"Falo tudo o que sinto, e sinto muito o que falo, pois morro
sempre que calo" .
Affonso Romano de Sant'Antanna.
"Engole
o choro. Engole sapo. Cala a boca. Cala o peito. Mas o corpo fala, e
como fala. Fala a ponta dos dedos batendo na mesa. Falam os pés
inquietos na cama. Fala a dor de cabeça. Fala a gastrite, o refluxo,
a ansiedade. Fala o nó na garganta atravessado. Fala a angústia,
fala a ruga na testa. Fala a insônia, o sono demasiado. Você
se cala, mas o falatório interno começa.
As
pessoas adoecem porque cultivam e guardam as coisas não digeridas
dentro de seus corações. O normal do ser humano seria a comunicação
e conseguir dizer o que está sentindo. Mas nem todos se habilitam
para esse difícil exercício. Nem sempre digerimos bem aquelas
pequenas coisas, como mensagens mal respondidas, as palavras que
machucam...
Você
finge que não ouviu, engole e tudo isso vai se acumulando até que
um dia enche. Esses pequenos fatos indigestos percorrem a garganta,
entram no estômago, invadem o peito, e se deixarmos, calará nossa
boca e nossa paz. O importante é não deixar acumular ou achar que
simplesmente vai aliviar com o passar dos dias.
O
tempo até tem um papel importante, mas não resolve tudo. Tentar
mostrar que tudo sempre está bem requer muita energia, o desgaste
emocional é grande. Não dá pra engolir tudo e dizer amém! Eu sei.
Também não dá pra cometer sincericídios por aí e sair vomitando
as coisas entaladas na sua garganta. Mas dá para se expressar. Tem
hora que o sentimento pede pra ser dito, entendido, descodificado,
traduzido. Tudo que ele quer é ser exorcizado pela palavra ou pela
via que lhe cabe melhor. Expressar tranquiliza a dor.
Dor
não é pra sentir pra sempre. Dor é vírgula. Então faz uma carta,
um poema, um livro. Canta uma música. Pega as sapatilhas, sapateia.
Faz uma aquarela. Faz uma vida. Faz piada, faz texto, faz quadro, faz
encontro com amigos. Faz corrida no parque. Fala pro seu analista,
fala para Deus, para o universo... se pinta de artista.
Conversa
sozinho, papeia com seu cachorro, solta um grito pro céu, mas não
se cale. Pois “se você engolir tudo que sente, no final você se
afoga”."
Por Marina de Luca.
A psicanalista Teresa Pinheiro fala sobre a depressão
e sua relação com a sociedade imediatista de consumo.
TORY OLIVEIRA
Psicanalista trabalha com o tema desde que atendeu jovens com depressão nos anos 80
Se, durante o século XIX e começo do XX, a histeria era a forma mais evidente de sofrimento, no século XXI esse espaço foi tomado pela depressão.
Expressa na ausência de vontade e de projetos futuros, não é exagero chamá-la de epidemia. Em 2000, um relatório da Organização Mundial da Saúde já previa que 15% da força de trabalho mundial abandonaria seus postos por motivos relacionados à doença.
No Brasil, o número de quadros depressivos cresceu impressionantes 705% em 16 anos. O problema atinge principalmente a juventude.
Já em meados dos anos 80, a psicanalista e pesquisadora do Núcleo de Estudos em Psicanálise e Clínica da Contemporaneidade da UFRJ, Teresa Pinheiro, 61 anos, viu o seu consultório ficar repleto de jovens deprimidos. Por telefone, a carioca conversou com Carta Educação sobre as raízes do problema na sociedade de consumo, na mudança da relação da sociedade com o tempo e sobre a importância de retomar o sentido do papel social como forma de combatê-la.
Carta Educação: Como podemos definir a depressão? Qual é a diferença, o limite, entre tristeza e depressão?
Teresa Pinheiro: Comparar com a tristeza facilita. A tristeza é um sentimento que você tem em razão de uma coisa muito objetiva: perder alguém, não poder realizar algum projeto que gostaria muito, se decepcionar com algo etc. A tristeza é uma coisa localizável, há um objeto que gera esse sentimento de tristeza. O que chamamos de depressão é algo mais ligado ao não desejo, não a um fato objetivo, mas a alguma coisa de um sentimento de não vontade, se a gente puder dizer assim. Não tenho vontade de nada, a vida parece não ter mais nenhum colorido, não há nada que atraia. São as depressões mais graves. As depressões não precisam ser tão graves, mas podem simplesmente estar expressas nessa ausência de projetos futuros e na ausência de vontade.
CE: A senhora escreveu no artigo “Depressão na contemporaneidade” que, se a histeria foi o modo de sofrimento mais evidente no fim do século XIX e início do XX, a depressão é, sem dúvida, a marca mais pregnante do fim do século XX e do nascimento do século XXI. A frase conversa com dados do Datasus, que revelam que o número de mortes relacionadas com a depressão aumentou 705% em 16 anos. Por que a depressão tornou-se o modo de sofrimento mais evidente no século XXI?
TP: Acho que cada época, cada cultura, produz os seus sintomas. Quando a sexualidade era muito cheia de tabus e proibições, evidentemente que a histeria virou uma coisa prevalente, porque era o sintoma que de alguma maneira ia contra isso e apontava para a sexualidade. Tenho impressão que a depressão não é diferente. Ela é uma expressão de resistência a uma sociedade de consumo, a uma sociedade voltada para as performances: o homem de sucesso, o homem que é capaz de brilhar na sua carreira, quando tudo vira um grande acontecimento. E, por outro lado, o mundo dava referências muito estáveis para as pessoas. Você até poderia ir contra essas referências, mas existiam normas do que eram um bom pai, um bom filho, um bom trabalhador, o que era uma pessoa de bem, que hoje não se usa mais. Existiam referenciais morais, e da instituição familiar, sem dúvida, que pareciam muito estáveis e eram dados de fora para dentro. Isso é o que me interessa. O mundo hoje foi demolindo essas categorias e as referências passaram a ser internas: cada um decide o que é bom e o que é mau. Isso não está mais fora do sujeito, está dentro dele. E há uma dimensão de solidão, no mundo atual, em razão disso, e a ausência da ideia de bem comum, e, além disso, para quem está trabalhando com o adolescente, há uma ideia fundamental no mundo de hoje que é a ideia de utilidade.
CE: Como assim?
TP: Com a ausência do bem comum, perdeu-se a noção de que você pode ser útil para alguma coisa. Você vive só para si, não tem um papel na sociedade. Você não é útil para o outro e não tem um papel social. Essa falta de noção de utilidade deprime muito. Tanto faz se você existir ou não, tanto faz tudo. Na hora que se lançam ideias comunitárias ou de bem comum, ou que se voltam a lançar ideias de que você pode ser útil para alguma coisa ou alguém, esses quadros depressivos, não todos, mas sobretudo na adolescência, melhoram muito. Acho que as manifestações de junho de 2013, com todos os problemas e críticas, deram ao jovem uma sensação de que ele pode ser útil e lutar por algo, ele pode ter um papel na sociedade. Acho que isso tinha sido banido completamente.
CE: Como podemos relacionar a questão desse narcisismo, da rede social, a senhora acha que contribuiu para as pessoas se sentirem mais isoladas ou tristes?
TP: Eu não gosto dessa leitura. Acho muito preconceituosa com o instrumento. Esta é a nova forma de comunicação do mundo. Se a gente disser que ela é ruim, fica parecendo que existia uma boa antes. Não é verdade. Ela tem prós e contras. O jovem não tem de estar feliz só na rede social, ele tem de parecer feliz no colégio, nas festas etc. Não é só a rede social que produz, isso é um colorido da cultura. E acho que a internet deu ao jovem uma sensação de que ele pode atravessar fronteiras e isso dá mesmo a sensação de mais companhia, ainda que isso seja frágil ou falso. Ele faz uma rede de conhecidos que vai trazer um colorido multicultural. Acho muito interessante e acho que é diferente. A grande mudança que ninguém estava preparando nesses procedimentos tecnológicos é a relação com o tempo. A relação com o tempo mudou, mudou a forma de estar no mundo. E nessa forma de estar no mundo, que virou muito imediatista, a dificuldade de construir projetos futuros para a garotada ficou muito grande. Já era difícil, quando a gente era garoto, ter projetos de futuro. Um menino de 18 anos não consegue se imaginar com 80. Com essa mudança completa na relação com o tempo, fica anda mais difícil, pois tudo é muito imediato. A dificuldade de se costurar um projeto futuro implica nas características narcísicas de uma depressão. Isso a escola tenta suprir de alguma forma: ensinar o garoto a ter um projeto, a fazer uma pesquisa que começa em março e termina em dezembro, isso vai dando uma costura no tempo que dá a possibilidade de ele se projetar no futuro.
CE: A depressão tem crescido entre os jovens brasileiros? Por quê?
TP: É um fenômeno no mundo inteiro, não só no Brasil. É importante buscar respostas para isso. Implicar a juventude nas relações sociais daria a ela uma nova maneira de estar no mundo e, sem dúvida, haveria uma melhora grande na questão da depressão. A outra coisa é a valorização extrema que se fez da aquisição de objetos.
O mundo do consumo incutiu a ideia de que você é aquilo que você tem. E isso é muito ruim. Porque, se você não tem, você não é nada.
Temos problemas de uma sociedade de consumo que quer vender e vai imprimir esse tipo de pensamento. Acho que, sobretudo, implicar o jovem como um fator fundamental na sociedade, na escola, no bairro, na rua, dar-lhe a ideia de que ele pode fazer a diferença seria fundamental. Agora, isso é difícil. O mundo não caminha para isso, mas, sim, caminha para cada vez mais fazer o jovem desacreditar em tudo. Uma das coisas mais graves que se faz, no Brasil muito especificamente, essa desqualificação do político, de que a política é uma coisa suja, desacreditada, dá a sensação ao jovem de que tanto faz, não há nada a fazer. Nada fará a diferença. Então nada mudará. Isso é um discurso muito depressivo. A sociedade está produzindo um texto de descrença, de que não há nada a ser feito, tudo é uma porcaria. Isso é terrível. O que mudaria isso é se a gente apostar que as pessoas podem fazer a diferença e o jovem, sobretudo por ser jovem, por ter gás e ter a capacidade de se apaixonar por ideias, pode fazer a diferença.
CE:O tema da depressão chamou muita atenção recentemente, até pela morte do ator Robin Willians, que era comediante e se suicidou. A depressão é levada a sério ou é minimizada pela sociedade?
TP: A depressão, dentro da área da saúde, vem sendo levada a sério já há algum tempo. O relatório da OMS de 2000 já previa uma epidemia, em 2020, de que 15% da população deixaria de trabalhar por conta da depressão. É altíssimo. Há um alerta no mundo de que a depressão está ganhando um tamanho muito grande. Ela pode estar, muitas vezes, vinculada ao uso de drogas entorpecentes. A questão da dependência química é muito difícil, as clínicas têm um índice de sucesso baixíssimo. Não se fala nisso justamente para não desanimar ninguém, mas o índice é baixo. Mas o grosso não necessariamente está vinculado ao álcool ou a entorpecentes, mas sim a uma enorme falta de sentido para a própria vida. Acho que tem a ver com você se sentir também uma coisa descartável. Existe algo terrível na sociedade de consumo: se você é aquilo que tem, o que você pensa, o que você acredita, é reduzido a nada. É uma coisa muito pesada. Acho até que a garotada está querendo dar as costas a isso. Acho que já estamos vendo uma queda dessa curva. Tomara, porque esse não pode ser o viés, entendeu? Você ser alguma coisa e não valer nada em comparação com o que você tem.
CE: A prescrição de medicamentos para o tratamento da depressão ainda é controversa, na área da saúde, entre psicólogos e psiquiatras?
TP: É bastante controversa. Primeiro, porque se medica exageradamente, sobretudo jovens e crianças estão sendo medicados para tudo de uma maneira absurda.
Outra coisa é que os antidepressivos fizeram muito sucesso no começo porque têm algum efeito no primeiro momento. Mas depois o efeito acaba.
Eu não tenho nada contra a medicação, acho que, em determinado momento, é necessário tirar o sujeito daquele estado em que ele está. É um nível de sofrimento enorme quando a depressão é grave. Mas o antidepressivo não fará efeito sozinho. Eu não acredito nisso. Tratar da depressão é difícil, mas lançar mão só do medicamento é inócuo. Acho que isso faz parte do imediatismo, da relação com o tempo e da sociedade do consumo. Se tomar um remédio me fizer sentir melhor amanhã, eu prefiro isso do que qualquer outra coisa. Só que acaba não dando certo. É muito complicado.
CE: A senhora acha que, hoje, existe um certo medo do sofrimento?
TP: Acho que sim. Mas não tenho dúvidas de que ninguém gosta de sofrer. Ninguém suporta a tristeza, por exemplo. Existe uma coisa de baixa tolerância à tristeza, de uma cultura de que a pior coisa do mundo é ficar ou ser triste. Porque a gente vem de uma cultura anterior em que o bonito era ser triste: as heroínas da ficção do início do século XX sofriam loucamente por amor. Isso a garotada não quer mais e eu acho que eles têm razão. Os jovens de hoje não têm nenhum apreço à ideia do sofrimento. Mas isso não pode se tornar uma baixa tolerância ao sofrimento, porque a gente vai sofrer. Não tem como passar pela vida sem sofrer.
CE: Esse jovem de classe média, que é mais protegido pela família ou pela escola, a senhora acha que tal comportamento contribui para essa baixa tolerância? TP: Sem dúvida, é uma coisa terrível. O medo que os pais têm da possibilidade de que seus filhos possam sofrer é uma coisa que dá a sensação à criança ou ao adolescente de que ele não suportará sofrer. É uma coisa tão ruim e os pais poupam os filhos de tal ordem, que, se eles tiverem de passar por isso, não vão aguentar. Quando você aceita que seu filho sofra, você dá a ele a credibilidade de que pode passar por aquilo, de que é possível suportar, ele não é feito de açúcar e não vai desmanchar. Ele vai sofrer, mas vai superar, aprender com aquilo e sair dessa situação melhor, sofrer faz parte da vida.
CE: Como trabalhar o tema da depressão na escola? TP: Acho que a escola tem de fazer mais coisas em grupo com seus alunos, que se mobilizem turmas inteiras e não apenas três ou quatro que tenham mais gás. Somos seres de sociedade e o terrível é que a sociedade de consumo, do sucesso, que exclui o perdedor, é uma sociedade em que não existem grupos. Mas isso faz parte da necessidade afetiva. A escola tem um papel fundamental e pode fazer isso de uma maneira incrível: implicar os alunos em coisas para eles mesmos.
Depressão levou Tiago a sair da sua cidade natal e se transformar em andarilho.
Foto: divulgação
Tiago Melo com um tio (de chapéu) a mãe, um amigo e policiais de Itaobim
Tiago Melo Ferreira, 40 anos, nasceu em Ijuí, cidade de 84 mil habitantes, a 395 km de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul.
Em 2014, uma depressão repentina levou Tiago, que é solteiro, a deixar a família e decidir viver como andarilho. Com poucos pertences, ele vagou por descampados, rodovias , cidades e lugarejos do país, até ser localizado no último dia 31 de janeiro, em Itaobim, no Vale do Jequitinhonha (MG).
Depressão levou Tiago a se transformar em andarilho.
Desde que desapareceu, a família procurava ter notícias dele, mas, durante todo o tempo que esteve longe de casa, não fez nenhum contato, nem deixou rastros.
Desesperada, a mãe chegou a criar uma página no facebook: “ Procura-se Tiago Melo Ferreira”.
Na última quarta-feira (31), a Polícia Militar de Itaobim foi acionada pela equipe de inteligência da instituição, que durante o serviço conseguiu localizar Tiago. Após ser identificado, ele foi levado para um hotel da cidade.
Policiais Militares fizeram contato com a mãe e ela quase não acreditou que o filho havia sido reencontrado. A mãe e um tio do rapaz se deslocaram até Itaobim para busca-lo. O mistério do desaparecimento, havia chegado ao fim. Tiago retornou com a mãe e o tio para a cidade natal dele.
Tiago nasceu em Ijuí, cidade do Rio Grande do Sul que possui cerca de 84 mil habitantes.
Alma de cigano
“Os andarilhos vivem o espaço. O tempo praticamente não existe: ontem, hoje e amanhã estão fundidos na sua percepção. É como se eles não tivessem história: seu passado não está no seu presente , o antes não se conecta com o agora), não há um prolongamento, mas uma ruptura que o lança no vácuo temporal”, explica o professor de psicologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) José Sterza Justo, um dos maiores estudiosos do tema no Brasil
“O andarilho é um viajante contumaz. Ele apenas está de passagem pelos lugares e não se expõe a marcas de espaço algum. Não cria vínculos e não se detém nas coisas ou pessoas com as quais estabelece algum contato. O máximo que faz é carregar na memória algum registro de algo que possa ter deixado uma impressão mais forte. Quando os andarilhos se referem a algum lugar como sendo melhor para sobreviver, sabem que se trata de algo passageiro. Têm consciência de que alguma assistência mais diferenciada, prestada em alguma cidade, é provisória porque depende da política local, que muda frequentemente. Isso é que é viver sem projeto, lidar com referenciais móveis, voláteis e efêmeros”, explica o psicólogo.
A subnotificação de casos de suicídio no Brasil é estimada em 40% -Foto: Sarah Torres
Enquanto países desenvolvidos conseguiram reduzir em até 20% a mortalidade por suicídio nos últimos dez anos, por meio de campanhas de prevenção,no Brasil os casos de suicídio aumentaram em 20%no mesmo período. Esse cenário pode ser ainda mais grave porque haveria uma subnotificação de casos no País, estimada em 40%, conforme alertou nesta segunda-feira (25/9/17) o psiquiatra Humberto Correa da Silva Filho.
Ele foi um dos palestrantes doDebate Público Suicídio: Como Prevenir, realizado pela Comissão de Saúde da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) dentro da campanha Setembro Amarelo.
Para reverter esse quadro, Humberto Filho (confira documento da apresentação feita pelo palestrante) e demais convidados ressaltaram a importância de campanhas de conscientização, de saber escutar o outro e de profissionais de saúde serem capacitados para lidar com o assunto.
"No Brasil o suicídioainda é tratado com tabu, como um estigma ou uma vergonha que se tem que esconder. Por isso não temos uma campanha pública de prevenção até hoje, mesmo sendo umproblema de saúde pública", afirmou o especialista, que é vice-presidente da Associação Mineira de Psiquiatria e professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Segundo Humberto Filho, morre-se mais por suicídio do que por HIV -Foto: Sarah Torres
Para o psiquiatra, é preciso que a sociedade entenda que 100% dos suicídios envolvem umadoença mental e que, portanto, não ocorre por vontade própria, para chamar atenção ou por fraqueza, como ainda preconizaria o senso comum.
“Hoje, morre-se mais por suicídio do que por HIV, mas há uma desproporção no que se investe, se ensina e se fala de um e outro”, exemplificou Humberto Filho, ao defender que a prevenção do suicídio entre de fato na agenda do País, com investimentos em pesquisas, formação de profissionais para lidar com a questão e campanhas de conscientização.
Exemplos -Apesar do quadro que expôs, o especialista apontou como positivas no Brasil iniciativas como a campanha Setembro Amarelo, que vem sendo realizada nos últimos três anos, e trouxe ao debate ações de sucesso em outros países, sobretudo aquelas que atuaram para restringir o acesso a métodos letais mais usados para o suicídio.
Escuta e formação em saúde podem prevenir casos
O deputado Antônio Jorge (centro) disse que o suicídio é a terceira causa de morte evitável no mundo -Foto: Sarah Torres
O deputado Antônio Jorge (PPS), que solicitou o debate, frisou queo suicídio é a terceira causa de morte evitável no mundo, como também mostrou estudo feito em Minas. "Não existe depressivo que não pense na morte, mas não há um protocolo sobre essa investigação do risco. É nosso papel repensar isso e ter a coragem de falar de morte", defendeu o parlamentar.
Sobre o papel da mídia na questão, o jornalista Carlos Viana afirmou que, ao contrário do que se fala, não há restrição legal a que a imprensa aborde o suicídio, e sim uma cultura que ainda trata o assunto como algo individual ou restrito ao âmbito da família.
Defendendo que o suicídio seja abordado pela mídia do ponto de vista da saúde pública, Carlos Vianna disse que o mesmo deveria ser feito sobretudo pelos jornalistas governamentais, assim como em campanhas públicas.
O publicitário Maurilo Andreas, por sua vez, sugeriu que as pessoas usem as redes sociais de forma mais solidária e prestando atenção ao outro. "As redes sociais são amplificadoras da voz que já existe. Mas não há escuta. Por que não usá-las para também ouvir o que o outro está dizendo e no privado procurar saber se está tudo bem", destacou.
Diagnóstico de depressão reduziria casos
A professora da UFMG, Maila de Castro Lourenço das Neves (apresentação), alertou, por sua vez, que o pensamento sobre o suicídio é de duas a três vezes mais prevalente em pacientes com doenças graves não psiquiátricas, a exemplo do câncer.
Maila afirmou que estudar essa população ajuda adelimitar fatores de riscos, assim como investir em formação profissional. Segundo ela, metade dos doentes graves que morrem por suicídio foi a um médico de família no mês anterior, sem que o assunto tivesse sido abordado na consulta, o que mostraria a importância da formação.
"Os médicos alegam que perguntar estimula, mas no fundo não sabem o que fazer com a resposta", avaliou. De acordo com Maila, até um quarto dos pacientes com doenças graves não psiquiátricas desenvolve quadros de depressão, agravando os riscos de suicídio.
Da mesma forma, o geriatra Gustavo Nogueira Cardoso (apresentação), do Hospital das Clínicas da UFMG, afirmou que 90% dos 120 suicídios envolvendo idosos em Belo Horizonte e na Região Metropolitana entre 2009 e 2012 envolveram algum grau dedepressão subtratada ou subdiagnosticada. "É preciso ter maior atenção à sintomatologia e oferecer um tratamento correto do idoso", destacou.
Drogas - O uso de drogas eleva em quase dez vezes a chance de suicídio, mas esse dado ainda é negligenciado. Com essa fala, o coordenador do Centro Regional de Referência em Drogas da UFMG, Frederico Duarte Garcia (apresentação), se mostrou preocupado com o fato de que o consumo de drogas, lícitas ou ilícitas, causar modificações no cérebro em formação dos adolescentes.
"É preciso reverter esse papel de exposição ao risco em vez de um papel preventivo da família", defendeu ele, que abordou o suicídio em populações especiais.
Fonte: ASCOM da Assembléia Legislativa de Minas Gerais
Depressão afeta jovens e adultos na mesma proporção, diz OMS
A depressão afeta jovens e adultos na mesma proporção, anunciou nesta terça-feira a Organização Mundial da Saúde (OMS), que também constatou um aumento de casos registrados entre os menores de idade na última década.
"O número de crianças e adolescentes, de 12 a 25 anos, que sofrem de depressão é tão alto como nos adultos. O problema, neste caso, é que a depressão não é detectada porque não há consciência de sua real incidência", afirmou em entrevista coletiva Shekhar Saxena, diretor do departamento de Saúde Mental e Abuso de Substâncias da OMS.
"Os sintomas que afetam jovens e adultos costumam ser diferentes, mas a doença é a mesma", explicou Saxena, que ressaltou que por conta deste fato a depressão não é detectada com facilidade.
De fato, a depressão, doença que afeta 350 milhões de pessoas no mundo todo, é um fenômeno global que pode se manifestar em todas as idades, regiões e em ambos os sexos.
No entanto, a mulher se mostra muito mais vulnerável, já que há consideravelmente mais casos entre as mulheres que entre os homens. "A depressão é muito mais prevalente nas mulheres, que possuem, claramente, mais tendência que os homens. A depressão pós-parto é bastante comum. De fato, ela afeta 10% das mães em países desenvolvidos e 20% nos países em desenvolvimento. Os homens, no entanto, têm mais tendência a abusar do álcool e do consumo de drogas", afirmou Saxena.
Segundo a OMS, 20 milhões de pessoas tentam se suicidar a cada ano, sendo que pelo menos 1 milhão de pessoas morrem através desta prática. De cada dois suicídios consumados, um tem a depressão como causa direta, enquanto a percentagem chega a ser superior a 50% em relação às tentativas.
A depressão é o resultado de complexas interações entre fatores sociais, psicológicos e biológicos. Há relações entre a depressão e a saúde física; assim, por exemplo, as doenças cardiovasculares também podem ser capazes de produzir depressão e vice-versa.
Além disso, as circunstâncias estressantes, como pressões econômicas, desemprego, conflitos e desastres naturais, também podem contribuir para um quadro depressivo.
No 20º aniversário do Dia Mundial da Saúde Mental, que será celebrado nesta quarta-feira, 18 de outubro, a OMS faz uma chamada aos Estados-membros para alertar que a depressão é uma doença frequente e que os governos devem se empenhar para ajudar as pessoas a aceitá-la e, principalmente, tratá-la.
De acordo com Saxena, a metade das pessoas que sofre de depressão não a reconhece e, por isso, não busca tratamento e nem um apoio psicossocial, que costumam ser tão importantes quanto os remédios.
O especialista da OMS também lembrou que este é um tema crucial, já que pelo menos 5% da população de qualquer comunidade do mundo sofreram ou sofrem de depressão. Fonte: Terra