domingo, 24 de maio de 2020

Agronegócio produz vírus, pandemia e mortes de gente e da natureza

Os latifundiários da pandemia, por Silvia Ribeiro

Para a autora, neste momento de crise é necessário questionar profundamente todo o sistema alimentar do agronegócio.

Tradução: Luiza Mançano
A declaração de pandemia da covid-19 colocou tudo de cabeça pra baixo. Mas nem tanto para que os governos questionem as causas reais que levaram ao surgimento do vírus e ao fato de que, enquanto supostamente trabalham para contê-lo, outros vírus e pandemias continuem surgindo.
Existem três causas, concomitantes e complementares, que produziram todos os vírus infecciosos que se propagaram mundialmente nas últimas décadas, como a gripe aviária, a gripe suína, as cepas de coronavírus, entre outras. A principal é criação industrial e extensiva de animais, principalmente frangos, perus, porcos e vacas. A isto soma-se o contexto geral da agricultura industrial, na qual 75% da terra agrícola de todo o planeta é utilizada para a criação de animais em massa, principalmente para criação de pastos com essa finalidade. A terceira é o crescimento descontrolado da mancha urbana e das indústrias que a alimentam e que por ela subsistem.
As três juntas são a causa do desmatamento e da destruição de habitats naturais em todo o mundo, fato que também implica a expulsão das comunidades indígenas e camponesas que vivem nessas áreas. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), mundialmente, a expansão da fronteira agropecuária é responsável por 70% do desmatamento, mas em países como o Brasil, esta expansão é responsável por 80% do desmatamento.
No México, vimos como se originou a gripe suína em 2009, à qual colocaram o nome asséptico de gripe H1N1 para desvinculá-la do porco, sua origem. O vírus se originou na fábrica de porcos Granjas Carroll, em Veracruz, então co-propriedade da maior produtora de carne a nível global, a Smithfield. Esta empresa foi comprada em 2013 por uma filial da megaempresa chinesa WH Group, atualmente a maior produtora de carne suína do mundo, ocupando o primeiro lugar neste ramo na China, nos Estados Unidos e diversos países europeus.
Ainda que o vírus da gripe suína não fosse um coronavírus, a forma se converteu em uma epidemia/pandemia é semelhante a outras doenças zoonóticas (isto é, de origem animal). Enormes quantidades de animais de criação confinados, vacinados e imunodeprimidos fazem com que o vírus tenha mutações de forma mais rápida. Esses animais consomem antibióticos e antivirais continuamente, além de estarem expostos – no ambiente e na alimentação – a diversos pesticidas desde o nascimento até o matadouro, para que engordem mais rápido e não adoeçam, em condições absolutamente insalubres para qualquer ser vivo.
Como explica Rob Wallace, biólogo evolutivo e filogéografo do Instituto de Estudos Globais da Universidade de Minnesota, que estudou por mais de 15 anos o tema das epidemias do último século, os criadouros animais são o local perfeito para a mutação e reprodução dos vírus. 
Os vírus podem passar de uma espécie a outra e embora possam se originar em espécies silvestres de aves, morcegos e outras, é a destruição dos habitats naturais que os empurra para fora de suas áreas, onde as cepas dos vírus estavam controladas dentro de sua própria população. Dali passam às áreas rurais e depois às cidades. Mas é nos imensos criadouros animais onde há maiores chances de mutação dos vírus, que logo afetarão os seres humanos pela contínua interação entre milhares ou milhões de animais, diversos tipos de cepas de vírus e contato com humanos que entram e saem dessas instalações. O aumento da interconexão dos transportes globais, tanto de pessoas como de mercadorias, inclusive de animais, faz com que os vírus mutantes se desloquem rapidamente a muitos pontos do planeta.
Um aspecto complementar: como demonstrou Grain, o sistema alimentar do agronegócio é responsável por quase metade dos gases de efeito estufa que produzem a mudança climática, mudança que também leva à migração das espécies, inclusive de mosquitos que podem transmitir alguns vírus. A criação intensiva de animais, especialmente, é responsável pela maior parte destas emissões (Grain, 2017)
Claro que ainda que possamos conhecer o que originou o vírus, isto não muda o fato de que ele existe e tem consequências agora, e que é importante cuidar das pessoas, sobretudo dos mais vulneráveis, por uma série de fatores.  Ainda assim, não custa recordar que, segundo os dados da Organização Mundial da Saúde, 72% das mortes no mundo são causadas por doenças não transmissíveis, várias delas diretamente relacionadas diretamente ao sistema alimentar do agronegócio, como doenças cardíacas, hipertensão, diabetes, obesidade, câncer do aparelho digestivo, má nutrição.
Mas o enfoque na ação emergencial e a busca de supostas vacinas como se a pandemia pudesse ser controlada por meios técnicos, esconde suas causas e promove a perpetuação do problema, porque virão outras epidemias ou pandemias enquanto as causam continuarem intactas. Em alguns países, as indústrias agroalimentares, principais produtoras dos vírus, são beneficiadas pelas epidemias, inclusive, por serem consideradas pelos governos como “indústrias básicas para a sobrevivência”. Isto é uma falácia, já que é a produção camponesa, indígena e de pequena escala, inclusive a urbana, que alimenta 70% da humanidade. É o agronegócio quem nos dá comida lixo e cheia de agrotóxicos, que nos adoece e enfraquece frente às pandemias, ao mesmo tempo em que continua expropriando terras camponesas e áreas naturais (ETC, 2017).
Na emergência, surgem outros negócios lucrativos, tanto para as empresas como para os bancos. Algumas, como as empresas farmacêuticas, empresas de materiais para proteção sanitária, de vendas online e de produção de entretenimento, enriquecem de forma ridícula com a pandemia. Outras empresas tem perdas -- que transferem às e aos trabalhadores e à sociedade de muitos modos, inclusive no aumento dos preços --, mas serão as primeiras a se beneficiar com os subsídios governamentais. Sob o discurso de que há que resgatar “a economia”, a maioria dos governos não vacila em favorecê-las antes dos sistemas de saúde pública devastados pelo neoliberalismo, ou de milhões de pessoas que sofrem com a pandemia, não só por causa do vírus, mas porque não tem casa, ou água, ou alimentos, ou perderam seu trabalho, ou trabalham irregularmente e sem previdência social, não tem acesso a diagnósticos ou médicos, ou estão em caravana de imigrantes ou refugiados em algum acampamento, amontoados em albergues ou na rua.
Neste contexto, também surgem formas de solidariedade a partir de baixo. Junto com ela, é necessário enraizar um questionamento profundo de todo o sistema alimentar do agronegócio, e uma valorização profunda e solidária de todas e todos que a partir de suas hortas e comunidades nos alimentam e previnem as epidemias.  
*Silvia Ribeiro é integrante do Grupo de Ação sobre Erosão, Tecnologia e Concentração (ETC)
Edição: Luiza Mançano
Publicado no Brasil de Fato | São Paulo (SP) |

sexta-feira, 22 de maio de 2020

Necropolítica bolsonarista mata CPF e CNPJ

Nem saúde, nem economia

Imagem de perfil do Colunistaesd
O governo de Jair Bolsonaro tem conseguido o feito raro de errar em todas as ações que empreende. Depois de criar o falso antagonismo entre defesa da vida e recuperação da economia, mostrou que é capaz de contribuir para destruir os dois lados. Além disso, tem mostrado equívocos em tudo o que toca: política externa, cultura, meio ambiente, educação, justiça e direitos humanos, para ficar nas lambanças mais evidentes.
Mas é no campo do combate à pandemia que ele se destaca, oferecendo tanto uma política sanitária criticada mundialmente, como apresentando soluções para a economia que não têm garantido nem empregos nem a sobrevida das empresas que tanto parecem cultuar. A necropolítica bolsonarista não tem limites, extermina CPFs e CNPJs com a mesma eficiência e falta de caráter.
No âmbito sanitário, as trocas de ministros são apenas a face visível de uma política pública sem rumo. O governo federal rompeu com o consenso mundial em torno das ações responsáveis emanadas pela Organização Mundial de Saúde e da mais clássica ciência fundada em evidências, deixando de atuar na liderança de ações coordenadas para implantar um clima de confronto federativo.
Além disso, no renovado desconforto em agir dentro dos padrões científicos, o governo criou ideologização que constituiu um terraplanismo epidemiológico, feito de superstições e mitos vindos do submundo da insensibilidade humana. Não fosse o mais despreparado presidente do mundo, Bolsonaro arrogou a si a capacidade de dar opiniões sobre temas que não domina e cuja consequência afeta a vida das pessoas. Para ele, as urnas o tornam médico, general e taumaturgo.
A recente modificação do protocolo de um medicamento assinala a que ponto pode chegar o delírio autoritário. Com riscos comprovados por grupos de pesquisa em todo mundo e contra recomendações do próprio Ministério da Saúde, o presidente impõe algo mais grave que um remédio inadequado: uma cultura da subserviência em parte da máquina pública. Hoje é a cloroquina, amanhã um vermífugo que também mata pulgas, defendido pelo astronauta que tem com bagagem científica o plantio de feijões no algodão. O monstro faz escola.
A política pública de combate ao novo coronavírus destruiu o que de mais trabalhoso havia sido construído pelo Sistema Único de Saúde em mais de 30 anos de trajetória: a ideia de um compartilhamento responsável e racional entre níveis de governo. Em outros termos, um conjunto ordenado de ciência com consciência. O que o saber propicia, a gestão viabiliza.
Não há, em nenhum patamar de governo ou campo a atuação no controle da pandemia, algo que se assemelhe aos princípios do SUS. Seja em termos de universalidade, equidade, integralidade, regionalização e controle social. O que se observa é um cada um por si, capitaneado por alguns governantes estaduais e municipais de boa vontade, que contam com a má vontade do governo federal.
O Brasil testa pouco e mal. Investiga casos com pouca efetividade por falta de normas claras de acompanhamento de dados. As próprias informações que alimentam os bancos são defasadas e com pouca abrangência em razão dos poucos exames.
O tratamento tem sido prejudicado pela falta de uma coordenação do Ministério da Saúde, que não estruturou um sistema nacional de leitos, não tem comandado de maneira confiável os protocolos médicos e hoje esgarça as poucas certezas científicas no uso de medicamentos.
Com isso viu o país caminhar para assumir um lugar vergonhoso em termos internacionais, perdeu o foco moral interno que garantisse um sentimento de colaboração e cidadania sanitária e viu dois ministros preferirem deixar o cargo que manchar suas biografias. Tudo de ruim que se observa na área da saúde parecia proposital, como se com isso o país fizesse uma opção pelos interesses da economia.
No entanto, não é o que se vê. Ruim em saúde pública, o Brasil se mostra ainda pior em matéria de ações macroeconômicas para conter as consequências da doença no mundo real. As políticas do setor não foram capazes de garantir renda para a população mais vulnerável de forma eficiente e suficiente. O processo de ajuda emergencial jogou as pessoas nas aglomerações e o valor repassado foi aquém das necessidades mínimas de sobrevivência.
Além disso, o apoio às empresas de pequeno porte e negócios de empreendedores individuais foi ineficiente, com pouco crédito e dificuldade de acessar as linhas disponíveis. Os negócios estão fechando não por falta de consumidores, mas de transferência de capital de giro ou para pagamento de salários e compromissos correntes. A prioridade são programas de grandes empresas para descartar funcionários.
A falsa miragem da retomada da economia com a abertura do comércio esconde dois erros graves. O primeiro é o aumento da contaminação pela Covid-19, caso esse processo não tenha um controle adequado, o que parece distante num cenário com baixa testagem e investigação ineficaz. Em segundo lugar, a própria descapitalização das pessoas, pelo desemprego e diminuição de salários, não será por si só um instrumento capaz de garantir a retomada.
Depois de falhar em proteger as vidas, o governo federal vai dar defeito na proteção dos negócios. A crise, que deverá ser a maior em muitas décadas (ou medida na régua do século), não partiu de um problema do sistema financeiro para chegar à vida real. Filha de uma doença que habita todos os desvãos da sociedade, sua aterrissagem na existência pegou um mundo inteiro em crise, com milhões desempregados sem perspectiva. O que foi abstração em 2008 é cruelmente material em 2020.
O Brasil não sairá da crise colocando a vida das pessoas em risco. As medidas econômicas não podem se limitar a facilitar demissões e diminuição de salários e, menos ainda, a achar que uma transferência limitada de renda seja capaz de garantir a travessia do furacão. Tanto para o cidadão comum como para o iludido empreendedor que acreditou no canto da sereia do esforço recompensado. Para que a roda gire, é preciso que as pessoas mantenham os empregos e a renda, com capacidade de voltar a consumir.
No entanto, tudo será feito em um novo patamar, sem o consumismo que nutria o mercado e sem a capacidade operacional de vários negócios que se sustentavam exatamente na relação próxima entre as pessoas. O novo sistema que sai dessa pandemia vai exigir um tempo de adequação, criatividade e transformação. A ideia de relações remotas e novos produtos e serviços precisará de um tempo de transição.
O mercado não é capaz de fazer isso por si só. O limite mais visível da nova situação econômica está inscrito no DNA do tipo de capitalismo que era considerado natural até então. Sem o Estado, a transferência de renda, a garantia de defesa da vida, a realidade como era antes está com os dias contados.
É essa situação que os planos econômicos do governo não parecem alcançar. Guedes é um ser mitológico bifronte: olha para o passado enquanto é empurrado para um futuro que vai exigir mais solidariedade (mesmo por motivos egoístas de sobrevivência) para o qual não está preparado. Nem quer.
Não se trata de decidir se o valor do auxílio emergencial será de R$ 200 ou R$ 600. Se vai durar alguns meses ou vai migrar para a renda básica de cidadania. Se as empresas vão ter linhas de crédito para manter seus negócios e preservar empregos. Se setores afetados mais frontalmente pelas características da doença terão cobertura. 
A dúvida é uma só: haverá vida possível?
Na saúde e na economia.

COVID-19: Negacionismo da ciência, com as mãos sujas de sangue.

O doutor em microbiologia, Atila Iamarino, descreve ações de negação da ciência, seja por interesses econômicos, políticos ou sociais, em outros momentos da história. E desnuda as ações dos negacionistas das evidências científicas na crise sanitária atual, mesmo a custo do sacrifício de vidas humanas. E permanece firme, sendo uma das vozes sensatas mais ouvidas do país, com a coragem em prenunciar, em março, uma tragédia com centenas de milhares de mortes se ações preventivas não fossem tomadas. Atacado pelos terraplanistas e necroeconomistas, publica o presente artigo com argumentos contundentes em defesa da vida.  

Os céticos da Covid-19

Dos males do cigarro à inflamação da garganta, ciência já foi questionada antes.

"É o tradicional negacionismo da ciência, desta vez feito com as mãos sujas de sangue."

Atila Iamarino*

A pandemia é difícil de engolir. Para alguns, o isolamento social é mais intragável. É difícil convencer alguém de algo quando seu salário depende de não entender aquilo, já dizia Upton Sinclair. Imagine então quando a saúde é colocada à frente da economia.
A Covid-19 chegou de supetão, mas com a quarentena reduzindo o avanço da pandemia, negadores da realidade ganharam tempo de se organizar. Surgem os primeiros céticos da Covid-19, da quarentena, do lockdown ou mesmo das mortes.
Poucos questionariam usar o antibiótico azitromicina para faringite. Já para o tratamento da Covid, não faltam opiniões, principalmente entre os que apresentam tratamentos não como um objetivo que é procurado, mas como uma alternativa certa à necessidade de quarentena. Onde a ciência ainda não é certa ou é certa mas contrária, substituem-na por opiniões que transformam fatos em pontos de vista abertos a debate. Consensos viram ideias identitárias.
Países de todo espectro político adotaram isolamento sério, da direita israelense ao partido comunista vietnamita. Mas nada disso importa para quem precisa invalidar essas medidas e mandar as pessoas para rua e pinta o isolamento da cor política que mais desagradar a audiência.
Dizem que um sapo na água esquentando devagar não percebe quando ela ferve e acaba cozido. A fábula corporativa sobre mudança gradual ignora o fato de que sapos registram bem a temperatura ambiente e vão tentar pular da panela quando ela ultrapassa o que toleram. Já humanos têm um órgão especializado em criar justificativas racionais para decisões emocionais e vão fazer o possível para convencer o próximo —e, se bobear, até o sapo— de que o planeta, digo, a panela não está aquecendo.
Quando a ciência propôs que garganta inflamada seria causada por bactérias, houve quem questionasse. E não foram cientistas, mas, sim, comerciantes e industriais que usavam políticos e imprensa para negar que as quarentenas que lhes davam tanto prejuízo nos protegeriam de doenças como a febre amarela.
No fim do mesmo século, Thomas Edison foi mais discreto para desacreditar a ciência desfavorável à corrente elétrica contínua de sua empresa. Contratou o engenheiro elétrico Harold Brown para se passar por um especialista interessado no bem-estar das pessoas que escrevia para jornais condenando a corrente alternada dos concorrentes.
Métodos parecidos viraram modelo de negócios no questionamento da relação entre cigarro e câncer por médicos e especialistas contratados pela publicidade de empresas de tabaco. Os mesmos especialistas contratados questionavam a relação entre poluição e chuva ácida ou entre o uso de combustíveis fósseis e o aquecimento global, como o livro “Merchants of Doubt” conta.
Recentemente, essa técnica foi transposta para a internet e deu origem aos 4 D’s da propaganda feita para soterrar a verdade onde a censura não é possível: 
Desqualificar os críticos, como este biólogo aqui, atacado por apresentar a realidade; 
Distorcer os fatos, como a efetividade óbvia da quarentena na Europa; 
Distrair do problema, com tratamentos que não funcionam ou  isolamento vertical —tão efetivo quanto escolher um canto da piscina para fazer xixi, como bem disseram no Twitter; e 
Desanimar a audiência com a insistência em cada ponto desse usando “especialistas”, médicos ou influenciadores do ódio que aceitam milhares de mortes (dos outros) como necessárias.
É o tradicional negacionismo da ciência, desta vez feito com as mãos sujas de sangue.
Publicado em 09.05.2020, na Folha de S. Paulo.
*Atila Iamarino
  • Biólogo bacharelado (2006), doutor em microbiologia (2012) pela Universidade de São Paulo e divulgador científico 
na internet. Fez pós-doutorado pela Universidade de São Paulo e pela Yale University. Fundador da maior rede de 
blogs de ciência em língua portuguesa, o ScienceBlogs Brasil. Atualmente faz comunicação de ciência no Nerdologia 
e no próprio canal no YouTube para mais de 2,5 milhões de pessoas.
https://twitter.com/oatila

O quarteto da morte da democracia

"Coveiros da democracia": a mídia, o grande empresariado, os militares e o Judiciário.

*Emir Sader
Para o sociólogo Emir Sader, a mídia, o grande empresariado, os militares e o Judiciário são os "coveiros da democracia". "Os mesmos responsáveis pelo golpe de 1964 e pela ditadura militar que sofremos durante 21 anos e os que foram igualmente responsáveis pelo golpe de 2016", diz ele.
 
É justo destacar as responsabilidades da mídia, dos militares, no golpe que levou à ruptura da democracia e à tragédia que vive o Brasil hoje. Mas eles são componentes de um bloco de forças que comandou esse processo, do qual fazem parte também o grande empresariado e o Judiciário. O mesmo bloco da morte que liquidou a democracia em 1964 e fez o mesmo em 2016 no Brasil.
Tanto lá como aqui, a mídia levou a voz cantante de mobilização golpista, convocando as Deus, Pátria e Família, assim como denunciando supostos planos golpistas do governo Jango, com todo o coro do perigo comunista no Brasil, no tom da guerra fria da época. O empresariado financiou os organismos vinculados aos Estados Unidos, que organizaram o golpe. O Judiciário deu a cobertura institucional, aprovando o golpe. E as FFAA procederam a dar o golpe, destruir a democracia e instalar a mais selvagem ditadura que o país já havia conhecido.
Houve um bloco de forças que deu o golpe e houve outro que dirigiu a ditadura militar por 21 anos. Do primeiro, aos poucos, a mídia e setores do Judiciário foram se distanciando, fazendo com que o bloco dirigente da ditadura foram as FFAA e o grande empresariado. O Estado brasileiro foi militarizado, a economia do país foi dirigida conforme os interesses do grande capital.
Em 2016 o golpe foi dado conforme a nova estratégia da direita – a guerra híbrida -, que contou com os mesmos sujeitos de 1964: a mídia, o grande empresariado, os militares e o Judiciário. O momento decisivo, correspondente ao de primeiro de abril de 1964, foi o da aprovação do impeachment da Dilma, em 31 de agosto de 2016, que contou com a ativa participação dos componentes do quarteto da morte da democracia.
A condução da guerra híbrida contou com o comando da mídia, do grande empresariado e do Judiciário, que promoveram a prisão e a proibição da candidatura do Lula, sem nenhum fundamento legal, assim como a monstruosa operação eleitoral que levou Bolsonaro à presidência do país. Esse processo foi apoiado pelos militares, com manifestações abertamente golpistas de comandos das FFAA em momentos de decisões fundamentais do Judiciário para legitimar as operações da guerra híbrida.
O governos instalado por toda essa operação conta sempre com o apoio do grande empresariado, cujos interesses são atendidos pela política ultra neoliberal de Paulo Guedes. Conta com o apoio da mídia, conforme mantenha e de continuidade no modelo neoliberal. Conta com o beneplácito do Judiciário, diante de todo tipo de crime de responsabilidade de Bolsonaro. Conta com os militares e apoio tácito das FFAA, que ocupam cada vez mais cargos dentro do governo, apoiam todas as medidas do presidente, assinam medidas arbitrárias e nomeações de políticos corruptos.
Por trás do governo, esse é o bloco de poder que mantém o governo, que tem divergências entre si sobre o nível de apoio ao governo, mas que está unido pela posição estratégica de tratar de impedir o retorno do PT ao governo. Esse é o horizonte político que possibilita compreender os limites da tolerância desses componentes do bloco com o Bolsonaro.
É em nome desse limite, que eles justificam a tolerância com a sobrevivência do Bolsonaro como presidente. Preferem ele a qualquer risco de perder o controle do governo e do retorno de uma política econômica antineoliberal.
Hoje algumas dessas forças divergem entre si. A mídia se enfrenta diretamente ao governo. O Judiciário atua, em alguns casos, para controlar excessos de Bolsonaro. O grande empresariado segue apoiando o governo pela sua política neoliberal. Os militares apoiam de dentro o governo, constituindo-se no pessoal fundamental do governo, superando já em 3 mil o número deles no governo.
São os coveiros da democracia. Os mesmos responsáveis pelo golpe de 1964 e pela ditadura militar que sofremos durante 21 anos e os que foram igualmente responsáveis pelo golpe de 2016 e pelas tragédias que o Brasil vive desde então.
*Emir Sader é um dos principais sociólogos e cientistas sociais do país. Professor aposentado da USP, atualmente é professor da UERJ.