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quinta-feira, 19 de novembro de 2020

O PT cresceu. A mídia comercial quer negar isso.

 

O Partido dos Trabalhadores conseguiu mais votos em 2020 do que em 2016. A mídia comercial e monolítica quer negar isso a todo custo. É o partido mais presente na disputa do 2ºturno: em 57 municípios com mais de 200 mil eleitores está presente em 15. Em Minas, o PT disputa o segundo turno em Contagem e Juiz de Fora.
Nas capitais, disputa em Recife, Aracaju e Vitória. Como vice, está na chapa da Manuela DÁvila, do PC do B, em Porto Alegre; e de Edmilson Rodrigues do PSoL, em Belém do Pará.

O PT cresceu mais do que quer admitir a mídia monolítica

sexta-feira, 19 de junho de 2020

O bolsonarismo genocida não roubará nossos sonhos

Para Além do Cérebro: As charges como resistência atual e memória ...

Pasmo existencial

Por Antônio Carlos de Almeida Castro*
Eu me nego a ser pautado por este bando de arrematados idiotas, corruptos e incompetentes.                                               A sociedade está tomando força e se posicionando. É necessário que todos estes apoios sejam repetidos e reforçados com ações individuais e coletivas.
“O que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesmo” Clarisse Lispector
Quantas vezes somos surpreendidos, no dia a dia, pelo inusitado do que tem acontecido na política no Brasil? 
Às vezes me lembro de Pessoa, na pessoa de Caeiro, “sei ter o pasmo essencial, que tem uma criança se, ao nascer, reparasse que nascera deveras...”. Realmente “sinto-me nascido a cada momento para a eterna novidade do mundo”. 
Este governo genocida não nos dá tempo de nos dedicarmos ao assunto que deveria ser o centro de todas as nossas atenções: a pandemia, o vírus, as mortes, o drama da crise sanitária. 
No dia em que o Brasil completa, oficialmente, quase 50 mil mortos e 1 milhão de infectados todas as atenções estão voltadas para a corrupção da família Bolsonaro, para o Queiroz, para a prática da “rachadinha”, para a indicação de um analfabeto funcional para representar o país, como prêmio de consolação pela sua desumana ignorância, no Banco Mundial. 
Cansei de ter vergonha alheia. Quero minha capacidade de me indignar por questões sérias de volta! Não posso mais ter que me idiotizar para compreender o que ocorre com os destinos de um país que não tem um Ministro da Saúde no meio de uma pandemia mundial, que não tem sequer um plano para contabilizar os mortos. Eu não quero ter que explicar, para as pessoas que não vivem no Brasil, que nós temos um Presidente que incentiva seus seguidores a invadirem hospitais a pretexto de verificar se os médicos estão mentindo e que a doença não é tão grave.  E o pior, explicar porque algumas pessoas seguem esta voz insana, uma voz à procura de um cérebro, e invadem hospitais. 
Um país estranho no qual foi feito o impeachment de uma Presidente sem que ela tivesse cometido o crime de responsabilidade e, agora, o Congresso se nega a discutir o impeachment quando o atual Presidente comete crimes de responsabilidade aos borbotões, quase diariamente. 
Um país que está deixando de ser, sequer, o país do futuro, pois a mediocridade está matando todos os sonhos. Só tem futuro quem sonha, quem acredita. Eu confio mais nos que são capazes de sonhar, mas como viver sob o jugo da completa obscuridade? 
Victor Hugo disse no imortal Os Miseráveis: “Julgar-se-ia bem mais corretamente um homem por aquilo que ele sonha do que por aquilo que ele pensa”. Andei o Brasil nos últimos anos a discutir o excesso de punitivismo, fui a todos os espaços possíveis usando aquilo que a advocacia me deu: voz. 
Em todos os lugares em que estive alertei que deveríamos ter a humildade de, às vezes, nos mirar na natureza. A escuridão não cai de uma só vez. Não somos surpreendidos ao meio dia com uma noite fechada, que cai em segundos em pleno lago Paranoá. A natureza é sábia, o entardecer vai afastando a luz, vai apagando o dia e a noite começa a se impor, devagarinho, até que chegue à plenitude da força da escuridão. E nós vamos nos acostumando a falta de luz. 
Assim é o regime obscurantista. Vai aos poucos nos tirando a capacidade de resistir, de indignar, de protestar, de reagir. Até que, vencidos pela mediocridade deste projeto fascista, nós percamos a voz, o ar. E sem ar e sem voz não conseguimos resistir. Nos tornamos cidadãos como que afetados pelos efeitos do coronavírus sem estarmos infectados pelo vírus, mas infectados pelo verme do bolsonarismo. Um estado de letargia, sem inteligência, sem capacidade sequer de protestar. 
Mais uma vez socorro-me de Victor Hugo: “Chega a hora em que não basta apenas protestar: após a filosofia, a ação é indispensável”.  E, insisto, é necessário voltar a acreditar que temos que enfrentar esta mediocridade que nos deprime. O país precisa voltar a acreditar que existe vida fora desta mediocridade. 
Eu me nego a ser pautado por este bando de arrematados idiotas, corruptos e incompetentes. A sociedade está tomando força e se posicionando. São vários os grupos e manifestos. É necessário que todos estes apoios sejam repetidos e reforçados com ações individuais. 
Em tempo de isolamento vamos cada um, também isoladamente, dizer basta, chega, encheu o saco!
“Matar o sonho é matar-nos. É mutilar a nossa alma. O sonho é o que temos de realmente nosso, de impenetravelmente e inexpugnavelmente nosso” (Fernando Pessoa).
Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, é advogado criminalista.
Publicado originalmente no www.brasil247.com, em 19.06.2020.

quinta-feira, 18 de junho de 2020

Bolsonaristas envergonhados não têm coragem de pedir desculpas

Para Além do Cérebro: Leandro Fortes reflete sobre o crescente ...

Mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa 

Pedro Cafardo* 

Classe dominante sabia o que esperar de Jair Bolsonaro quando o elegeu.
O título acima, em latim, não precisa de tradução. Vem de uma reza tradicional da Igreja Católica, o “Confiteor” (Eu confesso), na qual o fiel reconhece seus erros perante o Criador.

A prática do mea culpa é rara no Brasil. O PT foi e ainda é muito cobrado para fazer autocrítica e reconhecer erros cometidos durante os anos em que esteve no poder, nos governos Lula e Dilma. Nunca os reconheceu, nunca pediu desculpas.

"Errar é humano, mas o Brasil precisa adotar a autocrítica"

Há hoje, no Brasil, uma extensa lista de entidades e pessoas que precisam fazer o mea culpa pela escolha de 2018, quando a disputa democrática oferecia pelo menos seis ou sete candidatos melhores que o eleito.

Políticos influentes se omitiram na campanha eleitoral e deram um “dane-se” ao país. Oportunistas, muitos deles se elegeram governadores e deputados na sombra do candidato presidencial e agora viraram casaca como se nunca o tivessem apoiado, sem uma palavra de arrependimento e desculpas. Empresários só pensaram no próprio quintal e passaram a aceitar “qualquer um” desde que não fosse do PT. 

Igrejas se animaram com o tom conservador e as ideias retrógradas. Juízes e procuradores influenciaram o voto sem demonstrar constrangimento. Jornalistas olharam para a economia e acharam que Paulo Guedes, o Posto Ipiranga, com sua política liberal, poderia consertar o país. Mesmo que o presidente continuasse andando por aí propagando teorias bizarras, feito criança inconsequente.

Jornalistas, portanto, não podem fugir de suas responsabilidades. Muitos dos que hoje ferozmente expõem as atrocidades presidenciais deveriam reler com distanciamento crítico o que escreveram no passado recente. Julgaram que, uma vez eleito, o presidente não iria se aventurar no autoritarismo. Que as instituições impediriam aventuras desse tipo e consideraram histéricas pessoas que se mostravam temerosas. É possível mesmo que a sociedade organizada consiga evitar o avanço autoritário para uma ditadura, mas o custo será elevado. Já está sendo.

Jornalistas, portanto, não podem fugir de suas responsabilidades. Muitos dos que hoje ferozmente expõem as atrocidades presidenciais deveriam reler com distanciamento crítico o que escreveram no passado recente.

Na hora de assumir responsabilidade por erros, é instrutivo observar o mapa das votações no segundo turno das eleições de 2018. Está lá, em verde e vermelho, uma impressionante divisão do país em dois: o rico e o pobre. Quanto mais rico, mais verde, e, quanto mais pobre, mais vermelho. Em São Paulo, o Estado mais rico, Bolsonaro venceu em 631 dos 645 municípios. No Nordeste, a região mais pobre, ele perdeu em 98% dos municípios. A faixa verde se estende desde Rondônia, Mato Grosso e Goiás, áreas do próspero agronegócio, até o sul de Minas, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, as regiões mais industrializadas do país. A vermelha domina o Norte e o Nordeste.

Está claro que a escolha do presidente foi responsabilidade das elites brasileiras, do agronegócio à indústria, passando evidentemente pelo setor financeiro. Não há clichê esquerdista algum nessa afirmação que usa a palavra “elites”. Foram, sim, os mais ricos e teoricamente bem informados que elegeram ou trabalharam com mãos e mentes pela eleição do atual presidente. Precisam agora fazer mea culpa.

Ao escolher Bolsonaro, a classe dominante sabia que ele se juntaria ao conservadorismo de Trump, que adotaria comportamento hostil em relação à China, maior parceiro comercial do Brasil, que daria uma banana para as causas ambientais, que desprezaria os povos indígenas, que poria ideologia conservadora nas escolas, que incentivaria a homofobia e o uso de armas pela população, que tiraria recursos da cultura, que a contragosto apoiaria o arrocho fiscal recessivo, que flertaria com o autoritarismo antidemocrático.

O atual presidente tem muitos e graves defeitos, mas também uma qualidade: nunca mentiu sobre suas intenções autoritárias. As elites só não sabiam, mas poderiam desconfiar, que ele adotaria uma política tão desastrosa na área da saúde. Nem que o país enfrentaria a infeliz coincidência de ser liderado por alguém que despreza a ciência e promove a morte em meio a uma pandemia nunca vista em cinco gerações.

Por que o Brasil elegeu um cidadão que agora obriga brasileiros a lutar feito leões para manter a democracia? Por que o eleitorado foi tão incompetente a ponto de minar seu próprio terreno com bombas que agora exigem tempo e energia para a sua desativação?

Assustados, heróis da campanha das “Diretas já” dos anos 1980 emergem da aposentadoria para alertar os mais jovens sobre o perigo iminente. A batalha ideal de hoje seria pela saúde, pelo crescimento econômico, pela distribuição de renda, pela educação universal e por outras causas sociais que possam melhorar a vida dos brasileiros. Mas não, 35 anos depois de ter derrubado a ditadura, cá está novamente a nação lutando para salvar sua democracia.

Por Pedro Cafardo. É editor-executivo do Valor e integra a equipe que fundou o jornal. Foi editor-chefe de "O Estado de S. Paulo" e editor de Economia em várias publicações. 
Com certeza, um bolsominion arrependido.
Publicado originalmente no https://valor.globo.com/brasil/coluna/, no dia 15.06.2020.

sexta-feira, 22 de maio de 2020

COVID-19: Negacionismo da ciência, com as mãos sujas de sangue.

O doutor em microbiologia, Atila Iamarino, descreve ações de negação da ciência, seja por interesses econômicos, políticos ou sociais, em outros momentos da história. E desnuda as ações dos negacionistas das evidências científicas na crise sanitária atual, mesmo a custo do sacrifício de vidas humanas. E permanece firme, sendo uma das vozes sensatas mais ouvidas do país, com a coragem em prenunciar, em março, uma tragédia com centenas de milhares de mortes se ações preventivas não fossem tomadas. Atacado pelos terraplanistas e necroeconomistas, publica o presente artigo com argumentos contundentes em defesa da vida.  

Os céticos da Covid-19

Dos males do cigarro à inflamação da garganta, ciência já foi questionada antes.

"É o tradicional negacionismo da ciência, desta vez feito com as mãos sujas de sangue."

Atila Iamarino*

A pandemia é difícil de engolir. Para alguns, o isolamento social é mais intragável. É difícil convencer alguém de algo quando seu salário depende de não entender aquilo, já dizia Upton Sinclair. Imagine então quando a saúde é colocada à frente da economia.
A Covid-19 chegou de supetão, mas com a quarentena reduzindo o avanço da pandemia, negadores da realidade ganharam tempo de se organizar. Surgem os primeiros céticos da Covid-19, da quarentena, do lockdown ou mesmo das mortes.
Poucos questionariam usar o antibiótico azitromicina para faringite. Já para o tratamento da Covid, não faltam opiniões, principalmente entre os que apresentam tratamentos não como um objetivo que é procurado, mas como uma alternativa certa à necessidade de quarentena. Onde a ciência ainda não é certa ou é certa mas contrária, substituem-na por opiniões que transformam fatos em pontos de vista abertos a debate. Consensos viram ideias identitárias.
Países de todo espectro político adotaram isolamento sério, da direita israelense ao partido comunista vietnamita. Mas nada disso importa para quem precisa invalidar essas medidas e mandar as pessoas para rua e pinta o isolamento da cor política que mais desagradar a audiência.
Dizem que um sapo na água esquentando devagar não percebe quando ela ferve e acaba cozido. A fábula corporativa sobre mudança gradual ignora o fato de que sapos registram bem a temperatura ambiente e vão tentar pular da panela quando ela ultrapassa o que toleram. Já humanos têm um órgão especializado em criar justificativas racionais para decisões emocionais e vão fazer o possível para convencer o próximo —e, se bobear, até o sapo— de que o planeta, digo, a panela não está aquecendo.
Quando a ciência propôs que garganta inflamada seria causada por bactérias, houve quem questionasse. E não foram cientistas, mas, sim, comerciantes e industriais que usavam políticos e imprensa para negar que as quarentenas que lhes davam tanto prejuízo nos protegeriam de doenças como a febre amarela.
No fim do mesmo século, Thomas Edison foi mais discreto para desacreditar a ciência desfavorável à corrente elétrica contínua de sua empresa. Contratou o engenheiro elétrico Harold Brown para se passar por um especialista interessado no bem-estar das pessoas que escrevia para jornais condenando a corrente alternada dos concorrentes.
Métodos parecidos viraram modelo de negócios no questionamento da relação entre cigarro e câncer por médicos e especialistas contratados pela publicidade de empresas de tabaco. Os mesmos especialistas contratados questionavam a relação entre poluição e chuva ácida ou entre o uso de combustíveis fósseis e o aquecimento global, como o livro “Merchants of Doubt” conta.
Recentemente, essa técnica foi transposta para a internet e deu origem aos 4 D’s da propaganda feita para soterrar a verdade onde a censura não é possível: 
Desqualificar os críticos, como este biólogo aqui, atacado por apresentar a realidade; 
Distorcer os fatos, como a efetividade óbvia da quarentena na Europa; 
Distrair do problema, com tratamentos que não funcionam ou  isolamento vertical —tão efetivo quanto escolher um canto da piscina para fazer xixi, como bem disseram no Twitter; e 
Desanimar a audiência com a insistência em cada ponto desse usando “especialistas”, médicos ou influenciadores do ódio que aceitam milhares de mortes (dos outros) como necessárias.
É o tradicional negacionismo da ciência, desta vez feito com as mãos sujas de sangue.
Publicado em 09.05.2020, na Folha de S. Paulo.
*Atila Iamarino
  • Biólogo bacharelado (2006), doutor em microbiologia (2012) pela Universidade de São Paulo e divulgador científico 
na internet. Fez pós-doutorado pela Universidade de São Paulo e pela Yale University. Fundador da maior rede de 
blogs de ciência em língua portuguesa, o ScienceBlogs Brasil. Atualmente faz comunicação de ciência no Nerdologia 
e no próprio canal no YouTube para mais de 2,5 milhões de pessoas.
https://twitter.com/oatila

sábado, 18 de abril de 2020

Não é hora de reclamar das privações, mas de solidariedade e projetar uma vida melhor

Por que lamentas estar isolado dentro de casa? Já pensaste naqueles que nem casa têm e são obrigados a conviver com o risco iminente da infecção? Ou será que o teu coração é um cômodo entupido de ego, sem lugar para mais ninguém?
Por que lamentas se, agora, vives em uma prisão de luxo, com liberdade para estabelecer teus horários e escolher a comida que te agrada? Pensa naqueles que enfrentam longas filas para receber uma quentinha da caridade alheia. 
Por que lamentas ao se ver obrigado a cancelar a festa de aniversário ou casamento, e arcar com o prejuízo que não será ressarcido? O que preferirias, a festa com o coronavírus invisível circulando entre teus convidados ou preservar a tua e outras vidas para festas vindouras?
Por que lamentas não poder, agora, fazer a viagem sonhada e programada, e se ver forçado a ficar recolhido em teu espaço doméstico? Ou seria melhor uma passagem sem volta para a morte?
Por que lamentas não poder sair à rua, encontrar amigos e voltar a tua rotina de trabalho e lazer? Ainda podes conversar por telefone, talvez trabalhar desde casa e improvisar teus métodos de ginástica.
Por que lamentas ser idoso e figurar entre os mais vulneráveis? Alguma vez te passou pela cabeça que o melhor da velhice é não haver morrido jovem? Já que chegastes a esta idade, cuida de preservar a tua vida por mais alguns anos e, quem sabe, décadas.
Por que lamentas ser obrigado a fechar teu comércio, teu escritório, ameaçado de ter tua renda reduzida? Já imaginastes se não fossem tomadas medidas restritivas e a pandemia se multiplicasse a ponto de atingir a ti e a teus entes queridos?
Por que lamentas o que te soa como perda ou privação? Nunca pensastes nas pessoas em situação de guerra, nos refugiados, nos que não têm acesso a nenhum sistema de saúde? Não contabilizes as tuas perdas, contabiliza os teus ganhos, como estar vivo, gozar de boa saúde e desfrutar do convívio com tua família.
Por que lamentas não suportar a solidão que te obriga a um encontro mais íntimo contigo mesmo? Não é hora de dar um balanço na própria vida, reavaliar os valores abraçados e reconsiderar convicções arraigadas? Não é este o momento de reinventar-te?
Não lamentes! Tens um teto, o alimento garantido e boa saúde. És um privilegiado. Lamenta, sim, por aqueles que nada disso possuem. Não por escolha, e sim por serem vítimas de um sistema econômico seletivo e excludente, no qual os interesses do capital privado pairam acima dos direitos coletivos. 
Não te afogues em teu lamento. Extraia dele forças para mudar o que consideras injusto. E cuida-te! Não te julgues imortal. O teu e o meu dia  chegarão. Mas não apressemos os desígnios de Deus. Na vida nada tem maior valor do que a própria vida.
Guarda teu pessimismo para dias melhores. E repete a “Prece” de Fernando Pessoa: “Senhor, protege-me e ampara-me. Dá-me que eu me sinta teu. Senhor, livra-me de mim.”
*Frei Betto é escritor, autor de “O diabo na corte – leitura crítica do Brasil atual” (Cortez), entre outros livros.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

Mortos, não pela chuva, mas pela injustiça social

 Frei * 
                                                                                     Foto: Douglas Magno / AFP


No final da penúltima semana de janeiro de 2020, choveu significativamente em várias regiões de Minas Gerais. Em 24 horas, choveu 171,8 milímetros. Chuva mansa, mas constante. Houve uma enorme mobilização da grande imprensa e de poderes públicos municipais de muitos municípios no sentido de alertar a população de que estava chegando uma grande chuva que poderia causar inundações, deslizamentos e pôr em risco a vida das pessoas.

Em Belo Horizonte, a defesa civil anunciou alerta de risco geológico e chegou-se a pedir insistentemente para as pessoas ficarem em casa dia 24 de janeiro. Muitas avenidas foram interditadas.

Segundo a Defesa Civil do Governo de Minas Gerais, em Boletim de 28/01, com o título “Mortes causadas pelas chuvas em MG”, em alguns dias de chuva: 28.893 pessoas foram desalojadas, 4.397 desabrigadas, 65 feridas, 52 foram mortas e mais de 10 estão desaparecidas , o que, segundo o boletim, são óbitos a serem confirmados. Em Belo Horizonte, entre os 13 mortos, uma mãe e três crianças. Em Ibirité, uma mãe foi encontrada morta, nos seus braços um bebê também morto.
Diante dos deslizamentos de terra, das inundações provocadas pelas chuvas, de quase 14 mil desalojados, de mais de 3 mil desabrigados, de 12 pessoas feridas e mais de 40 pessoas mortas – sem contar 19 pessoas desaparecidas -, primeiro, expressamos nossa solidariedade e conclamamos a quem puder se somar ao mutirão de apoio para ajudar as milhares de famílias atingidas e muitas golpeadas a reconquistar o mínimo necessário para erguer a cabeça e retomar a vida.
Entretanto, para que a mentira não continue cobrindo as causas mais profundas da ‘sexta-feira da paixão’ que se abate sobre o povo cada vez mais com frequência, precisamos dizer em alto e bom som a verdade, cientes de que a verdade dói, mas liberta.

É mentira a manchete divulgada pela Defesa Civil – “Mortes causadas pelas chuvas em MG”. É nojento ouvir jornalistas na grande imprensa dizerem: “a chuva está castigando …”. “A chuva está causando estragos …” Diante dos mortos, das vítimas e de milhares de desabrigados aparentemente pelas chuvas, é imoral e covarde ouvir prefeitos dando uma de Pilatos, tentando se eximir de suas responsabilidades, afirmando que “foi uma tragédia ambiental natural”, “Cada um deve cuidar da sua casa”, “Invadiram áreas de riscos. Eles são os culpados”. Fazer esse tipo de afirmação é apunhalar quem já foi golpeado, é transformar a vítima em algoz. É injustiça que clama aos céus.
Não é a chuva e nem Deus que devem ser condenados. Colocar a culpa na chuva e em Deus é encobrir o real escamoteamento a verdade, é criar uma cortina de fumaça que ofusca a realidade beneficiando somente os adoradores do capitalismo – grandes empresários da cidade e do campo, políticos profissionais (uma corja) e ingênuos sustentadores da engrenagem mortífera que continua a trucidar vidas em progressão geométrica em uma sociedade cada vez mais desigual.
Na Bíblia se fala de chuva mais de cem vezes. A chuva é benfazeja, cai sobre justos e injustos, diz o evangelho de Mateus (Mateus 5,45). A chuva é reflexo da bondade de Deus, que é um mistério de infinito amor. Deus rega com a chuva a terra que deu como herança ao seu povo (I Reis 8,36). “Mandarei chuva no tempo certo e será uma chuva abençoada” (Ezequiel 34,26), profetiza Ezequiel consolando o povo em tempos de imperialismo e de exílio, em tempos de escassez de chuva. A sabedoria do povo da Bíblia reconhece que Deus, solidário e libertador, “por meio da chuva, alimenta os povos, dando-lhes comida abundante” (Jó 36,31). Até no dilúvio, a chuva é vista como purificadora (Cf. Gênesis 6 a 9). Sob o imperialismo dos faraós no Egito, a chuva de granizo é vista como uma praga que fustiga os opressores, ao mesmo tempo em que é uma dádiva de Deus que liberta da opressão (Cf. Gênesis 9 e 10).
A chuva não castiga, não desaloja, não desabriga e nem mata ninguém. Quem está em casa com boa estrutura, construída sobre terra firme, pode dormir tranquilo, porque a casa não cairá com as chuvas. Sempre recordo que, 50 anos atrás, quando eu era criança, no noroeste de Minas Gerais, “chovia invernado uma semana, duas semanas, às vezes, até um mês sem parar”. Não morria praticamente ninguém. Nas décadas de 1970, a maior parte do povo vivia no campo e podia construir as casas longe das margens dos rios que ficavam inundadas. Atualmente, só em Belo Horizonte há mais de 200 rios e córregos sepultados com asfalto, após serem envenenados com esgoto in natura.
A irmã chuva apenas revela uma injustiça socioeconômica e política existente. Quem desaloja, desabriga, fere e mata em última instância é a tremenda injustiça agrária e socioambiental reinante na sociedade capitalista. Dizer que “a chuva castiga” é mentira, é reducionismo que esconde o maior responsável por tanta dor e tanto pranto: o sistema capitalista e a classe dominante que descartam as pessoas e as condenam a sobreviverem em encostas e áreas de risco. Soma-se a tudo isto a falta de planejamento urbano e social das prefeituras, que deveriam investir de forma contundente na elaboração de Plano Diretor e de zoneamento para as cidades de forma participativa e comunitária, buscando construir cidades justas economicamente, solidária socialmente e sustentável ecologicamente. Sem uma gestão socioambiental, os municípios continuarão destruindo as matas ciliares de rios e desmatando as suas encostas, fragilizando o solo, causando deslizamentos e assoreamentos, que tendem a ser cada vez mais trágicos.
 Quem é atingido quando a chuva chega em um volume maior, salvo exceções, são as famílias que tiveram seus direitos humanos fundamentais – direito à terra, à moradia, ao trabalho, à educação, a um salário justo, ao meio ambiente equilibrado e à dignidade – desrespeitados pelo capitalismo neoliberal e por pessoas que adoram o deus capital, o maior ídolo da atualidade.
Segundo o Comitê sobre os Direitos Econômicos, Sociais e Culturais da ONU em seu Comentário 4, todas as pessoas têm o direito a uma moradia SEGURA E ADEQUADA, abaixo especificada:
  1.  Segurança da posse: a moradia não é adequada se os seus ocupantes não têm um grau de segurança de posse que garanta a proteção legal contra despejos forçados, perseguição e outras ameaças.
  2.  Disponibilidade de serviços, materiais, instalações e infraestrutura: a moradia não é adequada, se os seus ocupantes não têm água potável, saneamento básico, energia para cozinhar, aquecimento, iluminação, armazenamento de alimentos ou coleta de lixo.
  3. Economicidade: a moradia não é adequada, se o seu custo ameaça ou compromete o exercício de outros direitos humanos dos ocupantes.
  4.  Habitabilidade: a moradia não é adequada se não garantir a segurança física e estrutural proporcionando um espaço adequado, bem como proteção contra o frio, umidade, calor, chuva, vento, outras ameaças à saúde.
  5.  Acessibilidade: a moradia não é adequada se as necessidades específicas dos grupos desfavorecidos e marginalizados não são levados em conta.
  6. Localização: a moradia não é adequada se for isolada de oportunidades de emprego, serviços de saúde, escolas, creches e outras instalações sociais ou, se localizados em áreas poluídas ou perigosas.
  7.  Adequação cultural: a moradia não é adequada se não respeitar e levar em conta a expressão da identidade cultural (UNITED NATIONS, 1991).
Portanto, quem desaloja, desabriga e mata não é a chuva, não é Deus, mas é a injustiça social reproduzida cotidianamente no Brasil, que gera uma tremenda desigualdade social e empurra milhões para sobreviver em áreas de risco geológico. Quem construiu um barraco em área de risco geológico antes foi empurrado para risco social.
Logo, gratidão eterna à irmã chuva que gera vida e ao Deus da vida, mas ira santa e rebeldia diante do sistema capitalista e seus executivos que de fato desabrigam, golpeiam e matam. É hilariante ouvir um prefeito ‘lavar as mãos’ sujas de sangue e dizer que “cada um deve cuidar de sua casa”. Autoridades políticas só podem dizer isso após construírem moradia digna – SEGURA e ADEQUADA – para 7 milhões de famílias que estão sem moradia no Brasil. Enfim, após fazerem reforma agrária e reforma urbana.

Em Belo Horizonte e Região Metropolitana, onde mais vidas foram ceifadas (13 em Belo Horizonte, 6 em Betim, 5 em Ibirité e 2 em Contagem) há um déficit habitacional acima de 150 mil moradias. Além de fertilizar a terra e recarregar as nascentes e mananciais, a irmã chuva está gritando por políticas públicas sérias e idôneas, tais como política agrária e política de moradia popular adequada para todos/as.
Belo Horizonte, MG, 28/01/2020.
Fone: gilvander.org.br
Resultado de imagem para Frei Gilvander*Gilvander Luís Moreira, ou simplesmente, Frei Gilvander, é mineiro do Alto Paranaíba. Frei e padre da Ordem dos Carmelitas. Licenciado e bacharelado em Filosofia na UFPR. Bacharelado em Teologia pelo Instituto Teológico São Paulo. Mestrado pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma. Doutor em Educação pela FAE/UFMG. Trabalha na CPT-MG.