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segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Hoje eu matei um preto

 


Publicado no brasil247.com, em 22 de novembro de 2020, 16:06 h

*Ricardo NêggoTom

Hoje eu matei um preto. E daí?
Não vai dar em nada mesmo. E todo mundo vai morrer um dia.
E todo dia morre um preto. E daí?
Eu lamento, mas esse é destino de todos os pretos.

Eu mato um preto no olhar
Eu mato um preto ao me calar


Eu mato sem querer matar
Eu mato um preto no percurso
Eu mato um preto no discurso
Eu mato e nem quero negar.



Hoje eu matei um preto. Foi assim:
Ele vinha na minha direção e eu mudei de calçada.
Todo dia eu mato um preto. É assim:
Eu o coloco sob suspeição e finjo que eu não sei de nada.

Eu mato um preto num sorriso
Eu mato um preto num tiro preciso
Um preto eu preciso matar.
Eu mato um preto no destino.
Eu mato um preto ainda menino
Eu mato um preto apenas por matar


Hoje eu matei um preto. E daí?
Faz parte de uma tradição conservadora dos homens de bem
Sempre se matou um preto. Peraí!
Porque agora essa comoção? Até parece que morreu alguém.


Eu mato um preto todo dia
Eu mato um preto de agonia
Agonizando pra se libertar
Eu mato um preto na periferia
Eu mato um preto que ainda não sabia
Que fora de lá não é o seu lugar.


Hoje eu matei um preto. Foi assim:
Eu estava atrás de diversão e na sua pele eu vi uma piada.
São tantos meios de matar um preto. Diz aí:
Qual a sua forma de execução? A sensação é de alma lavada.

Eu mato um preto em cima do morro
Eu mato um preto pedindo socorro
Eu não deixo um preto respirar
Eu mato um preto ao molho pardo
Eu exponho a carne no mercado
Para quem quiser comprar


Hoje eu matei um preto. Foi assim:
Eu estava sob forte emoção, me sentindo ameaçado.
E quem nunca matou um preto? Diz pra mim.
Faz parte de todo um padrão, que faz do preto um subjugado.


Eu mato um preto a todo momento
Nas atitudes ou no pensamento
Eu mato um preto para me defender
Eu mato preto para não morrer de tédio
Eu mato um preto para manter meus privilégios
Se eu não matar um preto, sou eu quem vai morrer.


Hoje eu matei um preto
Foi legítima defesa da minha honra
Porque eu não posso me dar a desonra
De ver um preto e não matar.

*Ricardo Nêggo Tom é cantor e compositor.

 

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Quilimérios do Jequitinhonha: curta-metragem retrata história de comunidade isolada da sociedade

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Quilimérios: uma comunidade isolada entre montanhas 
de pedra, em Rubim, no  Baixo Jequitinhonha.
Uma pequena comunidade do Vale do Jequitinhonha tem o isolamento social 
como cultura. Mas não é em função da pandemia. 
Há mais de um século é assim!
No meio de uma natureza exuberante e em local quase inacessível, vivem os 
"Quilimérios", povo que foi tema de um curta metragem do diretor mineiro Emerson 
Penha, com produção do jornalista Zu Moreira.
Os quilimérios vivem isolados nas montanhas de pedra que se impõem em formas 
diferentes a quem decide visitar a região. 
Uma comunidade que se mantém no passado. 
O contato quase não existe com a cidadezinha mais próxima, chamada Rubim, 
na região nordeste de Minas, no Vale do Jequitinhonha.

Perceba a altura do local onde vivem os Quilimérios

O curta-metragem foi gravado em maio de 2019, antes da pandemia da COVID-19. 
O vídeo está disponível na internet.
Clique AQUI e assista.

“Quilimérios” – Horizonte Filmes (2020)

·         Direção de Emerson Penha.    Fotografia de Fábio Damasceno
·         Música de Túlio Mourão -        Produção de Zu Moreira
·         Montagem de Rafael Diniz (Fiel). Junho de 2020.

Pedras Seios de Rubim

Em 2011, o blog Made in Rubim, de Kawan Dutra, 
registrou a existência do povo quilimério 
Quilimério é um grupo descendente de quilombolas e tribos indígenas. 
Naturais da cidade de Pedra Azul, que sem estrutura alguma migraram 
para Rubim, onde residem em lugar íngreme e rochoso dentro da Pedra Parda, 
tendo à sua frente as Pedras Seios. Inicialmente conhecidos como Juca Preto, nome 
este que fazia referência ao mais velho habitante e também o pioneiro no povoamento 
da região. Com sua morte teve o nome do grupo alterado para Quilimério, que também 
fazia referência ao mais velho habitante naquele momento. Porém, este nome 
permaneceu mesmo após sua morte.

Dentro da Cordilheira Pedra Parda

A alimentação é obtida através do meio mais rústico possível, caçando animais e 
fazendo pequenos cultivos. A água é utilizada sem nenhum tratamento adequado, 
pois além de ser barrenta não é fervida ou filtrada. O armazenamento não 
é feito de forma correta.

Uma das principais características deste grupo é a timidez de seus integrantes e o 
isolamento em que se postam. O povo Quilimério casa-se apenas entre si.
Fotos: Zilma Souza Nascimento. Pesquisa: Rafaela Chiara.
Fonte: https://madeinrubim.wordpress.com/historia/quilimerios/
e aqui nesse Blog:
https://blogdobanu.blogspot.com/2011/04/os-quilimerios-um-povo-tradicional-de.html



quarta-feira, 13 de maio de 2020

Escravatura continua. Na pandemia, negros têm 85% mais chances de morrer

Na pandemia, ecos da falsa abolição.

Há 132 anos, os negros eram “libertados” — sem terra, direitos ou cidadania. Como esta farsa conduz da senzala à favela; do pelourinho ao “enquadro”; e dos navios negreiros às periferias, onde pretos têm 85% mais riscos de morrer da COVID-19
Precisamente em maio, às vésperas de três meses de pandemia e a 132 anos da fatídica “abolição da escravatura” no Brasil, torna-se mais evidente o desastre em curso desencadeado pelo novo coronavírus. Considerando as informações de “raça” e cor é possível ver qual parcela da sociedade mais está morrendo – ou tem mais chances de morrer – devido à pandemia. Os negros e negras somam 43,1% dos hospitalizados, mas representam mais da metade de todos óbitos, 50,1%, contra 47,7% de pessoas brancas de acordo com os dados do Boletim nº 15 da Secretaria de Vigilância do Ministério da Saúde. Do total, 65% das vítimas apresentaram algum tipo de comorbidade associada, tendo destaque as doenças cardiovasculares (3.425 dos óbitos), diabetes (2.660 óbitos), doença renal (621 óbitos), doença neurológica (550 óbitos) e pneumopatia (544 óbitos). 
E daí? Respondeu Bolsonaro ao ser indagado sobre o aumento do número de casos do novo coronavírus no Brasil. As mortes ultrapassaram 12 mil casos e o número de infectados soma mais de 170 mil. Destes, pouco mais de 67 mil foram recuperados, mas infelizmente não estão imunes a um novo contágio. Os especialistas dizem que este número está longe de representar a realidade de infectados no país, considerando a baixíssima testagem da população.
Numa pesquisa feita pelo Observatório covid-19 e Prefeitura de São Paulo até 17 de abril, somado a porcentagem de pretos (62%) e pardos (23%), a população negra na capital tem 85% mais chance de morrer pelo vírus do que qualquer outro grupo social.  Estes dados são reveladores das desigualdades raciais e de classe vigentes na sociedade, e que levam a exterminar e marginalizar pretos e pretas neste país. Sejam quais forem as crises, econômicas, políticas, ambientais ou sanitárias, pretos/as, quilombolas e indígenas são permanentemente um grupo de risco. 
A brutal desigualdade existente nas condições de vida, de moradia ou de alimentação entre pretos e brancos, recolocam o significado do 13 de maio de 1888 em foco. O decreto ardiloso que oficializou o fim da escravatura no Brasil destinou negros e negras à pobreza, ao desemprego, às doenças, ao sistema prisional, à exclusão social e toda sorte de precariedades. Para os africanos e seus descendentes, a pandemia se iniciou com os primeiros navios negreiros que aportaram na África, foi intensa com a escravidão e segue matando depois de anunciado seu fim. Mas se uma doença atinge só os negros/as ela pode ser ignorada ou minimizada – afinal eles morrem de tanta coisa, não é mesmo? Assim funciona o pensamento racista, como demonstrou o fundador da XP Investimentos, Guilherme Benchimol, que afirmou em 4/5, em tom comemorativo: “o Brasil está indo bem no controle do covid-19”, pois, “o pico nas classes médias e altas já passou”; o problema é que “o país tem muita favela”.
Há pouco mais de 100 anos, a “gripe espanhola” matou, entre janeiro de 1918 a dezembro de 1920, cerca de 35 mil pessoas em nosso país. Inclusive o presidente eleito, Rodrigues Alves, morreu vítima da pandemia, episódio que reforçaria a ideia de ser esta uma doença “democrática”. Contudo, os estudos sobre o impacto da gripe mostram que a imensa maioria dos infectados e mortos eram pessoas negras, da classe trabalhadora, contagiados nas fábricas, nos portos, nas ruas (classificados como “indigentes”), nos cortiços, favelas ou no cárcere, onde morriam de forma isolada e desassistida.
A interação entre desigualdade social, subnutrição e precárias condições sanitárias resulta em um terreno fértil para o espalhamento do coronavírus e mortal para quem aí vive. O organismo humano, sob estes condicionantes, apresenta uma imunidade de baixíssima resistência e pouca capacidade para sobreviver às debilitações provocadas pelo vírus.
As pandemias sintetizam as contradições de classe, raça e gênero, uma vez que acentuam desigualdades. As mulheres, negras principalmente, estão na linha de frente do trabalho de enfermagem e de cuidados. Exauridas pela dupla e tripla jornada de trabalho, são as que mais buscam o serviço público de saúde, embora o número de óbitos seja superior entre os homens, em decorrência do diferente estilo de vida promovido pela sociedade capitalista patriarcal, que os expõe a maior vulnerabilidade. Acrescenta-se aí o aumento em 9% no número de denúncias de violência doméstica no Brasil, segundo dados federais. Até março o acréscimo chegou a 50% no Rio de Janeiro e de 30% em São Paulo.
O momento atual acende a luz de alerta. O avanço da pandemia sobre os setores mais empobrecidos e com condições de vida mais precárias pode ser catastrófico. Estes segmentos da população vivem em bairros periféricos, nas ruas, favelas, cortiços e abrigos que vivem milhares de trabalhadores e trabalhadoras negras que precisam lutar diariamente para sobreviver com os trabalhos informais, prestação de serviços ou outras formas.
Especialistas chamam a atenção para a probabilidade do aumento do número de óbitos em domicílios, albergues e em via pública. Geralmente, vítimas do racismo institucional, muitas são aquelas pessoas que possuem os sintomas, mas diante da impossibilidade de fazer o teste da covid-19, são orientadas a deixar os hospitais. Há mesmo aquelas que nem buscam o serviço médico. Nessas circunstâncias, são muitos os óbitos sem causa confirmada para a covid-19. 
Na cidade de São Paulo, por exemplo, conforme o censo da população em situação de rua, havia 24.344 pessoas vivendo nestas condições, na capital, até 2019 (número que é bem maior segundo pesquisadores e ativistas). Desse total, 69,3% são pessoas pretas e pardas e a maior porcentagem é do sexo masculino – 85% contra 15% de mulheres e 386 pessoas transexuais, transgêneros e travestis. Cumpre ressaltar que essa população não tem acesso à água nem a kits de higiene pessoal, e menos ainda a alimentação regular, nem à possibilidade de quarentena. Esta é a realidade sintetizada pela foto acima, feita por Pedro Conforte em uma rua na Praia de Icaraí, em Niterói no Rio de Janeiro.
É importante destacar que a pandemia da covid-19 tem implicações distintas para a classe trabalhadora, negra, pobre e para as mulheres, ou seja, ela é demarcada pelo recorte de raça, classe e gênero. Essa desigualdade social atinge graus extremos de perversidade quando impõe sobre os (as) infectados (as) a culpa por esta condição. Como é o caso da população que se aglomera há vários dias nas filas dos bancos à espera do acesso ao tal auxílio emergencial para aliviar a fome e outras necessidades. 
A classe trabalhadora, que lutou muito para que o SUS existisse e pela sua defesa como sistema público universal, precisa urgentemente se levantar contra o genocídio social promovido por um governo neofascista, que aprofunda a crise no país frente à pandemia e aproveita de forma covarde deste momento difícil e de luto de muitas famílias, para impor medidas contrárias ao interesse e soberania do povo brasileiro.
Como bem têm demonstrado as ações de solidariedade construídas entre trabalhadores e trabalhadoras para minimizar os efeitos desta crise, são exercícios de unidade e de auto-organização política. É do fortalecimento destes vínculos orgânicos, entre os mais diversos setores da classe trabalhadora, que deve surgir a força necessária para superar o coronavírus, derrotar o governo Bolsonaro e a necropolítica que o Estado capitalista impõe sobre os povos do Brasil e do mundo.
Fontes
LAMARÃO & URBINATI. Gripe Espanhola, In: , acesso em 11/05/2020.
BRASIL. SECRETARIA DE VIGILÂNCIA EM SAÚDE. MINISTÉRIO DA SAÚDE; <https://portalarquivos.saude.gov.br/images/pdf/2020/May/09/2020-05-06-BEE15-Boletim-do-COE.pdf> acesso em 11/05/2020.
PREFEITURA DE SÃO PAULO. CENTRO DE PESQUISA E MEMÓRIA TÉCNICA
Fonte: Outras Palavras

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Djonga, o rapper que provoca, incomoda e empodera os jovens negros das quebradas

Nessa segunda-feira de carnaval de BH, 25.02, fui apresentado às músicas do Djonga, pela minha filha Mel, de 14 anos. Ela dizia: "presta atenção nas letras da música, pai. São muito fortes, contra o preconceito, contra a discriminação de pretos e pobres". Arrepiei. Djonga é direto, papo reto, não usa meio termo pra dizer o que pensa e sente. Quando ele chegou para cantar no Bloco Rapique, na Avenida dos Andradas, uma multidão de 30 mil jovens pedia: "Abre alas para o rei!". E o rei do rap deu seu recado.  
Leia um artigo da cientista social Áurea Carolina sobre Djonga.

Djonga, o amor-Próprio de uma geração

Jovem rapper de Belo Horizonte coloca Minas no centro da cena do hip hop no Brasil, buscando romper com as barreiras impostas por uma sociedade escandalosamente desigual.
*Áurea Carolina
"Eu devolvi a autoestima pra BH, isso que é ser hip hop". Com essas palavras, o rapper Djonga adaptava a letra da sua música "Junho de 94", do álbum "O Menino que Queria ser Deus", colocando a sua cidade em equivalência ao seu povo – na letra original: "eu devolvi a autoestima pra minha gente". A mensagem foi passada diante de uma multidão de jovens que compareceram ao show de lançamento do seu mais novo álbum, "Ladrão", no último dia 21 de abril.
Quem conhece a história da cultura hip hop de Belo Horizonte entende a dimensão da frase. Apesar de ser um dos circuitos mais criativos do país, movido desde os anos 1980 por importantes artistas e produtores de rap, grafite e danças urbanas, BH ainda não tinha forjado um grande nome de expressão nacional que fosse representativo da sua cena. Aos 24 anos, Djonga honra a caminhada de muitos que vieram antes dele e encabeça uma fase inédita de projeção do rap mineiro pelo Brasil.
No início do show, Djonga falou dos 80 tiros disparados pelo Exército no dia 7 de abril contra uma família negra na Zona Norte do Rio de Janeiro: "por todas e todos que morreram lutando por essa porra desse país que só mata, que dá 80 tiros em inocente e fala que confundiu". Naquele episódio fatídico, Evaldo dos Santos Rosa, condutor do carro fuzilado, morreu imediatamente. Dias depois, morreu Luciano Macedo, cidadão que foi atingido quando tentou prestar socorro às vítimas.
Chamado de "incidente" pelo porta-voz do presidente da República, que sequer se solidarizou com os sobreviventes, o caso traz à tona, outra vez, o agravamento do processo de militarização da vida e da matança sistemática da população negra e periférica no Brasil, que ultrapassou a taxa desesperadora de 30 homicídios por 100 mil habitantes – uma das mais altas do planeta, conforme o Atlas da Violência 2018.
No terceiro álbum da sua carreira, Djonga subverte a linguagem para recuperar com fúria e determinação o que foi roubado dos seus semelhantes.

Jovens negros como Djonga são os principais alvos desse sistema genocida, resultado de um Estado penal exacerbado pela combinação macabra de encarceramento em massa de pessoas negras e pobres, proibicionismo na política de drogas, proliferação de armas, destruição de direitos sociais, colapso do modelo repressivo de segurança pública, apologia oficial ao ódio e ataques contra as lutas e existências do povo da periferia.

As entranhas do racismo estrutural, comum a todos esses problemas, são expostas com a atitude e a força poética do rapper, que verbalizou na apresentação, no meio do bairro rico da Savassi, o sentido da virada que ele representa: "um preto no maior palco da área dos boy sendo chamado de ladrão, mas sem ser do jeito que eles querem". A casa estava lotada. Os ingressos a R$ 10 esgotaram semanas antes, poucas horas após a abertura das vendas pela internet. A periferia ocupou em peso.

No terceiro álbum da sua carreira, Djonga subverte a linguagem para recuperar com fúria e determinação o que foi roubado dos seus semelhantes. Ele diz na faixa "Hat-Trick (open.spotify.com/) ": "é pra nós ter autonomia / não compre corrente, abra um negócio / parece que eu tô tirando / mas na real tô te chamando pra ser sócio / pensa bem / tirar seus irmão da lama / sua coroa larga o trampo / ou tu vai ser mais um preto / que passou a vida em branco?". E segue na faixa "Bené": "o que vale mais / um jovem negro ou uma grama de pó? / por enquanto ninguém responde / e morre uma pá (...) / pega a visão / não vá se perder / não vá se perder / não vá se perder, não", alertando para que a juventude negra não seja capturada pela indústria programada do crime e da morte.
Em pleno domingo de Páscoa, o mestre de cerimônias, acompanhando do humorista Yuri Marçal, que participou em diferentes momentos do show, convidou geral a malhar um judas cenográfico. Cantando "fogo nos racista!", a multidão expurgou o símbolo da supremacia branca jogado ao chão: uma máscara com um capuz pontudo de tecido manchado de vermelho, como aqueles dos matadores da Ku Klux Klan. Em sintonia total, vibrava uma geração elevada, capaz de abalar as estruturas desse sistema, orgulhosa de ser quem se é. Na faixa "Voz (open.spotify.com/) ", junto com Doug Now e Chris MC, milhares entoaram o refrão que denuncia o preconceito racial: "sua visão sobre mim  ainda não mudou / não vai ser da forma que tu quer / sempre faço questão de ser quem sou / mais honrado morrer sendo quem é / e tamo aí, né?"

Além de acolher e apoiar jovens artistas como parceiros do seu trabalho, Djonga também levou ao palco sua avó e sua mãe, homenageadas em letras que falam de família e ancestralidade. Na faixa "Bença (open.spotify.com/) ", momento sublime do show, ele ressalta a responsabilidade da paternidade, pai que é do pequeno Jorge, e a importância do exemplo dentro de casa ("é triste ver que os moleque da minha quebrada / não tiveram a mesma sorte que eu / um pai presente"), e recebe a bênção da sua avó, que ainda benzeu a plateia ("que Deus dê saúde a Gustavo / para poder continuar nesse lindo serviço maravilhoso / que está prestando para todos nós / em nome de Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo / que Deus ilumine o caminho de todos").

A musicalidade vai do trap ao samba, passando pelo funk. Djonga fez questão de entoar o hino funkeiro: "eu só quero é ser feliz / e andar tranquilamente na favela onde eu nasci / e poder me orgulhar / e ter a consciência que o pobre tem seu lugar". Exalta culturas da negritude na diáspora que sofrem, de diferentes maneiras, tentativas de criminalização e apropriação, como tem ocorrido sobretudo com o funk nos últimos anos. A prisão infundada do DJ Rennan da Penha, do Baile da Gaiola, um dos maiores do Rio de Janeiro, é um dos tantos exemplos de violação de direitos e perseguição a artistas e comunidades que promovem um complexo circuito sociocultural e econômico sustentado pelos bailes.

A criminalização do funk, a propósito, foi tema de audiência  pública na Comissão de Cultura da Câmara dos Deputados na última quinta-feira, 25 de abril, a partir de requerimento assinado por mim e pela deputada Talíria Petrone (PSOL/RJ). Seguimos resistindo! 

Com inteligência, trabalho e sagacidade, Djonga simboliza uma geração de jovens periféricos que conquistaram direitos antes inacessíveis e não estão dispostos a recuar com a chegada dos fascistas ao poder. Sabem que precisam se livrar da morte e vivem intensamente, buscando romper com as barreiras impostas por uma sociedade escandalosamente desigual. Muitos deles são os primeiros das suas famílias a acessar um curso superior. Batalham para pagar as contas e querem mais do que o mínimo para sobreviver. Estão atentos ao que acontece ao redor e dentro de si. Tentam educar suas emoções e revelar suas contradições e fragilidades, seus talentos e potenciais. 

Consciente do próprio brilho, o ladrão diz na faixa "Deus e o Diabo na Terra do Sol (open.spotify.com/5) ", em parceria com Filipe Ret: "foi nessas que eu fiz Minas / deixar de ser a terra do pão de queijo / e virar a terra do Djonga". 
Abram alas pro rei!

*Áurea Carolina é formada em ciências sociais pela UFMG, onde concluiu também mestrado em ciência política. Fez especialização em gênero e igualdade pela Universidade Autônoma de Barcelona. Atualmente, é deputada federal pelo PSOL-MG.

Fonte:https://www.nexojornal.com.br/Djonga-o-amor-próprio-de-uma-geração, em 29.04.19