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sábado, 18 de abril de 2020

Os velhos foram abandonados pelos jovens

 por Moisés Mendes

Aposentados
Um Brasil indignado descobriu tardiamente que os velhos não terão chance na pandemia. O coronavírus prefere matar idosos, e o médico Nelson Teich disse, 
antes de ser ministro, que um jovem deve ter prioridade de investimentos da 
saúde na disputa com os velhos.

Não fica claro se ele falava de saúde pública ou da medicina empresarial. Na medicina privada, os velhos são um mau negócio. Tanto que já morrem, antes mesmo de disputar vaga no hospital, porque poucos conseguem pagar um plano particular.

Na saúde pública, os velhos deveriam ser protegidos por políticas sustentadas não só pela vontade dos governantes, mas por imposições constitucionais e legais. 
Nem sempre funciona.

É até surpreendente que muita gente esteja fingindo espanto diante do que já sabia. Que os velhos não têm prioridade, muito menos no momento de uma decisão urgente por uma vaga na UTI ou por um respirador. Sempre foi assim. 
Agora, só vai piorar.

Por tudo isso, a pandemia traz também um problema político. As manifestações de rua recentes no Brasil somente tiveram maioria de jovens naquele controverso inverno de 2013.

Depois, quando a Globo assumiu o controle das passeatas, foi a classe média branca, de meia idade, que saiu de casa para derrubar Dilma.
Antes do golpe, quem se mobilizou para tentar enfrentar os golpistas, foi o pessoal de esquerda da geração da ditadura. As ruas se encheram de idosos, enquanto a juventude dos black blocs desaparecia.

Os jovens ainda tentaram resistir depois do golpe, com passeatas barulhentas. Mas já havia se esvaído a potência do movimento anterior das ocupações de escolas. Os resistentes eram a exceção da exceção.

Os jovens brasileiros, ao contrário de argentinos, chilenos, uruguaios, gregos ou turcos, mergulharam num torpor político até agora não bem decifrado.

A última grande movimentação de rua talvez tenha sido a de março do ano passado, no primeiro ano da morte de Marielle. Eram muitos os sessentões que desceram o Viaduto da Borges, em Porto Alegre.

A sensação consoladora poderia ser essa: os que finalmente se assumem como velhos continuam resistindo. A outra sensação inversa é a do desconsolo:  descobre-se que não há como andar e gritar só com as pernas e as gargantas dos velhos.

Dependeremos sempre da vitalidade dos jovens, como os chilenos estavam provando desde outubro, quando a pandemia parou tudo e adiou a queda de Sebastián Piñera.

O incômodo, que mesmo velhos de esquerda resistem a admitir, porque denuncia erros e omissões, é que os velhos foram abandonados pelos jovens. E não há transgressão política e atrevimento sem os jovens.

Os velhos brasileiros não foram abandonados apenas pela saúde privada e pelos que e esforçam para destruir a saúde pública. Foram deixados quase sozinhos na luta política, largados nas ruas pela preguiça política dos jovens.

Os jovens sempre foram os primeiros a se erguer para salvar as democracias, desde a resistência ao golpe de 64, muito antes do maio de 68 em Paris. Levantaram a bandeira das diretas, nos anos 80, e puxaram as forças que derrubaram Collor, nos anos 90.

Nos últimos anos, o espírito de 68 ausentou-se do Brasil. Alguns jovens continuaram saindo às ruas com destemor, mas a maioria deles deixou os velhos sozinhos.
Pelas preferências do coronavírus e do ministro da Saúde, os únicos velhos que talvez tenham chance de sobrevivência são os ricos. Mas os ricos só vão para as ruas com a camiseta da Seleção para exaltar Bolsonaro e o fascismo.

Os idosos democratas, quatro anos mais velhos desde o golpe de agosto de 2016, precisam dar um jeito de sobreviver, porque as liberdades dependem deles. 
As ruas esperam os velhinhos depois da pandemia.

Publicado no www.brasil247.com

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Djonga, o rapper que provoca, incomoda e empodera os jovens negros das quebradas

Nessa segunda-feira de carnaval de BH, 25.02, fui apresentado às músicas do Djonga, pela minha filha Mel, de 14 anos. Ela dizia: "presta atenção nas letras da música, pai. São muito fortes, contra o preconceito, contra a discriminação de pretos e pobres". Arrepiei. Djonga é direto, papo reto, não usa meio termo pra dizer o que pensa e sente. Quando ele chegou para cantar no Bloco Rapique, na Avenida dos Andradas, uma multidão de 30 mil jovens pedia: "Abre alas para o rei!". E o rei do rap deu seu recado.  
Leia um artigo da cientista social Áurea Carolina sobre Djonga.

Djonga, o amor-Próprio de uma geração

Jovem rapper de Belo Horizonte coloca Minas no centro da cena do hip hop no Brasil, buscando romper com as barreiras impostas por uma sociedade escandalosamente desigual.
*Áurea Carolina
"Eu devolvi a autoestima pra BH, isso que é ser hip hop". Com essas palavras, o rapper Djonga adaptava a letra da sua música "Junho de 94", do álbum "O Menino que Queria ser Deus", colocando a sua cidade em equivalência ao seu povo – na letra original: "eu devolvi a autoestima pra minha gente". A mensagem foi passada diante de uma multidão de jovens que compareceram ao show de lançamento do seu mais novo álbum, "Ladrão", no último dia 21 de abril.
Quem conhece a história da cultura hip hop de Belo Horizonte entende a dimensão da frase. Apesar de ser um dos circuitos mais criativos do país, movido desde os anos 1980 por importantes artistas e produtores de rap, grafite e danças urbanas, BH ainda não tinha forjado um grande nome de expressão nacional que fosse representativo da sua cena. Aos 24 anos, Djonga honra a caminhada de muitos que vieram antes dele e encabeça uma fase inédita de projeção do rap mineiro pelo Brasil.
No início do show, Djonga falou dos 80 tiros disparados pelo Exército no dia 7 de abril contra uma família negra na Zona Norte do Rio de Janeiro: "por todas e todos que morreram lutando por essa porra desse país que só mata, que dá 80 tiros em inocente e fala que confundiu". Naquele episódio fatídico, Evaldo dos Santos Rosa, condutor do carro fuzilado, morreu imediatamente. Dias depois, morreu Luciano Macedo, cidadão que foi atingido quando tentou prestar socorro às vítimas.
Chamado de "incidente" pelo porta-voz do presidente da República, que sequer se solidarizou com os sobreviventes, o caso traz à tona, outra vez, o agravamento do processo de militarização da vida e da matança sistemática da população negra e periférica no Brasil, que ultrapassou a taxa desesperadora de 30 homicídios por 100 mil habitantes – uma das mais altas do planeta, conforme o Atlas da Violência 2018.
No terceiro álbum da sua carreira, Djonga subverte a linguagem para recuperar com fúria e determinação o que foi roubado dos seus semelhantes.

Jovens negros como Djonga são os principais alvos desse sistema genocida, resultado de um Estado penal exacerbado pela combinação macabra de encarceramento em massa de pessoas negras e pobres, proibicionismo na política de drogas, proliferação de armas, destruição de direitos sociais, colapso do modelo repressivo de segurança pública, apologia oficial ao ódio e ataques contra as lutas e existências do povo da periferia.

As entranhas do racismo estrutural, comum a todos esses problemas, são expostas com a atitude e a força poética do rapper, que verbalizou na apresentação, no meio do bairro rico da Savassi, o sentido da virada que ele representa: "um preto no maior palco da área dos boy sendo chamado de ladrão, mas sem ser do jeito que eles querem". A casa estava lotada. Os ingressos a R$ 10 esgotaram semanas antes, poucas horas após a abertura das vendas pela internet. A periferia ocupou em peso.

No terceiro álbum da sua carreira, Djonga subverte a linguagem para recuperar com fúria e determinação o que foi roubado dos seus semelhantes. Ele diz na faixa "Hat-Trick (open.spotify.com/) ": pra nós ter autonomia / não compre corrente, abra um negócio / parece que eu tirando / mas na real te chamando pra ser sócio / pensa bem / tirar seus irmão da lama / sua coroa larga o trampo / ou tu vai ser mais um preto / que passou a vida em branco?". E segue na faixa "Bené": "o que vale mais / um jovem negro ou uma grama de pó? / por enquanto ninguém responde / e morre uma (...) / pega a visão / não se perder / não se perder / não se perder, não", alertando para que a juventude negra não seja capturada pela indústria programada do crime e da morte.
Em pleno domingo de Páscoa, o mestre de cerimônias, acompanhando do humorista Yuri Marçal, que participou em diferentes momentos do show, convidou geral a malhar um judas cenográfico. Cantando "fogo nos racista!", a multidão expurgou o símbolo da supremacia branca jogado ao chão: uma máscara com um capuz pontudo de tecido manchado de vermelho, como aqueles dos matadores da Ku Klux Klan. Em sintonia total, vibrava uma geração elevada, capaz de abalar as estruturas desse sistema, orgulhosa de ser quem se é. Na faixa "Voz (open.spotify.com/) ", junto com Doug Now e Chris MC, milhares entoaram o refrão que denuncia o preconceito racial: "sua visão sobre mim  ainda não mudou / não vai ser da forma que tu quer / sempre faço questão de ser quem sou / mais honrado morrer sendo quem é / e tamo aí, né?"

Além de acolher e apoiar jovens artistas como parceiros do seu trabalho, Djonga também levou ao palco sua avó e sua mãe, homenageadas em letras que falam de família e ancestralidade. Na faixa "Bença (open.spotify.com/) ", momento sublime do show, ele ressalta a responsabilidade da paternidade, pai que é do pequeno Jorge, e a importância do exemplo dentro de casa ("é triste ver que os moleque da minha quebrada / não tiveram a mesma sorte que eu / um pai presente"), e recebe a bênção da sua avó, que ainda benzeu a plateia ("que Deus saúde a Gustavo / para poder continuar nesse lindo serviço maravilhoso / que está prestando para todos nós / em nome de Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo / que Deus ilumine o caminho de todos").

A musicalidade vai do trap ao samba, passando pelo funk. Djonga fez questão de entoar o hino funkeiro: "eu só quero é ser feliz / e andar tranquilamente na favela onde eu nasci / e poder me orgulhar / e ter a consciência que o pobre tem seu lugar". Exalta culturas da negritude na diáspora que sofrem, de diferentes maneiras, tentativas de criminalização e apropriação, como tem ocorrido sobretudo com o funk nos últimos anos. A prisão infundada do DJ Rennan da Penha, do Baile da Gaiola, um dos maiores do Rio de Janeiro, é um dos tantos exemplos de violação de direitos e perseguição a artistas e comunidades que promovem um complexo circuito sociocultural e econômico sustentado pelos bailes.

A criminalização do funk, a propósito, foi tema de audiência  pública na Comissão de Cultura da Câmara dos Deputados na última quinta-feira, 25 de abril, a partir de requerimento assinado por mim e pela deputada Talíria Petrone (PSOL/RJ). Seguimos resistindo! 

Com inteligência, trabalho e sagacidade, Djonga simboliza uma geração de jovens periféricos que conquistaram direitos antes inacessíveis e não estão dispostos a recuar com a chegada dos fascistas ao poder. Sabem que precisam se livrar da morte e vivem intensamente, buscando romper com as barreiras impostas por uma sociedade escandalosamente desigual. Muitos deles são os primeiros das suas famílias a acessar um curso superior. Batalham para pagar as contas e querem mais do que o mínimo para sobreviver. Estão atentos ao que acontece ao redor e dentro de si. Tentam educar suas emoções e revelar suas contradições e fragilidades, seus talentos e potenciais. 

Consciente do próprio brilho, o ladrão diz na faixa "Deus e o Diabo na Terra do Sol (open.spotify.com/5) ", em parceria com Filipe Ret: "foi nessas que eu fiz Minas / deixar de ser a terra do pão de queijo / e virar a terra do Djonga". 
Abram alas pro rei!

*Áurea Carolina é formada em ciências sociais pela UFMG, onde concluiu também mestrado em ciência política. Fez especialização em gênero e igualdade pela Universidade Autônoma de Barcelona. Atualmente, é deputada federal pelo PSOL-MG.

Fonte:https://www.nexojornal.com.br/Djonga-o-amor-próprio-de-uma-geração, em 29.04.19

domingo, 9 de fevereiro de 2020

Jovens, por favor, transem!

*Tati Bernardi
Se vocês não transarem antes do casamento, talvez não transem nunca mais!

Jovens deste Brasil, transai e gozai e não vos multipliqueis. Usem camisinha, tomem pílula e transem. Amem, se apaixonem, namorem e transem. Sintam tesão e depois fiquem só amigos, mas transem. Daqui a 10 ou 15 ou 20 anos, se quiserem, tenham filhos, porque é um dos ápices da vida adulta, mas, por ora, foquem o grande ápice da juventude e transem!
Deixem-me alertá-los: a melhor fase da vida é quando as costas não doem constantemente apesar de tantos tratamentos e médicos, os joelhos ainda não estalam (e o barulhinho começa a ficar viciante, porque a gente vicia em cada merda), a neurose está diluída em hormônios, a enxaqueca não funciona como o apito de uma panela de pressão avisando que é hora de parar de pensar em problemas e os antidepressivos ainda não aleijaram nossa excitação. Por favor, jovens, não escutem a tia Damares (Ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos) e transem muito.


O que a ministra do velório libidinal não conta a vocês é que a abstinência acontece, sem nenhum esforço por parte dos envolvidos, DEPOIS do casamento. Então, jovens, se vocês não transarem ANTES do casamento, talvez vocês não transem nunca mais! 
No escuro da noite, quando as crianças não choram por tudo, os maridos finalmente tiraram o fone de ouvido que usam o dia inteiro, as mães não destroem nossa autoconfiança, os colegas de trabalho finalmente pararam de mandar mensagens, a única coisa que movimenta (em um contido sorriso) meu bigode chinês com preenchimento é lembrar que eu já fui um ser muito transante. Eu já fui jovem e, por Deus, passei o rodo nesse país outrora divertido. 
Um dia revelarei aos meus netos: "Vovó aprontava altas!". E eles, que se tudo der certo serão livres e felizes e terão pais progressistas e estudarão em escolas progressistas e terão psicanalistas freudianos ou lacanianos progressistas, dirão, desapontados: "Não deveria ter parado jamais!".
Eu tenho saudade da escada do prédio da minha mãe. Eu tenho saudade das escadas dos prédios das agências de publicidade onde trabalhei. Eu tenho saudade das escadas das festas que eu frequentava.
Hoje em dia eu tenho preguiça até de conversar em pé, que dirá namorar. Eu olho uma escada já me cai a pressão. Não fosse o elevador, eu moraria para sempre no primeiro andar da minha analista.
Um dia eu e meu marido voltaremos a transar, porque os 40 são os novos 38. A esperança é que seja um com o outro. Rimou! Um dia eu vou estar menos cansada, menos medicada e menos chateada. Rimou! Em vez de rimar, eu preferiria transar. Rimou de novo! Percebam: uma hora nossa mente começa a funcionar para versificar os dias e a casa. Tudo em caixinhas musicais, porque fica mais fácil terminar o dia.
Saudade de perder madrugadas amando, de desaguar rios de lágrimas porque o amor acaba, de começar tudo de novo porque ainda dá tempo.
Jovens, por favor, transem; e ao transar, por favor, se cuidem. Cuidem-se para não pegar doenças, cuidem-se para não engravidar antes da hora e cuidem um do outro. Depois votem direito, votem em um governo que trate de vocês como humanos e não como robôs ou rebanhos ignorantes e assexuados. 

E transem, por favor. 
Transem por mim, pela Damares, por seus avós e, sobretudo, por este país.         
*Tati Bernardi
Escritora e roteirista de cinema e televisão, autora de “Depois a Louca Sou Eu”.
Fonte: Publicado originalmente na folha.uol.com.br/colunas/tatibernardi/2020/01/

Texto sugerido por Rosélia Ferreira, a Neguinha de Itaporé, mãe de dois jovens. Ela é servidora da área da saúde. Mora em Diamantina, no Alto Jequitinhonha.