Imagem se encontra na obra " Caminhos da Arte Popular: O Vale do Jequitinhonha" de Ângela Mascelani
23/12/2019, Por Ângela Gomes Freire
As tradições culturais e familiares foi tema de um Plano de Estudos na Escola Família Agrícola (EFA) de Araçuaí. A fim de entender melhor essas tradicionais, vistas a partir da realidade dos sujeitos da região, universitários do curso Licenciatura em Educação do Campo (LEC) da UFVJM participaram de encontros e atividades com os envolvidos em outubro, no que na LEC chamam de Tempo Comunidade (TC). O TC é dedicado, sobretudo, à troca de saberes entre universidade e comunidades dos universitários.
Os jovens estudantes secundaristas da EFA apontam, de acordo com o Plano de Estudos, manifestações que ainda existem com certo vigor nas comunidades, e outras que, ao contrário, estão enfraquecendo ou já se extinguiram como as manifestações de pastorinhas, quadrilhas e brincadeiras infanto-juvenis.
Interessante notar que os jovens secundaristas, preocupados com as ameaças de extinção de algumas manifestações culturais, parecem motivados para resgatar as tradições, como é o caso do uso das plantas medicinais e as benzeções. Tal posição ficou evidente a partir de uma roda de conversa entre os universitários e os secundaristas da EFA que levaram amostras de plantas medicinais e discorreram sobre suas características.
Na continuidade das atividades, houve momentos, também, de conversas acerca do ato de "benzer" ou "rezar", como alguns ainda falam. Trata-se de um processo que pressupõe conexão espiritual por meio de orações e outros rituais, como com plantas, voltados para a cura. A benzeção está diretamente ligada a fé, independente da religião que a pessoa professe, e é comum na região do Vale Jequitinhonha, bem como em outros lugares do estado e até do país. Procurar a pessoa que reza para cuidar de um mal-estar, enfermidades, ou até mesmo quando se perde algo importante, é tradição na região que se recorra à benzeção. No ato de benzer em sim, os benzedores e benzedeiras usam sempre um objeto em suas mãos, seja ele um ramo de planta, uma fita, uma peça de ferro. Justificam que o objeto absorve a malignidade e favorece, assim, o equilíbrio do corpo e do espírito do benzido. Ainda, ao final do ritual, costuma-se recomendar chás e remédios alternativos, naturais, conservados em garrafas, homeopáticos ou fitoterápicos, sejam para beber ou passar no corpo. Assim, as plantas compõem o cenário destas práticas.
Ainda como atividade do TC, foi debatido também se a fé das pessoas está comprometida, o que, teoricamente, atrapalharia na preservação da tradição. Na trilha das crenças pessoais, os participantes foram levados a refletir sobre algumas questões. Perguntados sobre o que fariam se fossem acometidos por uma picada de uma cobra venenosa, 50% dos jovens presentes chamariam o SAMU. No entanto, 33% procuraria o rezador ou rezadeira. No debate sobre o ofício de benzedor/benzedeira poderia ser reconhecido como profissão, 75% consideram que não sob a justificativa de que se trata de uma dádiva, um dom, em que o(a) escolhido(a) não repassa para qualquer pessoa, da mesma forma que não se aprende. Entendem que há uma espiritualidade envolvida e que o benzedor ou benzedeira são predestinados. Os demais, sobre essa última questão, consideram sim o ato de benzer uma profissão, pois apesar do rezador (rezadeira) não ser remunerado(a), dedicam a vida inteira em ajudar o próximo, em um trabalho de muita responsabilidade.
Na continuidade das discussões, o tópico passou a ser a efetividade das plantas medicinais e os benefícios do remédio de farmácia. Nesse debate surgiram vários exemplos de efeitos curativos das plantas medicinais, mas compreendem que uma planta não consegue resultados emergenciais, com rapidez, enquanto o alopático atende melhor às emergências. Citaram exemplos como o de uma das estudantes que sofreu depressão e, apesar dos vários chás caseiros preparados pela mãe não melhorava. Por outro lado, a partir do momento que iniciou um tratamento alopático sentiu-se melhor.
Ao final dos debates propostos no encontro, nota-se que o interesse desses jovens em conhecer melhor as plantas medicinais - quanto ao uso, o cultivo e à manipulação - impressiona, bem como a curiosidade pelas tradições da benzeção. Embora divirjam-se no quesito de resolução imediata, demonstram muito respeito e consideração por aqueles que conduzem ensinamentos tão valiosos para as comunidades.
REFERÊNCIAS:
MASCELANI, Ângela. Caminhos da Arte Popular: O Vale do Jequitinhonha/Ângela Mascelani. Rio de Janeiro: Museu Casa do Pontal, 2008
Construção de pequenas barragens para
armazenar enxurrada no período chuvoso vem sendo usada como forma de combater
os efeitos da estiagem prolongada em regiões áridas do país.
O
engenheiro-agrônomo e pesquisador da Embrapa idealizou sistema de aproveitamento
de água da chuva há mais de 30 anos(foto:
Mario Luiz Teodoro/divulgação)
O planeta Terra é composto por 70% de água,
mas somente 2,5% dessa porção é água doce, com a maior parte
situada nos polos, indisponível para o consumo imediato. O Brasil concentra 12%
da água doce superficial do mundo. No entanto, não dá para falar em fartura.
Pelo contrário, por conta das mudanças climáticas e das
diversas formas de degradação ambiental, o recurso é cada vez mais escasso,
agravando a crise hídrica. O problema é mais sério em regiões semiáridas, como
no Nordeste. Nesse contexto, as ações que objetivam a proteção das nascentes e
da água tornam-se de grande relevância não somente para a vida, mas também para
manter a produção agrícola – assim como para outros setores da economia.
Uma
das iniciativas de grande impacto para democratização do acesso ao recurso
hídrico no semiárido é o sistema de barraginhas de água da chuva, a baixo
custo, experiência que surgiu no Norte de Minas e foi difundida pela Empresa
Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), se multiplicando no território
mineiro e no país.
Os reservatórios servem para
contenção de água da chuva, fazendo com que a água infiltre no subsolo e
recarregue o lençol freático, impedindo a erosão. Assim, tornaram-se um grande
instrumento de recuperação ambiental e das fontes hídricas, auxiliando o
pequeno produtor a se manter na atividade e a conviver com a seca. O projeto
tem como idealizador e coordenador o engenheiro-agrônomo e pesquisador Luciano
Cordoval de Barros, da unidade da Embrapa Milho e Sorgo de Sete Lagoas. Segundo
ele, já foram construídas em todo país pelo menos 600 mil barraginhas, a metade
delas em Minas Gerais. O sistema se expande para além do semiárido e já chegou
a 15 estados.
O projeto começou a ser desenvolvido pela Embrapa
há 24 anos, quando foram construídas as primeiras 28 barraginhas. No entanto, o
pesquisador Luciano Cordoval relata que começou a trabalhar a ideia há quase 37
anos, em 1982, no município de Janaúba, no Norte do estado, castigado
historicamente pelo clima semiárido. “Eu peguei o gosto e paixão pelo
semiárido. Vendo o sofrimento imposto pela seca, eu fui idealizando as coisas,
tentando alguma solução para o semiárido. Um dia, vi a natureza fazendo uma
barraginha ao longo de uma enxurrada. Por conta do assoreamento, formou-se uma
barraginha. Dias depois, no lugar, ao redor da lama, estava tudo verdinho,
parecendo um canteiro. A partir daí, comecei a fazer os primeiros desenhos das
barraginhas”, relata.
O pesquisador informa que a tecnologia foi
“fincada” no semiárido mesmo em 2001, quando foi implantada no Vale do
Jequitinhonha, começando pelo município de Minas Novas, onde foram construídas
3 mil barraginhas em 47 comunidades. A partir daí, o projeto se estendeu para
outros municípios do semiárido mineiro (que abrange o Jequitinhonha e o Norte
do estado).
Em 2005, numa ação da Fundação Banco do Brasil
(FBB), o modelo de “segurar a água da chuva” foi levado para o Nordeste, sendo
incrementado no Piauí e no Ceará. Em seguida, a experiência foi bem-sucedida
também no Espírito Santo e no Tocantins. Hoje, informa Cordoval, o projeto já
alcançou 15 unidades da Federação, amenizando o problema da seca em outros
estados nordestinos como Bahia, Paraíba e Sergipe. Em função dos resultados, o
sistema se expandiu para as regiões Norte (Pará), Centro-Oeste (Goiás, Distrito
Federal e Mato Grosso), Sudeste (São Paulo) e Sul (Rio Grande do Sul e Santa
Catarina).
Alternativa
O pesquisador Luciano Cordoval destaca que a
construção das barraginhas tem sido a alternativa para segurar a água da chuva
no semiárido, onde a estação chuvosa, além de ser menor, é irregular. “O
semiárido tem a característica de chover tudo de uma vez. No início do período
chuvoso chove bastante. Depois, passa dois ou três meses sem chuva. Aí, morre
tudo que o pessoal plantou”, descreve.
Nesse contexto, relata Cordoval, “o sistema de
barraginhas aproveita de forma eficiente a água das chuvas irregulares e
intensas, permitindo que a água se infiltre no solo, recarregando o lençol
freático. Quanto mais rápido a água se infiltrar no solo, mais eficiente será a
barraginha. Assim, ela estará apta a receber as águas das próximas chuvas e
seguramente durante todo o ciclo chuvoso”, explica o engenheiro-agrônomo,
ressaltando ainda que a infiltração subterrânea impede a evaporação.
Ele salienta que com a implantação dos
reservatórios, as famílias se tornam verdadeiras guardiãs das águas. Destaca
que, ao recarregar o lençol freático, “as barraginhas vão recuperar os
mananciais, que são os mantenedouros das nascentes, garantindo a revitalização
dos córregos e rios”.
Cordoval destaca que, além do efeito ambiental, o
sistema gera bons resultados para a agricultura, contribuindo para a melhoria
de vida no campo. “A água da chuva que é retida umedecerá o entorno das
barraginhas, o que propicia a implantação de lavouras. As pastagens ao redor
das barraginhas desenvolvem-se mais rapidamente. Além disso, a água que infiltra
no solo vai avançando de maneira subterrânea, umedecendo as baixadas, onde são
criadas condições para a agricultura. Aí, serão produzidos alimentos e haverá
melhoria no sustento das famílias.Vai melhorar a renda local e regional. Essas
vantagens são refletidas nas feiras e no comércio, com maior satisfação das
famílias”, descreve.
Cordoval assegura que a tecnologia combate o êxodo
rural. “Com a construção de várias barraginhas em uma propriedade, surge a
“cultura de colher água da chuva. Assim, as lavouras não vão perder no
veranico. As famílias ficarão mais motivadas e, além de proteger o solo,
poderão permanecer em seus locais de origem, esquecendo o êxodo rural”,
comenta. “Existindo a agricultura e a produção, cria-se a sustentabilidade da
propriedade e da família. Isso gera dignidade e a cidadania no campo.”
Baixo custo
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Além do ganho ambiental, uma das grandes vantagens
das barraginhas de contenção de água é o baixo custo. O engenheiro-agrônomo
Luciano Cordoval ressalta que são construídos barramentos em grotas, as menores
com capacidade para 100 mil litros (oito metros quadrados de raio) e as maiores
– para enxurradas fortes”, com capacidade de 200 mil litros (16 metros
quadrados).
O pesquisador da Embrapa informa que a barraginha
de 100 mil litros – “no formado de meia-lua, meio queijo ou arco”– é feita com
cerca de duas a três horas (o tempo varia de acordo com as condições do solo)
de máquina retroescavadeira, custando aproximadamente R$ 300 (R$ 120 o preço da
hora trabalhada, em média). O reservatório com capacidade para armazenar 200
mil litros custa cerca de R$ 600.
Sistemática muito simples
Luciano Cordoval de Barros
Pesquisador e engenheiro-agronômo da Embrapa
Nos dias de hoje, esse desenho ao lado simboliza
bem a mensagem das barraginhas coletoras de água das chuvas. Imaginem a
fazendinha como uma árvore caída sobre ela, tombada pelos ventos, tendo suas
partes altas, medianas e baixadas e imaginando que essa árvore está caída na
propriedade, o tronco dessa árvore representaria uma grota seca, os galhos de
sua copa simbolizariam as enxurradas. Assim, toda chuva caída no terço médio e
alto escorreria pelos galhos.
Construindo-se pelo menos uma barraginha por galho, estaríamos matando/domando
essas enxurradas, que ao filtrar criariam esses halos/ondas subterrâneas,
simbolizando o avanço da infiltração horizontal, além, é lógico, da infiltração
vertical. Cada barraginha ao se encher e filtrar formaria um halo; já no
segundo enchimento e esvaziamento, formaria o segundo halo/onda, e nos oitavo e
décimo enchimentos completaria esses halos maiores, como uma onda subterrânea,
afastando do centro de cada barraginha.
E quando todos esses halos se encontrarem, criariam um enorme halo, uma enorme
lagoa subterrânea, o que chamamos lençol freático, manancial que é uma reserva
para a revitalização dos córregos e rios. Antes de chegar ao córrego, escoar
gravitacionalmente, passando pela parte baixa verde/azulada, umedecendo-a,
criando condições favoráveis para a agricultura! Mesmo nas partes média e alta,
os umedecimentos localizados de cada barraginha criarão uma condição especial
úmida nas pastagens, nos pomares, nos capões de mato, em tudo que estiver
estabelecido nessas duas partes mais altas. Principalmente as plantações de
sistema radicular maior!
Às
margens do lago formado pela contenção da enxurrada é possível plantar sem
sofrer os efeitos da estiagem(foto: Wagner
Tavares/Divulgação)
Ganhos ambientais e feitos práticos
Iniciativas como a construção de barraginhas devem
ser incentivadas e multiplicadas por aumentar a oferta de água e garantir o
equilíbrio ambiental, afirma o professor Flávio Pimenta, do Instituto de
Ciências Agrárias (ICA) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em
Montes Claros. “As barraginhas são reservatórios para guardar a água da chuva.
Elas têm o objetivo de segurar a água superficial e permitir que essa água se
infiltre no solo, contribuindo para a revitalização das bacias hidrográficas”,
afirma o professor da UFMG.
“Já foi comprovado que a tecnologia tem um
resultado muito positivo para o meio ambiente, criando uma relação entre água,
solo, clima e planta, pois permite que a água da chuva se infiltre no subsolo,
recarregando os aquíferos freáticos e promovendo no entorno das barraginhas uma
condição propícia para o desenvolvimento da fauna e da flora”, assegura
Pimenta, doutor em engenharia ambiental.
Ele salienta que, junto com as pequenas barragens,
devem ser implementadas outras ações para melhorar a vida no semiárido. “Além
das barraginhas, devem ser feitas outras medidas mitigadoras, como terraços,
cercamento de nascentes, recuperação de estradas e o plantio de matas ciliares,
que contribuem para a preservação do recurso água”.
O gerente regional da Empresa de Assistência
Técnica e Extensão Rural de Minas Gerais (Emater-MG), Ricardo Demichelli,
informa que já foram construídos entre 40 mil e 50 mil pequenos barramentos
para contenção da água de chuva na região, com ganhos para a natureza e para
os pequenos agricultores. “As barraginhas feitas no Norte de Minas têm
contribuído muito para a recuperação das sub-bacias. Elas têm muito efeito nas
propriedades. As microbacias servem para abastecer as bacias maiores. Já temos
exemplo de comunidades abastecidas por esse processo de conservação de água da
chuva. Trata-se de uma tecnologia que foi bem assimilada pelo pequeno
produtor”, observa Demichelli.
Para o gerente regional da Emater-MG, os pequenos
agricultores estão mais conscientes sobre a necessidade da proteção ambiental.
“Estamos avançando. Hoje, vimos vários produtores que estão fazendo terraços em
suas áreas e construindo barraginhas de contenção de água da chuva, além de
cuidar mais da proteção de nascentes e de matas ciliares. Eles também adotam
zelo na questão da cobertura ambiental e métodos de plantio adequados. É
indispensável que cada um faça a sua parte”, avalia o técnico.
Fonte: Reportagem de Luiz Ribeiro. de Montes Claros. Postado em 23/12/2019 11:20 no jornal Estado de Minas.
O
FESTIVALE - Festival de Cultura Popular do Vale do Jequitinhonha que se
realizaria na cidade do Serro, no Alto Jequitinhonha, foi novamente adiado.
Essa é a segunda vez que isso acontece. A primeira vez, foi em outubro,
quando o Festivale estava previsto para acontecer logo após a Festa do Queijo. Ou seja, seria de 13 a 19 de outubro de 2019. Como a Secretaria de Cultura de Minas não havia liberado os recursos o evento
foi adiado para o período de 25 a 31 de dezembro.
Em 14 de agosto, o site da Prefeitura do Serro fez o seguinte anúncio:
"O
Festivale "Da foz à nascente" acontecerá na cidade de Serro no
período de 13 a 19 de outubro de 2019. O início festival coincidirá com a
finalização da tradicional Festa do Queijo, numa feliz cooperação de
preservação de culturas tradicionais do Jequitinhonha.
O evento reúne
anualmente artistas, cantadores, atores, folcloristas e inúmeros apreciadores
da cultura para uma grande festa popular. São feiras de artesanato e folclore,
cursos, oficinas de teatro, artes plásticas, regadas com muita música, teatro e
dança. Entre as atrações do Festivale destacam-se Festival da Canção,
Noite Literária, Feira de Artesanato, apresentações de grupos de cultura
popular, teatro e oficinas".
Faltando
dois dias para o início do evento, a FECAJE – entidade responsável pela
realização do evento – comunicou o adiamento para o final de
dezembro. No dia 12 de dezembro, a FECAJE publicou na sua página no facebook:
"O Diretor do Instituto Valemais, Gonzaga Medeiros parceiro da FECAJE, assinou hoje, na presença do Dep. Estadual Dr. Jean Freire o convenio para a realização do 36º FESTIVALE "Da foz à nascente" que será realizado no período de 25 a 31 de dezembro na cidade do Serro. Informamos aos músicos e poetas classificados que será mantida a lista de classificação e que iremos abrir em breve inscrições para as oficinas".
Na oportunidade, o deputado estadual Dr Jean Freire esteve presente como parceiro e articulador da liberação junto ao Governo de Minas.
Representando o Instituto Vale Mais, Vilmar Oliveira, em pé, e Gonzaga Medeiros, junto com o deputado estadual Dr Jean Freire, no ato da assinatura do Convênio.
Adiamento em cima da hora Agora, acontece de novo.
Estava tudo certo. A Secretaria de Cultura de Minas assinou o convênio com o Instituto Vale Mais para a execução das atividades, liberando R$ 250 mil. Porém, a Prefeitura do Serro colocou alguns empecilhos, acreditando que nesse período não haveria condições de realizar o 36º FESTIVALE “Da foz à nascente”.
A
FECAJE ainda não soltou uma Nota Oficial sobre o adiamento do evento, mas sua
página no Facebook já publicou o seguinte comunicado:
“A FECAJE, O INSTITUTO SOCIOCULTURAL VALEMAIS E PREFEITURA DE SERRO
ANUNCIAM ADIAMENTO DO 36º FESTIVALE "DA FOZ À NASCENTE"... EM BREVE,
NOTA OFICIAL!”
O novo adiamento levou diversos agentes culturais a reclamarem nas redes sociais. Há uma indignação em relação à falta de planejamento do Festivale.
Pode ser na última semana de janeiro
Nos bastidores, há uma articulação para a realização do evento na última
semana de janeiro 2020.
O
Festivale de 2019 já teve uma etapa realizada em Belmonte, na Bahia, no final
de julho. Como o Governo de Minas se negou a liberar recursos para a realização do
evento na Bahia, a FECAJE optou por realizar outro em algum município do Vale do Jequitinhonha, em Minas. Os agentes culturais estão na espera.
APA Fazenda São Joaquim compreende uma área de cerca de 800 hectares e abriga nascentes que garantem a vida no cerrado. A área está ameaçada.
Foto: arquivo
APA Fazenda São Joaquim, próxima às margens da rodovia LMG 677, no distrito de Lelivéldia, preserva matas do cerrado e nascentes.
Em reunião com vereadores de Berilo,no Vale do Jequitinhonha, lideranças das comunidades de São Joaquim, Córrego do Bonito, Morrinhos e Lagoinha, no distrito de Lelivéldia, denunciaram a ameaça de desmatamento, grilagem e supressão de vegetação em Área de Preservação Ambiental (APA) Fazenda São Joaquim que fica a cerca de 30 km da sede do município .
A APA foi instituída pela lei 820/2007, aprovada pela Câmara e sancionada pelo executivo e está em vigor desde dezembro de 2007. Ela garante a proteção dos mananciais e do patrimônio natural e cultural da região. No entanto, apesar da lei, a área vive sob constante ameaça de grilagem e desmatamento.
No entorno da APA, vivem cerca de 40 famílias de pequenos agricultores. Elas temem que o desmatamento venha dar lugar ao plantio de abacaxi e eucalipto e provocar o fim das nascentes de água da região. “ Será um verdadeiro desastre ambiental”, destacam os vereadores, acrescentando que por falta de informações, moradores da área também estão fazendo intervenções danosas, com a utilização de tratores para demarcar glebas de terra.
Na última quarta-feira (18) os vereadores se reuniram na sede da Câmara, para discutir medidas que possam garantir o cumprimento da lei municipal que instituiu a APA. Eles vão solicitar do executivo o Plano de Gestão da área que, pela lei, deve ser administrada, supervisionada e fiscalizada pela prefeitura, que deverá tomar as medidas necessárias à sua proteção.
No entanto, para os vereadores, a APA deve ser protegida por toda população, a fim de assegurar a sustentabilidade do uso dos recursos naturais, principalmente as nascentes.
A APA São Joaquim compreende uma área de cerca de 800 hectares, o equivalente a 800 campos de futebol.
Para os vereadores, a discussão sobre a proteção daquela área vem à tona, no momento em que a região se levanta em favor da preservação das bacias hidrográficas dos rios Araçuai e Jequitinhonha.
Os nove vereadores que compôem a câmara, garantiram aos moradores que vão intensificar a fiscalização e o cumprimento da lei que transformou a área em APA.
CONFIRA A LEI
O QUE É UMA APA
De acordo com a legislação ambiental brasileira, Área de Proteção Ambiental (APA) é aquela destinada à preservação dos recursos ambientais (fauna, flora, solo e recursos hídricos). Uma área de proteção ambiental pode apenas ter uso sustentável, ou seja, seu acesso, ocupação e exploração devem ser controlados para não prejudicar o ecossistema da área.
As áreas de proteção ambiental podem ter posse e domínios público ou privado. Porém, cabe aos órgãos governamentais a fiscalização da ocupação e exploração destas áreas.
Fonte: Repórter Sérgio Vasconcelos na Gazeta de Araçuaí
Quando 2019 começou, ele era todo nosso e de todos nossos companheiros de lida. Foi colocado em nossas mãos. Nós e nossos parceiros/as podíamos fazer dele o que quisesse, como se fosse um livro em branco.
Nós poderíamos colocar nele um poema, um pesadelo, uma blasfêmia, uma confidência íntima, uma experiência de luta, uma ou várias ameaças aos nossos direitos.
Podia. Hoje não pode mais. Já não é nosso.
É um livro já escrito, concluído, escrito por você, por mim, por milhares que lutaram para a vida ter mais sentido, mais plenitude. Os podres poderes quiseram manchá-lo com os retrocessos, com a negativa da vida, com a afirmação da morte, glamourizada com fantasias de um tal Deus mercado.
Um dia, será lido em todos os detalhes. A história poderá reconhecê-lo e nós não poderemos corrigi-lo. Quem não lutou deixou que outros escrevessem a nossa história.
Estará fora de nosso alcance as mudanças ocorridas.
Mas, as mudanças de retrocesso poderão ser revertidas. Depende de cada um de nós, de andarmos juntos. "Não nos afastemos. Vamos de mãos dadas", de corações pulsantes.
Assim, antes que 2019 termine, vamos refletir, sentir, pegar nosso velho livro e folheá-lo com cuidado, passando cada página por nossas mãos, pela consciência.
Pratiquemos esse exercício de lermos sobre nós mesmos, sobre nossas lutas, nossas labutas.
Leiamos tudo. Apreciemos essas páginas de nossas vidas em que usamos no nosso melhor estilo, no nosso jeito de sentir, pensar e fazer um mundo diferente.
É preciso ler também as páginas que não gostaríamos de nunca ter escrito. Não, não tentemos arrancá-las. Seria inútil. Já estão escritas.
Mas nós também podemos também lê-las enquanto escrevemos o novo livro. Assim, poderemos repetir aquilo que deu certo, aprimorar a caminhada e evitar repetir determinadas situações que nem é bom lembrar. Ou lembrar para entender em que erramos e melhor prosseguir.
Para escrever o nosso novo livro, nós contaremos novamente com a liberdade, a disposição para amar e respeitar as pessoas, de combater as forças da morte, da negação da vida.
Se tiver vontade de beijar o velho livro, estejamos à vontade. Se tivermos vontade de chorar, que choremos.
Não importa como estejamos. Mesmo que tenhamos páginas escritas em longas "noites de amor e de guerra", vamos fazer e escrever uma nova história.
Não deixemos na mão do destino, porque este é construído pela opressão para nos criar desatinos.
E, quando 2020 chegar, vamos continuar escrevendo a nossa história, com muitas lutas, com muita paz, com esperança, com alegria, com a certeza que "amanhã há de ser outro dia".
"Feliz Livro Novo!"
Feliz Povo Novo!
Feliz Homem/Mulher novxs!
Há braços!
Banu - Álbano
Dezembro de 2019
*Inspirado na mensagem, recebida por email, "Feliz livro novo!", de 2010, de autor desconhecido.
Todo rebaixamento decreta o fim de um projeto. O descenso é a morte de um time, que pode renascer ou não... Lembro-me do filósofo Montaigne, alertando que filosofar é aprender a morrer
Publicado em 15/12/2019 11:30 h
Logo após a fatídica partida que decretou o rebaixamento do Cruzeiro à Série B do Campeonato Brasileiro, veio à minha mente a frase que, segundo Dante Alighieri, consta nos portais do inferno: “Deixai toda a esperança, ó vós que entrais!”. Agora é série B, com viagens longas e tortuosas, percorrer o Brasil sem a devida pompa, uma legião de adversários prontos a criar memes diários, times casca grossa com sangue no olho, campos de batalha onde o verde (ironicamente da esperança) parece que não é cuidado há séculos.
E tudo isso sem dinheiro nem para pagar a moedinha derradeira de Caronte, o barqueiro que conduz as almas dos recém-mortos sobre as águas do Hades, vulgarmente chamado de inferno, uma morada subterrânea, em outras palavras, a Segunda Divisão do mundo dos vivos.
Todo rebaixamento decreta o fim de um projeto. O descenso é a morte de um time, que pode renascer, ou não.... Lembro-me do filósofo Montaigne, alertando que filosofar é aprender a morrer. Sendo assim, diante do inferno que será a Série B, temos um oportuno momento de reflexão, daqueles que só o futebol poderia nos proporcionar, e nada mais propício do que a Divina comédia – um bom título para o ano do Cruzeiro em 2019.
O livro em questão nos coloca diante de grandes temas da humanidade, aqui adaptados para o universo da bola: existe vida após a queda? Quem encontraremos pelos caminhos tortuosos do subterrâneo? Teremos a redenção? Haverá misericórdia por parte daqueles que nos martirizam com memes e provocações? Nos perderemos no vale dos mortos por toda a eternidade? Essas e outras questões rondam a cabeça dos cruzeirenses neste difícil momento.
Dante propõe uma mudança radical ao escrever esse livro, pois a partir de agora é o homem (e não mais a divindade) que escolhe seus caminhos. Assim, a Divina comédia é, sobretudo, um livro sobre escolhas, diante das quais nos encontramos diariamente, que podem nos levar tanto ao inferno, morada inóspita e subterrânea, quanto ao paraíso, lugar privilegiado, entre os bons, nas alturas. Enfim, uma coisa é fato: é preciso conhecer o inferno para encontrar a redenção.
Assim, a redenção é uma escolha! Para tal jornada será preciso vencer os nove ciclos do inferno, apresentados por Dante. Qualquer semelhança à vida do time de Belo Horizonte não é mera coincidência. Primeiro ciclo: o limbo. Lugar dos não batizados. Estão à deriva. Não vão ao estádio, não torcem de verdade, correndo o risco de virar a casaca a qualquer momento. É preciso convertê-los! Segundo ciclo: luxuriosos. Mais do que nunca, é hora de engolir a seco a ideia de que time grande não cai. A realidade mostra o contrário. Superar isso é fundamental para uma reconstrução. Terceiro e quarto ciclos: gulosos e esbanjadores. Desculpem-me, mas alguns medalhões do time poderiam cair em qualquer um desses infernos e, às vezes, estar em mais de um. Por isso os coloco juntos.
São muitas festas, quando, na verdade, não se tinha nada a comemorar, muito dinheiro rolando, vida boa de mais. Salários astronômicos, valorização exacerbada de quem não produz, contratos a longo prazo (esse é o inferno mais comum entre os jogadores). Quinto ciclo: irados. Esse é o inferno em que os torcedores costumam cair. Não adianta quebrar o estádio. Aliás, não adianta mesmo! Além de perder mando de campo, é uma motivação desnecessária para uma sociedade que já sofre com a violência. Brigar com o amigo por causa da zoação, sair dos grupos de WhatsApp, xingar, nada disso vai trazer o time de volta ao paraíso. Sexto, sétimo, oitavo e nono ciclos: hereges, violentos, fraudadores e traidores.
Esse é um inferno muito frequentado por dirigentes, conselheiros e demais autocratas que, hereticamente, mancham o nome do sagrado futebol com o dinheiro impuro das transações espúrias! Que traem o sentimento do torcedor, colocando os interesses pessoais acima dos coletivos e que, levianamente, cometem crimes, levando o clube às páginas policiais em vez das páginas esportivas. É preciso que o futebol seja entregue a quem ele pertence, isto é, ao torcedor.
Enfim, toda redenção exige escolha, coragem, sacrifício e trabalho árduo. Não é possível ficar apenas na reclamação. É hora de encarar 2020 como a travessia do mundo dos mortos. Do contrário, é ficar perdido no vale das sombras sem nenhuma viva alma (literalmente) para direcionar. Pois, se Dante Alighieri fosse mineiro, como certeza nos avisaria que de bem-intencionados o inferno está cheio!
*Ricardo de Faria é filósofo Fonte: www.superesportes.com.br
Lula: a democracia tem uma dívida impagável com os artistas deste país
Em evento com artistas no Circo Voador, no Rio de Janeiro, ex-presidente Lula diz que "não poderia fechar o ano sem fazer um agradecimento à classe artística. Só o amor paga o que vocês fizeram por mim".
Leia a íntegra de seu "Manifesto à Cultura" (vídeo)
Ex-presidente Lula em ato com artistas no Circo Voador (RJ) (Foto: Midia Ninja)
247 - Em um ato de celebração por sua liberdade e em defesa da Cultura brasileira, o ex-presidente Lula se reencontrou com artistas e intelectuais na noite desta quarta-feira 18 no Circo Voador, no Rio de Janeiro. O espaço recebeu mais de 500 representantes de diversas áreas culturais e dezenas de lideranças políticas que estiveram na luta em defesa da inocência do ex-presidente durante os 580 dias de sua prisão política.
"Eu não poderia fechar o ano sem vir ao Rio de Janeiro fazer um agradecimento à classe artística. O Rio representa uma importante parte da cultura do nosso imenso país. Só o amor paga o que vocês fizeram por mim. Muito obrigado, de coração", disse.
Em sua fala, Lula resgatou diversos avanços na Cultura durante os governos do PT e listou incontáveis retrocessos praticados em apenas um ano de governo Bolsonaro. "Doze meses depois da posse, já se pode dizer que esse governo tenta colocar em prática um projeto de destruição da rica e diversificada cultura brasileira", criticou.
O ex-presidente saiu em defesa da atriz Fernanda Montenegro - que "olhando 30 segundos para uma câmera fez muito mais pelo Brasil que o Bolsonaro em 30 anos sentado na cadeira de deputado” - e do educador Paulo Freire - "suas ideias revolucionárias e amorosas continuam iluminando nossos caminhos, e tirando o sono daqueles que em pleno século 21 ainda acreditam que a Terra é plana".
Lula também falou da situação política do país, de sua situação na prisão e do cenário eleitoral - "eles vão querer tirar novamente meu direito de ser candidato". "Acho que eles vão fazer de tudo para continuar me atacando, não estou livre, não. Mas independentemente de qualquer coisa, temos a obrigação moral de desmontar esse fascismo que está instalado por hora no governo", convocou o petista, que anunciou ainda que fará uma "Caravana da Cultura" pelo País.
Assista seu discurso e leia a seguir a íntegra do manifesto de Lula à Cultura:
Manifesto de Lula à Cultura
Em primeiro lugar, quero agradecer a cada um e a cada uma de vocês aqui presentes, eà classe artística que se mobilizou de todas as formas para que eu pudesse estar de volta ao convívio com o povo brasileiro.
Minha eterna gratidão aos trabalhadores e trabalhadoras da cultura, dos mais famosos aos mais anônimos, e aos intelectuais comprometidos com a construção de um Brasil melhor, que novamente emprestaram sua arte e seu ofício a uma causa justa, como tantas outras vezes em nossa história.
Tenho a consciência de que a luta de vocês não foi só pela liberdade do Lula. A luta de vocês foi, e será sempre, pela Liberdade, esta palavra que, na definição da Cecília Meireles,“o sonho humano alimenta, e não há ninguém que explique e ninguém que não entenda”.
A democracia tem uma dívida impagável com os artistas deste país. Fui testemunha da resistência de vocês à ditadura implantada pelo golpe civil e militar de 1964 e ao famigerado AI-5, que o atual governo volta e meia fala em ressuscitar. Estivemos juntos nas inesquecíveis campanhas pela Anistia e pelas Diretas Já.
Juntamos nossas forças na tentativa de barrar o golpe contra a presidenta Dilma. Todos e todas vocês lutaram o bom combate, mas eu quero destacar o nome de uma artista que fez do seu canto o canto do povo brasileiro, e que certamente estaria agora aqui conosco, como sempre esteve quando foi preciso: nossa querida e saudosa Beth Carvalho.
Eu hoje acompanho, com imensa admiração, a luta cotidiana de vocês contra a ascensão do fascismo no Brasil. Toda luta tem um preço, e vocês estão pagando caro, com a extinção do Ministério da Cultura, a redução brutal dos recursos para a área, a destruição de programas que tornaram a cultura acessível às mais diversas camadas da população brasileira, e a volta da censura, esse monstro que julgávamos extinto em nosso país.
Doze meses depois da posse, já se pode dizer que esse governo tenta colocar em prática um projeto de destruição da rica e diversificada cultura brasileira.
O Fábio Porchat disse recentemente que “Bolsonaro não governa, ele se vinga”. Estejam certos de que a tentativa de desmonte da cultura promovida pelo atual governo é, em primeiro lugar, uma vingança contra cada um e cada uma de vocês, que ousaram cantar, escrever, encenar, filmar, grafitar, dançar e gritar “Ele Não”.
É também a vingança contra tudo o que a cultura representa para o ser humano, e que é justamente o que esse governo mais odeia e mais teme.
Cultura é vida, e o atual governo vive de promover a morte, com a insistência emcolocar armas de fogo nas mãos da população, a liberação indiscriminada de agrotóxicos, o incentivo à devastação do meio ambiente, o desemprego que leva milhões de pessoas ao desespero, a naturalização doassassinato de mulheres, negros, indígenas e LGBTs.
Cultura é libertação, e o governo Bolsonaro é contra todas as formas de liberdade, inclusive de pensamento e de expressão. A liberdade que esse governo defende é a liberdade para os milionários ficarem cada vez mais ricos, com a retirada dos direitos dos trabalhadores e a destruição da Previdência.
A liberdade que esse governo defende é a liberdade de extermínio da juventude negra, que o Moro tentou legalizar sob o pomposo nome de “excludente de ilicitude”, mas que nada mais é que a licença para escolher o alvo de acordo com o endereço e a cor da pele.
Só o arraigado racismo institucional brasileiro, o mais profundo desprezo pelas vidas negrase a criminalização da cultura da periferia podem explicar o massacre de nove jovens que saíram de suas casas para se divertir num baile funk, em Paraisópolis, e de tantos outros moços e moças que são mortos diariamente também nas comunidades do Rioe de todo o Brasil.
Este país carrega em seu passado a vergonha de ter um dia criminalizado o samba e a capoeira, que eram tratados como caso de polícia, da mesma forma que hoje criminaliza expressões artísticas populares como o funk e o grafite.
A elite brasileira sempre deu as costas à imensa riqueza cultural que brotou e continua brotando das periferias deste país. Ignorou o quanto pôde a genialidade de Cartola, Dona Ivone Lara, Elza Soares, Lia de Itamaracá, de Clementina e Carolina de Jesus. Recusa-se a ouvir as novas vozes, sobretudo negras, de indignação e afirmação, que hoje se manifestam no ritmo do rap e na poesia dos slans que se consolidam pelo país afora.
Nós, ao contrário, sempre acreditamos e investimos na diversidade cultural brasileira. Tive a honra de contar com dois ministros da estatura de Gilberto Gil e Juca Ferreira. Enxergamos a cultura sempre em três dimensões: como direito de todos os brasileiros e brasileiras, como promotora do desenvolvimento social e econômico, e como expressão da rica e diversa identidade brasileira.
Assumimos, e cumprimos, o compromisso de combater a exclusão cultural de milhões de brasileiros e brasileiras. Garantimos a participação de artistas, gestores, produtores e sociedade na formulação e gestão das políticas para a cultura.
Nunca pedimos atestado ideológico a nenhumartista.
Multiplicamos por cinco o orçamento da Pasta, que era de apenas R$ 770 milhões em 2002, e chegou a R$ 4 bilhões em 2015.
Criamos o programa Cultura Viva, que reconheceu e investiu em cerca de 4.500 pontos de cultura, apoiando as mais diversas expressões artísticas, fosse nas periferias dos grandes centros ou nas distantes comunidades indígenas e quilombolas.
Criamos o Sistema Nacional de Cultura, a partir da articulação do governo federal com estados e municípios para a construção de planos, conselhos, conferências e fundos de cultura.
Criamos o Plano Nacional do Livro e Leitura, implementando ações como a formação de mediadores de leitura e a instalação de bibliotecas públicas em cada município brasileiro.
Criamos o Ibram, para cuidar dos museus. Fizemos o PAC das Cidades Históricas, para defender o patrimônio histórico nacional.
Criamos o Vale Cultura, para que o trabalhador tivesse o direito de alimentar também o seu espírito, comprando livros e ingressos para cinema, teatro e shows, entre outros bens culturais. Porque, como diz a canção dos Titãs, “a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”.
Criamos uma política eficiente e vitoriosa para o audiovisual brasileiro, apoiando desde a produção até a exibição de filmes para cinema e séries para a televisão, contando histórias do Brasil para o mundo e gerando milhares de empregos.
Financiamos nada menos que 306 longas-metragens e 433 séries ou telefilmes. Promovemos o talento e a cultura do nosso país, sem qualquer tipo de censura ou análise ideológica. Aliás, quem mais se beneficiou desses mecanismos de incentivo ao audiovisual foi a Globo, sem jamais reconhecer que foram criados nos governos do PT.
Hoje, o audiovisual sofre com o descaso desse governo. O invencível talento de nossos realizadores e realizadoras continua produzindo boas notícias, como o reconhecimento internacional de “A Vida Invisível”, o sucesso de “Bacurau” no Brasil e no exterior, e a pré-seleção de “Democracia em Vertigem” para o Oscar de Melhor Documentário. Mas milhares de trabalhadores e trabalhadoras altamente especializados são vítimas da tentativa de desmonte de um setor vital para a economia e para a construção da identidade brasileira.
Inimigo da diversidade, o atual governo tenta censurar a produção e a veiculação de obras cujas temáticas não estejam de acordo com o conservadorismo hipócrita que ele prega.
Inventa toda sorte de dificuldades para o lançamento do filme “Marighella”, que conta um importante capítulo da nossa história e até hoje não conseguiu estrear em seu próprio país.
Manda arrancar cartazes dos filmes brasileiros da sede da Ancine, numa absurda demonstração de ódio contra as obras de arte que o nosso cinema produziu ao longo da história.
Chega ao cúmulo de insultar uma das maiores artistas que este país já produziu, ignorando o fato de que a Fernanda Montenegro olhando 30 segundos para uma câmera fez muito mais pelo Brasil que o Bolsonaro em 30 anos sentado na cadeira de deputado.
Cobrindo mais uma vez o país de vergonha aos olhos do mundo, Bolsonaro tomou a inacreditável decisão de não assinar, junto com o presidente de Portugal, o diploma concedido a Chico Buarque, agraciado com o Prêmio Camões, o mais importante reconhecimento dado a um autor de língua portuguesa.
Não satisfeito na sua ânsia de ferir a alma do povo brasileiro, disparou ofensas contra alguns dos nossos artistas mais queridos, a exemplo de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Martinho da Vila e tantos outros.
Atitudes autoritárias como essas não deixam dúvidas de que este é o governo do avesso. Bota para cuidar da cultura os inimigos da cultura. Para cuidar do meio ambiente, os inimigos do meio ambiente. Para cuidar das relações exteriores, os inimigos da diplomacia. Para cuidar da educação, os inimigos da educação – sobretudo dasuniversidades, essas extraordinárias e inesgotáveis fontes geradoras de conhecimento.
Bota machistas para cuidar das políticas para as mulheres, e racistas pra comandar a fundação que tem como objetivo promover os valores culturais, sociais e econômicos decorrentes da influência negra na formação da sociedade brasileira.
Instituições caras à nossa memória, como a Casa de Rui Barbosa, um patrimônio nacional com 90 anos de história, são entregues a representantes da direita mais atrasada e fundamentalista que o Brasil já conheceu.
Eles são inimigos de tudo o que há de bom neste país. Eles só são amigos deles mesmos. Ou nem isso, porque não param de brigar entre si, um xingando o outro, um denunciando as falcatruas do outro.
O ódio que eles sentem pelo povo brasileiro fez com que eu passasse 580 dias encarcerado numa prisão política, por crime que até meu mais ferrenho adversário sabe que não cometi. Nesses quase 600 dias, senti na pele a importância da cultura na vida de um ser humano.
Eu renovava minhas forças ouvindo o “bom dia, boa tarde, boa noite presidente Lula” que os companheiros da Vigília Lula Livre entoavam todo santo dia. Mas havia os momentos de silêncio. E o silêncio, como ensina Guimarães Rosa, “é a gente mesmo, demais”. E o silêncio, na prisão, ecoa com ainda mais força dentro da gente.
Então eu lia, para espantar o silêncio e a solidão. Li para aprender, para adquirir novos conhecimentos, para sair de lá melhor do que entrei. Eu li para ser livre. Porque quando você voa nas asas de um livro, quando você tem nas mãos uma arma tão poderosa quanto uma obra de arte, não existe grade nem parede que possa te prender.
Quero que vocês saibam que estarei sempre ao seu lado. Eu me sinto parte da valente resistência que vocês – cineastas, músicos, dramaturgos, artistas plásticos, escritores, atores e atrizes, pessoas de todas as artes – sustentam contra essa verdadeira arquitetura da destruição.
É preciso lembrar que a censura imposta pelo atual governo não é apenas à cultura. É também ao conhecimento, o que explica o permanente ataque às universidades. É uma censura à ciência, como ficou explícito na demissão do presidente do Inpe, Ricardo Galvão, que demonstrou, com base em dados sólidos, o crescimento acentuado do desmatamento na Amazônia.
Aproveito para parabenizar o Ricardo Galvão, que na semana passada foi eleito, pela revista britânica Nature, uma das dez pessoas que mais se destacaram na área da ciência em todo o mundo.
Portanto, não se entreguem, não abaixem a cabeça, não desanimem. Estamos juntos. Um país que deu ao mundo o Samba, o Cinema Novo, a Bossa Nova, a Tropicália, o Teatro do Oprimido e a arquitetura de Niemeyer não ficará jamais de joelhos.
Como na Alemanha nazista, querem destruir o Brasil começando pela cultura. Não permitiremos. Vamos resistir, como já resistimos a outros pesadelos. Estou de mãos dadas com vocês para defendermos juntos o legado da música, do cinema, do teatro, da literatura, de todas as expressões artísticas deste país.
Antes de concluir, quero fazer um agradecimento especial aos intelectuais brasileiros, homenageando um dos maiores pensadores que este país já teve, e que é hoje reverenciado no mundo inteiro. Paulo Freire nos deixou há muito tempo, mas suas ideias revolucionárias e amorosas para a educação e a construção de um mundo melhor continuam iluminando nossos caminhos, e tirando o sono daqueles que em pleno século 21 ainda acreditam que a Terra é plana.
Contra o ódio à arte e ao conhecimento, nós estamos armados com as luzes da civilização. Estou seguro, minhas amigas e meus amigos: mais uma vez, nós venceremos. Contem comigo.