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domingo, 26 de janeiro de 2020

Feminismo: conhecer para desconstruir preconceitos

Coluna INTERFACES - Juliana Lemes


O feminismo não é o oposto do machismo, como muitas pessoas acreditam. A ideia do confronto entre os gêneros feminino e masculino, abordada em telenovelas, filmes e livros, reforçam os preconceitos que levam muita gente  esclarecida, em termos de formação educacional e profissional, a repetir equívocos. Isso acontece porque a maioria das pessoas quando ouve um termo novo, não tem o hábito de pesquisar o que ele significa. Afinal, todo mundo fala que é isso, o que teria de errado, não é mesmo? Pois bem, estamos sujeitos ao equívoco de falarmos o que não entendemos bem o que é, só porque as pessoas à nossa volta falam. Isso anda ocorrendo com o termo: feminismo.

O feminismo é uma teoria sobre o poder e sua distribuição desigual na sociedade. Ao contrário do que se imagina, defende a igualdade entre homens e mulheres. O conceito engloba várias correntes feministas: liberais, radicais, marxistas, culturais, negras e interseccionais. Todas têm em comum a luta pela igualdade entre os gêneros F e M. As feministas não têm uma imagem predefinida, podem usar salto alto ou tênis, cabelo curto ou longo, saia ou calça, usar sutiã ou não, serem solteiras, casadas, mães, lésbicas, hetero, bissexuais, transexuais, evangélicas, católicas, umbandistas, brancas, pretas, ricas ou pobres. Ser feminista passa longe do sentimento de ódio ou desprezo aos homens. Se você associa isso a uma mulher feminista, repare, não é bem o feminismo que está por trás disso.

Durante séculos, as desigualdades entre homens e mulheres foram entendidas como algo natural. Um mais dócil e amável, e o outro firme e agressivo. Um é emoção, o outro, razão. Assim, de lá pra cá, a história contada nos livros, escrita por homens, reduziu as mulheres à importância secundária, onde eles quem falam por elas. Esta relação desigual materializa-se em pequenos gestos do dia a dia, e reforçam a ideia de que mulheres precisam ter seus lugares, mas não, ao lado ou à frente dos homens. Assim, a principal intenção do feminismo é fortalecer as mulheres de tal modo que elas consigam perceber que a libertação das opressões masculinas fará com que reconheçam a si mesmas e assumam o potencial que têm para realizar o que quiserem em suas vidas.

O feminismo representa um conjunto de movimentos políticos (não partidários) sociais, ideológicos, filosóficos que defendem a liberdade das mulheres. O movimento feminista chegou ao Brasil na década de 1920, ganhou força política, e as ruas. Foi assim que as brasileiras conquistaram o direito ao voto em 1932. Em seguida, pressionaram o governo a reconhecer que as mulheres precisavam de autonomia econômica, em uma época em que a mulher branca só trabalhava com a permissão do marido, e a mulher preta, era abusada, sem direito a voz, no quartinho de empregada, o espaço reservado a ela: mulher, preta e pobre. As conquistas seguiram-se: licença maternidade, proteção contra a violência doméstica, assédio sexual e estupro. Uma lástima que muitas mulheres ainda não compreendam que as direitos que temos atualmente, foram à custa de muito esforço político, físico e intelectual de outras mulheres.

Em resumo, a ideia não é tomar o espaço masculino, é garantir o direito ao espaço feminino. Não é calar os homens, é dar voz às mulheres. Não é disputar quem manda, decide ou domina, é garantir que homens e mulheres, respeitadas suas diferenças, tenham liberdades e oportunidades iguais. 

(Imagem: Eles por Elas; Referência de livro: Mulheres e Poder: histórias, ideias e indicadores – Hildete Pereira de Melo e Débora Thomé – 2018. Série: Coisa mais linda - Netflix).



Juliana Lemes da Cruz. Doutoranda em Política Social – UFF. Pesquisadora GEPAF/UFVJM. Coordenadora do Projeto MLV. Contato: julianalemes@id.uff.br



O Blog do Banu publica, todos os domingos, a coluna Interfaces, que foi pensada para oportunizar aos leitores a aproximação de assuntos contemporâneos ou atuais que influenciam seu cotidiano e que geralmente, não são problematizados. Tem por objetivo contribuir com análises e provocar reflexões sobre temáticas relevantes à realidade local, por meio do diálogo entre as distintas áreas do saber, de forma clara e breve. 

Essa coluna é publicada também no jornal Diário Tribuna, de Teófilo Otoni.

domingo, 8 de março de 2015

Mulheres do Vale do Jequitinhonha

Mulher do Vale, mulher de amor, de labor, de valor

Mulheres do Vale, quem são?
Quem é a mulher que Vale?São 500 mil ou mais, espalhadas por Diamantina, Itamarandiba, Capelinha, Minas Novas, Berilo, Araçuaí, Coronel Murta, Itaobim, Pedra Azul, Almenara,  Salto sem Divisa, Belmonte, Porto Seguro, preferindo um parto ou porto alegre. 

E tantos portos, de chegadas e partidas. 
São turmalinas, carminas, salinas, diamantinas, 
marias, rosas, esmeraldas, rubelitas, morganitas, 
pedras preciosas lapidadas pelo dia-a-dia da vida, 
margarida, "amarga vida", maravida..
São parideiras, parteiras, amadeiras, conversadeiras, trabalhadeiras. 


Confidentes, silentes, solitárias, solidárias, amarguradas, libertadas. 
“Mulheres de Atenas”, mulheres apenas, sem penas. 
Alegres, cantadeiras, dançadeiras,  felizes.
Professoras, estudantes, lavradoras, servidoras públicas, artesãs, artistas, comerciárias, empreendedoras, da vida, animadoras, cuidadoras. 

Mães, avós, tias, irmãs, sobrinhas.
Menina, jovem, adulta, idosa. 

Da cor de jambo, roxinha, pretinha, algumas brancas, poucas. 

Todas, mulheres do Vale. 

Mulher do Vale, mulher de amor, de calor, de labor, de valor.

Mulher do Vale, mulher amorosa, valorosa, gostosa do viver.


quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

É presidenta, sim!

É presidenta, sim! O Brasil ainda está longe da feminização da língua ocorrida em outros lugares. Dilma Rousseff adotou a forma “presidenta”, que assim seja chamada.

Se uma mulher e seu cachorro estão atravessando a rua e um motorista embriagado atinge essa senhora e seu cão, o que vamos encontrar no noticiário é o seguinte: “Mulher e cachorro são atropelados por motorista bêbado”. Não é impressionante? Basta um cachorro para fazer sumir a especificidade feminina de uma mulher e jogá-la dentro da forma supostamente “neutra” do masculino.

Se alguém tem um filho e oito filhas, vai dizer que tem nove filhos. Quer dizer que a língua é machista? Não, a língua não é machista, porque a língua não existe: o que existe são falantes da língua, gente de carne e osso que determina os destinos do idioma. E como os destinos do idioma, e da sociedade, têm sido determinados desde a pré-história pelos homens, não admira que a marca desse predomínio masculino tenha sido incrustada na gramática das línguas.

Somente no século 20 as mulheres puderam começar a lutar por seus direitos e a exigir, inclusive, que fossem adotadas formas novas em diferentes línguas para acabar com a discriminação multimilenar.

Em francês, as profissões, que sempre tiveram forma exclusivamente masculina, passaram a ter seu correspondente feminino, principalmente no francês do Canadá, país incomparavelmente mais democrático e moderno do que a França.


Em muitas sociedades desapareceu a distinção entre “senhorita” e “senhora”, já que nunca houve forma específica para o homem não casado, como se o casamento fosse o destino único e possível para todas as mulheres. É claro que isso não aconteceu em todo o mundo, e muitos judeus continuam hoje em dia a rezar a oração que diz “obrigado, Senhor, por eu não ter nascido mulher”.

Agora que temos uma mulher na Presidência da República, e não o tucano com cara de vampiro que se tornou o apóstolo da direita mais conservadora, vemos que o Brasil ainda está longe da feminização da língua ocorrida em outros lugares.

Dilma Rousseff adotou a forma presidenta, oficializou essa forma em todas as instâncias do governo e deixou claro que é assim que deseja ser chamada.

Mas o que faz a nossa “grande imprensa”? Por decisão própria, com raríssimas exceções, como CartaCapital, decide usar única e exclusivamente presidente.

E chovem as perguntas das pessoas que têm preguiça de abrir um dicionário ou uma boa gramática: é certo ou é errado? Os dicionários e as gramáticas trazem, preto no branco, a forma presidenta. Mas ainda que não trouxessem, ela estaria perfeitamente de acordo com as regras de formação de palavras da língua.

Assim procederam os chilenos com a presidenta Bachelet, os nicaraguenses com a presidenta Violeta Chamorro, assim procedem os argentinos com a presidenta Cristina K. e os costarricenses com a presidenta Laura Chinchilla Miranda. Mas aqui no Brasil, a “grande mídia” se recusa terminantemente a reconhecer que uma mulher na Presidência é um fato extraordinário e que, justamente por isso, merece ser designado por uma forma marcadamente distinta, que é presidenta.

O bobo-alegre que desorienta a Folha de S.Paulo em questões de língua declarou que a forma presidenta ia causar “estranheza nos leitores”. Desde quando ele conhece a opinião de todos os leitores do jornal? E por que causaria estranheza aos leitores se aos eleitores não causou estranheza votar na presidenta?

Como diria nosso herói Macunaíma: “Ai, que preguiça…” Mas de uma coisa eu tenho sérias desconfianças: se fosse uma candidata do PSDB que tivesse sido eleita e pedisse para ser chamada de presidenta, a nossa “grande mídia” conservadora decerto não hesitaria em atender a essa solicitação. Ou quem sabe até mesmo a candidata verde por fora e azul por dentro, defensora de tantas idéias retrógradas, seria agraciada com esse obséquio se o pedisse.

Estranheza? Nenhuma, diante do que essa mesma imprensa fez durante a campanha. É a exasperação da mídia, umbilicalmente ligada às camadas dominantes, que tenta, nem que seja por um simples – e no lugar de um –a, continuar sua torpe missão de desinformação e distorção da opinião pública.

Escrito por Marcos Bagno, professor de Linguística na Universidade de Brasília.
Publicado originalmente na revista Carta Capital

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

QUEM MANDOU NASCER MULHER?

QUEM MANDOU NASCER MULHER?

Essa talvez seja uma pergunta que muitos não entendam. Quem mandou nascer mulher?
Podemos começar a resposta para essa pergunta (apenas começar, dada a extensão de possibilidades abertas pela questão) com a máxima de Simone De Beauvoir: “Ninguém nasce mulher. Torna-se”.

Afinal, o que é tornar-se mulher?

Os seres humanos nascem, a rigor, machos ou fêmeas, tornando-se, a partir de sua educação, homens e mulheres. Diferentemente do que se apregoa, tornar-se homem ou mulher não é uma transição natural, constituida por hormônios: é uma questão social. Ao nascer, garotos e garotas têm cada um uma educação diferente. Garotas são criadas para cumprirem determinado papel social, enquanto os garotos são criados para outro.

A educação diferenciada para meninos e meninas é algo que vai desde o ambiente familiar até a escola. Não é o objetivo, por hora, aprofundar-se nas contradições de nosso sistema educacional; mas, a título de exemplo, vale a pena citar alguns fatos de conhecimento mais ou menos geral: a divisão entre os sexos nas aulas de Educação Física (e inclusive a estigmatização de esportes como “femininos” e “masculinos”), meninas serem consideradas “mais comportadas” e “mais cuidadosas” do que os meninos, enquanto os garotos seriam mais bagunceiros, menos cuidadosos.

Em outras palavras, o gênero é a construção social do masculino e do feminino¹.Ou seja, o gênero não é natural. O papel atribuído a homens e mulheres é construído, é social, cultural, passível de mudança. Não existe uma lei natural, pretensamente biológica, que defina que mulheres devem agir de uma maneira e homens de outra.

Não é permitido à mulher sair dos padrões estabelecidos para seu comportamento (por ser considerado algo como uma quebra de contrato). Uma mulher que não siga determinados parâmetros corre o risco de ter sua “identidade” questionada, inclusive sua sexualidade (afinal, ela seria identificada como não sendo mulher – o que acarreta uma série de preconceitos que não rotulam somente a mulher heterossexual, mas também a homossexual, aproximando-a do que seria “masculino”).

O raciocínio é mais ou menos o seguinte: se uma moça não se comporta como é esperado, concluí-se que ela é lésbica, um “homem”.

Vale lembrar que , se existe um modelo do que é “feminino”, também existe um modelo do que é “masculino”, modelos estes que atuam um em oposição ao outro. Essa relação, no que tange à liberdade de comportamento, acaba por também ser prejudicial para o homem - em diferentes níveis, que serão explicados mais adiante.

Se um garoto é sensível ou frágil, sua identidade e sexualidade podem também ser colocadas em questão, afinal, sensibilidade e fragilidade seriam características estritamente femininas, enquanto as características masculinas seriam a força, a brutalidade etc.

Agora, o segundo ponto: Quem mandou nascer mulher?

Três em quatro mulheres um dia sofrerão algum tipo de violência, e esse não é um problema exclusivo de países subdesenvolvidos, ou de “terceiro mundo”. De acordo com estatísticas na Colômbia, a cada minuto pelo menos seis mulheres são agredidas; na Espanha, um estudo demonstra que durante o período de gestação a violência contra a mulher pode se intensificar, o que leva a abortos espontâneos, doenças físicas e psicológicas; a Nicarágua apresenta os mesmos índices de violência sexual que países ocupados militarmente (onde estupros são utilizados como armas).

Entre 40% e 70% das mulheres mortas são assassinadas por seus maridos ou namorados em países como Austrália, Canadá, EUA, Israel. Mais da metade de todas as mulheres assassinadas na África do Sul, em 1999, foram mortas por seus parceitos, resultando em um feminicído íntimo a cada seis horas.Entre 40% e 50% das mulheres na União Européia sofrem de assédio sexual em seu ambiente de trabalho.

A mutilação sexual contra mulheres em alguns países (como a Guiné, Egito e Eritréia) também é assombrosa: a percentagem de mulheres de 15-49 anos que sofreram e sofrem dessa violência é extremamente alta, aproximando-se de 100%.

Os dados apresentados são a forma escancarada do que apresentamos anteriormente: vivemos em uma sociedade que prima pela supremacia masculina em detrimento da liberdade feminina, uma sociedade patriarcal.

A luta pelo feminismo e direito das mulheres, mesmo com esses dados alarmantes, contudo, continua sendo ignorada. O machismo se prolifera como uma situação normal, entre piadas, músicas, postagens de blogs, anuncios de cerveja, mantendo um pensamento arcaico responsável pela morte anual de milhares de mulheres no mundo todo.

Esses preconceitos disseminados na sociedade podem ser visto inclusive na esquerda. Nós que temos uma pequena experiência no Movimento Estudantil podemos perceber que alguns militantes quando não negligenciam a referida pauta, tecem comentários machistas, opressores, muitas vezes ridicularizando a causa, sem perceber que o machismo e o sexismo estão no mesmo patamar que o racismo, a homofobia, e a xenofobia, cometendo o terrível deslize de criar uma hierarquia das opressões.

Mas, lembremos: os seres humanos fazem sua própria história. Dentro de determinadas condições, somos capazes de agir de maneira a mudar nossa realidade, e é essa a nossa intenção. Ajudar, de alguma maneira, no desenvolvimento teórico da luta feminista, não mantendo-se, porém, somente na teoria: é preciso transformá-la em prática, força material, ações concretas.

Ocupando todos os espaços possíveis, e resgatando a importância da pauta para a esquerda. Em um movimento feminista ambicioso e radical, consciente de que seu inimigo é uma constituição de sociedade, o patriarcado. Um movimento consciente de que a nossa meta é mudar toda uma configuração do que é ser mulher na sociedade. Expondo para quem quiser ver como fomos -machos e fêmeas- transformados em produtos de masculino e feminino com o passar dos séculos. Não sendo, essas, condições naturais. Repetindo uma vez mais Simone De Beauvoir: ninguém nasce mulher, torna-se.

Por isso é sempre válido lembrar:

Meu nome é resistência. Leia-se: mulher

QUEM MANDOU NASCER MULHER? (Texto extraído do blog de mesmo nome)
Lambido do Blog da Adriana Eva, mulher formada de Divinópolis, no leste de Minas

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Presidenta Dilma, o poder feminino

Presidenta Dilma:
soa estranho ou é machismo gramatical?
Os estudiosos da língua portuguesa começam a ser chamados para dar opinião.

Quase todos os homens preferem chamar nossa maior governanta - epa! ou é governante?- de Presidente Dilma.

E ainda confirmam que tanto Presidenta quanto Presidente são corretos. Mas, o termo Presidenta soa esquisito.
Pode?

Para eles é também esquisito uma mulher ser presidenta do Brasil e chefiar as Forças Armadas, onde mulher não entra nem para fazer tarefas que costumeiramente são destinadas às mulheres.

Se eu estou em uma reunião com 60 mulheres devo ficar chateado se alguém se refere ao conjunto de participantes com termo femininos?

Machismo gramatical puro.

Este será mais um preconceito que a eleição de Dilma pode ajudar a quebrar.