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sábado, 24 de abril de 2021

Governo de Minas mantém macrorregião Nordeste na Onda Roxa


Estado alega que região de saúde tem 99% dos leitos de UTI exclusivos para Covid ocupados, e painel de monitoramento do coronavírus aponta 82%.

Teófilo Otoni contesta com 75,6% dos leitos de UTI ocupados.

Almenara exige investimentos. 100% de leitos ocupados são investimentos da Prefeitura.

O governo de Minas decidiu que apenas a macrorregião Nordeste deve ser mantida na Onda Roxa, que permite o funcionamento somente do comércio essencial. 

Mas não estão claros os critérios que motivaram o Estado a deixar essa região na fase mais restritiva, enquanto outras puderam migrar para a Onda Vermelha do programa estadual Minas Consciente. 

Na quinta-feira, em texto da Agência Minas, o Estado justificou a decisão dizendo que a região Nordeste estaria com 99% dos leitos de UTI Covid ocupados. Mas os dados apresentados pelo painel da Secretaria de Estado de Saúde (SES-MG) divergem. Ontem, a taxa estava, nessa sexta-feira (23), em 82%, menor do que a ocupação em outras nove macrorregiões de saúde, que estão na Onda Vermelha. 

A Secretaria de Saúde  não explicou quais dados que levaram o Comitê Extraordinário Covid-19 a determinar a manutenção da região na Onda Roxa .  Divulgou que “o avanço ou o retrocesso de onda no Plano Minas Consciente está baseado na análise conjunta de sete indicadores: taxa de incidência Covid-19; taxa de ocupação de leitos UTI adulto; taxa de ocupação por Covid-19; leitos por 100 mil habitantes; positividade atual RT-PCR; percentual de aumento da incidência; e porcentagem de aumento da positividade dos exames RT- PCR”. 

Em Teófilo Otoni, maior cidade do Vale do Mucuri e da macrorregião de saúde Nordeste, a determinação de ficar na Onda Roxa não será cumprida. A cidade, que está com 75,6% das UTIs Covid ocupadas, decidiu entrar na Justiça para retomar o comércio não essencial. A prefeitura já anunciou que as lojas podem abrir as portas na segunda-feira, com exceção de bares e restaurantes. 

Já em Almenara, a situação realmente é crítica, e os 10 leitos de UTI estão ocupados. Mas, segundo o prefeito Ademir Gobira (PSD), se não houver abertura de mais unidades de terapia intensiva no hospital local, a ocupação será de 100% por muito tempo. O município tem 40 mil habitantes e recebe pacientes de outras 14 cidades. “Antes da pandemia, a gente não tinha leitos de UTI. Foi a prefeitura quem bancou a abertura dos dez leitos. Se não houver investimento em mais, nunca sairemos da Onda Roxa, porque esses leitos vão estar sempre ocupados. Clamo ao Estado”, disse.

Formação

A macrorregião de saúde Nordeste é formada por 57 municípios do Vale do Jequitinhonha e do Vale do Mucuri. Há leitos de UTI em Teófilo Otoni, Almenara, Itaobim e Nanuque.

Serviços Essenciais

Na fase da Onda Roxa – que, a princípio, tem duração de 15 dias – só é permitido o funcionamento de serviços essenciais e a circulação de pessoas fica limitada aos funcionários e usuários desses estabelecimentos. O deslocamento por qualquer outra razão, com exceção dos trabalhadores envolvidos com as atividades essenciais, deverá ser justificado. A fiscalização será feita com o apoio da Polícia Militar.

Algumas atividades essenciais, a exemplo de siderurgias, borracharias e serviços de delivery, que precisam funcionar durante a madrugada, não terão restrições do toque de recolher, entre 20h e 5h.

São considerados serviços essenciais:

  • Setor de alimentos (excluídos bares e restaurantes, que só podem via delivery);
  • Serviços de Saúde (atendimento, indústrias, veterinárias etc.);
  • Bancos;
  • Transporte Público (deslocamento para atividades essenciais);
  • Energia, Gás, Petróleo, Combustíveis e derivados;
  • Manutenção de equipamentos e veículos;
  • Construção civil;
  • Indústrias (apenas da cadeia de Atividades Essenciais);
  • Lavanderias;
  • Serviços de TI, dados, imprensa e comunicação;
  • Serviços de interesse público (água, esgoto, funerário, correios etc.)

As regras para os municípios que estiverem na onda roxa incluem:

- a proibição de circulação de pessoas sem o uso de máscara de proteção, em qualquer espaço público ou de uso coletivo, ainda que privado; 

- a proibição de circulação de pessoas com sintomas gripais, exceto para a realização ou acompanhamento de consultas ou realização de exames médico-hospitalares; 

- a proibição de realização de reuniões presenciais, inclusive de pessoas da mesma família que não coabitam; 

- além da realização de qualquer tipo de evento público ou privado que possa provocar aglomeração, ainda que respeitadas as regras de distanciamento social.

MUNICÍPIOS DA MACRORREGIÃO NORDESTE

1. Águas Formosas 2. Águas Vermelhas 3. Almenara 4. Angelândia 5. Ataléia 6. Bandeira 7. Bertópolis 8. Cachoeira de Pajeú 9. Campanário 10. Caraí 11. Carlos Chagas 12. Catuji 13. Comercinho 14. Crisólita 15. Divisa Alegre 16. Divisópolis 17. Felisburgo 18. Franciscópolis, 19. Frei Gaspar 20. Fronteira dos Vales 21. Itaipé 22. Itambacuri 23. Itaobim 24. Itinga 25. Jacinto 26. Jequitinhonha 27. Joaíma 28. Jordânia 29. Ladainha 30. Machacalis 31. Malacacheta 32. Mata Verde 33. Medina 34. Monte Formoso, 35. Nanuque 36. Nova Módica 37. Novo Cruzeiro 38. Novo Oriente de Minas 39. Ouro Verde de Minas 40. Padre Paraíso 41. Palmópolis 42. Pavão 43. Pedra Azul 44. Pescador 45. Ponto dos Volantes 46. Poté 47. Rio do Prado 48. Rubim 49. Salto da Divisa 50. Santa Helena de Minas 51. Santa Maria do Salto 52. Santo Antônio do Jacinto 53. São José do Divino, 54. Serra dos Aimorés 55. Setubinha 56. Teófilo Otoni 57. Umburatiba.

Fonte: OTEMPO e Agência Minas

quinta-feira, 23 de julho de 2020

IFNMG oferece 2.500 vagas de cursos gratuitos, à distância e de boa qualidade

novos caminhos 3
Na terceira fase do Pronatec/Novos Caminhos, o Instituto Federal do Norte de Minas Gerais (IFNMG) irá ofertar mais quatro novos cursos gratuitos e a distância de Formação Inicial e Continuada (FIC): Agente Comunitário de Saúde (400 horas), Assistente Administrativo (160 horas), Assistente Financeiro (160 horas) e Libras Intermediário (160 horas). 
Interessados devem se inscrever no período de 15 a 28 de julho de 2020, pelo formulário disponível aqui.
Para se inscrever, o candidato deve anexar histórico escolar ou atestado de conclusão, de acordo com o curso escolhido, e cópia da carteira de identidade. Cada candidato poderá fazer apenas uma inscrição. As vagas serão escolhidas por sorteio, obedecidos critérios de prioridade como estudantes do ensino médio da rede pública, inclusive da educação de jovens e adultos; trabalhadores; beneficiários dos programas federais de transferência de renda; e estudante que tenha cursado o ensino médio completo em escola da rede pública ou em instituições privadas na condição de bolsista integral. 
O resultado preliminar está previsto para ser divulgado dia 30 de julho, e a aula inaugural para o dia 3 de agosto.
No total são 2500, divididas pelos campi Almenara, Araçuaí, Arinos, Diamantina, Janaúba, Januária, Montes Claros, Pirapora, Porteirinha, Salinas e Teófilo Otoni e aos centros de referência de Buritis e de Corinto, além do CEAD. Mas como todas as aulas e atividades serão integralmente a distância, não haverá necessidade dos alunos comparecerem a estas cidades. Portanto, podem se candidatar pessoas de outros locais, inclusive outros estados ou até que estejam em outro país.
O Pronatec/Novos Caminhos é um programa do Ministério da Educação (MEC) em incentivo à qualificação para o mundo de trabalho em tempos de pandemia.
Clique aqui para acessar o Edital com todas as informações ou aqui para ter acesso aos documentos do processo.
Confira abaixo um resumo das vagas disponibilizadas:
Curso
Carga Horária
Número de vagas
Agente Comunitário de Saúde (Formação mínima exigida: Ensino Fundamental II completo e 18 anos)
400 horas
400 (divididas por oito unidades)
Assistente Administrativo (Ensino Fundamental II completo)
160 horas
850 (dividido por 14 unidades)
Assistente Financeiro (Ensino Fundamental II completo)
160 horas
550 (dividido por 11 unidades)
Libras Intermediário (Ensino Fundamental II completo)
160 horas
700 (dividido por 14 unidades)

sábado, 6 de junho de 2020

Jequitinhonha: De Belmonte, na Bahia, a Diamantina - uma via de conhecimento, arte, design, gente e identidade cultural

De Belmonte a Diamantina, 
do mar ao sertão.
Confira o texto, fotos e o video dos principais momentos da expedição da Casa Vogue ao Vale do Jequitinhonha, 
em 2018.
·        
·         TEXTO MARIANA CONTE | ESTILO ADRIANA FRATTINI | PRODUÇÃO RAFAEL ALVES | FOTOS RUY TEIXEIRA | PROGRAMAÇÃO VISUAL HARDY DESIGN
06 DEZ 2018 - 06H04 ATUALIZADO EM 02 SET 2019 - 17H46.

Durante dez dias, Casa Vogue percorreu a região do Vale do Jequitinhonha para explorar as expressões culturais da região que influenciam o design brasileiro. Rio acima, de Belmonte, na Bahia, a Diamantina, em Minas Gerais, encontramos beleza, inspiração e pessoas que lutam – e realizam. A seguir, os registros dessa emocionante expedição.
BELMONTE
Em terra de Zanine Caldas

“AS PESSOAS SÃO COMO OS RIOS, SE FORTALECEM QUANDO SE ENCONTRAM”. De autor desconhecido, a frase apareceu no meio da jornada desse primeiro Casa Vogue na Estrada, como que a evidenciar, em palavras, o que vivemos e presenciamos nos inúmeros encontros à beira do Rio Jequitinhonha: força, afeto e identidade.

Museu das Cadeiras de Belmonte chega a São Paulo durante o DW ...
Em frente ao recém-inaugurado Museu das Cadeiras Brasileiras, em Belmonte, BA, da esq. para a dir., as cadeiras: Esqueleto (2012), de Pedro Franco, da A Lot Of; Cobra Coral (2016), de Sérgio Matos; Menna (1978), de Sergio Rodrigues, na Dpot; Sem nome (anos 1950), de José Zanine Caldas; Assimétrica (2017), de Fernando e Humberto Campana para Tok&Stok; Torno (2017), de Gustavo Bittencourt; Guapa (2018), de Inês Schertel; Broto (2008), de Morito Ebine; e Girafa (2018), de Juliana Vasconcellos ( Ruy Teixeira)

A expedição começou num dos endereços mais bonitos que um lugar pode ter: a esquina deste rio com o Oceano Atlântico. Ali está Belmonte, cidadezinha pacata no sul da Bahia, com cerca de 20 mil habitantes, que se alimenta da foz do rio, do cacau, das belas paisagens e da arquitetura histórica. É também cidade natal do mestre José Zanine Caldas (1919-2001), arquiteto, designer e maquetista autodidata cuja memória permanece vivíssima graças ao filho, o designer Zanini de Zanine.
Casa Vogue na Estrada: os melhores momentos da nossa expedição pelo Vale do Jequitinhonha (Foto: Ruy Teixeira)
A casa onde nasceu Zanine Caldas, que hoje abriga o Sindicato Rural de Belmonte, sediará o museu sobre a obra do arquiteto ( Ruy Teixeira).
Belmonte acaba de inaugurar o Museu das Cadeiras Brasileiras, uma iniciativa que nasceu do encontro de Zanininho, como é conhecido, com Daniel Katz, da Katz Construções, e que pretende registrar a cultura nacional e perpetuar o legado do design nacional. “Vai funcionar como um apêndice do museu Zanine Caldas”, explica Zanini, revelando a próxima empreitada: um espaço em homenagem ao pai, com estreia em 2019, ano do centenário do mestre. O local escolhido não poderia ser mais simbólico: a casa onde Zanine Caldas nasceu e viveu até os 17 anos – atual sede do Sindicato Rural de Belmonte. O projeto terá assinatura do arquiteto Marcio Kogan e o museu vai contar com um acervo de móveis, maquetes, croquis, fotos, vídeos e itens pessoais. “É a realização de um sonho, dividir uma obra de extrema importância e brasilidade nessa área cultural com o povo de Belmonte e os amantes de arquitetura, arte e design”, afirma Zanini.

Casa Vogue na Estrada: os melhores momentos da nossa expedição pelo Vale do Jequitinhonha (Foto: Ruy Teixeira)
Da esq. para a dir., Lissa Carmona, CEO da Etel, o designer Zanini de Zanine e Etel Carmona, com os protótipos dos móveis de Zanine Caldas que serão reeditados pela Etel em 2019. ( Ruy Teixeira)

Além da atuação como maquetista de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa, e de projetar com extremo respeito aos contornos da natureza, Zanine Caldas foi um notável designer. Pioneiro da indústria moveleira moderna, amante das madeiras nacionais, na década de 1970, ele se dedicou ao design artesanal e às formas brutas, essenciais. Todo esse repertório foi estudado e esmiuçado pela Etel, marca que valoriza o traço brasileiro e mantém em produção peças de grandes nomes, e que lançará, também no próximo ano, uma coleção com poltrona, cadeira, espreguiçadeira, mesa lateral, escrivaninha, estante, revisteiro e outras peças de Zanine Caldas. “Serão entre 12 e 15 móveis reeditados e realizados em intensa parceria com a família Caldas, com total supervisão do seu filho”, diz Lissa Carmona, CEO da Etel. Esse trabalho de reviver ícones do mobiliário nacional, preservando suas identidades e usando a tecnologia atual, é uma especialidade da empresa, que tem no portfólio criações de Oscar Niemeyer, Lina Bo Bardi, Sergio Rodrigues, Jorge Zalszupin, entre outros. “Para nós, é como um resgate da história, do legado desses profissionais. Queremos dar vida ao universo de Zanine Caldas e preservar sua herança”, conclui.
Casa Vogue na Estrada: os melhores momentos da nossa expedição pelo Vale do Jequitinhonha (Foto: Ruy Teixeira)
A artesã Dagmar Muniz esculpe um de seus vasos de 2 metros ( Ruy Teixeira)
Completando nossa passagem por Belmonte, outra descoberta notável foi dona Dagmar. Aos 76 anos e com 1,60 m de altura, a artesã produz, num vai e vem e sobe e desce constantes, peças de cerâmica que incluem vasos de 2 m. “Deus me deu saber e me deu o poder de subir nos bancos para ir a dois metros de altura”, fala, enquanto demonstra sua arte e sua energia incansável. E tudo isso sem usar torno: são as próprias mãos e o auxílio de cartões de plástico e galhos que dão forma e autenticidade às suas obras.
Casa Vogue na Estrada: os melhores momentos da nossa expedição pelo Vale do Jequitinhonha (Foto: Ruy Teixeira)
Manuelle Ferraz, cozinheira e idealizadora do restaurante A Baianeira ( Ruy Teixeira)
ALMENARA
A Baianeira

Seguindo em direção à nascente do Rio Jequitinhonha, paramos em Almenara, MG, cidade natal de Manuelle Ferraz (acima), cozinheira e idealizadora do restaurante A Baianeira, em São Paulo. Ela nos recebeu com sua família na casa onde passou boa parte da infância, e preparou uma refeição recheada das raízes e da alma do Vale do Jequitinhonha. No cardápio, abóbora com quiabo, maxixe e mamão verde com carne-de-sol, receitas típicas de um almoço de domingo da região. A energia de Manu, do seu fazer com simplicidade e da essência que mistura Minas e Bahia, transparece quando ela fala da comida, das suas influências e do poder das mulheres de sua vida. E todas essas forças somadas estão no sabor de sua culinária. Com Manu, passeamos pelo Mercado Municipal de Almenara, de onde ela importa boa parte dos ingredientes que usa no restaurante paulistano, fortalecendo e valorizando a rede de produtores da região.

Casa Vogue na Estrada: os melhores momentos da nossa expedição pelo Vale do Jequitinhonha (Foto: Ruy Teixeira)
O artesão seu Paulo, de 83 anos, usa pedaços de madeira achados soltos pela natureza para construir brinquedos ( Ruy Teixeira)
ARAÇUAÍ
Madeira lúdica

No caminho para a comunidade rural de Córrego da Velha, no município de Araçuaí, MG, estradas de terra e um cenário com cactos descortinava o sertão mineiro. Casinhas comuns, dessas que desenhamos quando criança, margeavam nossa travessia. Apesar do clima árido da região, a chuva veio forte naqueles dias, a poeira baixou e a vegetação acendeu: um lindo contraste de cores.
Casa Vogue na Estrada: os melhores momentos da nossa expedição pelo Vale do Jequitinhonha (Foto: Ruy Teixeira)
Brinquedos feitos pelo seu Paulo ( Ruy Teixeira)

À direita da estrada, uma árvore potente e um portãozinho feito de lascas de madeira dão as boas-vindas ao universo do seu Paulo (mais acima), um senhor de 83 anos que usa pedaços de madeira achados soltos pela natureza para construir brinquedos. Vacas e bezerrinhos, cavalos, meninos, meninas, mulheres e homens fazem parte do repertório do artesão – são referências presentes no seu dia a dia. A criatividade vai longe, encanta crianças e adultos, mas a energia para produzir já não é a mesma de alguns anos atrás. “A gente vai seguindo. Tem gente que fala que vou fechar os 90, mas 100 acho que não fecho não. É só Deus que sabe. Nós não sabe de nada” [sic], reflete.
Casa Vogue na Estrada: os melhores momentos da nossa expedição pelo Vale do Jequitinhonha (Foto: Ruy Teixeira)
A tecelã dona Ana e a diretora criativa da Coven, Liliane Rebehy, no Curtume, com as bolsas da grife feitas a partir das mantas tecidas por dona Ana ( Ruy Teixeira)
JENIPAPO DE MINAS
Unidas pelo bordado

Por onde passávamos, a recepção combinava abraços apertados, uma felicidade guardada em sorrisos ora tímidos ora escancarados, e um cafezinho com biscoitos e queijo. Ao chegarmos na Associação Jenipapense de Assistência à Infância (Ajenai), na cidade de Jenipapo de Minas, não foi diferente. Elisângela Pedroso Lopes, coordenadora da associação, guiou-nos rumo a um dos encontros mais preciosos da expedição, na comunidade do Curtume. Lá, vivem mulheres fortes. Muito mais fortes e resistentes depois de terem se conhecido e formado o grupo das Bordadeiras do Curtume.

Casa Vogue na Estrada: os melhores momentos da nossa expedição pelo Vale do Jequitinhonha (Foto: Ruy Teixeira)
As bordadeiras, com Ana Vaz ao centro, e seus estandartes, que estão à venda na loja Marcas Mineiras, em Tiradentes, MG, pelo instagram @tecelas_ bordadeiras e, a partir de fevereiro, nas lojas da Coven
( Ruy Teixeira)
Com a coordenação da consultora de projetos sociais Viviane Fortes e o apoio da Ajenai, essas mulheres foram estimuladas a fazer companhia umas às outras e a resgatarem sua autoestima e cultura. “O dia a dia delas é muito duro. Os maridos saem para procurar trabalho, normalmente no corte de cana ou em plantações de café, e ficam meses, às vezes anos, fora de casa. Elas vivem um abandono, adoecem, ficam deprimidas e, ainda assim, precisam dar conta de sustentar a família, trabalhando na roça e plantando o que comem”, relata Viviane.
Foi durante essas reuniões que manifestou-se o conhecimento do bordado. Quem sabia ensinou para quem não sabia e o filho de uma delas, Diogo, fez os desenhos, que são imagens que ele vê na comunidade: as mulheres, os bichos, as plantas. As bordadeiras preenchem e dão vida a esses contornos com a técnica do ponto cheio. O resultado é um bordado com muita identidade. “A gente conversa, ri, canta, brinca e se distrai. Bordar ajuda não só financeiramente, mas psicologicamente. É um prazer ver a nossa arte agradar outras pessoas”, orgulha-se Marli, umas das artesãs.

Casa Vogue na Estrada: os melhores momentos da nossa expedição pelo Vale do Jequitinhonha (Foto: Ruy Teixeira)
As camisas da Coven assinadas pelas Bordadeiras do Curtume (Foto: Ruy Teixeira)
Uma vez engrenado o trabalho, veio a ideia de torná-lo fonte de renda. Para dar suporte, Viviane convidou a designer têxtil Ana Vaz, que auxiliou a estruturar o processo e, em conjunto com as bordadeiras, deu luz a uma coleção de estandartes com bordados de desenhos autorais e tecidos tingidos com cascas e plantas nativas, tudo feito por elas. “É como se a gente estivesse levantando uma bandeira.  A bandeira do afeto, do amor, porque mesmo com tantas dificuldades, é incrível a generosidade dessas mulheres”, diz Ana.

A rede de colaboração foi aumentando, e Ana contatou Liliane Rebehy, diretora criativa da Coven, que doou tecidos e fios para o projeto. Mais do que isso, Liliane foi conhecer de perto o Curtume. Da sua imersão, nasceu a coleção inverno/2019 da marca mineira, referência fashion em todo o Brasil. “A moda precisa ser movida por uma paixão. A Coven está fazendo 25 anos e eu estava me sentindo muito desmotivada. Quando voltei do Vale e comecei a mexer nas coisas que eu trouxe, relembrar o que vi e vivi, percebi que estava tudo ali”, conta Liliane. 

Lá, ela também conheceu outras duas figuras fundamentais, dona Ana e dona Cena, que trabalham com teares pequeninos e tecem lindas mantas com uma noção estética genuína. Essas tramas estão nas novas bolsas da grife, e os bordados aparecem em camisas que terão todo o lucro revertido para as bordadeiras. 
“Me entreguei ao desafio de criar a coleção com uma temática regionalista, para direcionar atenção para essas pessoas, mas sem deixá-la literal, caricata, acrescentando meu olhar e a identidade da Coven. É muito mais prazeroso e faz muito mais sentido quando você tem esse envolvimento com pessoas, quando essa inspiração não é só material ou estética, ela é afetiva, humana”, completa Liliane, com a preocupação de manter esse compromisso social após a temporada chegar ao fim. 
“Pretendo expor e vender as peças da comunidade tanto nas lojas em Belo Horizonte e São Paulo quanto no e-commerce, que está quase pronto”.

Casa Vogue na Estrada: os melhores momentos da nossa expedição pelo Vale do Jequitinhonha (Foto: Ruy Teixeira)
Zé do Ponto, o famoso artesão de Chapada do Norte ( Foto: Ruy Teixeira)

CHAPADA DO NORTE
Design naif

A caminho de Turmalina, paramos na cidade de Chapada do Norte, MG, para encontrar o famoso Zé do Ponto (acima). Filho de tropeiro, aos 12 anos ele já produzia caixas de couro para ajudar no transporte de secos e molhados. Hoje, é famoso por seus itens de madeira, com tramas em couro e palha de milho. São bancos, cadeiras, baús, tamboretes e bolsas com marca registrada. “O trabalho dele tem puro estilo rural, campestre. É genuíno, como arte naïf. Ele produz de forma espontânea, mas com muito senso estético, peças que estão no imaginário coletivo”, resume Adriana Frattini, diretora de estilo da Casa Vogue, que se encantou pelo seu Zé do Ponto.

Casa Vogue na Estrada: os melhores momentos da nossa expedição pelo Vale do Jequitinhonha (Foto: Ruy Teixeira)
Fábrica Divina Terra, em Turmalina, MG (Ruy Teixeira).
TURMALINA
Artesanato industrial

Chegando em Turmalina, MG, uma mudança de perspectiva: das microproduções para uma escala maior. Era a fábrica da Divina Terra, onde o fazer artesanal ainda prevalece na produção industrial de revestimentos, tornando únicas as mercadorias saídas dali – que são, em sua grande maioria, prensadas, cortadas e esmaltadas à mão.

Casa Vogue na Estrada: os melhores momentos da nossa expedição pelo Vale do Jequitinhonha (Foto: Ruy Teixeira)
Cobogó Mão, assinado pelos irmãos Campana em parceria com a Divina Terra (Foto: Ruy Teixeira).
Foi essa prática manual e cuidadosa que atraiu o Instituto Campana, dos irmãos Fernando e Humberto, para desenvolver, em parceria com a Divina Terra, o cobogó Mão (acima), peça que celebra o design autoral brasileiro e chama atenção para o desastre ambiental ocorrido em Mariana, MG, em 2015. Aproximar o design de técnicas ancestrais de diferentes regiões do Brasil e, com isso causar uma transformação na sociedade, é a bandeira levantada pelo Instituto Campana.

Casa Vogue na Estrada: os melhores momentos da nossa expedição pelo Vale do Jequitinhonha (Foto: Ruy Teixeira)
O banco Trio, de Juliana Vasconcellos, feito com mogno africano do Grupo Khaya Woods .
(Foto: Ruy Teixeira)
CAPELINHA
Mogno africano

Seguindo pelo Vale do Jequitinhonha, a paisagem começa a mudar quando plantações de café despontam no horizonte. O destino da vez era a Fazenda Primavera, no município de Capelinha, MG. Por lá, junto à produção cafeeira, árvores altas roubam a cena. São os mognos africanos, plantas de uma madeira nobre com excelentes propriedades físicas e mecânicas para a indústria moveleira, e uma opção ao mogno brasileiro, que teve seu corte proibido pelo Ibama devido ao desmatamento ilegal e à quase extinção da espécie. “É uma árvore de crescimento relativamente rápido em comparação com outras madeiras de lei”, conta Patricia Fonseca, diretora executiva da Associação Brasileira dos Produtores de Mogno Africano.

Casa Vogue na Estrada: os melhores momentos da nossa expedição pelo Vale do Jequitinhonha (Foto: Ruy Teixeira)
Plantação de mogno africano na Fazenda Primavera e estátuas esculpidas nessa madeira por Ricardo das Artes, de Prados, MG. (Foto: Ruy Teixeira)
Segundo ela, ao unirem as plantações, os produtores perceberam que o café se beneficiava do sombreamento das árvores de mogno. A associação tem se encarregado de estimular testes com a matéria-prima e criou o Mahog Project, que incentiva o uso do material em peças de design, como o banco Trio, da arquiteta e designer mineira Juliana Vasconcellos.

Casa Vogue na Estrada: os melhores momentos da nossa expedição pelo Vale do Jequitinhonha (Foto: Ruy Teixeira)
Uma das salas da Pousada Relíquias do Tempo, sediada em um casarão do século 19 no centro de Diamantina, que guarda preciosidades como fotografias do renomado retratista Chichico Alkmim, boneca de Durvalina Gomes Francisco e arraiolo de Maria Tadeu (sobre o sofá). (Foto: Ruy Teixeira)
DIAMANTINA
Design final

Próxima à nascente do Rio Jequitinhonha, que fica em Serro, Diamantina, MG, foi a parada final do primeiro Casa Vogue na Estrada. Pelas ruelas de pedra, íngremes e sinuosas, estão casarões históricos de arquitetura colonial, que enchem de charme a cidade. A beleza de suas construções e de seu povo foi amplamente admirada e registrada pelo fotógrafo Chichico Alkmim (1886-1978) entre as décadas de 1910 e 1950. Chichico tinha uma sensibilidade única para retratar pessoas. Mulheres, homens e crianças, negros e brancos, ganhavam vida e um registro na história através de suas lentes. Em busca destes retratos, chegamos à Pousada Relíquias do Tempo, com obras raras do fotógrafo e um patrimônio cultural da história diamantinense. Fomos apresentados a cada cantinho do local, que conserva pequenos “museus” sobre a cidade, por Carmen, nascida em um daqueles quartos, e Leonardo, seu marido.

Casa Vogue na Estrada: os melhores momentos da nossa expedição pelo Vale do Jequitinhonha (Foto: Ruy Teixeira)
Clube Social, obra de Oscar Niemeyer no centro histórico de Diamantina, MG, hoje completamente abandonado (Foto: Ruy Teixeira).
Em meio aos prédios históricos, é possível achar obras modernas de Oscar Niemeyer, como o Hotel Tijuco, ainda em operação, e o Clube Social, que teve importante papel na cidade e, hoje, encontra-se totalmente abandonado. Os edifícios fazem parte da modernização do município, iniciada um pouco antes de um de seus cidadãos mais ilustres assumir o governo de Minas Gerais: Juscelino Kubistchek.

Casa Vogue na Estrada: os melhores momentos da nossa expedição pelo Vale do Jequitinhonha (Foto: Ruy Teixeira)
A pequena capela da Pousada Relíquias do Tempo (Foto: Ruy Teixeira).
Outra riqueza local é a música. Todos os anos, entre abril e outubro, Diamantina recebe as Vesperatas. Em dias específicos, a partir das 20 h, músicos diversos se apresentam por mais de duas horas das sacadas dos casarões seculares enquanto os maestros regem do meio da rua. Em 2016, o evento foi considerado Patrimônio Cultural de Minas Gerais. A música diamantinense, no entanto, já aparecia em crônica de Carlos Drummond de Andrade, em 1972: 
“Quem, conhecendo Diamantina, será capaz de não gostar de Diamantina? Mesmo não conhecendo: ouvindo falar. Pois, entre outras excelências, o povo de Diamantina é povo que canta, e isto significa riqueza de coração.” 
Impossível discordar do poeta!

Confira a publicação original e o bonito video da expedição Casa Vogue:
casavogue.globo.com/LazerCultura/Viagem/noticia/2018/12/os-melhores-momentos-da-nossa-expedicao-pelo-vale-do-jequitinhonha.html

Fonte: Revista Vogue, 06.12.2018

Outras informações do Blog:
O Vale do Jequitinhonha é retalhado em muitas partes e microrregiões pelos técnicos planejadores do Estado. Isso cria desinformações sobre o território da Bacia Hidrográfica do Rio Jequitinhonha. 
A Bacia do Rio Jequitinhonha forma o Vale do Jequitinhonha que ocupa um vasto território em Minas, parte da região central, nordeste e norte de Minas, e também no sul da Bahia. 
O rio Jequitinhonha nasce na Serra do Espinhaço, na região de Milho Verde, no município de Serro, região Central de Minas, percorre 1.090 km até chegar na sua foz no município de Belmonte, na Bahia. A bacia do rio Jequitinhonha compreende uma área de 70.315 km², sendo que 66.319 km² situam-se em Minas Gerais, enquanto 3.996 km² pertencem à Bahia representando 11,3% da área do estado mineiro e apenas 0,8% do baiano.
Confira o Mapa do IBGE:
Vale do Jequitinhonha - Blog do Banu: Mapa do Vale do ...

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Almenara: Casal de idosos ilhado há 12 dias é socorrido por Bombeiros

Segundo o Corpo de Bombeiros, o barco que o casal usava para 

sair do local foi levado pelas chuvas.

Foto: DivulgaçãoCasal de idosos ilhado há 12 dias é socorrido por bombeiros em Almenara
Idosos moram em uma ilha do rio Jequitinhonha
 Um casal de idosos que estava ilhado há 12 dias em Almenara, no 
Vale do Jequitinhonha, foi socorrido na manhã de quarta-feira (29.01), 
quando conseguiu pedir ajuda. Segundo o Corpo de Bombeiros, eles 
moram na ilha de Santa Helena e, por causa das chuvas, não 
conseguiram sair do local.
De acordo com os bombeiros, o barco que o casal usava para voltar à 
cidade foi levado pelas chuvas e o nível do Rio Jequitinhonha 
estava aumentando; o local corria o risco de ser inundado.
Para socorrer os idosos de 61 e 68 anos, os militares usaram
um barco para chegar até a casa onde estavam. Segundo o 
casal, o estoque de mantimentos que eles tinham estava 
baixo. O cachorro de estimação da família também foi 
socorrido pelos bombeiros.
Os idosos e o cachorro foram levados para uma casa que os
dois têm na cidade.
Fonte: G1

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Reportagem sobre "a fome e a alegria no Vale" ganha prêmio de jornalismo

Reportagem da Pública ganha Prêmio de melhor reportagem no IX Encontro de Comunicadores do Vale do Jequitinhonha que aconteceu, em Araçuaí, nos dias 17 e 18.01, na área de jornalismo. A matéria foi produzida pelo fotógrafo Nilmar Lage, publicada em 25.07.2019.

A Rede de Comunicadores do Vale, responsável pelo evento, considerou a reportagem como a mais completa no conteúdo, na forma, na linguagem direta e nas ilustrações de belas fotos.
Confira o trabalho jornalístico publicado pelo Blog do Banu.

O fotógrafo Nilmar Lage foi até o Vale e conheceu de
 perto o que quer dizer “vulnerabilidade alimentar”

Nilmar Lage/Agência Pública, 25 de julho de 2019

Banhada pelas águas do rio Jequitinhonha e com cerca de 41 mil habitantes, a cidade de Almenara em Minas Gerais, é uma das mais populosas do Vale do Jequitinhonha. De passagem pela região, logo após ver a afirmativa do presidente Jair Bolsonaro de que “passar fome no Brasil é uma grande mentira”, conheci Elane Santos. Perguntei a ela sobre o que disse o nosso presidente. Ela foi taxativa: “ele nunca veio no Vale do Jequitinhonha e parece que nunca andou pelas ruas do país”.

Nilmar Lage/Agência Pública

Enquanto amamentava a pequena Ester, de 9 meses, o olho marejou, mas ela manteve-se firme. Hoje, com 21 anos e mãe de quatro filhos, Elane mora com o companheiro Leonardo Fagundes, 30 anos, e tem que conciliar despesas com aluguel e alimentação. Mas Elane está desempregada e Leonardo é trabalhador rural diarista: “trabalho a cinquenta conto por dia e não é sempre que tem oportunidade por aqui”. Há dois meses, quando a família só tinha arroz para comer, ela conseguiu recadastrar no programa Bolsa família e a renda subiu para R$ 458.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a renda domiciliar per capta de Minas Gerais em 2018, foi de R$ 1.322. Longe dessa realidade, Elane disse que às vezes, quando o mês é bom para o companheiro, a renda da família chega a R$ 800, “mas o certo mesmo é o Bolsa Família”.
Dependendo do mês, Elane, o companheiro e os quatros filhos possuem uma renda familiar mensal de R$ 800. Nilmar Lage/Agência Pública.


Antes do recadastramento do Bolsa Família, Elena e a família só tinham o arroz pra comer.
Nilmar Lage/Agência Pública


Despensa da casa de Elane - Nilmar Lage/Agência Pública

“Meu marido ficou desempregado e a gente foi despejado”, relata Marleide Maria, de 37 anos, há dois morando em um barraco improvisado com cobertor e madeirite, de cerca dois metros por sete, no Acampamento Princesinha do Vale, zona rural de Almenara.

Mãe de oito filhos, três do primeiro casamento e cinco com Sebastião Rodrigues, de 38 anos, ela lamenta a falta de oportunidades para quem tem menos estudos e nasceu em família pobre no Brasil. A renda fixa da casa também é o Bolsa Família de R$ 624. “Com esse valor temos que dividir um pouquinho pra cada coisa, tem a fralda, o leite, a merenda”. Por causa dos filhos pequenos, Marleide não procura trabalho fora. Cuida de uma horta para vender produtos na feira da cidade aos sábados. Quando cheguei para conversar ela estava na lida, buscando água nos baldes para banhar as verduras, porque eles não têm acesso à água encanada.


Há dois anos, Marleide Maria mora em um barraco improvisado com cobertor e madeirite - Nilmar Lage/Agência Pública.


Lohaine, 5 anos, é filha de Marleide - Marileide com os filhos dentro de casa. Nilmar Lage/Agência Pública.
Marinez Souza, diarista de 38 anos, seus filhos Jeciane Souza e Maicon Souza, e o seu companheiro Alexandre Vieira acabaram de entrar para o Acampamento Princesinha do Vale. O barraco improvisado com cerca de três metros quadrados vai abrigar a família cuja renda fixa é R$ 200 do Bolsa Família.

Segundo uma definição do Banco Mundial, são extremamente pobres os que tem renda per capta inferior a U$ 1,90 por dia, ou R$ 140,00 por mês, como o casa dessa família.

Marinez diz que se sua família dependesse só dos ganhos da cidade passariam fome. “Tem que partir pra roça mesmo, pois é da roça que vem a plantação”. Seu companheiro Alexandre vive de bicos e está há mais de três semanas sem conseguir qualquer atividade remunerada. Quem primeiro sente são as crianças, pois estão em períodos de férias e sem a merenda escolar, essencial para complementar a parca oferta de alimentos em casa.

Nilmar Lage/Agência Pública
Marinez e Alexandre com a filha Jeciane no barraco para o qual vão se mudar

Em sua afirmação sobre não existir pobreza e ou fome no Brasil, Jair Bolsonaro disse que “aqui não temos pessoas esqueléticas andando pelas ruas”. Mas o presidente está equivocado: as escalas de insegurança alimentar abrangem situações desde alimentação de má qualidade até a fome em larga escala. Conviver com fome e o medo de inanição são características da insegurança alimentar. E as três famílias com as quais conversei se enquadram claramente nesse perfil; o medo é sempre maior pelo fato de terem muitas crianças.

Perguntei como é quando os filhos pedem e você não tem para dar. “Tem que rezar nos pés de Santo Antônio”, disse Marleide. A fé parece que também dá força para superar as adversidades e manter um astral elevado em meio a tanta dificuldade, pois na hora de fotografar os sorrisos apareciam com relativa espontaneidade. “Como faz para sorrir assim?”, perguntei. “Joelho na terra e oração”, respondeu Marleide. Sorrindo.

Fonte: https://apublica.org/2019/07/eu-vi-a-fome-e-a-alegria-no-vale-do-jequitinhonha/