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domingo, 22 de dezembro de 2019

Feliz Povo Novo! Fazendo e escrevendo uma nova história

    Feliz Povo Novo!
*"Feliz Livro Novo!"

Quando 2019 começou, ele era todo nosso e de todos nossos companheiros de lida. Foi colocado em nossas mãos. Nós e nossos parceiros/as podíamos fazer dele o que quisesse, como se fosse um livro em branco.

Nós poderíamos colocar nele um poema, um pesadelo, uma blasfêmia, uma confidência íntima, uma experiência de luta, uma ou várias ameaças aos nossos direitos.

Podia. Hoje não pode mais. Já não é nosso.


É um livro já escrito, concluído, escrito por você, por mim, por milhares que lutaram para a vida ter mais sentido, mais plenitude. Os podres poderes quiseram manchá-lo com os retrocessos, com a negativa da vida, com a afirmação da morte, glamourizada com fantasias de um tal Deus mercado.

Um dia, será lido em todos os detalhes. A história poderá reconhecê-lo e nós não poderemos corrigi-lo. Quem não lutou deixou que outros escrevessem a nossa história.
Estará fora de nosso alcance as mudanças ocorridas.


Mas, as mudanças de retrocesso poderão ser revertidas. Depende de cada um de nós,  de andarmos juntos. "Não nos afastemos. Vamos de mãos dadas", de corações pulsantes.

Assim, antes que 2019 termine, vamos refletir, sentir, pegar nosso velho livro e folheá-lo com cuidado, passando cada página por nossas mãos, pela consciência.

Pratiquemos esse exercício de lermos sobre nós mesmos, sobre nossas lutas, nossas labutas.
Leiamos tudo. Apreciemos essas páginas de nossas vidas em que usamos no nosso melhor estilo, no nosso jeito de sentir, pensar e fazer um mundo diferente.

É preciso ler também as páginas que não gostaríamos de nunca ter escrito. Não, não tentemos arrancá-las. Seria inútil. Já estão escritas.

Mas nós também podemos também lê-las enquanto escrevemos o novo livro. Assim, poderemos repetir aquilo que deu certo, aprimorar a caminhada e evitar repetir determinadas situações que nem é bom lembrar. Ou lembrar para entender em que erramos e melhor prosseguir.

Para escrever o nosso novo livro, nós contaremos novamente com a liberdade, a disposição para amar e respeitar as pessoas, de combater as forças da morte, da negação da vida.

Se tiver vontade de beijar o velho livro, estejamos à vontade. Se tivermos vontade de chorar, que choremos.


Não importa como estejamos. Mesmo que tenhamos páginas escritas em longas "noites de amor e de guerra", vamos fazer e escrever uma nova história.

Não deixemos na mão do destino, porque este é construído pela opressão para nos criar desatinos.

E, quando 2020 chegar, vamos continuar escrevendo a nossa história, com muitas lutas, com muita paz, com esperança, com alegria, com a certeza que "amanhã há de ser outro dia".

"Feliz Livro Novo!"
Feliz Povo Novo!
Feliz Homem/Mulher novxs!

Há braços!

Banu - Álbano
Dezembro de 2019

*Inspirado na mensagem, recebida por email,  "Feliz livro novo!", de 2010, de autor desconhecido.

domingo, 6 de janeiro de 2019

Dez Conselhos para militantes de esquerda

Frei BETTO *
(serve para não religiosos também)



1. Mantenha viva a indignação. 
Verifique periodicamente se você é mesmo de esquerda. Adote o critério de Norberto Bobbio: a direita considera a desigualdade social tão natural quanto a diferença entre o dia e a noite. A esquerda a encara como uma aberração a ser erradicada.

Cuidado: você pode estar contaminado pelo vírus social-democrata, cujos principais sintomas são usar métodos de direita para obter conquistas de esquerda e, em caso de conflito, desagradar aos pequenos para não ficar mal com os grandes.

2. A cabeça pensa onde os pés pisam. 
Não dá para ser de esquerda sem "sujar" os sapatos lá onde o povo vive, luta, sofre, alegra-se e celebra suas crenças e vitórias. Teoria sem prática é fazer o jogo da direita.


3. Não se envergonhe de acreditar no socialismo. 
O escândalo da Inquisição não faz os cristãos abandonarem os valores e as propostas do Evangelho. Do mesmo modo, o fracasso do socialismo no Leste europeu não deve induzi-lo a descartar o socialismo do horizonte da história humana.

O capitalismo, vigente há 200 anos, fracassou para a maioria da população mundial. Hoje, somos 6 bilhões de habitantes. Segundo o Banco Mundial, 2,8 bilhões sobrevivem com menos de US$ 2 por dia. E 1,2 bilhão, com menos de US$ 1 por dia. A globalização da miséria só não é maior graças ao socialismo chinês que, malgrado seus erros, assegura alimentação, saúde e educação a 1,2 bilhão de pessoas.

4. Seja crítico sem perder a autocrítica.
Muitos militantes de esquerda mudam de lado quando começam a catar piolho em cabeça de alfinete. Preteridos do poder, tornam-se amargos e acusam os seus companheiros (as) de erros e vacilações. Como diz Jesus, vêem o cisco do olho do outro, mas não o camelo no próprio olho. Nem se engajam para melhorar as coisas. Ficam como meros espectadores e juízes e, aos poucos, são cooptados pelo sistema.

Autocrítica não é só admitir os próprios erros. É admitir ser criticado pelos (as) companheiros (as).

5. Saiba a diferença entre militante e "militonto". 
"Militonto" é aquele que se gaba de estar em tudo, participar de todos os eventos e movimentos, atuar em todas as frentes. Sua linguagem é repleta de chavões e os efeitos de sua ação são superficiais.

O militante aprofunda seus vínculos com o povo, estuda, reflete, medita; qualifica-se numa determinada forma e área de atuação ou atividade, valoriza os vínculos orgânicos e os projetos comunitários.

6. Seja rigoroso na ética da militância.
A esquerda age por princípios. A direita, por interesses. Um militante de esquerda pode perder tudo: a liberdade, o emprego, a vida. Menos a moral. Ao desmoralizar-se, desmoraliza a causa que defende e encarna. Presta um inestimável serviço à direita.

Há pelegos disfarçados de militante de esquerda. É o sujeito que se engaja visando, em primeiro lugar, sua ascensão ao poder. Em nome de uma causa coletiva, busca primeiro seu interesse pessoal.
O verdadeiro militante, como Jesus, Gandhi, Che Guevara, é um servidor, disposto a dar a própria vida para que outros tenham vida. Não se sente humilhado por não estar no poder, ou orgulhoso ao estar. Ele não se confunde com a função que ocupa.

7. Alimente-se na tradição da esquerda.
É preciso oração para cultivar a fé, carinho para nutrir o amor do casal, "voltar às fontes" para manter acesa a mística da militância. Conheça a história da esquerda, leia (auto) biografias, como o "Diário do Che na Bolívia", e romances como "A Mãe", de Gorki, ou "As Vinhas de Ira", de Steinbeck.


8. Prefira o risco de errar com os pobres a ter a pretensão de acertar sem eles. 
Conviver com os pobres não é fácil. Primeiro, há a tendência de idealizá-los. Depois, descobre-se que entre eles há os mesmos vícios encontrados nas demais classes sociais. Eles não são melhores nem piores que os demais seres humanos. A diferença é que são pobres, ou seja, pessoas privadas injusta e involuntariamente dos bens essenciais à vida digna. Por isso, estamos ao lado deles. Por uma questão de justiça.

Um militante de esquerda jamais negocia os direitos dos pobres e sabe aprender com eles.

9. Defenda sempre o oprimido, ainda que, aparentemente, ele não tenha razão.
São tantos os sofrimentos dos pobres do mundo que não se pode esperar deles atitudes que nem sempre aparecem na vida daqueles que tiveram uma educação refinada.

Em todos os setores da sociedade há corruptos e bandidos. A diferença é que, na elite, a corrupção se faz com a proteção da lei e os bandidos são defendidos por mecanismos econômicos sofisticados, que permitem que um especulador leve uma nação inteira à penúria.
A vida é o dom maior de Deus. A existência da pobreza clama aos céus. Não espere jamais ser compreendido por quem favorece a opressão dos pobres.

10. Faça da oração um antídoto contra a alienação.
Orar é deixar-se questionar pelo Espírito de Deus. Muitas vezes, deixamos de rezar para não ouvir o apelo divino que exige a nossa conversão, isto é, a mudança de rumo na vida. Falamos como militantes e vivemos como burgueses, acomodados ou na cômoda posição de juízes de quem luta.

Orar é permitir que Deus subverta a nossa existência, ensinando-nos a amar, assim como Jesus amava, libertadoramente.

Texto publicado originalmente, em 2002. 
Frei Betto, 74 anos,  é natural de Belo Horizonte. Mora há 40 anos em São Paulo-SP. Frade dominicano, é assessor de movimentos populares. Devido ao apoio a militantes de esquerda foi preso na ditadura militar, por quatro anos, de onde escreveu "Cartas da Prisão", e "Batismo de Sangue", iniciando sua carreira de escritor. É também autor de "O Que São Comunidades Eclesiais de Base", "A Mosca Azul - Reflexões sobre  o poder", "Calendário do Poder", "Fidel e a Religião",  "Paraíso Perdido -  Viagens ao mundo socialista", "Reinventar a vida", dos romances "Entre todos os homens" e "Hotel Brasil", entre cerca de 60 livros publicados.
Adepto da Teologia da Libertação, é militante de movimentos pastorais e sociais, tendo ocupado a função de assessor especial do Presidente Lula, entre 2003 e 2004. Foi coordenador e Mobilizador Social do Programa Fome Zero.
Prestou assessoria a vários governos socialistas, em especial Cuba, nas relações Igreja Católica-Estado.
Recebeu várias premiações nacionais pela sua obra literária e homenagens nacionais e internacionais pela sua luta em defesa dos direitos humanos.