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domingo, 24 de maio de 2020

Agronegócio produz vírus, pandemia e mortes de gente e da natureza

Os latifundiários da pandemia, por Silvia Ribeiro

Para a autora, neste momento de crise é necessário questionar profundamente todo o sistema alimentar do agronegócio.

Tradução: Luiza Mançano
A declaração de pandemia da covid-19 colocou tudo de cabeça pra baixo. Mas nem tanto para que os governos questionem as causas reais que levaram ao surgimento do vírus e ao fato de que, enquanto supostamente trabalham para contê-lo, outros vírus e pandemias continuem surgindo.
Existem três causas, concomitantes e complementares, que produziram todos os vírus infecciosos que se propagaram mundialmente nas últimas décadas, como a gripe aviária, a gripe suína, as cepas de coronavírus, entre outras. A principal é criação industrial e extensiva de animais, principalmente frangos, perus, porcos e vacas. A isto soma-se o contexto geral da agricultura industrial, na qual 75% da terra agrícola de todo o planeta é utilizada para a criação de animais em massa, principalmente para criação de pastos com essa finalidade. A terceira é o crescimento descontrolado da mancha urbana e das indústrias que a alimentam e que por ela subsistem.
As três juntas são a causa do desmatamento e da destruição de habitats naturais em todo o mundo, fato que também implica a expulsão das comunidades indígenas e camponesas que vivem nessas áreas. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), mundialmente, a expansão da fronteira agropecuária é responsável por 70% do desmatamento, mas em países como o Brasil, esta expansão é responsável por 80% do desmatamento.
No México, vimos como se originou a gripe suína em 2009, à qual colocaram o nome asséptico de gripe H1N1 para desvinculá-la do porco, sua origem. O vírus se originou na fábrica de porcos Granjas Carroll, em Veracruz, então co-propriedade da maior produtora de carne a nível global, a Smithfield. Esta empresa foi comprada em 2013 por uma filial da megaempresa chinesa WH Group, atualmente a maior produtora de carne suína do mundo, ocupando o primeiro lugar neste ramo na China, nos Estados Unidos e diversos países europeus.
Ainda que o vírus da gripe suína não fosse um coronavírus, a forma se converteu em uma epidemia/pandemia é semelhante a outras doenças zoonóticas (isto é, de origem animal). Enormes quantidades de animais de criação confinados, vacinados e imunodeprimidos fazem com que o vírus tenha mutações de forma mais rápida. Esses animais consomem antibióticos e antivirais continuamente, além de estarem expostos – no ambiente e na alimentação – a diversos pesticidas desde o nascimento até o matadouro, para que engordem mais rápido e não adoeçam, em condições absolutamente insalubres para qualquer ser vivo.
Como explica Rob Wallace, biólogo evolutivo e filogéografo do Instituto de Estudos Globais da Universidade de Minnesota, que estudou por mais de 15 anos o tema das epidemias do último século, os criadouros animais são o local perfeito para a mutação e reprodução dos vírus. 
Os vírus podem passar de uma espécie a outra e embora possam se originar em espécies silvestres de aves, morcegos e outras, é a destruição dos habitats naturais que os empurra para fora de suas áreas, onde as cepas dos vírus estavam controladas dentro de sua própria população. Dali passam às áreas rurais e depois às cidades. Mas é nos imensos criadouros animais onde há maiores chances de mutação dos vírus, que logo afetarão os seres humanos pela contínua interação entre milhares ou milhões de animais, diversos tipos de cepas de vírus e contato com humanos que entram e saem dessas instalações. O aumento da interconexão dos transportes globais, tanto de pessoas como de mercadorias, inclusive de animais, faz com que os vírus mutantes se desloquem rapidamente a muitos pontos do planeta.
Um aspecto complementar: como demonstrou Grain, o sistema alimentar do agronegócio é responsável por quase metade dos gases de efeito estufa que produzem a mudança climática, mudança que também leva à migração das espécies, inclusive de mosquitos que podem transmitir alguns vírus. A criação intensiva de animais, especialmente, é responsável pela maior parte destas emissões (Grain, 2017)
Claro que ainda que possamos conhecer o que originou o vírus, isto não muda o fato de que ele existe e tem consequências agora, e que é importante cuidar das pessoas, sobretudo dos mais vulneráveis, por uma série de fatores.  Ainda assim, não custa recordar que, segundo os dados da Organização Mundial da Saúde, 72% das mortes no mundo são causadas por doenças não transmissíveis, várias delas diretamente relacionadas diretamente ao sistema alimentar do agronegócio, como doenças cardíacas, hipertensão, diabetes, obesidade, câncer do aparelho digestivo, má nutrição.
Mas o enfoque na ação emergencial e a busca de supostas vacinas como se a pandemia pudesse ser controlada por meios técnicos, esconde suas causas e promove a perpetuação do problema, porque virão outras epidemias ou pandemias enquanto as causam continuarem intactas. Em alguns países, as indústrias agroalimentares, principais produtoras dos vírus, são beneficiadas pelas epidemias, inclusive, por serem consideradas pelos governos como “indústrias básicas para a sobrevivência”. Isto é uma falácia, já que é a produção camponesa, indígena e de pequena escala, inclusive a urbana, que alimenta 70% da humanidade. É o agronegócio quem nos dá comida lixo e cheia de agrotóxicos, que nos adoece e enfraquece frente às pandemias, ao mesmo tempo em que continua expropriando terras camponesas e áreas naturais (ETC, 2017).
Na emergência, surgem outros negócios lucrativos, tanto para as empresas como para os bancos. Algumas, como as empresas farmacêuticas, empresas de materiais para proteção sanitária, de vendas online e de produção de entretenimento, enriquecem de forma ridícula com a pandemia. Outras empresas tem perdas -- que transferem às e aos trabalhadores e à sociedade de muitos modos, inclusive no aumento dos preços --, mas serão as primeiras a se beneficiar com os subsídios governamentais. Sob o discurso de que há que resgatar “a economia”, a maioria dos governos não vacila em favorecê-las antes dos sistemas de saúde pública devastados pelo neoliberalismo, ou de milhões de pessoas que sofrem com a pandemia, não só por causa do vírus, mas porque não tem casa, ou água, ou alimentos, ou perderam seu trabalho, ou trabalham irregularmente e sem previdência social, não tem acesso a diagnósticos ou médicos, ou estão em caravana de imigrantes ou refugiados em algum acampamento, amontoados em albergues ou na rua.
Neste contexto, também surgem formas de solidariedade a partir de baixo. Junto com ela, é necessário enraizar um questionamento profundo de todo o sistema alimentar do agronegócio, e uma valorização profunda e solidária de todas e todos que a partir de suas hortas e comunidades nos alimentam e previnem as epidemias.  
*Silvia Ribeiro é integrante do Grupo de Ação sobre Erosão, Tecnologia e Concentração (ETC)
Edição: Luiza Mançano
Publicado no Brasil de Fato | São Paulo (SP) |

sexta-feira, 22 de março de 2019

Água, um direito humano negado até como direito animal..


A Água é um elemento essencial à vida humana e à de todas as espécies.

Nos Vales do Jequitinhonha,  Mucuri e norte de Minas, centenas de comunidades são abastecidas com caminhões pipas.


A Água é o recurso mais importante para garantir a vida na Terra. Sem ela, nada sobrevive. 

Por esse motivo, desde 1992, comemora-se, no dia 22 de março, o Dia Mundial da Água.

Essa data é marcada por eventos que visam conscientizar a população, o poder público e as empresas da necessidade de economizar e tratar adequadamente este precioso bem.

Nosso corpo humano é formado por cerca de 70% de água. Diversas plantas têm mais de 90% de água em sua estrutura física.

Ela é essencial para a vida de todas as espécies, sendo responsável pelo transporte de nutrientes em nosso organismo, regulador da temperatura corporal, participa de todas as reações químicas no nosso organismo.

No entanto, mesmo sabendo de todos esses benefícios proporcionados por esse recurso natural, nós, humanos, através de atividades econômicas, industriais, na silvicultura, mineração e agropecuária, alteramos drasticamente a quantidade e, principalmente, a qualidade da água disponível na Terra.

A poluição das águas é causada por lançamento de efluentes industriais, agrícolas, esgoto doméstico e resíduos sólidos nos cursos d´água, atingindo não só ás águas superficiais como a subterrânea, o lençol freático.

A água potável é um direito humano que é desrespeitado, todos os dias, principalmente em regiões semiáridas como o Vale do Jequitinhonha, Mucuri e norte de Minas. 

Como diz Frei Betto, 

“Falar em direitos humanos na América Latina é luxo. Aqui, ainda lutamos por direitos animais, pois comer, beber, abrigar-se das intempéries, educar a cria, são coisas de bicho”.

As causas são diversas. Tanto advindas das atividades econômicas, da deficiente gestão pública e privada dos recursos hídricos e de abastecimento humano, quanto da falta de consciência ambiental.


Segundo dados da ONU (Organização das Nações Unidas), cerca de um bilhão de pessoas em todo o mundo não têm acesso a um abastecimento adequado. 

Ou seja, não têm à disposição pelo menos 20 litros diários de água a uma distância de até um quilômetro.

Os usos e abusos da água são feitos por grandes corporações financeiras, industriais e agronegócios. Cerca de 94% da água é consumida por indústrias e agronegócios. A financeirização dos serviços básicos de abastecimento de água e esgoto levam à privatização das concessionárias desses serviços. Somente 6% sobram para o consumo doméstico, comercial e serviços, setores que mais pagam pelo consumo de água potável e saneamento básico.  



Alguns indicadores da região semiárida mineira:

- Cada vez mais comunidades são abastecidas por caminhões-pipa. Como as políticas públicas não atendem a todas as necessidades os moradores da região norte e nordeste de Minas fretam esses caminhões ao preço de R$ 200 a R$ 250, mesmo tendo direito à água fornecida pela Copanor ou Copasa. Ou apelam para a solução imediatista de abertura de poços artesianos que afetam diretamente o lençol freático;


- Em Chapada do Norte, no Médio Jequitinhonha, na cabeceira do rio Capivari, há uma barragem para irrigar plantação de eucalipto, impedindo que a água chegue à cidade para abastecer uma população de mais de 3 mil pessoas;

- Em Itinga, no Médio Jequitinhonha, o rio Jequitinhonha corta a cidade, mas ainda há problemas de abastecimento de água nas residências dos dois lados. A Copanor é responsável pelos serviços;

- O rio Salinas, no norte de Minas, afluente da Bacia do Jequitinhonha, está definhando com um sistema de abastecimento de água retirando mais volume do que é permitido e suportável, com um tratamento de água de esgoto deficiente. A Copasa justifica, mas não pede desculpas: cobra por serviços não prestados. Ações judiciais populares exigem ressarcimento por cobranças indevidas;

- O Rio Jequitinhonha, desde a construção da Barragem de Irapé, vem apresentando uma contaminação de suas águas, com o aparecimento de peixe boiando ou com apresentação de tumores, segundo denúncia de pescadores do Baixo Jequitinhonha;

- Centenas famílias de atingidos pela Barragem de Irapé e Setúbal ainda lutam para ver reconhecidos seus direitos, embora tenham passado mais de 10 nos, após a construção das obras. Mais ainda: as populações ribeirinhas à jusante, ou abaixo, da Barragem de Irapé cobram investimentos para minimizar os grandes impactos causados no desparecimento de praias e vazantes, contaminação de peixes;

Populações ribeirinhas denunciam a ocorrência de doenças derivadas da contaminação da água com sintomas de coceiras e alterações na pele de famílias moradores à beira-rio, devido à grande quantidade de agrotóxicos utilizados nas plantações de café, banana e eucalipto, carreados para as águas dos córregos e rios;

- Os rios dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri, e as populações que dependem deles, direta ou indiretamente, vêem em sua volta aviões das empresas de plantio de eucalipto espalhando produtos agrotóxicos, contaminando as águas, o solo e as plantações dos agricultores familiares e vazanteiros;

- o projeto de mineração Vale do Rio Pardo, da empresa Sul Americana de Metais S.A (SAM), pretende construir um Mineroduto, da região de Grão Mogol, até o porto de Ilhéus, com uma extensão de 482 km, utilizando 14% do volume da água da Barragem de Irapé, no rio Jequitinhonha.

A empresa SAM já tem a outorga, ou seja, o direito de uso, de 6.200 mm³/hora de água da Barragem de Irapé.


Mineroduto é um método tecnológico de transporte de minério  que deveria ser abolido. 

Em regiões semiáridas, principalmente, pois não tem como tirar água, onde ela já falta, onde todos os anos milhares de famílias sofrem com a seca, não tendo água nem sequer para beber.

- Grandes projetos sempre geram grandes impactos ambientais, mas não podemos deixar de registrar o Projeto de Transposição do Rio São Francisco que foi pensado por Pedro II e somente realizado pelo Presidente Luis Inácio Lula da Silva que foi muito contestado pelo movimento ambientalista.

Hoje, o grande debate gira em torno da barragens de rejeitos dos projetos de mineração, após a tragédia de Mariana e Brumadinho que deixou centenas de mortos e matou as Bacias do Rio Paraopeba e Rio Doce. Mas, a barragem é só um dos quesitos da produção minerária. 



Algumas propostas dos movimentos em defesa da água:

- Que o Estado e municípios invistam na educação ambiental, envolvendo as escolas e toda a sociedade, para que a água seja tratada como bem essencial à vida e não como mercadoria para dar lucros a uns poucos;

- Efetuar um grande projeto de recuperação de nascentes, capões, grotas e minas d´água, investindo principalmente em microbacias como a experiência exitosa do Movimento SOS Fanado, na região de Minas Novas, Turmalina, Capelinha e Angelândia, no Alto Jequitinhonha.

- Obrigar as grandes empresas de mineração e da silvicultura, que são as que mais utilizam da água para a produção, a fazerem investimentos em um programa para o plantio de 30 milhões de árvores e recuperação de 50 mil nascentes, em Minas, como propõe o Programa Plantando o Futuro, da CODEMIG;

- Proibição de instalação de qualquer mineroduto em Minas Gerais;

- Proibição de fato das barragens de rejeitos industriais – a legislação estadual já foi aprovada - punindo rigorosamente as empresas que descumprirem normas de segurança e de qualidade de vida das comunidades.


- Precisamos evitar tragédias pequenas, médias ou grandes como a de Mariana e a de Brumadinho que ceifou a vida diretamente de centenas muitas pessoas e famílias, e indiretamente de centenas de milhares de habitantes, da Bacia do Rio Paraopeba e do Rio Doce.


- Mais ainda: o uso e abuso da água como insumo da mineração deve ser regulado com legislação, licenciamento e fiscalização ambiental rígidos e sob controle social;

- Estabelecer políticas públicas para usos e reusos da água;

- Os órgãos de serviços de abastecimento de água e esgoto ( Copasa, COPANOR e SEMAEs devem fornecer serviços de tratamento de esgoto sanitário, ofertando água potável, de boa qualidade e baixas tarifas, cobrando somente aqueles serviços efetivamente realizados;

- Os municípios precisam tomar posições de cobranças rigorosas das concessionárias de água e esgoto, denunciando desrespeito às cláusulas contratuais à ARSAE - Agência Reguladora de Serviços de Água e Esgoto Sanitário de Minas Gerais;

- Apoiar iniciativas como a da população de Salinas que se organiza e se une em torno do Projeto de Justiça Sócio-Ambiental em que cobra­ da Copasa aquilo a que tem direito.

- Adotar tecnologias de baixo impacto ambiental para preservar fontes na captação de água é fundamental. As barraginhas, pequenas barragens de terra permitem a infiltração e retenção das águas de chuvas, tornando o solo agricultável. É a tecnologia mais apropriada para abastecer o lençol freático. Poço artesiano é o lado inverso: caro, anti-ambiental, provisório, detonador do lenço freático. 

- Desenvolver um programa do produtor de água, incentivando aos produtores rurais e agricultores familiares a preservarem áreas de nascentes, de recarga.




sexta-feira, 8 de junho de 2018

Deputados federais de Minas votam contra a população rural


Deputados de Minas chegam a votar 100% das vezes contra população rural

Site mostra a posição de deputados federais sobre as leis de prejuízo à população rural e degradação do meio ambiente.

Brasil de Fato | Belo Horizonte (MG)
,
O site Ruralômetro é um projeto da ONG Repórter Brasil / Brasil de Fato MG

Como o seu deputado está agindo nas questões ambientais? O site Ruralômetro fez um levantamento da posição dos deputados federais sobre projetos que têm impacto no meio ambiente, nas comunidades tradicionais e sobre os trabalhadores rurais. Quanto mais prejudicial à população do campo e ao ambiente, mais “quente” o deputado fica, como um termômetro. De Minas Gerais são sete deputados com uma febre de mais de 40°!

Uma das situações mais graves é a do deputado federal Marcos Montes (PSD), da cidade de Sacramento, com 40,6°. Ele é autor do Projeto de Lei 227, que altera o processo de demarcação de terras indígenas, e solicitou uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar a atuação dos órgãos que fazem demarcações, ações avaliadas como negativas. Além disso, dos dez projetos de lei de cunho rural que Marcos Montes votou, em nove teve uma postura prejudicial aos trabalhadores rurais.

Já o deputado federal Mauro Lopes (PMDB), também com uma febre de 40,6°, votou todas as dez vezes contra trabalhadores rurais, consumidores e indígenas. Mauro não tem projetos negativos de sua autoria, mas recebeu a doação de R$ 156 mil de empresas e pessoas físicas com autuação do Ibama, o que equivale a 5% de toda a verba gasta na campanha eleitoral do deputado.
Os que votaram melhor

Na outra extremidade estão os deputados federais mineiros que mais contribuíram com a população rural e o meio ambiente, assim classificados pelo Ruralômetro. O “mais frio” do ranking é Patrus Ananias (PT), com 36,2°, que votou 100% das vezes a favor da população rural, porém, recebeu R$ 485 mil de empresas com autuação do Ibama.

O segundo na lista tem 36,4°: deputado Padre João (PT), com 81% de votos positivos e autor de um projeto de lei positivo. O terceiro é Weliton Prado (PROS), também com 36,4°. Weliton votou 92% das vezes positivamente, é autor de um projeto negativo, e recebeu R$ 240 mil de empresas autuadas pelo Ibama.
Consulte outros

O site Ruralômetro é um projeto da ONG Repórter Brasil e de oito organizações sociais que ajudaram a avaliar e dar as notas aos deputados federais de todo o país. Pode ser acessado em: ruralometro.reporterbrasil.org.br.

segunda-feira, 26 de março de 2018

Caravana de Lula atravessa Sul do País entre aplausos e o ódio

por Murilo Matias — publicado na Carta Capital , em 24/03/2018 , às 11h28 h

Ao contrário da viagem pelo Nordeste, o ex-presidente teve de lidar com grupos extremistas em uma região tradicionalmente polarizada.
Ricardo Stuckert
Caravana de Lula
Lula discursa em São Borja, terra de Jango e Getúlio Vargas.
Assim como no Nordeste, a caravanado ex-presidente Lula pelo sul do Brasil tem se deparado com bloqueios durante os trajetos da viagem. Se na parte de cima do país o motivo das paradas era o clamor popular e sentimento de gratidão pela passagem do líder petista, na parte debaixo do mapa nacional a terra que se orgulha da polarização constrange pela violência.
Grupos conservadores têm desafiado a comitiva que, depois do Rio Grande do Sul, ainda passará por Santa Catarina e Paraná, uma programação de dez dias por mais de vinte cidades da região. 
Enquanto de um lado grupos tentam impedir as atividades, movimentos sociais, militância e apoiadores não recuam diante da agressividade e garantem a Lula sua energia vital, o contato com o povo. Foi assim que desde segunda-feira, dia 19, o ex-presidente visitou universidades, ocupações, institutos federais e locais históricos do estado, como São Borja e Santana do Livramento.
Na Universidade Federal de Santa Maria, que teve o orçamento ampliado nas gestões de esquerda com planos de reestruturação, políticas de cotas e aumento da assistência e das bolsas estudantis, grupos formados essencialmente por homens brancos contrastavam com a valentia de jovens estudantes, boa parte de mulheres e negras na visita do ex-presidente à instituição.
"Quando entrei nessa universidade em 1969 havia dois negros, voltei em 2009 para fazer mestrado em Ciências Sociais. Ali começava uma representação interessante de negros, que hoje chegam a 30%, além da presença de indígenas, deficientes e pobres", compara Maria Dutra, aluna de 70 anos que cursa doutorado sobre o tema das cotas.
"Isso cria clima de estranhamento, pois a educação era para a classe dominante e agora estamos ocupando nossos espaços e lutando junto de Lula para ele colher tudo o que semeou pelo bem do povo, da inclusão social, da igualdade racial. Isso desagrada aos conservadores, infelizmente."
A oposição a Lula se manifestou já no primeiro dia. Aproximadamente 50 tratores de latifundiários colocados perto da fronteira com o Uruguai buscavam intimidar com suas máquinas, muitas compradas através da abertura de linhas de crédito em bancos públicos pelos governos do PT.
As tentativas de bloqueio foram intensificadas em alguns pontos do deslocamento com o arremesso de ovos e pedras nos ônibus. Os episódios foram denunciados pela presidenta do PT, Gleisi Hoffmann, que cobrou do poder público a garantia de segurança à comitiva. Ela reúne ainda a ex-presidenta Dilma Rousseff, deputados estaduais, federais e equipes de trabalho.  
Em um dos estados mais alinhados ao governo de Michel Temer, o crescimento do Movimento Brasil Livre (MBL), financiado por grandes empresas, dá cara ao ódio suscitado por meios de comunicação e pela perseguição judicial a Lula e aos lutadores sociais, bem sintetizado nos gritos de "não vai terra", dirigido ao Movimento dos Sem Terra (MST).
Em nota, a bancada do PT na Assembleia Legislativo do Rio Grande do Sul chamou os extremistas que perseguem a caravana desde Bajé de "bandidos" por terem atentado "contra a integridade física da militância e da população que participa das atividades". O partido afirmou que as militantes Ieda Alves e Daniele Mendes foram agredidas. "Arrancaram a bandeira da Daniele e queimaram. Ieda foi derrubada no chão e só não foi espancada porque a Brigada chegou e agiu." Segundo o partido, elas fizeram boletim de Ocorrência.
Já Suzana Machado Ritter, diz a legenda, foi atacada quando estava indo para  a manifestação.  Ela também teve uma bandeira arrancada de sua mão. Segundo Suzana, sua maior dor foi ver destruída a flâmula petista que tinha desde 1989, autografada pelo ex-presidente. De acordo com o partido, ela foi espancada e teve de ser hospitalizada.
"Temos preocupação com a integridade. O fascismo passou da fase da agressão verbal para a ação física tentando intimidar a caravana, mas seguiremos até o final", destaca o deputado federal Henrique Fontana (PT-RS).
A página do Facebook #NasRuas, por exemplo, postou uma foto de um militante sendo chicoteado por um extremista e comemorou a agressão. "Petistas levam surra de chicote dos gaúchos em Santa Maria! Será que o Lula levou uma chibatada no lombo também?"
Petistas levam surra de chicote dos gaúchos em Santa Maria!
Será que o Lula levou uma chibatada no lombo também?
As ameaças exigem que contingentes da polícia sejam constantemente deslocadas e estejam atentas a possibilidade de confrontos, contrariando uma das máximas dos liberais, dado o gasto que representa a presença das autoridades. Membros do MST, da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e os profissionais da segurança do ex-presidente monitoram as táticas e provocações que partem dos extremistas de direita.      
Encontro com o legado e com a história
Embora em ano de eleição, o ex-presidente Lula não coloca a questão eleitoral como a mais importante para a caravana. A visita a áreas de baixa densidade demográfica comprova que o maior objetivo é o encontro com as transformações realizadas a partir dos 13 anos de administração petistas - Ronda Alta, São Vicente do Sul e São Miguel das Missões, todos municípios com menos de dez mil habitantes, estavam no roteiro.
Nesses e em outros locais, pequenos agricultores em Cruz Alta, indígenas da etnia Guarani e Kaigang na área missioneira, participantes de coletivos por moradia em Santa Maria e pela terra em Palmeira das Missões, além de informais e assalariados relembraram programas sociais como Luz para Todos, Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), Mais Médicos e a valorização do salário mínimo, que seguem como referência para a classe trabalhadora.
"Lula está no nosso coração e queremos ele como presidente pelo Bolsa Família, pelo "Minha Casa, Minha Vida", por estar ao lado dos trabalhadores. Acredito que ele vai fazer ainda mais e melhor por nós e nossos filhos", afirma a pescadora Ana dos Santos, em São Borja. Com a praça lotada o ex-presidente ressaltou o protagonismo de líderes como os ex-presidentes Getúlio Vargas e João Goulart, nascidos na cidade, onde também está enterrado o ex-governador do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro, Leonel Brizola, ícones das forças progressistas.
"Getúlio brigou pela soberania nacional e criou a Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT), Jango tentou promover reformas de base, incluindo a agrária e urbana e Lula foi o presidente que acabou com a fome e diminuiu a desigualdade social. É esse país que queremos pra nós e nossos vizinhos sulamericanos", declarou Maria Seixas, professora aposentada.
A ênfase à relação com a América Latina foi outro ponto alto dos encontros e uma novidade com relação às outras caravanas. Uma agenda em Santana do Livramento reuniu além dos mandatários brasileiros, o ex-presidentes do Uruguai, Pepe Mujica e do Equador, Rafael Correa, ambos denunciaram a perseguição judicial empreendida contra os que ousam atuar pela integração do subcontinente e desenvolvimento de políticas para os mais necessitados. 
Em Foz do Iguaçu, no limite entre Paraguai e Brasil, novo evento terá a presenças dos senadores Cristina Kirchner e Fernando Lugo, ex-chefes de estado da Argentina e do Paraguai.
Para além das histórias de transformação, o futuro nacional foi pauta ao tratar-se de assuntos como a proposta de uma constituinte e a realização de referendo revogatória para derrubar as recém aprovadas reformas trabalhistas e a PEC de congelamento dos gastos públicos. A federalização do ensino médio e a democratização da mídia também foram destacadas no caminho da caravana, que embora tenha encontrado obstáculos, consolidou-se como um marco de cidadania em meio à situação de golpe e restrição de direitos vivenciadas pelo país.
"Vocês sabem o que fizemos em 12 anos de governo. Enquanto para eles que falam em corrupção sobra dinheiro para nos seguir e soltar foguetes, nós temos a verdade do nosso lado. Eu procuro a razão para o ódio deles a mim e ao PT e a única explicação é que eles não desejam que o trabalhador seja respeitado. Eu sempre digo, não se preocupem comigo, sofrendo mais do que eu existem 14 milhões de brasileiros desempregados. Se eu voltar vou fazer o povo sorrir novamente e sonhar do tamanho do Brasil", declarou o ex-presidente Lula.
Publicado na Carta Capital, em 23.03.201
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domingo, 26 de março de 2017

MST COMENTA CARNE FRACA: “AGRONEGÓCIO SEQUESTROU O ESTADO BRASILEIRO”

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Seis cafeicultores do Alto Jequitinhonha são premiados pela produção de café de qualidade

Seis produtores de Capelinha, Angelândia, José Gonçalves de Minas, Diamantina e Minas Novas, são premiados no 13º Concurso de Qualidade dos Cafés de Minas Gerais.







Produtores foram premiados nesta segunda-feira, 19.12.16 (Foto: Manoel Marques/Imprensa MG)

Destaques de cafeicultores do Vale
Dois cafeicultores se destacaram nesta premiação: Cláudio Fujio Nakamura, de José Gonçalves de Minas, conhecido como Japonês, obteve o primeiro lugar na categoria Natural, no café de nível 1, desbancando fortes concorrentes do sul de Minas. 
Na categoria Cereja Descascado, quem brilhou foi a fazenda da CBI Agropecuária, no município de Minas Novas, ficando em segundo lugar, perdendo apenas para um produtor de Patos Minas, na classificação do melhor café de Minas, no nível 1.  
Capelinha teve o destaque de Arlindo Domingues de Oliveira que, na categoria Natural, o café classificado em segundo lugar, o cafeicultor ficou em segundo lugar. De Diamantina, Dailton Antônio de Oliveira, na categoria Cereja Descascado, classificou-se em segundo lugar, no café classificado de nível 3.     
A Fazenda Primavera Agronegócios, de Angelândia, se classificou em segundo lugar, na categoria do Cereja Descascado, de nível 2. 
Gilson Pereira da Silva, de José Gonçalves de Minas, foi outro premiado, na categoria Natural, porém como segundo lugar na classificação do café de nível 3.  
Governador destaca a importância do café na economia mineira     
Após entregar os prêmios para os produtores dos melhores cafés do estado, o governador Fernando Pimentel ressaltou a importância do café para a economia brasileira.
“O agronegócio é uma força no mundo inteiro, mas no Brasil em especial temos a felicidade de ter recursos naturais que nos propiciam ter no setor agrícola uma das mais altas produtividades do mundo. Esse ano só Minas Gerais vai render para a balança comercial brasileira mais de 3 bilhões de dólares de café. Dos 49 milhões de sacas que o Brasil vai produzir, 28 milhões serão de Minas Gerais. Temos que ter um orgulho muito grande de estar à frente de um setor que está gerando essa prosperidade ainda que em um tempo difícil, de crise. Nós mineiros não desanimamos”, afirmou.
Ainda de acordo com Pimentel, o café é um setor de ponta no estado e que envolve investimento em tecnologia de ponta. “Vejo aqui hoje a Minas Gerais que a gente gosta, que a gente ama e aposta. A Minas que trabalha no campo, que dá emprego, gera renda, não se abate com as crises e que faz a gente ter orgulho do nosso estado. Já foi o tempo que se dizia que plantar café era atraso. A agricultura e o café hoje são um setor de ponta, que envolve conhecimento cientifico avançado, que envolve crescimento tecnológico, e que faz também inclusão social. É o que estamos fazendo em Minas Gerais”, completou.
Neste ano, na categoria Natural, o primeiro lugar e que ficou com o prêmio de campeão estadual foi o café do produtor André Souza Lima Campos, do município de Presidente Olegário, no Cerrado Mineiro. Já na categoria Cereja Descascado o troféu de campeão estadual foi entregue a Aarão Ferreira, de Lajinha, na região Sul de Minas Gerais.
O presidente da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais (Emater-MG), Glênio Martins, ressaltou que o setor agropecuário mineiro tem recebido grande atenção da atual gestão. “Temos certeza que vamos continuar a fazer de Minas Gerais um Estado com muitas oportunidades”, disse.
Compreenda a avaliação
O concurso é dividido em duas categorias.
1- A primeira é a Café Natural, que trata do grão recém-colhido que, após passar por um processo de lavagem, é levado para secar. 
2 - A outra categoria é a do Café Cereja Descascado, Despolpado ou Desmucilado. 
Estes tipos de café são lavados e há uma separação dos frutos verdes e secos dos frutos maduros. Depois, eles passam por um descascador para só depois seguir para secagem.
Entre os finalistas foram selecionados os três melhores cafés em cada uma das duas categorias, levando em conta cada uma das quatro regiões produtoras: Sul de Minas, Chapadas de Minas, Cerrado Mineiro e Matas de Minas. 
O concurso é promovido pela Emater-MG, Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Universidade Federal de Lavras (Ufla), Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Sul de Minas e a Fundação de Apoio ao Ensino, Pesquisa e Extensão (Faepe).
A seleção dos finalistas foi feita por especialistas de empresas públicas e privadas com base em análises físicas e sensoriais. As provas foram realizadas no Centro de Excelência do Café, em Machado, no Sul de Minas Gerais. Neste ano, a novidade no critério de avaliação foi a inclusão da avaliação socioambiental na etapa final das análises
Premiação
Todos os cafés finalistas já possuem comprador garantido. Conforme licitação promovida pela Faepe, a empresa Atlântica Exportação e Importação Ltda irá comprar, no mínimo, dez sacas (60kg) de cada um dos finalistas, com preços que variam de acordo com a pontuação obtida no concurso. Cada saca dos campeões será adquirida por US$ 800.
Os produtores que obtiveram a maior pontuação em cada região também ganham uma viagem à Guatemala ou Costa Rica para conhecer o sistema de produção de café de qualidade.
Também participaram da entrega secretários de Estado, representantes de empresas parceiras, deputados federais e produtores de café de todo o Estado.
Lista de premiados
Categoria: Natural 
Terceiro Lugar
1. Região Cerrado Mineiro (município Varjão de Minas) – Empresa Agrícola Santa Rita Ltda, representada pelo presidente João Annes Guimarães;
2. Região Chapada de Minas (município José Gonçalves de Minas) – Gilson Pereira da Silva;
3. Região Matas de Minas (município Alto Caparaó) – Sebastião Luiz Robadel;
4. Região Sul de Minas (município São Sebastião do Paraíso) – Antônio Adolfo de Souza.
Segundo Lugar
1. Região Cerrado Mineiro (município Patrocínio) – Flávio Ruiz Pequini;
2. Região Chapada de Minas (município Capelinha) – Arlindo Domingues de Oliveira;
3. Região Matas de Minas (município Alto Caparaó) – Rafael Lopes Louzada;
4. Região Sul de Minas (município Andradas) – Fábio Roberto Menegon.
Primeiro Lugar
1. Região Chapada de Minas (município José Gonçalves de Minas) – Claudio Fujio Nakamura;
2. Região Matas de Minas (município Manhuaçu) – Celso Antônio de Oliveira;
3. Região Sul de Minas (município Divisa Nova) – Dimas Figueiredo Lopes.
4. Região Cerrado Mineiro (município Presidente Olegário) – André Souza Lima Campos;
Categoria: Cereja Descascado
Terceiro Lugar
1. Região Cerrado Mineiro (município Serra do Salitre) – Luiz Alberto Rossi;
2. Região Chapada de Minas (município Diamantina) – Dailton Antonio Ribeiro;
3. Região Matas de Minas (município Alto Jequtibá) – Ari de Oliveira Filho;
4. Região Sul de Minas (município São Pedro da União) – João Onofre da Silva.
Segundo Lugar
1. Região Cerrado Mineiro (município Patos de Minas) – Versi Crivelenti Ferrero;
2. Região Chapada de Minas (município Angelândia) – Primavera Agronegócios Ltda, representada pelo Gerente-Geral Ronaldo Morais Pena Filho;
3. Região Matas de Minas (município Manhuaçu) – José Rocha;
4. Região Sul de Minas (município Campestre) – Hélio José Lopes Júnior.
Primeiro Lugar
1. Região Chapada de Minas (município Patos de Minas) – Wagner Crivelenti Ferrero;
2. Região Matas de Minas (município Minas Novas) – CBI Agropecuária Ltda, representada pelo diretor Tancredo Pisa Simonini Spadas;
3. Cerrado Mineiro (município Santo Antônio do Amparo) – Henrique Dias Cambraia;
4. Região Sul de Minas (município Lajinha) – Aarão Ferreira.
Fonte: Agência Minas