar— formam a combinação (que leva a isso).Então surgem demagogos como Trump e Bolsonaro. A narrativa está sendo controlada nas redes sociais pela extrema direita e por movimentos totalitários, muitos deles de cunho religioso.
A esquerda já perdeu essa batalha nas redes?
Essa esquerda sim. Essa esquerda está morta. Toda a democracia liberal está morta e não só no Brasil. No resto do mundo, o pouco que resta da esquerda está tentando se reestruturar. Agora, a esquerda não é simplesmente uma ideologia, alguns partidos. O que chamamos de esquerda é a capacidade das pessoas de se rebelarem contra sua exploração, sua manipulação, e sua opressão. Então, se falamos da esquerda existente hoje, ela está em colapso total, mas se falamos da possibilidade de uma rebelião, de um controle social contra o que está acontecendo. Posso garantir, pela experiência história do Brasil que haverá mais que uma esquerda, haverá grandes movimentos sociais contra a ditadura, como houve para acabar com a ditadura anterior.
Hoje, temos uma difusão enorme de notícias falsas. Há precedentes na História?
Nunca tivemos tanta difusão de informação, mas os chamados "rumores" sempre foram fundamentais. Os "mitos". Pessoas foram perseguidas, mulheres foram queimadas por histórias de que eram bruxas e participavam de atos com o demônio. Tudo isso é fake news. A História está cheia de fake news fundamentais para mobilizar os comportamentos mais extremos e irracionais, mas o que acontece é que agora como há uma capacidade muito maior de difusão da informação, muito mais intervenção de todos nessas redes, não apenas dos poderes de sempre, a densidade é muito maior. As pessoas que querem estabelecer a verdade, a honestidade e os valores fundamentais humanos têm que intervir nas redes sociais, porque hoje em dia os que fazem isso são, sobretudo, os destruidores da Humanidade.
Fonte: https://outline.com/ZGNcpv, publicado em 17.07.2019.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

O futebol é quem perde com o Cruzeiro rebaixado


QUE O CRUZEIRO NÃO CAIA 



Fabrício Carpinejar* 

Todos estão torcendo para o Cruzeiro cair. Eu mesmo, como colorado, me peguei secando a raposa. 

Para quê? Para nivelar por baixo os times da Série A? Para que ninguém mais possa usar o refrão “Ão, ão, segunda divisão”? Para esperar que isso também aconteça com São Paulo, Flamengo e Santos ao longo do tempo e não exista mais nenhum privilégio do inferno? 

Deveríamos buscar a igualdade pelos triunfos, jamais pelos vexames. 

A realidade é que quando um time grande cai o futebol brasileiro é que perde. É uma tristeza incurável para a bola. 

O descenso não é uma vingança contra a corrupção e desmandos dos dirigentes, não é um castigo para a má gestão, mas um atentado à beleza e plasticidade de nossa história, aos duelos inesquecíveis encarnados pela constelação de estrelas na camiseta azul. 

Cruzeiro já nos maravilhou com as cobranças de falta de Nelinho e Dirceu Lopes, com a inteligência de Tostão, com as defesas impossíveis de Raul e de Fábio, com a proteção blindada do canhoto Piazza, com os giros de Palhinha, com as arrancadas do Diabo Loiro (que nem Pelé conseguiu frear), com o oportunismo do ponta esquerda Joãozinho. 

A toca foi sempre um refúgio de encanto, de onde saiu Ronaldo o Fenômeno, o arqueiro gigante Dida, o volante incansável Ricardinho. 

Quem ama o jogo bonito e a arte dos esquemas ofensivos tem gratidão pelo bicampeão da Libertadores e maior campeão da Copa do Brasil. 

Não podemos deixar que a rivalidade elimine a admiração pela equipe quase centenária, destemida, que nunca se apequenou no Mineirão. 

Rezar para que o Cruzeiro desça para a Segunda Divisão é sacrificar clássicos e esvaziar o próprio Campeonato Brasileiro. 

Será um vácuo desolador em 2020 não desfrutar de Cruzeiro X Atlético, Cruzeiro X Flamengo, Cruzeiro X Santos, Cruzeiro X Grêmio, Cruzeiro X Inter, Cruzeiro X Fluminense... Quantas finais deixarão de ser revividas em uma simples rodada? 

Não quero que o torcedor cruzeirense sofra o que já sofri. É uma mentira que a série B é um passo importante para renovação do clube, que o rebaixado volta mais forte. De modo nenhum, aquele que sobe sempre tem mais chances de cair de novo - é uma verdade estatística. 

Série B não traz humildade, só provoca endividamento e remorso. 

Portanto, vou contra a maré da secação: que o Cruzeiro permaneça onde nunca deve sair, na elite. 

Quando o presente não inspira confiança, é o momento de pôr o passado em campo.

Publicado no jornal Zero Hora, GaúchaZH, 5/12/19:



Fabrício Carpinejar é escritor, poeta, jornalista e professor universitário. Gaúcho. Autor de trinta e quatro livros, pai de dois filhos, um ouvinte declarado da chuva, um leitor apaixonado do sol. Quando conseguir se definir deixará de ser poeta.



quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Cruzeiro, um time a ser batido ou abatido?



Em vários anos, o Cruzeiro é visto como time a ser batido. Em 2019, antes de começar o Campeonato Brasileiro, a equipe, ainda comandada por Mano Menezes, voava na temporada. Tetracampeão brasileiro, tendo conquistado os últimos dois títulos em 2013 e 2014 - os outros dois foram em 1966 e 2003 -, o Cruzeiro chegava à competição com 21 jogos de invencibilidade (16 vitórias e cinco empates), tendo sido campeão invicto do Campeonato Mineiro e o único time com 100% de aproveitamento na Libertadores. Além disso, nenhum outro clube da primeira divisão batia seus 84,1% de rendimento em todos os compromissos até então. Era o fim de abril.

A partir de 26 de maio, um terremoto caiu sobre a Toca da Raposa, tendo início uma das mais rápidas tragédias sobre um grande clube brasileiro. O Cruzeiro foi eliminado da Copa do Brasil, da Libertadores e se instalou na zona de rebaixamento do Campeonato Brasileiro. As denúncias de corrupção na TV Globo sobre a administração celeste quebrou a espinha do time em campo.

Dali em diante, foi só porrada. Uma em cima da outra. O Cruzeiro virou o time a ser batido e abatido. Mantendo o mesmo grande elenco de jogadores e quatro técnicos em seis meses (Mano Menezes, Rogério Ceni, Abel Braga e Adilson Batista), o caminho pro atoleiro não mudou.

Na história, o Cabuloso desbancou o então poderoso e internacional Santos de Pelé, em 66, ao vencer a Taça Brasil, aplicando épicas vitórias e uma sonora goleada por 6 x 2. Era melhor que o Flamengo de hoje.

É considerado um gigante do futebol brasileiro. Sexto colocado no ranking dos campeões, tendo conquistado 38 títulos estaduais, 13 nacionais (4 Campeonatos Brasileiro; 6 Copas do Brasil; 2 Copas Sul-Minas; 01 Copa Centro-Oeste); 5 Títulos Internacionais (2 Libertadores; 2 Supercopa da Libertadores; 01 Recopa Sul-Americana).

Como conquistou, no século 21, bem recente, 3 brasileirões ( 2003, 2013 e 2014) e o bi da Copa do Brasil ( 2017/2018)  despertou a ira das torcidas dos times batidos – tidos como favoritos – como o Flamengo, Corinthians, Palmeiras, Grêmio e Atlético Mineiro. Além disso, detém a honraria de ser um dos poucos que não caíram para a Série B junto com Flamengo, Santos e São Paulo.

Juntando a tudo isso, virou a Geni da corrupção do futebol brasileiro, tema tão em voga na grande mídia quanto na sociedade brasileira. Quando se fala em corrupção no futebol a administração do Cruzeiro, nos últimos anos, é tema recorrente. As administrações dos outros grandes clubes, mesmo praticando as mesmas irregularidades celestes, não são denunciadas, nem analisadas.

O Cruzeiro hoje é o clube a ser abatido, ser destruído, ser extinto. Em cerca de 6 meses, virou o clube caloteiro, com dívidas astronômicas, salários atrasados – dos milionários dos jogadores até os salários mínimos dos funcionários - , punido pela CBF e FIFA, frequentador das páginas policiais, envergonhado a sua grande torcida com cerca de 8 milhões de  cruzeirenses (maior de Minas, quarta do sudeste e quinta do país). São cerca de R$ 600 milhões de dívidas com muitas falcatruas divulgadas, indicando que tem muito mais caroço podre nesse angu.

Quase todos os clubes brasileiros têm dívidas muito altas. 
(Quadro elaborado no final de dezembro de 2018, pela FOX SPORTS)

Até mesmo questionamentos de merecimento quanto às conquistas recentes do Cruzeiro são levantadas pelas mesas de debates dos comentaristas esportivos, principalmente no eixo Rio-SP.  Mas, calam-se sobre tragédias dos meninos da base do Flamengo; dos falidos Vasco, Botafogo e Fluminense; das dívidas de todos os clubes brasileiros; na financeirização do elenco do Palmeiras pela CREFISA; do escândalo no financiamento da construção da Arena Corinthians; dos salários atrasados em 14 clubes da série A; etc e tal.

E nós, os cruzeirenses? Brigamos entre nós, procurando ou acusando os culpados. Os dirigentes começam a soltar os podres de cada um. As Polícias, Civil e Federal, também. O Poder Judiciário é acionado. Diretores afastados, demitidos. O dirigente Zezé Perrela toma a frente de tudo acusando muitos e protegendo seus chegados, como o seu filho Gustavo Perrela e o seu parceiro Itair Machado. Afasta jogador e denuncia ex-dirigentes. Corrupto e traficante assumido, Perrela faz jogo pra torcida. Quer ser o Salvador da Pátria.  As maiores torcidas organizadas Pavilhão Independente e Máfia Azul brigam entre si, inclusive durante os jogos do Cruzeiro.
A torcida faz protestos, no Mineirão, na Toca da Raposa, nas redes sociais  e nas ruas. Constrange, pressiona, ameaça jogadores e dirigentes. Até juras de morte a jogadores já aconteceram. 

Média de Público no Mineirão, até 30 de maio, de 20.150 aumentou para 24.223 torcedores, em novembro. 

Mas, mesmo na crise, enchemos o Mineirão. 24.223 cruzeirenses é a média de público, em 33 partidas em 2019, com a presença total de 799.376 torcedores. Isso indica que, a média de público, nos meses de crise, girou em torno de 27 mil torcedores. Isso é uma demonstração da paixão da China azul. 

Quase todos os torcedores de clubes adversários vibram com a iminente queda do Cruzeiro para a série B. Nadando contra a maré, o time só não será rebaixado se fizer três pontos a mais que o Ceará nas duas rodadas finais do Brasileiro de 2019.

O Cruzeiro sairá dessa? Saindo ou não, poderá ser privatizado? Caindo, voltará para a primeira divisão ou se tornará uma Portuguesa? Suas dívidas são impagáveis?

Esse é um pesadelo vivido pelos cruzeirenses apaixonados e temido por todos aqueles que amam o futebol.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

As mortes em Paraisópolis são tragédias anunciadas

A catástrofe de domingo (01.12) é um desdobramento óbvio da 
prática repressiva e constante da polícia.
Nabil Bonduki*


Publicado na Folha de S. Paulo, às 23:37 h.


A catástrofe de Paraisópolis, que terminou com nove jovens mortos e sete feridos, pisoteados em tumulto provocado pela ação realizada pela Polícia Militar para reprimir um baile funk, é uma tragédia anunciada, que tem dois elementos que, combinados geram uma mistura explosiva.  
De um lado, a crescente violência policial contra a população pobre, negra e periférica, que vem sendo estimulada pelos governos federal e estadual.
As mortes na favela se relacionam, não exclusivamente, com a autorização velada que a polícia vem recebendo das autoridades para cometer atos de violência sem risco de punição (excludente de ilicitude).
De outro, a tragédia se vincula à improvisação e precariedade com que é organizada a maior parte dos bailes funk em favelas e bairros periféricos, reunindo multidões sem nenhum esquema de segurança, gerando revolta compreensível nos moradores afetados e constantes reclamações à PM.
Moradores da favela Paraisópolis, protestam usando cartazes contra a ação da PM durante o baile Funk na madrugada deste domingo(1)


Moradores da favela Paraisópolis, protestam usando cartazes contra a ação da PM durante o baile Funk na madrugada deste domingo(01.12) - Marlene Bergamo/Folhapress
O funk é uma manifestação autêntica, cuja relevância para a cultura popular é indiscutível. Sofre, como sofreram as manifestações culturais e religiosas da população afro-brasileira (o samba, o candomblé, a capoeira, etc.), a rejeição de certos setores da sociedade, que tentam criminalizá-lo. Já se tentou na Câmara Municipal aprovar projetos de lei nesse sentido que, felizmente, foram rejeitados.
Mas criminalização do funk e a ação repressiva contra ele tem a adesão de muitos cidadãos, pois os bailes geram vários tipos de incômodos. Organizados por comerciantes ou grupos locais nas ruas, geralmente estreitas, de bairros pobres, o chamado “fluxo”, não tem qualquer regramento de horário ou de nível de ruído nem planejamento espacial que garanta os direitos dos moradores do entorno, que ficam privados da mobilidade e do silencio necessário para o descanso nas noites e finais de semana.
Protestos de moradores contra a ação violenta de Polícia Militar.
Por outro lado, os bailes acabam sendo uma oportunidade para que o crime organizado, aproveitando-se da grande presença de jovens e adolescentes, utilizem o espaço para o tráfico de drogas e outras atividades ilícitas.
O funk, no entanto, não se confunde com isso. Trata-se de uma manifestação cultural que tem enorme adesão dos jovens nos bairros populares, ainda mais frente a ausência de outras alternativas de cultura e de lazer. Os conflitos e problemas daí decorrentes devem ser enfrentados com políticas públicas e não com repressão.
Não é o que tem ocorrido. Acionada por moradores ou agindo por conta própria, a PM tem atuado com crescente violência contra os bailes funk, constantemente interrompidos por bombas, tiros e agressões contra jovens, eventos que normalmente não ganham as manchetes da imprensa.
O Baile da 17, como é chamado o “fluxo” de Paraisópolis, triste palco dos acontecimentos da noite passada, por exemplo, já sofreu 45 ações de repressão apenas nesse ano, segundo a própria PM.
A catástrofe desse domingo, portanto, não é um fato isolado, mas um desdobramento óbvio dessa prática repressiva constante e ineficiente.
As alegações de que policiais perseguiam jovens que roubaram uma moto são apenas uma desculpa para tentar justificar o crime que foi cometido. De qualquer forma, a polícia não poderia, a pretexto de perseguir pequenos criminosos, gerar uma tragédia de tais dimensões.  
Em 2015 e 2016, a prefeitura de São Paulo promoveu ações voltadas para a promoção de bailes funk em condições adequadas, que seria o início de enfrentamento sério e consequente da questão, se não tivessem sido interrompidas em 2017.
De modo articulado com grupos locais, foram organizados bailes funk em locais adequados, afastados das áreas residenciais, em várias regiões da cidade.
Nesses eventos, a municipalidade fornecia a infraestrutura necessária, garantindo segurança para os participantes e tranquilidade para os moradores, respeitando a diversidade cultural e o protagonismo dos artistas locais. Oferecendo alternativas para os jovens, gradativamente, esses eventos poderiam substituir ou esvaziar os bailes improvisados que se realizam nas ruas, sem requerer repressão.     
Enquanto não se implementarem mais políticas públicas voltadas para a juventude periférica e tiver continuidade a lógica da violência policial sem responsabilização dos agentes, o risco de novas tragédias como a dessa madrugada estará sempre presente.

* Nabil Bonduki *Professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, foi relator do Plano Diretor e Secretário de Cultura de São Paulo.
O baile funk onde morreram nove pessoas pisoteadas, mais conhecido pela sigla “DZ7”, é um dos maiores de São Paulo e reúne entre 3.000 e 5.000 pessoas —incluindo gente de municípios vizinhos— por dia ao longo da rua Ernest Renan, em Paraisópolis, e em seu entorno, em São Paulo.
O baile, que começa à noite e continua até a manhã do dia seguinte, funciona com iniciativas descentralizadas —carros e caixas de som, comerciantes e aglomerações de pessoas ao longo das ruas.  Diferentemente dos maiores bailes do Rio de Janeiro, o DZ7 não tem um organizador nem apresentações de DJs ou MCs. 

terça-feira, 26 de novembro de 2019

UFMG homenageia líder histórico de trabalhadores rurais do norte de Minas

A UFMG - Universidade Federal de Minas Gerais, do ICA - Instituto de Ciências Agrárias, campus Montes Claros, presta uma homenagem ao líder histórico dos trabalhadores rurais do norte de Minas, Antônio Inácio Correa, de Januária, que completa 80 anos.

Antônio Inácio Correa nasceu em Januária, na região de Bonito de Minas, em 1939, em um pequeno sítio. Ele cursou até a terceira série, em turmas multisseriadas - 1ª, 2ª e 3ª séries numa sala só, com um quadro negro e uma professora -, na sua comunidade rural. Depois, fez a quarta série na Escola Caio Martins, na cidade. Ele conta que, desde criança foi curioso e lia tudo o que conseguia acessar de papel escrito. Escutando notícias no rádio e participando da vida comunitária foi atinando que as coisas estavam "fora de lugar". Como agricultor familiar frequentava reuniões no Sindicato dos Trabalhadores Rurais. Como católico foi um fervoroso participante de Comunidades Eclesiais de Base. 

Por ser um dos poucos lavradores com leitura e escrita, destacou-se a lavrar atas de reuniões diversas. Foi eleito Secretário do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Januária. Em pouco tempo, virou um ativista da Comissão Pastoral da Terra, na década de 80. E botou a boca no trombone, com força e coragem, ao denunciar as grilagens de terras e expulsão de trabalhadores rurais de suas glebas, em encontros e movimentos estaduais e nacionais.

Em 1984, foi um dos pioneiros ao participar da fundação do MST Movimentos dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, tornando-se o representante do movimento no norte de Minas. Rodou a região em reuniões e Encontros de luta pela terra. Em ocupações e resistências históricas como em Cachoeirinha, em Varzelândia, e Vereda Grande, em Januária e São Francisco. Quase todos os dias, ele marcava ponto no Fórum de Januária, na Promotoria Pública, ao denunciar a perseguição dos grileiros aos lavradores. Junto com Elói Ferreira da Silva, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de São Francisco, formou uma dupla de potentes lideranças daqueles que não tinham voz nem vez.
Eloy foi assassinado em 16 de dezembro de 1984 por grileiros e pistoleiros ligados ao maior latifundiário de Minas, Antônio Luciano. Latifundiários da região anunciavam que esse era um aviso para outras lideranças como Antônio Inácio de Januária e Valdeci de Varzelândia. Valdeci sofreu um atentado, mas sobreviveu.

Antônio Inácio sempre foi de bom diálogo, firme e de muita coragem. Um homem de paz. Conversava inclusive com os algozes, tocando em sua humanidade. Procurava e cobrava de autoridades - policiais, delegados, promotor de justiça, juiz de direito, prefeitos, vereadores - a garantia de direitos de posseiros e lavradores da região. 

Nas décadas de 70 e 80, grandes empresas chegavam na região e queriam tomar conta de tudo. Comprava alguns pedaços de terra e cercavam centenas, milhares de hectares. Ameaçavam os posseiros, queimavam casas, destruíam roças, expulsavam as famílias. Antônio Inácio enfrentava estas situações, denunciando, organizando os trabalhadores na resistência de ficar em suas terras. Sua liderança dava coragem aos companheiros que enfrentavam os invasores.

Em 1984, Antônio Inácio começou a escrever uma coluna no semanário Folha de Januária, jornal independente de uma pequena cooperativa de bancários que abriu espaços para as lutas populares. Em 1988, a Editora Vozes selecionou algumas das suas crônicas e publicou o livro "Um Lavrador no Reino do Latifúndio - a luta secular de Davi contra Golias".
Suas escritas incomodavam a elite local que pressionava a direção do jornal, cortando propaganda devido aos escritos de Antônio Inácio que virou leituras de formação e organização política nos grupos de trabalhadores da região. Alguns anos depois, escreveu  capítulos dos livros “Pioneiros do MST” e “História dos Gerais”.

Eleito presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Januária intensificou ainda mais o seu trabalho. Rodou a região, orientando na fundação de associações e sindicatos de trabalhadores. Participou da fundação da CUT - Central Única dos Trabalhadores como também do Partido dos Trabalhadores, em Januária.

Em palestras e debates públicos sobre questões do campo, em Januária, ele ia pra platéia, cheia de fazendeiros e trabalhadores rurais. Quando abriam a fala, lá estava ele colocando o contraponto, a vivência e parecer dos oprimidos. Criava um desconforto na elite dirigente local. Começou a ser chamado pra compor Mesa, mas não lhe davam a palavra. Ele levantava e falava sem microfone. Temido e respeitado, começaram a ouvi-lo. Puxava  a orelha de bispos e padres que não tinham preferência pelos pobres. 

Sua luta ia muito além da garantia e acesso à terra. Debatia a necessidade da criação de políticas públicas para os agricultores familiares; a formação política da juventude; a democratização dos usos da água; questionava o modelo de desenvolvimento na produção da miséria de muitos, na destruição dos cerrados e veredas. Participou ativamente da organização da Comissão de Direitos Humanos de Januária, nas décadas de 80 e 90.

Aposentou-se. Mas, não da luta e da vida. Tem muito o que ensinar às novas gerações.

Por esses e vários motivos, é justa a homenagem que a UFMG presta a essa liderança histórica dos trabalhadores rurais do norte de Minas e de todo o semiárido mineiro.

Com meu amigo Antônio Inácio, na sua casa, em Januária, saboreando um pouco a sua sabedoria e as lembranças de muitas lutas travadas no Vale do São Chico. 

Leia o convite da Homenagem. 
E vá lá!

Homenagem a Antônio Inácio Correia
O mestrado associado entre a UFMG e a Unimontes em Sociedade, Ambiente e Território 
convida para o Seminário em homenagem a Antônio Inácio Correia.
Nascido em 1939, Antônio Inácio Correia é agricultor, foi presidente do Sindicato de 
Trabalhadores Rurais de Januária. Autor do livro “Um lavrador no reino do latifúndio” e 
de capítulos dos livros: “Pioneiros do MST” e “História dos Gerais”.
Nos anos de 1970 e 1980, carvoeiros e grileiros chegaram aos gerais do Norte de Minas 
devastando os cerrados e expulsando agricultores da terra. Naquela época, Antônio dirigia 
o Sindicato de Trabalhadores Rurais de de Januária. Ele liderou a luta em defesa na 
natureza e da agricultura familiar da região, organizando a resistência à tomadas de 
terras e à destruição dos cerrados e veredas.

Data: 26 de novembro, às 14h
Local: Auditório do Bloco C – Instituto de Ciências Agrárias da UFMG
Avenida Universitária, 1.000 - Bairro Universitário - Montes Claros - MG 
Fone: (38) 2101-7710
O evento é gratuito e aberto ao público.