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quinta-feira, 21 de maio de 2020

Piadas de mineiro não têm equivalentes no anedotário internacional

Uai, so serious: o mineiro, críptico, resume a condição humana.

*Gregório Duvivier
Ilustração feita em cima de foto da capa do disco "Clube da esquina", onde dois meninos estão sentados na beira de uma estrada de terra. A ilustradora colocou dois chapéus neles e um deles, segura um prato com o que parece ser bolovo.


Há quem atribua a morte da piada ao politicamente correto. Muitas anedotas eram francamente racistas, machistas e homofóbicas, às vezes tudo isso ao mesmo tempo. As piadas de português, por exemplo, caducaram. Um país que tem um presidente como o nosso não pode chamar ninguém de estúpido —quanto mais o português, que inventou um país pro qual todo o mundo quer se mudar.
Gosto das piadas de mineiro, por uma razão: não há equivalente no anedotário internacional. A piada não se baseia em estereótipo: o mineiro, críptico, resume a perplexidade da condição humana. Só brasileiro entende o mineiro. Ou melhor: nem ele. Decifra-o ou te devora: o mineiro da piada, esfinge do Brasil, fica em algum lugar misterioso entre a ingenuidade e a sabedoria, a malandragem e a pureza, Nietzsche e seu Nerso.
Tenho lugar de fala: sou mineiro por parte de avó, e por parte de filha também. Minha mulher é mineira de Araguari, o que me dá uma coleção de palavras novas por dia: menino riliento. Repara na panca. Dei uma rata. Deixa de ser custosa. Deu sorte, rabudo. Tá engastalhado. Fizeram uma sóca. Tô com cafubira.
E, além das palavras, as anedotas. Parte da graça das piadas está no fato de elas serem contadas, quase sempre, por um mineiro —o que não acontece com as outras piadas, que envelheceram mal por serem outrofóbicas. O mineiro é o judeu brasileiro: auto-irônico, matriarcal e com vocação pra se comunicar por parábolas.
Passei a madrugada trocando piada com o amigo mineiro Afonso Tostes — e acabo de perceber que talvez a anedota renasça com o advento dos áudios. Ouvi uma que não conhecia: o mineiro viu o amigo pescando e se sentou ao lado dele. O pescador, ao perceber que o amigo curioso estava ali observando a pescaria fazia mais de quatro horas, ofereceu-lhe uma varinha de pescar. Ao que ele respondeu: “Deus me livre, moço. Não tenho paciência, não, sô”.
Tenho me sentido assim em relação a tanta coisa. A vida, mesmo. Não tenho paciência, não, sô. Mas tá gostoso ficar olhando.
Gregorio Duvivier
É ator e escritor. Também é um dos criadores do portal de humor Porta dos Fundos.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Palavras do Vale só o povo da região entende

Moradores do Vale do Jequitinhonha, no nordeste de Minas, chamam a atenção com vocabulário únicoVideo da TV Record mostra riqueza cultural da região

O sotaque dos mineiros é bem conhecido, assim como o chiado dos cariocas e o érre arrastado dos paulistas do interior. Mas, os mineiros do Vale do Jequitinhonha, além do sotaque, falam palavras que só quem é de lá entende. 

Veja com o repórter Luiz Gustavo.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Dicionário é registro da cultura do Jequitinhonha


Obra busca impedir que expressões se percam com a modernidade
Publicado no Jornal OTEMPO em 01/05/2013
JOHNATAN CASTR

O
FOTO: DENILTON DIAS
Livro da professora Carolina Antunes é imersão na cultura do vale
Foi durante inúmeros dedos de prosa que teve em fazendas, mercados e feiras pelo Vale do Jequitinhonha que a professora aposentada da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Carolina Antunes, percebeu que tinha matéria-prima suficiente para um novo projeto. No "Dicionário do Dialeto Rural no Vale do Jequitinhonha", lançado ontem, em evento na universidade, a professora reuniu mais de mil palavras usados pela população local, apresentando seus significados, formas de pronúncia e origens.

"É uma imersão na cultura da região. Nós analisamos as conversas de modo a mostrarmos não só os aspectos linguísticos, mas também os aspectos culturais", conta a professora, que nasceu em Turmalina, no Alto Jequitinhonha.

A busca pelo "jequitinhonhês", diz ela, durou mais de 20 anos. Durante outros trabalhos acadêmicos, ela reuniu histórias orais e algumas escritas, de lendas a poemas e causos regionais.

"Tínhamos muitas histórias já transcritas desde a década de 1980, mas voltamos nelas para examinar melhor. A partir de 2002, tornamos a viajar para completar o material", afirma.

No modo simples com que o povo do Vale se comunica, a professora percebeu influências e misturas diversas. "Acredito que tenha uma influência do Nordeste. Mas a cultura do Vale do Jequitinhonha é híbrida. E, nesse período de levantamento, havia uma mistura. As zonas rurais já tinham escolas e televisão", avalia.

O dicionário traz ilustrações e mapas dos municípios pelos quais a professora e sua equipe passaram.

História. Para Carolina, em breve, essas palavras e expressões podem desaparecer até mesmo das regiões rurais do Jequitinhonha. Com uma modernização e uma urbanização cada vez mais presentes na região, a professora vê, na obra, uma maneira de as gerações futuras conhecerem um pouco da cultura de seus antepassados. "O que a gente tem tentado mostrar é que esse acervo é uma variante da língua, tão boa quanto aquela que se aprende na escola".

No próximo dia 8, o dicionário, vendido pela Editora UFMG a R$ 65, será lançado em Diamantina, na Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri.






DICIONÁRIO DO DIALETO RURAL NO VALE DO JEQUITINHONHA


“Divera, esses meninos só ficam brigando com os zanzotos.”


“Vai banhar cedo porque essa noite vamos ter que ribuçar.”


“Esses meninos vivem de cunlundrio na rodagem.”


livro
As frases acima são compostas de expressões comuns na cultura de Rubim e região. 
Estigmatizado como uma região de extrema pobreza e esquecido pelo poder público, a cultura do Vale do Jequitinhonha vem se sobressaindo aos paradigmas e se mostrando muito rica a estudiosos da comunicação Social. No mês passado a professora Caroline Antunes lançou o DICIONÁRIO DO DIALETO RURAL NO VALE DO JEQUITINHONHA na UFMG, em Belo Horizonte.
A obra é resultado de estudo do vocabulário da língua falada na zona rural de municípios do Vale do Jequitinhonha, desenvolvido a partir da coleta de dados feita no período entre 1980 e 2000, sob a coordenação de Carolina Antunes, professora aposentada da Fale. 

Alguns verbetes foram recolhidos em conversas com a população rural, em mercados e feiras; outros, extraídos de estudos sobre o Vale. Na tentativa de equilibrar a presença de todas as regiões do Jequitinhonha, foram necessários mais de dez anos para chegar ao produto final. De acordo com Carolina Antunes, a pesquisa considerou também dicionários da língua portuguesa, um conjunto de glossários de outras regiões do país, além de pesquisas afins.
Com mais de mil verbetes, o dicionário não se limita a dar o significado da palavra; ele contempla também todas as informações importantes à compreensão de cada verbete: traz o léxico, apresenta em negrito a forma como é pronunciada no Vale do Jequitinhonha, informa se está ou não dicionarizado, se é datado e se há informação quanto à etimologia.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Professora da UFMG lança dicionário com verbetes do Vale do Jequitinhonha


Com mais de mil verbetes, o dicionário não se limita a dar o significado da palavra; ele contempla também todas as informações importantes à compreensão de cada verbete:

Foto: divulgação  Professora da UFMG lança dicionário com verbetes  do Vale do Jequitinhonha
O Dicionário do dialeto rural no Vale do Jequitinhonha terá duas sessões de lançamento.
“Bom sem base é poder encontrar os amigos para um dedo de prosa. O candeeiro, o fifó ou a lamparina poderão alumiar e lhe mostrar o caminho.” Essa frase, composta de expressões comuns na cultura do Nordeste de Minas, exemplifica a variante linguística apresentada no Dicionário do dialeto rural no Vale do Jequitinhonha, que será lançado este mês no Centro de Memória da Faculdade de Letras da UFMG.


A obra é resultado de estudo do vocabulário da língua falada na zona rural de municípios do Vale do Jequitinhonha, desenvolvido a partir da coleta de dados feita no período entre 1980 e 2000, sob a coordenação de Carolina Antunes, professora aposentada da Fale-Faculdade de Letras da UFMG.

Alguns verbetes foram recolhidos em conversas com a população rural, em mercados e feiras; outros, extraídos de estudos sobre o Vale.

Na tentativa de equilibrar a presença de todas as regiões do Jequitinhonha, foram necessários mais de dez anos para chegar ao produto final.

De acordo com Carolina Antunes, a pesquisa considerou também dicionários da língua portuguesa, um conjunto de glossários de outras regiões do país, além de pesquisas afins.


Com mais de mil verbetes, o dicionário não se limita a dar o significado da palavra; ele contempla também todas as informações importantes à compreensão de cada verbete: traz o léxico, apresenta em negrito a forma como é pronunciada no Vale do Jequitinhonha, informa se está ou não dicionarizado, se é datado e se há informação quanto à etimologia.


Outros sentidos



Segundo Carolina Antunes, nem sempre o sentido conferido ao verbete nas comunidades rurais do Vale do Jequitinhonha coincide com o registrado pelos dicionários da Língua Portuguesa, sem contar que também há muitos verbetes inéditos.

Em razão disso, para auxiliar na compreensão, todos os termos trazem algum exemplo concreto de uso, a partir das situações em que tais palavras e expressões foram empregadas nas comunidades.
  
“À preocupação de se registrar o uso efetivo do sistema linguístico nesse período e naquele local determinados subjaz o que se faz não só por gosto pessoal e interesse pela apreensão de saberes veiculados nas histórias locais e regionais, mas também, e principalmente, por acreditar na necessidade de que seja ampliada a visão de informações linguísticas e culturais da/na Língua Portuguesa com base na análise de uma variante linguística pouco considerada”, destaca a professora na apresentação da obra.
  

Cultura oral

O projeto está ligado às raízes e à trajetória acadêmica da autora, que saiu de Turmalina, cumpriu parte dos seus estudos em Diamantina e recebeu incentivo da Faculdade de Letras da UFMG – tanto durante a formação como na docência no ensino superior – para trabalhar com sua região de origem.
  
Na avaliação da professora, a obra interessa aos especialistas em linguagem, mas também a qualquer pessoa leiga, uma vez que se destina à leitura, à divulgação e ao diálogo. “Projetos como esse promovem a cultura oral do Vale do Jequitinhonha e valorizam os saberes verbais”, justifica Carolina Antunes.

Lançamento 

O Dicionário do dialeto rural no Vale do Jequitinhonha terá duas sessões de lançamento. A primeira, no dia 30 de abril, às 17h, em Belo Horizonte, no Centro de Memória da Faculdade de Letras (2º andar, ao lado da biblioteca), no campus Pampulha.
 

O segundo evento está marcado para 8 de junho, também às 17h, em Diamantina, no Anfiteatro da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri, campus I.

Texto de Samuel Quintero, aluno do Curso de Comunicação da Fafich e bolsista do Suporte de Comunicação do Polo de Integração da UFMG no Vale do Jequitinhonha

sábado, 6 de abril de 2013

UFMG publica dicionário do dialeto rural do Vale do Jequitinhonha


O Dicionário da pesquisadora Carolina Antunes, natural de Turmalina, reúne mais de mil verbetes, muitos coletados pelo projeto em conversas com a população rural; outros extraídos de estudos sobre o Vale do Jequitinhonha


O Dicionário do Dialeto Rural no Vale do Jequitinhonha terá duas sessões de lançamento. A primeira, no dia 30 de abril, às 17h, em Belo Horizonte, no Centro de Memória da Faculdade de Letras – FALE/UFMG.

O segundo lançamento será realizado no dia 8 de junho, também às 17h, emDiamantina, no Anfiteatro da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri – UFVJM, Campus I.

Em Diamantina o lançamento integra a programação da Jornada Lexical.

Pesquisa

Resultado de um estudo do vocabulário da língua falada na zona rural de municípios do Vale do Jequitinhonha, o trabalho coordenado pela professora Carolina Antunes, docente aposentada da FALE, foi desenvolvido no período correspondente às décadas de 1980 a 2000.

O Dicionário reúne mais de mil verbetes, muitos coletados pelo projeto em conversas com a população rural; outros extraídos de estudos sobre o Vale.

Segundo Carolina Antunes, todos os verbetes trazem algum exemplo concreto de uso, a partir das situações em que tais palavras e expressões foram usadas. Na avaliação da professora, natural de Turmalina, no Vale do Jequitinhonha, “projetos como esse promovem a cultura oral do Vale e valorizam os saberes”.

“Bom sem base é poder encontrar os amigos para um dedo de prosa. O candeeiro, o fifó ou a lamparina poderão iluminar e lhe mostrar o caminho”.

Lançamento do Dicionário do Dialeto Rural no Vale do Jequitinhonha

Belo Horizonte
30 de abril – 17h – Centro de Memória – Faculdade de Letras –2º andar – UFMG – Campus Pampulha

Diamantina
8 de junho – 17h – Auditório Campus I – UFVJM –Rua da Glória, 187, na Semana de Integração Ensino, Pesquisa e Extensão da  UFVJM

Fonte: UFMG/Polo Jequitinhonha

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

É presidenta, sim!

É presidenta, sim! O Brasil ainda está longe da feminização da língua ocorrida em outros lugares. Dilma Rousseff adotou a forma “presidenta”, que assim seja chamada.

Se uma mulher e seu cachorro estão atravessando a rua e um motorista embriagado atinge essa senhora e seu cão, o que vamos encontrar no noticiário é o seguinte: “Mulher e cachorro são atropelados por motorista bêbado”. Não é impressionante? Basta um cachorro para fazer sumir a especificidade feminina de uma mulher e jogá-la dentro da forma supostamente “neutra” do masculino.

Se alguém tem um filho e oito filhas, vai dizer que tem nove filhos. Quer dizer que a língua é machista? Não, a língua não é machista, porque a língua não existe: o que existe são falantes da língua, gente de carne e osso que determina os destinos do idioma. E como os destinos do idioma, e da sociedade, têm sido determinados desde a pré-história pelos homens, não admira que a marca desse predomínio masculino tenha sido incrustada na gramática das línguas.

Somente no século 20 as mulheres puderam começar a lutar por seus direitos e a exigir, inclusive, que fossem adotadas formas novas em diferentes línguas para acabar com a discriminação multimilenar.

Em francês, as profissões, que sempre tiveram forma exclusivamente masculina, passaram a ter seu correspondente feminino, principalmente no francês do Canadá, país incomparavelmente mais democrático e moderno do que a França.


Em muitas sociedades desapareceu a distinção entre “senhorita” e “senhora”, já que nunca houve forma específica para o homem não casado, como se o casamento fosse o destino único e possível para todas as mulheres. É claro que isso não aconteceu em todo o mundo, e muitos judeus continuam hoje em dia a rezar a oração que diz “obrigado, Senhor, por eu não ter nascido mulher”.

Agora que temos uma mulher na Presidência da República, e não o tucano com cara de vampiro que se tornou o apóstolo da direita mais conservadora, vemos que o Brasil ainda está longe da feminização da língua ocorrida em outros lugares.

Dilma Rousseff adotou a forma presidenta, oficializou essa forma em todas as instâncias do governo e deixou claro que é assim que deseja ser chamada.

Mas o que faz a nossa “grande imprensa”? Por decisão própria, com raríssimas exceções, como CartaCapital, decide usar única e exclusivamente presidente.

E chovem as perguntas das pessoas que têm preguiça de abrir um dicionário ou uma boa gramática: é certo ou é errado? Os dicionários e as gramáticas trazem, preto no branco, a forma presidenta. Mas ainda que não trouxessem, ela estaria perfeitamente de acordo com as regras de formação de palavras da língua.

Assim procederam os chilenos com a presidenta Bachelet, os nicaraguenses com a presidenta Violeta Chamorro, assim procedem os argentinos com a presidenta Cristina K. e os costarricenses com a presidenta Laura Chinchilla Miranda. Mas aqui no Brasil, a “grande mídia” se recusa terminantemente a reconhecer que uma mulher na Presidência é um fato extraordinário e que, justamente por isso, merece ser designado por uma forma marcadamente distinta, que é presidenta.

O bobo-alegre que desorienta a Folha de S.Paulo em questões de língua declarou que a forma presidenta ia causar “estranheza nos leitores”. Desde quando ele conhece a opinião de todos os leitores do jornal? E por que causaria estranheza aos leitores se aos eleitores não causou estranheza votar na presidenta?

Como diria nosso herói Macunaíma: “Ai, que preguiça…” Mas de uma coisa eu tenho sérias desconfianças: se fosse uma candidata do PSDB que tivesse sido eleita e pedisse para ser chamada de presidenta, a nossa “grande mídia” conservadora decerto não hesitaria em atender a essa solicitação. Ou quem sabe até mesmo a candidata verde por fora e azul por dentro, defensora de tantas idéias retrógradas, seria agraciada com esse obséquio se o pedisse.

Estranheza? Nenhuma, diante do que essa mesma imprensa fez durante a campanha. É a exasperação da mídia, umbilicalmente ligada às camadas dominantes, que tenta, nem que seja por um simples – e no lugar de um –a, continuar sua torpe missão de desinformação e distorção da opinião pública.

Escrito por Marcos Bagno, professor de Linguística na Universidade de Brasília.
Publicado originalmente na revista Carta Capital

domingo, 1 de agosto de 2010

Peça de teatro se inspira no imaginário do Vale do Jequitinhonha

Espetáculo se inspira no imaginário do Vale do Jequitinhonha
Priscilla Duarte e Cristiano Peixoto se apresentam no Galpão
O espetáculo A casa de lá está de volta a BH.
Dirigidos por Ricardo Gomes, os atores Cristiano Peixoto, Priscilla Duarte e Amanda Prates contam a história de um casal que se conhece na infância e compartilha experiências até a velhice. A peça foi apresentada no Rio de Janeiro e em São Paulo.

O drama retrata a vida – com seus nascimentos, mortes, encontros e despedidas.

“Esse casal representa todos os casais. A história deles seria compreendida mesmo sem palavras. Então, o texto entra num lugar mais simbólico”, explica Cristiano Peixoto.

Foi ele quem sugeriu a pesquisa sobre o tema por meio do projeto Cartografias do sertão.

“É a idéia de uma viagem de imersão para a criação do espetáculo”, explica o ator. O destino foi o Vale do Jequitinhonha.

“No teatro, a gente sempre fala de um processo em que ocorra a mudança, o deslocamento do olhar, a transformação atuante que também afeta o espectador. O deslocamento físico era condição interessante para o deslocamento do olhar”, conta Peixoto.

Teatrólgo Brook A idéia foi inspirada na experiência do diretor inglês Peter Brook. Em 1972, ele foi para a África em busca da essência da comunicação no teatro. “O objetivo era compreender por onde passam as linhas de contato com a plateia”, lembra Cristiano.

Ou seja: saber como artista e público que não falam a mesma língua conseguem se entender.

A experiência de Brook funcionou, o projeto Cartografias do sertão também.

“A gente fala a mesma língua do Vale do Jequitinhonha, mas há diferença entre o urbano e o rural. Algumas comunidades lá estão bem à parte de questões como a globalização”, lembra o ator brasileiro.

Na viagem, o grupo conheceu dois contadores de histórias: mestre Antônio, na cidade de Minas Novas, e dona Zefa, em Araçuaí. Mesmo separados por quase 100 quilômetros de distância, ambos, curiosamente, narraram a mesma história: a “releitura” do mito de Adão e Eva.

“Na Bíblia, esse trecho tem pouco espaço, mas os dois levaram uma hora para contá-lo. Há detalhes malucos: não é maçã, é uma romã, supercoerente para o Vale. Eva faz café para Adão e, na versão deles, a serpente bate palma”, revela Peixoto.

Depois de um mês no Vale do Jequitinhonha, a trupe voltou a Belo Horizonte em janeiro deste ano.

Inspirados nessa viagem e também na obra de Guimarães Rosa, atores e diretor finalizaram a dramaturgia de "A casa de lá".

A CASA DE LÁ
Sexta e sábado, às 21h; domingo, às 19h.
Galpão Cine Horto, Rua Pitangui, 3.613 - Horto - BH
Fone: (31) 3481-5580.
Preços ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia).

terça-feira, 30 de junho de 2009

ORIGEM DA EXPRESSÃO MINEIRA UAI
O berço da expressão popular dos minei­ros UAI.
Segundo o odontólogo Dr. Sílvio Carneiro e a professora Dorália Galesso, foi o presidente Juscelino Kubitschek que os in­centivou a lhe pesquisar a origem. Depois de exaustiva busca nos anais da Arquidiocese de Diamantina e em antigos arquivos do Es­tado de Minas Gerais, Dorália encontrou explicação provavelmente confiável.
Os Inconfidentes Mineiros, patriotas, mas considerados subversivos pela Coroa Portu­guesa, comunicavam-se através de senhas, para se protegerem da polícia lusitana. Como conspiravam em porões e sendo quase todos de origem maçônica , recebiam os compa­nheiros com as três batidas clássicas da Ma­çonaria nas portas dos esconderijos. Lá de dentro, perguntavam: quem é ? E os de fora respondiam : UAI - as iniciais de União, Amor e Independência. Só mediante o uso dessa se­nha a porta seria aberta aos visitantes.
Conjurada a revolta, sobrou a senha, que acabou virando costume entre as gentes das Alterosas. Os mineiros assumiram a simpática palavrinha e, a partir de então, a incorpora­ram ao vocabulário quotidiano, quase tão indispensável como tutu e trem.
Uai, sô!
A materia acima saiu no Jornal Correio Brasiliense
Contribuição de Alânderson Silveira Machado, berilense e morador de BH, ator e escritor.