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sexta-feira, 6 de março de 2020

8 de março: dia de luta coletiva contra a opressão machista

Por um feminismo de baderna, ira e alarde.

Neste 8M, ocuparemos politicamente as ruas e as nossas casas, em festa e protesto. Não queremos flores, parabéns e elogios — mas sacudir uma ordem social irrespirável, que tem a mesma cara dos machos rivalistas e opressores.
Pelo SOS Corpo
Baderna, nova coluna em Outras Palavras

Os tempos exigem baderna, gritaria e desobediência. Somos coletivas. Negritamos com alarde nossas feministas palavras. Nascemos do pensamento pensado e, no movimento, construímos pensamento pensante. Oferecemos aqui nossas provocações. O que queremos é atiçar desordens, porque do pessoal ao público, tudo é política. Portanto, que a baderna seja feminista. Esta coluna é feita pelo Cfemea e SOS Corpo, dois coletivos políticos profissionais feito por mulheres e com uma longa história de atuação feminista no Brasil.
O feminismo veio para ocupar tudo! Não tem como conter essa forma de ver, pensar e transformar o mundo. O pensamento feminista foi fundamental para que a democracia ganhasse demandas reais em espaços do cotidiano, foi fundamental para compreendermos que ele é uma forma de organizar a vida social. Nós mulheres não só denunciamos as declarações sexistas de políticos ou escrachamos os machos que se esfregam “nelas” no metrô ou no carnaval. É mais que isso: o feminismo revelou que o espaço “privado” imposto a nós mulheres, à família e à casa nada tinha de privado, mas representou e representa violação e privação. O feminismo respondeu aos que enaltecem a família patriarcal burguesa, como núcleo sagrado abençoado por Deus, dizendo desde o seu começo que o pessoal é político e provando que pais, tios e irmãos são os principais responsáveis por estupros de meninas e assassinato de mulheres.
O feminismo, além de pensamento, é movimento. Suas ideias levam mulheres a se encontrar umas com as outras e ir às ruas, com lutas feitas por mulheres de carne, osso e coração sangrando. Nas periferias das cidades, no campo, nas florestas, à beira das águas e nas margens da sociedade nós mulheres estamos, na prática e no cotidiano, construindo a democracia. Somos nós, as mães, brigando com governos locais por creches e escolas para nossos filhos; somos mulheres indígenas defendendo umas às outras, nossas comunidades e também os nossos territórios; somos mulheres negras denunciando a polícia militar por racismo institucional contra nossos jovens filhos/as negros; somos mulheres transsexuais batalhando para conseguir reconhecimento de nosso nome social; somos mulheres lésbicas espalhando a potência do amor entre mulheres; mulheres agricultoras rurais estabelecendo uma relação orgânica, pessoal e natural com a Terra; somos mulheres quilombolas tomando a liderança de nossas comunidades para termos reconhecido o direito a nossos territórios ancestrais e nossa cultura; somos mulheres sindicalizadas declarando a importância da organização feminista no mundo do trabalho produtivo e denunciando as desigualdades trabalhistas fruto da desigual divisão sexual do trabalho. Somos trabalhadoras domésticas, mulheres que trabalhamos em casas de famílias, alertando para a continuidade da cultura escravocrata que se estampa na falta de reconhecimento de direitos trabalhistas básicos e violências sofridas constantemente no ambiente de trabalho; somos mulheres de fé enfrentando a violência dos que se dizem nossos companheiros em casa; mulheres de axé enfrentando ataques de fanáticos religiosos aos nossos terreiros e a nosso sagrado; somos jovens estudantes reclamando para nós a autoria de um feminismo combativo e ligado às lutas pela educação pública de qualidade; somos as mulheres que estão em postos de representação política que sofrem violências políticas e violências fatais, que nos transformamos em sementes desse novo tempo que está por vir. O feminismo é mais que uma ideia que está sendo combatida, ele tem se traduzido em organização política e movimento social pela transformação.
Em novembro de 2019, o mundo conheceu a performance “Un Violador En Tu Camino”, criada por um grupo performático interdisciplinar de feministas, o Las Tesis. Elas levaram para as ruas chilenas o hino que denuncia e nomeia os antagonistas na violência patriarcal em nossos cotidianos. A potência da ação artivista virou o fenômeno: em um mês, a performance chegou em todos os continentes. Mulheres de diferentes idades, ligadas ou não a movimentos feministas, replicaram a performance, mostrando que a culpa pela violência nunca é nossa e que a retórica de que a culpa é da roupa ou do lugar onde transitamos também é refutada. Por explicitar o caráter estrutural da violência contra as mulheres em suas dimensões sexista e racista, os homens violadores e a força patriarcal organizada no Estado e suas instituições, a performance ganhou visibilidade em todo o mundo.
O feminismo se espalhou, mas é preciso ter cuidado para não ser capturado pelas forças dominantes. O 8M não é sobre mulheres brancas estampando capas de revistas nacionais, posando como grandes executivas na tentativa de provar que existe alguma igualdade. Não haverá oportunidade para todas dentro de um sistema que se alimenta de crises e desigualdade, se apropriando do tempo e da força de trabalho das pessoas. Não existe igualdade possível nesse mundo de exploração e mercantilização capitalista. Por isso o 8 de Março não é sobre flores, parabéns, doces e elogios. Não é sobre um dia de folga para mulheres ou de equipe só de mulheres. Não é sobre ser empoderada sozinha e empreender para sobreviver. Nossa luta é antagonista a isto, é luta contra-hegemônica. Não existe empoderamento sem feminismo, sem luta coletiva.
É preciso lembrar que o 8 de março nasceu comunista. Todas as manifestações originais que aconteceram no século 18 tinham como objetivo dar visibilidade às péssimas condições em que se encontravam as mulheres trabalhadoras, no contexto fabril. É comum relacionar o Dia Internacional de Luta das Mulheres ao incêndio ocorrido em Nova York no dia 25 de março de 1911 na Triangle Shirtwaist Company, quando 146 trabalhadores morreram, sendo 125 mulheres e 21 homens. Entretanto, a data do 8 de Março vem de uma manifestação ocorrida na Alemanha. Em 1910, a comunista Clara Zetkin propôs a criação de uma jornada anual de manifestações que visibilizasse as condições de trabalho das mulheres nas fábricas. A proposta de Zetkin era de uma jornada anual de manifestações das mulheres pela igualdade de direitos. O primeiro dia oficial da mulher seria celebrado, então, em 19 de março de 1911. Em 1917, houve um marco ainda mais forte daquele que viria a ser o primeiro 8 de Março. Naquele dia, um grupo de operárias saiu às ruas para se manifestar contra a fome e a Primeira Guerra Mundial, movimento que seria o pontapé inicial da Revolução Russa. O protesto aconteceu em 23 de fevereiro pelo antigo calendário russo – 8 de março no calendário gregoriano, que os soviéticos adotaram em 1918 e é utilizado pela maioria dos países do mundo hoje.
Na Rússia, em 1917, milhares de mulheres foram às ruas contra a fome e a guerra; a greve delas foi o pontapé inicial para a revolução e deu origem ao Dia Internacional da Mulher
Entretanto, para falar do sentido do 8 de março como marco de resistência feminina é imprescindível negritar que a luta das mulheres é muito mais antiga que essas resistências europeias e norte-americanas. Essa história oficial sempre tentou apagar a enorme resistência protagonizada pelo povo negro, especialmente as mulheres negras. No Brasil e na América Latina, as mulheres negras resistem desde o século XVI quando foram traficadas de África para este país. Dandara, Aqualtune e Luiza Mahin são mulheres negras símbolos, tanto no campo quanto na cidade, da luta contra a escravidão no Brasil. Elas estiveram em constante rebeldia para libertar a si e a seu povo da escravidão e violência. Estas e outras mulheres negras deram um sentido especial ao significado de revolta das mulheres no Brasil. Eram mulheres que iam às ruas vender quitutes e lavar roupas, conseguiam dinheiro para alforriar companheiros e se envolviam em rebeliões e aquilobamentos.
Há algum tempo, o Dia Internacional de LUTA das mulheres tem crescido em mobilização. A greve de mulheres na Espanha reuniu mais de meio milhão de mulheres nas ruas no ano passado. Na América Latina o movimento de protestos de mulheres também atinge a casa das centenas de milhares. No Brasil as manifestações têm crescido em número de mulheres nas ruas e em força. Lembramos todas as marchas, insurgências, ocupações e ações diretas. Recordamos a ação do Movimento de Mulheres Camponesas contra a empresa Aracruz Celulose. Na madrugada do dia 8 de março de 2006, 1.800 mulheres da Via Campesina ocuparam o viveiro florestal da Aracruz Celulose, em Barra do Ribeiro, município que fica a cerca de duas horas de Porto Alegre. Na ação, elas destruíram estufas e bandejas de mudas de eucalipto para ampliar o debate sobre a monocultura de eucalipto que vem destruindo florestas selvagens, territórios quilombolas e indígenas. Em 2018, as mulheres rurais realizaram a Jornada Nacional de Luta das Mulheres Sem Terra, organizada pela Via Campesina, Movimento Sem Terra, Levante Popular da Juventude e Marcha Mundial das Mulheres. Foram diversas ações diretas contra grandes corporações e latifundiários. Elas ocuparam o parque gráfico do jornal O Globo, no Rio de Janeiro, invadiram uma fábrica de roupas da Riachuelo no Rio Grande do Norte e ocuparam também a Superintendência Regional do Incra (Instituto de Reforma Agrária) em Brasília. Em Dourado, no Mato Grosso do Sul, as camponesas fecharam o trânsito e puseram fogo na entrada da empresa de fertilizantes químicos Heringer. Em Porto Velho, Roraima, os acessos aos portos e postos de gasolina foram bloqueados. Na Amazônia, a multinacional Hydro, com sede em Belém, foi invadida, pichada e denunciada como a maior responsável do crime ambiental no município de Barcarena. As mulheres têm feito do 8 de março um momento de desobediência civil, inspirador e mobilizador, porque o 8M é sobre um outro mundo que tornaremos possível. Resgatamos a memória de todas as Marielles que brotam como semente no seio da política para desespero dos bilionários machistas racistas, cujo projeto de poder é aumentar as desigualdades para ampliar suas riquezas, mesmo que isso signifique o genocídio da população negra, feminicídios, encarceramento em massa, pobreza, fome, epidemias e até mesmo a destruição do planeta.
O 8 de março é o símbolo da nossa luta conjunta em defesa das nossas vidas e de nossos territórios. É o dia em que todos os feminismos se encontram na mesma rua, no mesmo grito. Ele representa um marco de potência por articular todas as forças políticas do nosso campo. O 8M é como uma festa que reanima nossa resistência, é quando chegam novas companheiras, novos coletivos se formam, a história das que vieram antes é lembrada e podemos sonhar juntas um futuro feminista. A cada ano nos encontramos nas ruas e nas rodas, em luta, em festa, em música, em arte e em denúncias. Nossos corpos ocupam as ruas, ambos como território político, requerendo que a democracia aconteça nas nossas vidas, nos subúrbios e favelas, becos e vielas, nos territórios indígenas e quilombolas, nos interiores, nas cidades pouco habitadas e nas megalópoles. Neste ano de 2020, ocuparemos politicamente não apenas o poder legislativo municipal, mas também as praças e as nossas casas, os ônibus e as paradas, ruas, calçadas, postos de trabalhos, as quebradas, as fábricas, as feiras, as filas, as florestas, águas, aeroportos, rodoviárias, os lugares de prazer e os espaços de lazer tanto negados a nós mulheres.
Sabemos que todas essas lutas que fazemos são nas brechas deixadas pelo patriarcado racista e capitalista. Isso porque, trancafiadas em casa, as mulheres nunca tiveram liberdade para protestar. O patriarcado até aqui nos ofereceu concessões, mas, como nos ensinou Simone de Beauvoir, basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos de nós mulheres sejam questionados. Se somos desobedientes e insurgentes é porque sofremos na pele a violência política que se direciona a nós quando ocupamos os espaços públicos. Essa violência tem como objetivo nos excluir da arena política, da vida pública, dos espaços de poder. Enquanto as feministas forem demonizadas, apontadas como mulheres furiosas, raivosas, peludas e o feminismo difamado, atacado como um “machismo de saia”, “uma doença infantil do lulismo” ou uma ideologia de gênero, o espaço reservado a nós mulheres, no capitalismo, continuará sendo o da submissão. As igrejas defendem isso abertamente através de seus astros do mundo gospel dizendo que a mulher não deve esquecer o seu papel em casa, recusando igualdade entre homens e mulheres, levantando que a presença do feminismo nas igrejas é armadilha para desviar as mulheres das igrejas e de suas missões para com o lar.
Desde as violências perpetradas contra a primeira presidenta eleita democraticamente no Brasil, Dilma Rousseff, usadas para destituí-la do poder executivo do país, prevalece na sociedade brasileira um clima de ataque ao movimento feminista e a nós feministas. Michel Temer foi o autor da polêmica “Bonita, recatada e do lar”, muito bem contestada por feministas em todo o Brasil. A equipe de mídia social que faz terrorismo digital em nome do Palácio do Planalto, muito bem denunciada na CPMI das fake news ainda em curso no Congresso Nacional, também definiu como seu inimigo social o símbolo da vênus, utilizado para representar o feminismo. Os ataques sexistas do presidente, seus filhos e aliados às mulheres, como Patrícia Campos Mello e Joice Hasselmann, são exemplos de autorização e encorajamento para a prática de violência contra mulheres. Prova disto foi o ataque por simpatizantes do presidente Jair Bolsonaro feito à então a deputada estadual e pré-candidata à presidência Manuela D’Ávila (PCdoB-RS), enquanto concedia entrevista, no acampamento em Curitiba, cidade onde o ex-presidente Lula estava detido.
Essa violência patriarcal é expressa numa estrutura que tem o racismo como um sustentáculo, como se pode ver nos índices de feminicídio, onde 63% das vítimas são mulheres negras. Uma violência que furta direitos de ir e vir, de existir em plenitude e com cidadania, em cidades que garantam nosso bem viver. Estar em situação de pobreza e fome, sem direitos à moradia, acesso à água de forma gratuita, a uma alimentação sem veneno, à educação pública e de qualidade, a um sistema de saúde público e universal e a condições de trabalho dignas, e ainda ter imposta a dupla jornada de trabalho e o medo constante de andar nas ruas, são também expressões da violência como estrutura do capitalismo-racista-patriarcal. Ela tolhe direitos e a democracia.
A tentativa de silenciamento é grave. A violência “simbólica” está associada a violências institucionais que visam reprimir e massacrar os setores que se opõem ao conservadorismo reacionário e às medidas neoliberais que estão sendo implementadas à revelia da população. Ela se reflete na criminalização dos movimentos sociais, em ataques policiais a qualquer tipo de manifestação de rua contrária ao governo, em perseguição às lideranças de esquerda, assassinatos de lideranças indígenas, militarização dos territórios, instauração de processos criminais contra lideranças sociais em processos que dão maior credibilidade a convicções de juízes do que fatos e provas concretas. Assim que eleito, Bolsonaro apresentou um plano para acabar com todo e qualquer ativismo no Brasil. Desde então a política de criminalização tem seguido o caminho para caracterizar como “terroristas” de movimentos que lutam pelo respeito à Constituição Federal.
O objetivo da direita brasileira é criar um clima de ódio contra defensores/as de direitos humanos e contra a própria concepção de direitos humanos: visa destruir a subjetividade que crescia na população mais pobre e desfavorecida de que eles também são sujeitos com direito a ter direitos, visa destruir a concepção de um Estado Democrático de Direitos. É um governo que se pauta pela ode ao racismo, ao sexismo e à desigualdade e está promovendo um completo desmonte da solidariedade social coletiva para desobrigar a burguesia a arcar com os custos da necessária transformação social. A bem da verdade, este governo está usurpando o Estado brasileiro e colocando todas as suas políticas a serviço do rentismo nacional e internacional.
Se as crises do capitalismo nos ensinaram algo ao longo de todos esses séculos submetidos a esse sistema, foi que essas crises são seletivas: elas fazem os mais pobres ficarem miseráveis para que a burguesia acumule mais lucros. No Brasil, por exemplo, segundo IBGE, a taxa média nacional de desocupação em 2019 caiu de 12,3% em 2018 para 11,9% no ano passado, mas isso aconteceu porque a taxa de informalidade atingiu seu maior nível desde 2016 no Brasil (41,1%) e também em 20 estados. Ou seja, os empregos gerados são mais precários e dependem do empreendedorismo individual, que está ou submetido aos mecanismos tecnológicos das grandes plataformas do tipo uber e Ifood ou se refletindo nas vendas de sinais, calçadas e comércio. Enquanto a população está se virando como pode para sobreviver, os bancos acumulam lucros recordes. O lucro acumulado de Bradesco, Itaú Unibanco, Santander e Banco do Brasil neste ano é de R$ 59,7 bilhões, o maior para o período pelo menos desde 2006. Os quatro bancos são os maiores do país com ações negociadas na Bolsa. É assim que os donos dos meios de produção fazem para disfarçar seus lucros: financeirização. Assim trocou-se a figura do patrão pela do acionista.
Depois da tragédia de Brumadinho, em janeiro de 2019, que culminou em um cenário comprometedor para a empresa Vale S.A., a mineradora multinacional perdeu espaço entre os analistas, mas nas últimas 52 semanas suas ações na Bolsa de Valores ganharam valorização de 18,25%. Enquanto os acionistas da Vale continuam lucrando e pressionando por mais produtividade, a Justiça de Minas Gerais acatou denúncia do Ministério Público do Estado contra 11 executivos da empresa, incluindo o ex-presidente da mineradora e cinco funcionários da empresa de consultoria Tüv Süd por homicídio doloso duplamente qualificado e crimes ambientais causados pelo rompimento da Barragem em Brumadinho, na Grande BH.

Nunca acumularam tanto. Segundo relatório de 2020 da Oxfam, os 2.153 bilionários do mundo têm mais riqueza do que 4,6 bilhões de pessoas – ou cerca de 60% da população mundial. Os governos em geral vêm cobrando poucos impostos dos mais ricos e de grandes corporações. E o relatório enfoca em um tema invisível, mas que é um dos combustíveis que alimentam essa engrenagem: as economias do mundo são sexistas, valorizam mais a riqueza de um grupo de poucos privilegiados, na sua maioria homens, do que bilhões de horas dedicadas ao trabalho mais essencial – o do cuidado não remunerado e mal pago, prestado principalmente por mulheres e meninas em todo o mundo. A pesada e desigual responsabilidade pelo trabalho de cuidado perpetua as desigualdades de gênero e econômica. Ainda assim, os governos estão sub-financiando serviços públicos e infraestruturas essenciais que deveriam reduzir o peso do trabalho de cuidado sobre mulheres e meninas. Investir em saneamento básico, eletricidade, creches e saúde, por exemplo, poderia dar às mulheres e meninas oportunidades para melhorarem a qualidade de suas vidas.
O racismo, sem dúvida, é outro pilar de sustentação do capitalismo neoliberal! Definimos como NECROPOLÍTICA essa nova forma de exploração do trabalho de pessoas negras associado ao encarceramento em massa e ao genocídio da população negra. Em 2018, estava na população preta e parda do país a maioria dos trabalhadores desocupados (64,2%) ou subutilizados (66,1%),segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Desde 2016, a taxa de homicídios de negros tem sido duas vezes e meia superior à de não negros. Em 2017, 75,5% das vítimas de homicídios foram indivíduos negros. Os dados são do Atlas da Violência (IPEA e FBSP). O racismo brasileiro chegou a patamares tão elevados que uma pesquisa recente do departamento de antropologia da Unicamp levantou a existência de 324 células neonazistas no Brasil. Os grupos se dividem em até 17 movimentos, entre hitleristas, supremacistas/separatistas, de negação do Holocausto ou até mesmo três seções locais da Ku Klux Klan.
Se estamos sobrevivendo a estes tempos, só as drogas podem dizer como. A depressão, a epidemia mais alarmante do nosso tempo, é a consequência das condições de vida das pessoas neste contexto político: estamos sucumbindo. Nossos alimentos estão envenenados, os remédios oferecidos pela indústria farmacêutica apenas combatem sintomas. Enquanto isso a política de proibição de algumas outras drogas é usada como desculpa para controlar e exterminar ainda mais corpos negros. E se tem algo que também foi transformado em droga foi “Jesus”. A destruição das culturas originárias do Brasil e afro-brasileiras serviu à manipulação da fé da população pobre, negra e periférica para enriquecimento ilícito de pastores neopentecostais que simulam religião para fazer negócios. Como o capitalismo sempre teve uma crença para valorizar seu espírito, os neopentecostais, em consonância com o neoliberalismo, produziram a teologia da prosperidade, uma doutrina religiosa cristã que defende que a bênção financeira é o desejo de Deus para os cristãos, e que a fé, o discurso positivo e as doações para os ministérios cristãos irão sempre aumentar a riqueza material do fiel.
Esse é o retrato da crise civilizatória atual. Controla-se os corpos das mulheres, de pessoas afeminadas e os corpos negros como parte do sistema de poder, mas esconde-se com hipocrisia as contradições e os objetivos desta manipulação. A direita defende a vida de fetos, mas tanto criminaliza e prende as mães negras que conseguem sobreviver aos abortos clandestinos, quanto elimina jovens negros nas periferias. Para a burguesia há um único tipo de família digna de direitos: a família branca, de origem europeia, dona dos meios de produção. Para eles, qualquer outra raça é descartável. O feminismo tem uma importância crucial quando faz a contestação da família patriarcal burguesa, porque ela é o centro ao redor do qual gira também o capital.
Nós somos sujeitos da nossa própria emancipação, mas se ela não for coletiva, não haverá transformação real, porque não estamos confrontando pessoas, mas um sistema ineficaz, predador e falido que oferece às mulheres, população negra, indígena, LGBTQI+ e à classe trabalhadora majoritariamente precarizada apenas migalhas que sustentam a sobrevivência de alguns/as poucos/as de nós – o mínimo de nós. O feminismo é mais que uma organização de classe contra o capitalismo. Através da demanda de reorganização profunda e complexa das relações públicas e privadas, de trabalho e de afeto, relações pessoais e coletivas, o feminismo propõe um caminhar consciente para um novo sistema de relações sem dominação, sem exploração, não somente para nós mulheres, mas para todas as pessoas. O feminismo, como bem afirma bell hooks, “é para todas as pessoas”, e o 8 de março, não é o início, muito menos o único, mas é um momento forte na trilha que percorremos todas nós, para somar na tarefa inescapável de nossa emancipação coletiva.
Fonte: Outra Palavras

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Atriz do Vale do Jequitinhonha denuncia racismo estrutural no jornal El País

13 anos como doméstica, 4 sem receber salário. 

A escravidão no quarto de empregada doméstica.

Filha de Araçuai é notícia no El Pais, principal jornal da Espanha

A atriz e ex-empregada doméstica Cyda Baú,natural de Araçuaí. 

Foto: Lela Beltrão

Cyda Baú, atriz de comunidade quilombola de Araçuaí, conta sua história de luta e superação da opressão como mulher, negra e pobre.   

A atriz Cyda Baú, bisneta de escravos, saiu de um quilombo e virou doméstica ainda criança, em troca de comida e roupa, sem saber ler e escrever, até fugir para encontrar seu destino. Hoje conta sua história nos palcos. 

Essa história é destaque na edição dessa segunda-feira, 18.11, do jornal espanhol El Pais.

Por incentivo da avó dona Heroína, Maria Aparecida Baú, na época com 12 anos, deixou a comunidade quilombola onde morava na região de Araçuaí, no Vale do Jequitinhonha (MG)

A matriarca havia arrumado um emprego para a neta como empregada doméstica na casa de uma família branca de classe média alta em Montes Claros (MG). “Meninas novas eles colocam pra varrer, cuidar de criança...”, conta Aparecida, mais conhecida como Cyda, hoje com 44 anos. O salário? “Trabalhei um ano lá, sem ganhar. Ganhava a comida e uma roupinha de vez em quando”, diz. A situação se repetiu na casa de outras patroas, e até os 16 anos Cyda trabalhou como doméstica sem receber por isso, reproduzindo parte da triste história do bisavô: “seu” Antônio Baú foi um negro escravizado nas lavouras de cana da Bahia. O sobrenome da família foi um apelido dado pelo senhor da fazenda, uma vez que Antônio era hábil não só na lida do campo, mas também na confecção de malas e baús.
“O que vivi foi escravidão”, afirma Cyda de maneira taxativa. Além dela, sua avó e a mãe também trabalharam de graça “em casa de patroa” sem salário por muitos anos. “Era um costume que herdamos dos tempos da escravidão. Ainda é comum no país. Todos os dias nos quatro cantos do Brasil tem uma menina negra sendo mandada embora para trabalhar em casa de família. Meninas que largam a escola e os estudos e vão trabalhar como domésticas. Vamos ter uma geração de mulheres daqui a 30 anos que não lê, não escreve... Não terão tempo pra isso”, lamenta. Para ela, a própria existência da profissão está relacionada com nossa herança escravagista: “Empregada doméstica é uma coisa muito brasileira e tem total relação com o fato de o país ter acabado com a escravidão sem dar condição nenhuma pra quem estava sendo liberto. A mulher negra no Brasil foi pensada para limpar chão e passar pano. Foi pensada para... [se emociona] Para ser escrava, servir”.

Nas "casas de família", longe da comunidade quilombola onde cresceu e sem nenhuma perspectiva, a jovem Cyda se sentia “suspensa” na realidade. Dormindo no “quartinho fetal”, apelido dado para o quarto de empregada da casa das patroas onde mal cabia um colchão inteiro e ela precisava dormir encurvada, decidiu que algo precisava mudar. “Me deu um estalo. Eu não estudava, não tinha nada, nenhuma condição decente de vida, não sabia ler... Queria poder falar coisas sobre mim, me expressar, entender tudo. Eu era órfã de tudo lá. Longe da família, dos valores, sem opinião própria”, diz.


Cyda em sua casa na zona oeste de São Paulo.
Cyda em sua casa na zona oeste de São Paulo.


Após o curso na escola de teatro, a carreira de Cyda na TV não embalava, e se resumia a figurações em novelas da Globo. Foi aí que em 2014 ela foi incentivada por um amigo a se inscrever no programa A Casa dos Artistas 4, do SBT. O vencedor do programa seria escolhido para protagonizar a próxima novela da emissora, Esmeralda. Única mulher negra dentre os 14 participantes, Cyda se destacou, mas acabou eliminada na sétima semana. Ciente da popularidade da atriz, Silvio Santos decidiu convocá-la para a novela mesmo assim. O papel? A empregada doméstica Jacinta. “Dava raiva ser atriz no Brasil, país de maioria negra, e não ter um papel que não o de doméstica. O racismo estrutural do país preparou tudo isso. E não só pra mim, mas pra todo homem, mulher e criança negra. Seu lugar está definido quando você nasce. Se você não tiver força no coração pra atravessar esse muro, você vive preso a isso.”


Matéria sobre Cida Baú estampou a primeira página da edição do El País desta segunda-feira.(18)
Matéria sobre Cida Baú estampou a primeira página da edição do El País dessa segunda-feira,18.11.

A redenção veio pelas letras. Cyda se deparou com o livro Quarto de Despejo – Diário de uma favelada, de Carolina Maria de Jesus, ela também uma empregada doméstica. “Não li essa e outras autoras negras na escola. Não lia minha gente. A historia dela é a minha vida. Ela sai de Minas Gerais novinha, trabalha em casa de família, mora em favela...”, diz. Em seguida devorou Diário de Bitita, Pedaços da Fome e Casa de alvenaria, todos da mesma autora. “Aí fui ler Conceição Evaristo, e me deparei com a mesma história: ela foi doméstica, fugiu de patrão, sofreu abuso, não recebia salário. Quando terminei de ler estes livros eu sabia que ia fazer uma peça sobre isso”, conta. 

Dito e feito, Cyda escreveu, com o auxílio da dramaturga Gabriela Rabelo, Os Rastros das Marias, peça em parte biográfica mas que também dialoga com a batalha de todas as mulheres negras, de Marielle Franco e Carolina de Jesus à sua avó dona Heroína. Enfim, um papel para Cyda Baú, do quilombo para os palcos.

Fonte: El País

terça-feira, 24 de setembro de 2019

Mais Agatha, menos Greta: "Criança branca mata aula e vira mito. Criança negra no pátio da escola leva tiro".

Brasil deveria falar mais de Agatha do que de Greta

O professor Anderson França, ativista de direitos humanos na favela da Maré, no Rio, escreve sobre e liderança global da menina sueca Greta Thumberg, branca, de classe média, financiada por lobbies corporativos "verdes" e incensada em toda mídia global, enquanto, no Brasil, matam meninas negras: "Porra, meus amigos. Uma criança branca mata aula e vira mito.Criança negra não pode nem brincar no pátio no recreio que leva tiro".


(Foto: UN Photo/Cia Pak ! Reprodução)

Anderson França, no Facebook - Cês conhecem uma menina chamada Greta? Cês viram como uma menina conseguiu, em menos de um ano, fazer greve na porta da sua escola, e isso virou um movimento de greves globais pelo mundo em favor do meio ambiente?
Tá pronto pra me linchar?
Porque é o que sinto que preciso escrever aqui.
Enquanto eu tiver vida, eu prometo que vou vir estragar seu TEDx.
Observe:
Como é fácil para uma criança branca mobilizar o mundo em torno de ideais tão vagos, pouco práticos, máximas nada pragmáticas como "vamos salvar o planeta", tanto quanto é vago dizer "vamos acabar com a corrupção que está aí".
As pessoas adotam, apaixonadamente, pautas genéricas e vazias, expressões que materializam seu desejo desesperado e pouco refletido por mudanças, as colocam num lugar de protagonismo saindo de uma vida tediosa e drenada por fracassos pessoais de classe média, e elege mitos e messias nacionais e globais, de tempos em tempos.
Greta é fruto do salvacionismo branco.
Ela mesma, materializa e representa a próxima geração de White Saviors.
E não que ela esteja com uma pauta errada.
Ocorre que ela não vai mudar práticas que sustentam o capitalismo global, ela pode amenizar práticas durante um tempo, e: parem com a ilusão que passeata com flor vai mudar a fúria do Leviatã do Capital.
Qual o problema cognitivo de vocês?
Vocês acham mesmo que na hora do pega, China, Rússia e Estados Unidos vai querer saber de menina com cabelo de trança? Onde foi, Senhor Deus dos Arraiais de Israel, que vocês se tornaram tão massacrantemente ingênuos?
Mas meu problema não é a existência de Greta.
Ou Felipe Neto.
O meu problema é que eu tenho um cavalo solto dentro de mim, furioso, todo encachaçado, cheio de demônio, que não me deixa ficar quieto numa hora dessas onde eu poderia mentir e capitalizar apoios e likes pra minha página, dizendo que acho lindo as passeatas.
Ai, merda. Vou pagar com a vida.
Eu não acho nada lindo.
Acho tudo mentiroso, patife, caozada.
Eu acho que vocês precisam ter uma coisa chamada PRIORIDADES. E se a sua prioridade está sendo meio ambiente e corrupção, eu vim aqui pra te dizer algo,
mas antes,
veja no Jornal Nacional de ontem, um "indio parisiense" (oui, um francês branco VESTIDO DE ÍNDIO, dizendo coisas que um índio não diria, além de dar uma mãozada na cara dele, por estar vestido daquele jeito), e uma criança de fucking 3 anos, loira, com a mãe, orgulhosa e com a boca aberta cheia de dentes esperando a morte chegar, dizendo,
a criança:
"quero salvar o planeta".
Porra, meus amigos.
Uma criança branca mata aula e vira mito.
Criança negra não pode nem brincar no pátio no recreio que leva tiro.
Posso falar agora?
Tá pronta?
No mesmo dia dessa putaria de vocês, uma criança de OITO ANOS FOI BALEADA E MORTA NO COMPLEXO DO ALEMÃO.
Não foi a primeira essa semana.
Ágatha, no colo da mãe, na Zona Norte do Rio, foi atingida por um tiro de FUZIL, e morreu.
Me diga,
o que uma criança de oito anos fez para a sociedade brasileira? Porque ela teve que pagar o preço?
O Instituto de Segurança Pública disse que a polícia militar nunca matou tanto como está matando esse ano. Em agosto, a polícia matou 5 pessoas por dia, relatório da Humans Right Watch.
O governador, psicopata, disse aos policiais: "Não merece viver aquele que não tirar o fuzil do tiracolo".
Muitos de vocês, MUITOS, nunca moraram num morro, vocês não passaram nem uma única vez na vida, pela experiência de tiroteio.
Ocorre que a polícia não avisa nada a ninguém. Nem a morador, nem Whatsapp, nada, caralho nenhum. Você está comprando uma porra de um suco de morango ao leite e DO NADA uma porrada de pipôco começa, você não sabe onde, nem pra onde, você abaixa, deixa suco, dinheiro, todo mundo se olha, como se fôssemos RATOS assustados, e isso acontece HÁ DÉCADAS. A gente sabe que alguém vai morrer.
Acaba o tiro. Minutos depois, você ouve.
A voz de uma mulher, negra, gritando numa viela.
Mais uma mãe, mergulhada num inferno do qual nunca mais vai sair.
Esta, de ontem, que perdeu definitivamente a filha há 5 horas, está neste momento numa escuridão de alma absoluta.
A polícia que mais mata NO MUNDO, com o maior número de suicídios de policiais, porque perdem o sentido da vida, da profissão, o sentido. Se matam.
Sentado sobre essa montanha de corpos, Wilson Witzel. Mas já foi Pezão, Cabral, Garotinho, Rosinha, por essas e outras que tudo que lhes acontecer na vida eu não sinto um pingo de dó. No corpo deles, tem sangue de MILHARES de pessoas.
Não é que eu "deseje mal" a essas pessoas, pelo contrário, é a justiça, essas pessoas vão ter destinos terríveis. Mesmo que eu e você não vejamos, a morte dessas pessoas será dolorosa.
É assim que a vida é.
Bateu, levou.
Nenhum governador está acima da lei.
Não desta lei a que me refiro.
E você deve estar pensando porque eu precisei falar de Greta nesses termos pra jogar luz no que está acontecendo no Rio.
Escuta,
na vida, nós precisamos sonhar, mas precisamos colocar comida na geladeira.
Lembra do Emicida?
"Só água na geladeira eu eu querendo salvar o mundo."
Amigo, resolver o problema de agora, não te faz menor. E o problema de agora é o mesmo desde a fundação do Brasil: o extermínio do povo negro e pobre.
Enquanto isso não for resolvido, NADA que você faça, nenhuma luta que você lute, será eficaz.
Porque inclusive, tudo é culpa da escravidão.
O capitalismo existe e se desenvolveu por causa da escravidão. O capitalismo fudeu o meio ambiente e criou a produção industrial de alimentos de origem animal. Não adianta enxugar gelo.
É preciso resolver um problema crucial e único: enquanto não restaurarmos a justiça com o povo negro nas Américas, nunca seremos uma civilização.
Vai ter meio ambiente clima de montanha. Vai ter animal vivo. Mas os preto tudo morto.
Não existe prioridade maior que essa.
Vocês, pessoas brancas, UMA DE VOCÊS, criança, consegue PARAR O MUNDO.
Quando vai chegar o dia em que, sem ninguém mandar, vocês, pelo menos uma criança branca, vai falar pra vocês pararem de matar pessoas negras, e isso virar um movimento global? Porque a morte de pessoas negras é um problema que elas tem que resolver, se são vocês que elegem quem mata?
Vocês, brancos do mundo todo, são capazes de parar na imprensa, mesmo que você seja uma criança matando aula lá na casa do caralho. Se fosse uma criança preta, mesmo dentro da sala de aula, amontoada com outras 80 crianças, com medo de tomar tiro, seria chamada de vagabunda e filha de vagabunda, porque criança negra nunca vira pauta. Nunca. Vocês gostam do fetiche. Vocês apoiam causas porque sabem que vão ficar lindos no Jornal Nacional, não porque vão mudar algo.
Eu não admito mesmo. Acho uma surra de racismo esse pessoal branco da Greta e esse pessoal branco do veganismo dizendo que a morte dessa criança não é nada na frente da morte de frangos que alimentam a classe trabalhadora.
O Rio soltava pomba da paz na zona sul, e na Zona Norte, mais uma inocente morria. O mundo louvava uma criança branca na zona sul, e uma criança negra era devorada na Zona Norte. Vítima, não do clima, não do consumo de carne. Vítima da máquina de vocês, de matar negros.
Pode me linchar até a mão cair.
Essa hipocrisia e esse desespero de vocês por algum sentido na vida é um lixo. Vocês não percebem o poder que vocês tem? Como a imprensa prioriza vocês, brancos? O que estão fazendo com isso? Priorizando planta e bicho. Não aqueles cujos antepassados vocês escravizaram para hoje serem uma classe média "consciente". Brancos conscientes que lutam contra outros brancos, enquanto pretos continuam morrendo por vocês, exatamente como aconteceu em Farroupilhas e os Lanceiros.
Ah, mas dá pra lutar pelas duas coisas, pelas três coisas, pelas quatro coisas. Tá dando certo não, parceiro. Carrefour continua vendendo alcatra, e a polícia matando preto. Se decide. Para de ser juvenil na vida, escolhe uma porra e vai. E de preferência, a porra que é prioridade. E eu te disse qual é.
Mais uma vida humana inocente e negra morta hoje.
Nada mais importa.

Confira aqui: 
https://www.facebook.com/anderson.frança.maré.rio.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Racistas saem do armário e defendem jornalista da TV Globo

12 de Novembro de 2017
por Jean Willis, deputado federal do PSOL, do Rio de Janeiro.



A solidariedade corporativa de parte da elite branca, rica e reacionária brasileira com o jornalista William Waack deveria ser estudada um dia nas universidades. E eu espero que seja em universidades com mais negros, mais alunos oriundos das periferias e das escolas públicas, mais pessoas trans, mais povo. A maneira em que o caso de racismo envolvendo o jornalista da Globo tirou muitos outros racistas do armário põe em evidência o que se conhece como “pacto narcísico” entre brancos, que está sempre implícita e se expressa quando os privilégios da elite branca são atacados, ou quando a prática do racismo é questionada na esfera pública. 

Waack disse o que disse achando que a câmera estava desligada, porque ele sabia que não poderia fazer aquele comentário ao vivo, mas agora que tudo veio à tona e ele foi suspenso da emissora, toda uma casta se sente na obrigação “moral” de defendê-lo abertamente, como se fosse uma questão de princípios.

É o mesmo que já aconteceu tantas vezes a partir de expressões públicas de homofobia que, ao ser expostas e questionadas por parte da sociedade, provocaram a reação do pacto narcísico heterossexual. 

Nos últimos dias, jornalistas, políticos e até um juiz do Supremo — não podia ser outro, claro — alçaram a voz nas redes sociais e nos veículos de comunicação em defesa do racista. Não é por acaso que tanto Waack quanto seus defensores tenham sido apoiadores do golpe! Eles fazem questão de serem ouvidos, desafiantes, orgulhosos, com uma cínica noção do que seja a coragem. “Como assim já não é permitido falar que algo é 'coisa de preto'? Que correção política é essa?”, reclamam, indignados, com o orgulho de classe ferido.

Esses dias serão lembrados e estudados no futuro, porque a máscara de muita gente caiu e está aí, descoberta, evidente, a cara do Brasil que fingimos não ver, que juramos ter superado, mas continua vivo na distribuição de renda, no mapa da fome, na divisão de classes, na empregabilidade, na matrícula universitária, nas estatísticas de homicídios e do sistema carcerário, nas favelas, na abordagem policial, nos autos de resistência, na cara do telejornal, nos papéis da novela, na composição do ministério, do Congresso, do judiciário, e agora também, sem autocensura, nas manifestações de solidariedade de uma elite branca que continua achando que os problemas do país são "coisa de preto". 

Felizmente, também há uma reação muito forte de uma ampla parcela da sociedade brasileira que quer acabar com tudo isso — não apenas com o racismo verbal ou simbólico, mas também com o material, esse que atinge mais forte e com mais violência a maioria preta e parda da nossa sociedade desde a época da escravatura.


terça-feira, 2 de outubro de 2012

Virgem da Lapa: racismo contra candidato negro a prefeito

Harley Lopes, do PT, candidato a prefeito, tem casa pichada com ofensas racistas
Patrus Ananias, candidato a prefeito de BH; Zé de Leônidas, liderança de Virgem da Lapa; Dim Martins, atual prefeito; e Harley Lopes, candidato a prefeito de Virgem da Lapa, pelo PT
A campanha eleitoral em Virgem da Lapa, no Médio Jequitinhonha, nordeste de Minas, tem sido muito tensa com ameaças e pichações de casas de candidatos.
Harley Lopes, candidato a prefeito pelo PT, teve sua casa pichada com palavras ofensivas, de cunho racista.
Na manhã deste domingo, 30.09, a família de Harley se assustou quando acordou, de manhãzinha.
O portão estava pintado com a palavra "urubu". No muro havia o recado: "na prefeitura macaco não entra".
A família de Harley, filho de Deícola do Táxi, e o povo de Virgem da Lapa ficaram indignados com tão abjeta manifestação de ódio. Este mesmo preconceito vem sendo destilado por opositores de Dim Martins, do PT, atual prefeito, que vem governando o município desde 2005.
Harley Lopes foi Secretário Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural e tem o apoio político de Dim Martins.
O Partido dos Trabalhadores acionou a polícia e a Justiça Eleitoral, na Comarca de Araçuaí.
Segundo Marlon Barbosa, presidente do PT local, "este é um ato de desespero dos nossos adversários ao sentirem mais uma das suas derrotas nas urnas, no dia 7 de outubro".
Virgem da Lapa é um dos municípios que tem uma grande concentração de população negra. Foram registradas 12 comunidades quilombolas, pelo CEDEFES - Centro de Documentação Elói Ferreira da Silva.
O jornal Estado de Minas registrou o fato, na coluna, Em dia com a notícia.
Leia:


quinta-feira, 4 de novembro de 2010

OS PERIGOS DA SOBERBA

OS PERIGOS DA SOBERBA
Mauro Santayana
“Se o homem é a sua circunstância, a circunstância de José Serra é São Paulo.
É conhecido o orgulho do grande estado, com desenvolvimento econômico que supera o de numerosos países europeus, sua cultura cosmopolita, e a oportunidade de realização pessoal de muitos dos que procuram ali a sua sorte.

Todas essas qualidades do povo de São Paulo distanciam o estado do resto do país. Talvez por isso mesmo, as suas elites, ressalvadas as exceções, não saibam exatamente o que é o Brasil. P

Para isso, teriam que aceitá-lo. Da Avenida Paulista se vê melhor a City e a Place de la Bourse; seus telefones chamam mais Hong Kong e Shangai do que Aracaju e São Gabriel da Cachoeira.

É provável que não seja exatamente assim, mas muitos paulistas dão ao resto do Brasil a impressão de que se sentem incomodados com a companhia dos demais estados.

Ainda agora estamos assistindo a uma dolorosa e inusitada campanha racista na internet, a partir de São Paulo, contra os nordestinos, a propósito da grande vitória de Dilma na região, embora os resultados eleitorais demonstrem que ela teria sido vitoriosa, mesmo que as eleições só ocorressem fora do Nordeste. A campanha ressuscita os fantasmas de 32, ao pregar, criminosamente, o separatismo.

Esqueçamos, a fim de não turbar o raciocínio, a verdade de que São Paulo não se fez só: a inteligência, o trabalho e mesmo o capital dos demais brasileiros e dos imigrantes europeus ajudaram a erguer a sua economia.

Como a circunstância de José Serra é a que apontamos, temos a explicação para o desastrado pronunciamento que fez, diante da derrota. Faltou-lhe, naquele momento, a elegância que se espera dos grandes homens. Ele desdenhou o esforço feito – e reconhecido em todo o país – por Aécio, simplesmente ignorando-o. Agora, os mineiros se sentem outra vez afrontados.

Como Jânio, Serra falou em “forças terríveis”, anunciou, com suas metáforas, que continua candidato, falou em trincheiras, afirmou que o povo “não quis que fosse agora” e despediu-se com um “até breve”.

Alguns estão atribuindo a Aécio a derrota de Serra, embora o ex-governador de Minas tenha constrangido grande parte dos mineiros, ao solicitar votos a favor de quem os desdenhara, ao recusar a disputa democrática com Aécio junto às bases do PSDB.

Aécio pode ter perdoado a Serra a aleivosia, mas os mineiros, não. E não se esqueça que Dilma nasceu em Belo Horizonte.

Espera-se que, passados os dias mais amargos do malogro eleitoral, José Serra recobrará a serenidade e entenderá que a sua biografia pode encerrar-se, sem nenhum desdouro, mesmo que não chegue à Presidência.

Ele prestou assinalados serviços ao país, como líder estudantil, parlamentar e ministro da Saúde, e particularmente a São Paulo, como prefeito e governador, não obstante sua cumplicidade nas privatizações e na abertura do mercado financeiro.

Para que volte a candidatar-se, é preciso que se dedique a conhecer realmente o Brasil.

Conhecer não é visitar uma cidade ou outra, por algumas horas. É aceitar sua humanidade, ler os seus escritores, assimilar a fantástica sabedoria do povo, enfim, participar de seus sonhos, solidarizar-se e comover-se com seus sofrimentos – enfim, integrar-se em sua realidade.

Terminada a campanha, à vencedora cabe tomar a iniciativa de cicatrizar divergências sem a necessidade de compor interesses rasteiros por baixo de uma retórica elevada.

Se São Paulo se orgulha em destacar-se do Brasil pela sua pujança econômica, Minas integra o todo brasileiro com alegria e sem qualquer constrangimento.

Minas é o centro-oeste na margem esquerda do São Francisco; é o Nordeste nas duas margens do Jequitinhonha e na fronteira setentrional com a Bahia; é quase atlântica na Zona da Mata e no baixo Rio Doce.

O conflito é entre a parcela mais soberba das elites paulistas e o resto do país.”

FONTE: Escrito pelo jornalista Mauro Santayana, publicado no “Jornal do Brasil”, no dia 03.10.2010, e transcrito no portal “Conversa Afiada”, do jornalista Paulo Henrique Amorim