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domingo, 26 de abril de 2020

Coronavírus: É preciso cassar Bolsonaro, antes da morte de milhares de brasileiros


Chega
É hora de avaliar uma denúncia com os crimes de responsabilidade do Presidente

“O presidente da República, embora possa muito, não pode tudo”
Ministro do STF Celso de Melllo

Não posso esconder as lágrimas que correm livremente enquanto assisto à live "One World: Together At Home". E olhe que nem conheço esses cantores. O que me comove é a solidariedade. O mundo inteiro demonstra respeito, gratidão e até amor a todos os que se entregam, com risco pessoal e com o sacrifício de não ver ou encontrar as pessoas queridas, em nome do enfrentamento a este vírus maldito, a esta tragédia.
Os países se dão as mãos sem credo ou ideologia. Todo final da tarde, no mundo inteiro, as pessoas vão para as varandas aplaudir, bater panela e cantar em homenagem aos trabalhadores da saúde, da segurança hospitalar e de todos os que se dedicam e se expõem ao enfrentamento da pandemia.

Não sou dos que acreditam que o mundo sairá melhor desta. O homem é naturalmente ruim, mal; mas é um fato que, neste momento, as pessoas estão mais dispostas a serem menos piores, com mais sentimento humanista. É muito tocante ver a música, pelos mais diversos sons e atores, os mais inimagináveis, falar um único som: o som da solidariedade.
O mundo, de alguma forma, querendo dar chance à vida. Mas, infelizmente, temos que registrar: qual é a nota fora do concerto mundial? O que desafina?
Meu Deus, aqui, no Brasil, nós não temos tido tempo de sermos só solidários, de só sofrermos pela dor —certamente hoje já próxima de todos e de cada um, pela morte ou doença de alguém querido. Não podemos sequer acompanhar o movimento mundial de tentar sair desse buraco, desse drama. Nós temos que acompanhar diariamente, em tempo real, um psicopata inimputável, que já havia esvaziado a ciência em tempos normais, aprofundar o grau de ignorância em tempos de guerra.
Nós, brasileiros, não conseguimos falar a língua universal da fraternidade. Este
governo fascista e assassino nos distrai. Nós não conseguimos ter solidariedade com nossos irmãos, nem no medo nem na angústia. Em todo o mundo, os partidos e os políticos baixaram as armas. Há um inimigo comum. Vejam Portugal, onde um partido da oposição cumprimenta o governo por ter trabalhado bem. Sem uso da política. Com lealdade à gravidade do momento.

Não sou dos que acreditam que o mundo sairá melhor desta. O homem é naturalmente ruim, mal; mas é um fato que, neste momento, as pessoas estão mais dispostas a serem menos piores, com mais sentimento humanista.
É muito tocante ver a música, pelos mais diversos sons e atores, os mais inimagináveis, falar um único som: o som da solidariedade.
O mundo, de alguma forma, querendo dar chance à vida. Mas, infelizmente, temos que registrar: qual é a nota fora do concerto mundial? O que desafina? Meu Deus, aqui, no Brasil, nós não temos tido tempo de sermos só solidários, de só sofrermos pela dor —certamente hoje já próxima de todos e de cada um,
pela morte ou doença de alguém querido. Não podemos sequer acompanhar o
movimento mundial de tentar sair desse buraco, desse drama. Nós temos que acompanhar diariamente, em tempo real, um psicopata inimputável, que já havia esvaziado a ciência em tempos normais, aprofundar o grau de ignorância
em tempos de guerra.
Nós, brasileiros, não conseguimos falar a língua universal da fraternidade. Este
governo fascista e assassino nos distrai. Nós não conseguimos ter solidariedade com nossos irmãos, nem no medo nem na angústia. Em todo o mundo, os partidos e os políticos baixaram as armas. Há um inimigo comum. Vejam Portugal, onde um partido da oposição cumprimenta o governo por ter trabalhado bem. Sem uso da política. Com lealdade à gravidade do momento.
Não se trata mais de falar só em incompetência. Se não existirem condições políticas para o impeachment, e penso que há, cabe a nós, operadores do direito, darmos uma solução constitucional para o caso. Mas temos que enfrentar essa dura e cruel realidade, não podemos permitir que esse inimputável siga à frente do governo. A história nos cobrará pela omissão. Proponho que avaliemos uma denúncia, fácil de fundamentar, com os inúmeros crimes de responsabilidade do presidente, a ser apresentada junto a Corte Suprema.
Nenhum presidente, nem ninguém, tem o poder de propor reiteradamente políticas genocidas. E defender essa política desdenhando de um povo. Ele ofende a todos, inclusive os que o apoiam. Tornar inimputável e afastar um presidente eleito legitimamente por 57 milhões de brasileiros, com uma interpretação constitucional e com uma visão dos tratados internacionais, não é tarefa fácil. Mas nós, operadores do direito, que militamos no dia a dia no Supremo e que conhecemos sua jurisprudência, já vimos “milagres” serem feitos, quando a Corte quer, em nome de uma interpretação da Constituição.
A história e o momento exigem coragem. Senão, para que vale o direito, para que vale a evolução internacional da consciência humanista? Uma denúncia que propicie a oitiva não só do Ministério Público Federal (que, talvez, mais uma vez falte à nação), mas que ouça o Congresso Nacional, nossa Casa Soberana.
Se o Congresso e o Supremo entenderem que não podemos continuar caminhando docilmente para a morte, para a catástrofe, nós teremos como afastar este homem que faz da morte o seu legado. Para os que questionarem, de maneira óbvia, sem olhar o mar revolto onde estamos, a falta de jurisprudência ou algo assim, eu responderei com Clarisse Lispector: “Enquanto eu tiver perguntas e não houver respostas continuarei a escrever”. Com a palavra, o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal.

Antônio Carlos de Almeida Castro (Kakay)
Advogado criminalista



domingo, 5 de janeiro de 2020

Prefeito e vice cassados, Jacinto terá novas eleições, em março



Vista aérea da cidade de Jacinto, à beira do rio Jequitinhonha, no nordeste de Minas.
O TRE-MG – Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais marcou eleições suplementares para prefeito e vice no município de Jacinto, no Baixo Jequitinhonha, nordeste de Minas, no dia 8 de março de 2020. 
As novas eleições acontecerão para um mandato-tampão, de março até 31 de dezembro desse ano, devido à cassação dos mandatos do prefeito Leonardo Augusto de Souza (PRB) e o vice João Alves Beberino (PP), por abuso de poder econômico na campanha eleitoral de 2016. 
A sessão de julgamento do TRE-MG aconteceu no dia 16 de dezembro de 2019, após uma novela de afastamento do prefeito e vice com Mandatos cassados. Atualmente, o presidente da Câmara Municipal assumiu como Prefeito temporário.
As convenções serão realizadas entre 29 de janeiro e 2 de fevereiro. A propaganda eleitoral será a partir de 07 de fevereiro. Com as eleições marcadas para o dia 8 de março a diplomação ficou marcada para o dia 26 de março. Os eleitos poderão assumir imediatamente, logo após a Câmara Municipal se reunir para a Sessão de Posse.

 Candidatos já se movimentam
Dois candidatos já se colocam como proponentes ao mandato-tampão: o atual presidente da Câmara Municipal e prefeito interino, Dai da Saúde. Ele será candidato pela oposição ao grupo político do prefeito cassado.
Júnior de Denir, jacintense, deve se candidatar, apoiado por Leo do Ponto. 
Atualmente, ele é Secretário Municipal de Administração de Jucuruçu-BA, município vizinho de Jacinto, a 58 km de distância das cidades. Provavelmente, seu vice será João Beberino, atual vice afastado, mas absolvido da cassação política. 

Entenda a novela da cassação, afastamento e novas eleições
O prefeito Leonardo Souza, o Leo do Ponto Certo, e o vice Beberino foram eleitos nas eleições de 2016, obtendo 4.381 votos, ou 61,1%; contra Decinho (PMDB) com 2.454 votos.  Foram diplomados e tomaram posse, no dia 01.01.2017.
A oposição entrou com ação judicial pedindo a cassação dos mandatos, argumentando abuso econômico durante as eleições. As alegações da oposição é que a chapa majoritária promoveu um showmício de campanha, transportou eleitores e ações similares, o que é proibido pela legislação eleitoral. Outras alegações foram descritas como a distribuição de alimentos a eleitores.
A Coligação Compromisso de Renovação acusou Leonardo e João de várias ações eleitorais ilegais. Foi julgada improcedente a ação pelo Juiz Eleitoral da 144ª Zona Eleitoral de Jacinto.
A coligação entrou com recursos no Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais – TRE-MG, que, por unanimidade, determinou a cassação de ambos, declarando-os inelegíveis, em julho de 2017.
Em 13 de setembro, o TRE-MG determinou novas eleições para o dia 19 de novembro daquele ano e autorizou a posse  do presidente da Câmara Municipal, Nácio Lúcio Carvalho, como prefeito temporário, até a realização de novas eleições, diplomação e posse de novos eleitos.
Depois, ao analisar outro recurso, a Corte mineira afastou a inelegibilidade do vice, por entender que ele teria sido “mero beneficiário”.
O prefeito e vice recorreram ao TSE - Tribunal Superior Eleitoral. Em outubro de 2017, o  ministro Luiz Fux concedeu liminar para que Leonardo Souza e João Alves permanecessem nos cargos até o julgamento da Ação Judicial Eleitoral (AIJE) 32.503.  O prefeito e vice voltaram aos cargos menos de um mês depois da decisão da justiça eleitoral de Minas de afastá-los.
Assim, a eleição extemporânea não foi realizada.
No dia 22 outubro de 2019, o STE, por unanimidade, condenou o prefeito Leonardo Souza e o vice João Alves à perda dos mandatos e determinou ao TRE-MG para marcar novas eleições.
Novo pleito será dia 8 de março, marcado dia 16 de dezembro. O TRE também determinou a posse do Presidente da Câmara Municipal como Chefe temporário do Poder Executivo, até a posse dos novos eleitos para o Mandato-tampão.
Informações sobre Jacinto 
Jacinto está no nordeste de Minas, na divisa com o sul da Bahia. 
Situado a 830 km de Belo Horizonte; 63 km de Almenara; 166 km de Itaobim; 327 km de Teófilo Otoni; 131 km de Eunápolis-BA; 195 km de Porto Seguro-BA.
Sua população estimada em 2019 era de 12.326 habitantes, segundo o IBGE. Segundo o TRE - MG, o  total de aptos a votar em 2018 era de 8.960 eleitores.  
Possui uma área de 1.395,3 km².
Tem como tradição as suas festas juninas no mês de junho, com as tradicionais quadrilhas e barraquinhas na casa paroquial, além de suas folias de reis. A alta temporada turística em Jacinto se concentra nos meses de junho-julho e dezembro-janeiro.
 Faz divisa com Almenara, Jordânia, Salto da Divisa, Santa Maria do Salto, Santo Antônio do Jacinto e Rubim.
Apresenta os seguintes indicadores econômicos e sociais:
IDH (PNUD/2010) – 0,620
PIB (IBGE / 2008) – R$ 57.158,81 mil
PIB per capita (IBGE/2008) – R$ 4.523,86.
Texto de Álbano Silveira Machado - Banu. Revisado por Klévio Sousa, jacintense, residente em Araçuaí, no Médio Jequitinhonha.

terça-feira, 1 de outubro de 2019

"Não aceito barganhar minha liberdade", diz Lula em carta sobre semiaberto

Em carta escrita nesta segunda-feira (30.09), o ex-presidente Lula voltou a rechaçar o regime semiaberto. "Quero que saibam que não aceito barganhar meus direitos e minha liberdade. Já demonstrei que são falsas as acusações que me fizeram. São eles e não eu que estão presos às mentiras que contaram ao Brasil e ao mundo", disse ele.



www.brasil247.com - O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva se manifestou nesta segunda-feira (30) sobre o pedido da Lava Jato para que ele progrida para o regime semiaberto. 
Em carta divulgada pelo Twitter, Lula diz que os procuradores da Lava Jato deveriam pedir desculpas ao povo brasileiro e aos milhões de desempregados, pelos prejuízos causados. 
Lula voltou a rechaçar o regime semiaberto. "Quero que saibam que não aceito barganhar meus direitos e minha liberdade. Já demonstrei que são flasas as acusações que me fizeram. São eles e não eu que estão presos às mentiras que contaram ao Brasil e ao mundo", disse Lula. 
O ex-presidente defendeu também que agora cabe ao Supremo Tribunal Federal julgar a suspeição do ex-juiz Sérgio Moro, para que "haja Justiça independente e imparcial". 
Leia, abaixo, a carta de Lula:

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Em defesa da Constituição e do Estado Democrático de Direito

Pensando bem, Dias Toffoli tem razão: devemos desidratar a Constituição

* Lênio Luiz Streck
Leio na ConJur que [o ministro presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias] “Toffoli diz ser preciso ‘desidratar’ a Constituição para destravar a economia”.
E aí pensei no seguinte:
Talvez, o ministro Dias Toffoli tenha razão. Talvez só nos reste mesmo desidratar a Constituição. E sabem por que faço essa assertiva absolutamente paradoxal?
Explico. Devemos desidratar a Constituição porque ela é boa demais. Ela exigiu — e já digo isso usando o verbo no passado — demais de nós. A Constituição de 1988, como dizem famosos e não famosos juristas, concedeu direitos demais. Parte do baixo clero jurídico chega a dizer que a Constituição deu deveres de menos. Enfim...
Ocorre que as pessoas esquecem que, ao “dar direitos”, a Constituição constitui. Ela obriga. Ela constitui-a-ação, como escrevi há 25 anos. Porque traz junto desses direitos as responsabilidades que eles impõem.
A Constituição exige que sejamos uma democracia. Mesmo que não queiramos. Exige que cumpramos o que o país escolheu prometer.
Nossa Constituição exige cidadania. Exige de nós que saibamos respeitar o Estado Democrático de Direito. Tudo isso está interligado. É triste, mas eu repito o que venho dizendo junto com autores como Gilberto Bercovici, Martonio Barreto Lima e Marcelo Cattoni: a Constituição está sendo erodida.
É exatamente por isso que me permito afirmar: a Constituição exigiu demais dos juristas e políticos brasileiros. Ouso dizer, tristemente, que não fomos e não somos merecedores desta Constituição.
A CF/88 exigiu algo que não tínhamos e não temos. Para entender melhor o que quero dizer, recorro ao Os Irmãos Karamazov, em que Dostoiévski apresenta a fábula d’O Grande Inquisidor, na qual Ivan Karamazov conta a seu irmão mais jovem, Alyosha, uma fábula segundo a qual Jesus Cristo volta à Terra e é preso pela Inquisição. No cárcere, o grande Inquisidor diz a seu ilustre prisioneiro que “resistir às tentações do Mal em seu período no deserto foi sua ruína”. “Você exigiu demais de nós”.
Ao resistir — diz o Inquisidor a Jesus — “você também passou a exigir demais do homem, incapaz de resistir às tentações da mesma maneira”. Segundo o Grande Inquisidor, o homem é fraco, incapaz de oferecer qualquer resistência quando é tentado (uma confissão: quando estou meio down, releio esse texto — é tão denso; profundo; lancinante; já tentei ler para uma plateia e não consegui chegar até o final, pela emoção que o texto exala).
Lendo que devemos desidratar a nossa Constituição, tenho a convicção de que fomos incapazes de resistir às tentações advindas de um direito menor, dos moralismos, dos punitivismos e quejandos. Não fomos fortes.
Não resistimos às teses pragmatistas tipo “os fins justificam os meios”. Como disse o Grande Inquisidor a Jesus, parecemos incapazes de resistir às tentações que nos são constantemente apresentadas.



Daí minha ousadia em afirmar: Sim, ministro Toffoli, temos de desidratar a Constituição... porque não fomos ortodoxos na sua aplicação. Fomos e somos lenientes. Eis os ingredientes para essa tempestade perfeita:
i) O voluntarismo interpretativo, o pamprincipiologismo e coisas do gênero;
ii) O realismo retrô, que relegou a doutrina a um segundo plano;
iii) Um constitucionalismo de efetividade (sic) que gerou um neoconstitucionalismo irresponsável;
iv) Um dualismo metodológico que coloca a normatividade em segundo plano (fazendo valer mais a tal “voz das ruas”, e seus moralismos afins);
v) Uma dogmática jurídica tosca, sem sofisticação teórica, que respira por aparelhos em livros que glosam decisões judiciais e fazem resumos de resumos;
vi) A moralização do Direito (que ao mesmo tempo o desmoraliza, no sentido ruim da palavra); e
vii) O ensino jurídico estandartizado, que jogou no mercado uma multidão de pessoas com formação deficiente (afinal, assim como no Parlamento, também existe o “baixo clero” jurídico), aliado a um equivocado modelo de concursos públicos, sobre o qual já escrevi à saciedade.

Pronto. Eis a receita para o fracasso da Constituição mais rica já produzida no século XX. Não fomos fortes o suficiente para construir as condições para a superação dos obstáculos. “Juristas de pouca fé”, se me permitem a alegoria.
Eis a receita que, paradoxalmente ou não, dá razão ao ministro Dias Toffoli. A comunidade jurídica não é merecedora da Constituição. Talvez precisemos de uma bem magrinha, desidratada, esquálida. Talvez como a de 1969, que era extensa, mas sem direitos.
Nós não temos o que a Constituição exigiu de nós. Não fomos capazes de, em 30 anos, colocar-nos à altura das exigências constitucionais. Hoje não temos condições nem de afirmar, com segurança, que os julgamentos têm de ser imparciais. Poxa. Trinta anos de Constituição e parcela considerável da comunidade jurídica acha normal que existiam relações não-republicanas entre juiz e acusação.
Sim, a Constituição exigiu demais. Formamos uma multidão de pessoas que hoje desdenham da Constituição. O processo penal e civil, de condição de possibilidade, virou obstáculo e inimigo. Até onde chegamos...
Falhamos por não saber ler e compreender o sentido da Constituição, quando nos diz claramente que o Brasil é uma República que visa a reduzir a pobreza, fazer justiça social... Isso é demais para um país como o Brasil.

Talvez seja por isso que, aos olhos do Ministro, só nos resta desidratar a Carta. Faço essa interpretação propositiva de sua fala. Tenho de acreditar que ele disse isso como uma crítica — ou uma ironia — à inefetividade de nossa Constituição. Sou um jurista de fé.
Se for isso, estamos juntos. De minha parte, eu não desisto. Desidratar o que nosso Direito produziu de melhor até hoje não é a saída. Fazer isso é capitular diante dessa mesma sanha autoritária que organiza uma cruzada anti-institucional. Insisto: do modo como estamos “levando” o Direito e a Constituição, é possível dizer que, fossemos médicos, estaríamos fazendo passeatas contra vacinas e antibióticos. Médicos contra remédios, juristas contra direitos. Paradoxo dos paradoxos.
A saída? É estar à altura do que a Constituição exige de nós.
Não desidratemos a Constituição. Tenhamos a coragem de elevar-nos à altura daquilo que ela exige de nós.
Fonte: www.brasil247.com

quarta-feira, 26 de junho de 2019

Lava Jato se corrompeu e Moro deve ser afastado, dizem líderes progressistas

"Moro perdeu completamente as condições políticas e morais de ocupar o Ministério da Justiça", dizem, em artigo, Roberto Requião, Flávio Dino, Fernando Haddad, Guilherme Boulos e Sônia Guajajara. "Quanto ao ex-presidente Lula, este devia ter sido julgado por um juiz imparcial, que presidisse o processo e acompanhasse a produção de provas com seriedade e isenção", apontam.

A corrupção da Lava Jato  

*Fernando Haddad, Flávio Dino, Guilherme Boulos, Ricardo Coutinho, Roberto Requião e Sônia Guajajara 


Canalhas! Canalhas! - bradou o saudoso Tancredo Neves ao ver o Congresso Nacional ser utilizado como instrumento para o golpe de 1964. Em 2018, o Brasil viveu cenário análogo, só que o golpe se materializou pela atuação de um juiz, o que justifica indignação similar à manifestada por Tancredo naquela tenebrosa noite.   

Não se trata de questionar a justa e necessária luta contra a corrupção. Tal luta é nossa também, desde muito antes de surgir a Lava Jato. Mas, sim, temos indignação com o uso desta causa como manto para ocultar e atender interesses políticos e ideológicos escusos - ao pior estilo da UDN de Carlos Lacerda - inclusive com grave violação à soberania nacional mediante "combinação com americanos”, conforme revelado em um dos diálogos publicados pelo site The Intercept.  
Temos a certeza de que não foi um julgamento justo que ocorreu em 2018, na medida em que o objetivo principal era tirar Lula das eleições. Está evidente, mais do que nunca, que não houve tratamento igualitário às partes. O estranho andamento do processo estava à vista de todos: PowerPoint, condução coercitiva ilegal, escuta abusiva de advogados, correria desesperada para realizar os julgamentos. 
Tudo agora está explicado por intermédio das conversas publicadas pelo Intercept. O juiz tinha animosidade pessoal contra o acusado, fornecia provas à acusação fora dos autos, combinava previamente petições e decisões. E havia um gritante desrespeito aos argumentos de defesa, que não eram verdadeiramente ouvidos. Afinal, tudo era um “showzinho”, nas palavras do então juiz.   
Dizer que as condutas de Moro foram “normais” constitui uma agressão à Constituição, ao Código de Processo Penal e ao próprio Poder Judiciário. Não é normal um processo de fachada, em que o juiz presidia a investigação, ajudava a formular a acusação, indicava e produzia provas e, depois, sentenciava com base nos seus próprios conselhos e orientações transmitidos ao procurador amigo. Tampouco é normal um juiz atuar influenciando um resultado eleitoral e depois dele se beneficiar pessoalmente, ganhando o cargo de Ministro da Justiça.   
Flagrado nesse escândalo, Moro não sabe o que diz e vive imerso em contradições. Ora diz que era tudo normal, portanto reconhece o teor dos diálogos; ora não confirma o teor das conversas. E se refugia, logo ele, na ilegalidade de interceptações e vazamentos. 
Ocorre que não há provas, até o momento, de que os diálogos foram conseguidos de forma ilegal, com ajuda de um hacker ou espionagem. Grupos de mensagens em aplicativos têm muitos participantes; qualquer um deles pode inclusive ter copiado arquivos e entregado legalmente, visto que o sigilo de fonte é garantido à imprensa. Ademais, a doutrina e a jurisprudência admitem o uso de qualquer prova, mesmo que tenha sido ilegalmente obtida, para preservar ou reestabelecer a liberdade de um acusado, em face do princípio da proporcionalidade.   
Não se pode admitir que, escancarada a trama, permaneçam os envolvidos a ocuparem funções relevantes, podendo inclusive atrapalhar ou direcionar investigações. Moro perdeu completamente as condições políticas e morais de ocupar o Ministério da Justiça, que comanda a Polícia Federal. Deve ser imediatamente afastado do cargo, também porque não reúne condições para cuidar do relevante tema da Segurança Pública, tamanha a sua falta de credibilidade na comunidade jurídica nacional e internacional.   

Quanto ao ex-presidente Lula, este devia ter sido julgado por um juiz imparcial, que presidisse o processo e acompanhasse a produção de provas com seriedade e isenção. Ninguém está acima da lei, mas também ninguém deve estar fora do seu âmbito de preservação de direitos. O processo que aconteceu em 2017 e 2018 é viciado desde a origem e as "provas" usadas até aqui são totalmente nulas. Logo nulos são todos os julgamentos baseados no indevido conluio. Ódios políticos não podem ser maiores do que as leis. E, segundo as leis, a nulidade é imperativa, por ação dolosa e fraudulenta da dupla Moro e Dallagnol. 
Por consequência, Lula deve ser libertado e novamente julgado, desta vez segundo critérios justos.   A Lava Jato se ergueu em torno do tema da corrupção. Agora, mesmo os que a defendem tem o dever de afastá-la deste mesmo pecado: o da corrupção. Pois não há outra palavra para definir o que ocorreu nesse lamentável episódio. Os fins não justificam os meios. E fraudar os meios corrompe o Direito e a Justiça.   
Fernando Haddad, professor universitário, foi candidato a presidente da República. 
Flávio Dino, mestre em Direito Público (UFPE), é governador do Maranhão.   
Guilherme Boulos, militante do movimento social, foi candidato a presidente da República.   
Ricardo Coutinho, presidente da Fundação João Mangabeira, foi governador da Paraíba.   
Roberto Requião, foi governador do Paraná e senador da República.  
Sônia Guajajara, militante do movimento indígena, foi candidata à vice-presidência da República.

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Judiciário brasileiro e os muitos privilégios de uma casta

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Privilégios judiciários

Por Álbano Silveira Machado*

Desde a Colônia, o Estado brasileiro oferece privilégios para alguns poucos servidores e agentes públicos, assim como para uma seleta categoria de cidadãos e empresas privadas. Alguns estudiosos chamam a este fenômeno de patrimonialismo ou a apropriação privada do que é público. 

Embora exista em todas as instâncias federativas - federal, estadual e  municipal -, é na administração pública federal onde se encontram as principais ilhas de privilégios  de uma casta dos servidores públicos. Mas, há um poder que se destaca entre os demais: o Poder Judiciário. Este é um poder que tem se fortalecido e abusado autoritariamente em aprovar seus próprios privilégios, aproveitando-se da crise de credibilidade do Legislativo e do Executivo. E age de forma discricionária e de chantagem a estes outros poderes, no Estado, assim como ao poder econômico e midiático, no Mercado, para obter vantagens para si e para os seus da sua bolha de poder. 

Há um clamor moralizador no Brasil, nos últimos anos, com um único foco que é o de combate à corrupção na política, restrita aos poderes legislativos e executivos, e, em escala menor, a corruptores do mercado. A corrupção no Poder  Judiciário brasileiro fica escamoteada e protegida pelo protagonismo que juízes e promotores, com o apoio da grande mídia oligopolizada, assumiram no combate moralista, seletivo, politizado e partidário de desvios de recursos públicos para interesses privados.


Como uma verdadeira “caixa preta”, acessível a poucas pessoas, o Judiciário, em seu conjunto, tornou-se uma grande estrutura geradora de privilégios para poucos, com uma reduzida preocupação social, participação democrática, transparência e nenhum controle social. É o único poder que não possui nenhuma abertura para participação e fiscalização da sociedade, não tendo de prestar contas a ninguém. Às vezes, há comissões internas de  apuração de mal-feitos, que sempre chegam à conclusão de proteção do investigado, em um acordo corporativista. Por isso, permite descalabros com o dinheiro público, com tímida ou nenhuma reação popular.


Com um poder descomunal e desequilibrado na estrutura do Estado,  o Judiciário desrespeita o artigo 2º da Constituição Federal que estabelece: "São Poderes da União, independentes e harmônicos entre si, o Legislativo, o Executivo e o Judiciário". 


O Estado vive uma crise de gestão - administrativa e financeira - e busca o ajuste de responsabilidade fiscal com o controle e corte de  gastos nas políticas públicas, principalmente as sociais que sacrificam a população mais pobre. No entanto,  o Judiciário brasileiro aumenta progressivamente os  seus gastos para manter a sua máquina de controle social, político e econômico, e aumentar os privilégios de uma casta meritocrática. É o que mais gasta recursos públicos entre todos os países da América e da Europa, R$ 90,3 bilhões, ou 1,4% do PIB - Produto Interno Bruto, em 2017. A Venezuela gasta 0,34, a Argentina 0,13, a Alemanha 0,32,  a Itália 0,19 e os EUA gastam 0,14 do seu PIB.

O gasto de todo o Poder Judiciário brasileiro com folha de pagamento cresceu 11% (ou R$ 8,1 bilhões) de 2014, ano que marca o início da crise econômica, a 2017. No mesmo período, a economia do país se retraiu 5,6%.
A despesa com salários, benefícios e penduricalhos na Justiça subiu acima da inflação, mostra o relatório Justiça em Números 2018, do CNJ (Conselho Nacional de Justiça).
O documento reúne dados das Justiças Estaduais, Federal, do Trabalho e Militar e dos tribunais estaduais, regionais e superiores, exceto o STF (Supremo Tribunal Federal).
No ano passado, a remuneração custou R$ 82,2 bilhões ao país e bateu recorde. O montante representa 90,5% do Orçamento do Judiciário, distribuído a 448,9 mil funcionários. 

O teto salarial dos magistrados é de R$39,2 mil, mas, segundo o Sindicato dos Servidores do Poder Judiciário em Goiás - SINJUFEGO, os juízes e promotores engordam seus contracheques com ao menos 32 tipos de auxílios, gratificações, indenizações, verbas e ajudas de custo. 
Mas, não é só na esfera federal que há privilégios. Em Minas, se considerados os rendimentos brutos, somando os salários aos auxílios e "vantagens eventuais", o número de magistrados que recebem acima do teto constitucional chega a 97%. Como se os altíssimos salários não fossem suficientes, entre os benefícios mensais estão o abono de permanência, de R$ 3.300 mil; auxílio-saúde, de R$ 3 mil; auxílio-alimentação, de R$ 884; auxílio-livro de R$ 13 mil anuais; e auxílio-moradia (que causou revolta em todo país no início deste ano), de R$ 4.377. Somados, estes benefícios chegam a R$ 24.861 por mês, dados do primeiro semestre de 2018. 
Neste mês de dezembro, a Assembléia Legislativa de Minas aprovou o auxílio-saúde para promotores e procuradores do Ministério Público no valor de  até R$ 2.500, o que revoltou os mineiros que protestaram nas redes sociais e meios de comunicação. Dos 50 deputados estaduais presentes à votação, apenas 3 votaram contra, em um verdadeiro acordo entre poderes. Os representantes políticos temem as ações inquisitoriais do Ministério Público.

Outro privilégio conhecido é o julgamento de autoridades judiciárias, que são julgados em foro especial, mesmo que tenham cometido um crime comum. Juízes criminosos não são julgados e presos. São aposentados de forma compulsória, percebendo o salário integral. No Brasil, são cerca de 30 mil juízes, desembargadores, ministros e promotores que gozam dessa regalia.

As férias anuais do poder judiciário são de 60 dias para juízes, desembargadores e ministros, e 30 dias para os serventuários, os servidores públicos comuns. 

É importante salientar que os privilégios são principalmente para juízes, promotores, ministros, desembargadores e cargos em comissão. Os sindicatos dos serventuários denunciam diversos privilégios da casta e exigem salários e condições de trabalho mais dignas para os  demais servidores.


Um levantamento feito pelo SINJUFEGO, no início de 2018, aponta que a média dos salários  dos juízes e desembargadores nos Estados é  de R$ 41.802, podendo chegar a R$ 100 mil, e muito mais, em alguns casos. No Brasil, a média dos vencimentos  dos magistrados é 20 vezes maior do que a de cidadãos comuns, com nível de formação universitária, enquanto que em países europeus é pouco mais que o dobro.  

Ainda segundo o SINJUFEGO, no primeiro trimestre de 2018, a média de rendimentos de juízes e desembargadores nos Estados é de R$ 41.802 mensais; a de promotores e procuradores de justiça, R$ 40.853. Os presidentes dos Tribunais de Justiça apresentam média ainda maior: quase R$ 60 mil (R$ 59.992). Os procuradores-gerais de justiça, chefes dos Ministérios Públicos, recebem também, em média, R$ 53.971. Supera-se o teto em 50 dos 54 órgãos pesquisados. Eles abrigam os funcionários públicos mais bem pagos do Brasil. Há salários reais que ultrapassam R$ 100 mil. 
Outro problema é a prática de nepotismos e compadrios na ocupação dos espaços. Um exemplo: segundo o jornal Folha de S.Paulo, 16% dos integrantes do Judiciário no estado do Rio são parentes de outros membros desse poder. Esta situação seguramente se reproduz em maior ou menor grau nos outros estados.

Há suspeitas de vendas de decisões e sentenças, principalmente para bancos e grandes empresas, com transações milionárias.  Não há fiscalização e investigações são acobertadas.

O Brasil necessita urgentemente de uma Reforma do Judiciário para qualificar e distribuir universalmente os serviços judiciais, criar o controle social, deselitizar o acesso e a carreira no Sistema Judiciário, cortar os privilégios, punir Juízes e promotores  que cometerem crimes. E, claro, defender o Estado Democrático de Direito, tendo a Constituição Federal como princípio fundamental e guia dos serviços judiciais. 

Que a Justiça seja feita para a construção de uma sociedade democrática!

*Álbano Silveira Machado é formado em Psicologia, na UFMG; pós-graduado em Gestão Pública Municipal, Faculdades Santo Agostinho, e Metodologia de Projetos Sociais, pela PUC-MG; mestrando em Estado, Gobierno y Políticas Públicas, pela FLACSO - Faculdades de Ciências Sociais da América Latina. 

Campanha presidencial teve pouco debate sobre o Judiciário
Nas eleições passadas, os candidatos a Presidente da República registraram de forma simplificada e acanhada as propostas para o Judiciário, segundo a Revista Consultor Jurídico:
Jair Bolsonaro, do PSL, propõe que o STF eleve o número de ministros de 11 para 21 para ter um maior controle e decisões favoráveis ao Governo. O capitão da reserva do Exército quer acabar com a progressão de regime, instituir a prisão perpétua e isentar policiais e integrantes das Forças Armadas de responder por homicídios que cometerem em serviço.
Geraldo Alckmin, do PSDB, propôs que o agente público que não comprovar a origem de seu patrimônio, ele o perderá.
Ciro Gomes, do PDT, defendeu que nenhum Ministro do Supremo Tribunal Federal possa ter sido filiado a algum partido em toda a sua vida. Ele propôs que magistrados e integrantes do Ministério Público atuem com contenção, sem extrapolar suas funções.
O candidato do PSOL, Guilherme Boulos, propôs frear os abusos autoritários e de privilégios do Judiciário e Ministério Público com controle social e rever as remunerações de magistrados e integrantes do Ministério Público. Ele quer também desmilitarizar a polícia e descriminalizar o uso de drogas. 
Fernando Haddad, do PT,  propôs um maior controle sobre o Judiciário e o Ministério Público, redução de benefícios de magistrados, promotores e procuradores e a instituição de mandato fixo para ministros do Supremo Tribunal Federal. Ou seja, Haddad propõe uma verdadeira Reforma do Judiciário.
Conheça a proposta completa:
“Promover a reforma do Sistema de Justiça
“O governo Haddad proporá à sociedade brasileira retomar o debate sobre a necessária reforma do Poder Judiciário e do Sistema de Justiça. É preciso alargar o acesso dos pobres à Justiça e conferir  agilidade e estabilidade às decisões judiciais.

O investimento no setor deve ter como premissa a melhoria na prestação dos serviços à população, o que passa pela profissionalização da administração da Justiça, pela simplificação de procedimentos, pela ampliação dos serviços a regiões pouco favorecidas e pela estruturação e qualificação das carreiras auxiliares.

Temos que eliminar os privilégios e favorecer o ingresso e a ascensão nas carreiras do Sistema de Justiça a todos os segmentos da população, em particular daqueles que são vítimas históricas de desigualdades e opressões.
Além disso, será necessário ainda conferir transparência e controle social na administração da Justiça. 

Em um país tão marcado por desigualdades históricas e estruturais de classe, de raça e de gênero, a elitização das carreiras do sistema de Justiça amplia fossos entre o mundo do Direito e a vida das pessoas comuns.

O acúmulo de privilégios inadequados demanda, como em todos os poderes da República, a salvaguarda dos princípios da moralidade e legalidade em ações concretas, como:
* a proibição total de patrocínios empresariais a eventos das associações, instituições e carreiras do Sistema de Justiça;
*o fim do auxílio-moradia para magistrados, membros do Ministério Público e demais agentes públicos que possuam casa própria e residam no domicílio ou que usem imóvel funcional, bem como a regulamentação definitiva e segura da aplicação do teto ao funcionalismo público;
*a redução do período de férias de 60 para 30 dias para todas as carreiras que conservam esse privilégio; e
*a democratização da escolha dos órgãos diretivos do Poder Judiciário.

É preciso repensar o papel e a composição do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) e instituir ouvidorias externas, ocupadas por pessoas que não integrem as carreiras, ampliando a participação da sociedade para além das corporações do Sistema de Justiça.

Em linha com a experiência internacional das democracias consolidadas, e como elemento-chave de uma República, faz-se necessário instituir tempo de mandatos para os membros do STF e das Cortes Superiores de Justiça, não coincidente com a troca de governos e legislaturas.

É preciso introduzir mudanças na escolha dos integrantes do STF dos Tribunais superiores, conferindo transparência ao processo e um papel maior à sociedade civil organizada. Os nomeados devem ter compromisso com a democracia, com o Estado Democrático de Direito e com a separação de poderes, sobretudo com as garantias judiciais previstas na Constituição Federal.

Durante os governos Lula e Dilma, foram aprovadas leis extremamente relevantes com o objetivo de prevenir e punir crimes como o de corrupção, o crime organizado e o atentado contra o Estado.
Se, de um lado, o país avançou na repressão a ilícitos cometidos pelos mais ricos e poderosos, o texto de algumas leis, por outro lado, tem permitido, ao longo de sua aplicação, um desvirtuamento que atenta contra a democracia, os direitos e garantias individuais estabelecidos como cláusula pétrea pela Constituição de 1988.

A prisão de manifestantes não pode ser enquadrada na Lei Antiterrorismo. De igual modo, os acordos de leniência, previstos na Lei Anticorrupção, não devem ser usados para proteger empresários corruptos em prejuízo da empresa e dos trabalhadores.

As delações premiadas, previstas na Lei das Organizações Criminosas, também não podem se prestar a proteger bandidos confessos e a condenar pessoas inocentes. Isso porque delações premiadas só podem ser consideradas válidas após a apresentação de provas mínimas que sustentem as acusações.

Por essa razão, em diálogo com a sociedade, o governo constituirá comissões de alto nível para promover a avaliação de impacto e propor alterações para o aperfeiçoamentos de leis apontadas pela comunidade jurídica como violadoras de direitos e garantias constitucionais, que interditam a política em função de uma aplicação prática que desvirtua a finalidades”.