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quarta-feira, 13 de maio de 2020

Escravatura continua. Na pandemia, negros têm 85% mais chances de morrer

Na pandemia, ecos da falsa abolição.

Há 132 anos, os negros eram “libertados” — sem terra, direitos ou cidadania. Como esta farsa conduz da senzala à favela; do pelourinho ao “enquadro”; e dos navios negreiros às periferias, onde pretos têm 85% mais riscos de morrer da COVID-19
Precisamente em maio, às vésperas de três meses de pandemia e a 132 anos da fatídica “abolição da escravatura” no Brasil, torna-se mais evidente o desastre em curso desencadeado pelo novo coronavírus. Considerando as informações de “raça” e cor é possível ver qual parcela da sociedade mais está morrendo – ou tem mais chances de morrer – devido à pandemia. Os negros e negras somam 43,1% dos hospitalizados, mas representam mais da metade de todos óbitos, 50,1%, contra 47,7% de pessoas brancas de acordo com os dados do Boletim nº 15 da Secretaria de Vigilância do Ministério da Saúde. Do total, 65% das vítimas apresentaram algum tipo de comorbidade associada, tendo destaque as doenças cardiovasculares (3.425 dos óbitos), diabetes (2.660 óbitos), doença renal (621 óbitos), doença neurológica (550 óbitos) e pneumopatia (544 óbitos). 
E daí? Respondeu Bolsonaro ao ser indagado sobre o aumento do número de casos do novo coronavírus no Brasil. As mortes ultrapassaram 12 mil casos e o número de infectados soma mais de 170 mil. Destes, pouco mais de 67 mil foram recuperados, mas infelizmente não estão imunes a um novo contágio. Os especialistas dizem que este número está longe de representar a realidade de infectados no país, considerando a baixíssima testagem da população.
Numa pesquisa feita pelo Observatório covid-19 e Prefeitura de São Paulo até 17 de abril, somado a porcentagem de pretos (62%) e pardos (23%), a população negra na capital tem 85% mais chance de morrer pelo vírus do que qualquer outro grupo social.  Estes dados são reveladores das desigualdades raciais e de classe vigentes na sociedade, e que levam a exterminar e marginalizar pretos e pretas neste país. Sejam quais forem as crises, econômicas, políticas, ambientais ou sanitárias, pretos/as, quilombolas e indígenas são permanentemente um grupo de risco. 
A brutal desigualdade existente nas condições de vida, de moradia ou de alimentação entre pretos e brancos, recolocam o significado do 13 de maio de 1888 em foco. O decreto ardiloso que oficializou o fim da escravatura no Brasil destinou negros e negras à pobreza, ao desemprego, às doenças, ao sistema prisional, à exclusão social e toda sorte de precariedades. Para os africanos e seus descendentes, a pandemia se iniciou com os primeiros navios negreiros que aportaram na África, foi intensa com a escravidão e segue matando depois de anunciado seu fim. Mas se uma doença atinge só os negros/as ela pode ser ignorada ou minimizada – afinal eles morrem de tanta coisa, não é mesmo? Assim funciona o pensamento racista, como demonstrou o fundador da XP Investimentos, Guilherme Benchimol, que afirmou em 4/5, em tom comemorativo: “o Brasil está indo bem no controle do covid-19”, pois, “o pico nas classes médias e altas já passou”; o problema é que “o país tem muita favela”.
Há pouco mais de 100 anos, a “gripe espanhola” matou, entre janeiro de 1918 a dezembro de 1920, cerca de 35 mil pessoas em nosso país. Inclusive o presidente eleito, Rodrigues Alves, morreu vítima da pandemia, episódio que reforçaria a ideia de ser esta uma doença “democrática”. Contudo, os estudos sobre o impacto da gripe mostram que a imensa maioria dos infectados e mortos eram pessoas negras, da classe trabalhadora, contagiados nas fábricas, nos portos, nas ruas (classificados como “indigentes”), nos cortiços, favelas ou no cárcere, onde morriam de forma isolada e desassistida.
A interação entre desigualdade social, subnutrição e precárias condições sanitárias resulta em um terreno fértil para o espalhamento do coronavírus e mortal para quem aí vive. O organismo humano, sob estes condicionantes, apresenta uma imunidade de baixíssima resistência e pouca capacidade para sobreviver às debilitações provocadas pelo vírus.
As pandemias sintetizam as contradições de classe, raça e gênero, uma vez que acentuam desigualdades. As mulheres, negras principalmente, estão na linha de frente do trabalho de enfermagem e de cuidados. Exauridas pela dupla e tripla jornada de trabalho, são as que mais buscam o serviço público de saúde, embora o número de óbitos seja superior entre os homens, em decorrência do diferente estilo de vida promovido pela sociedade capitalista patriarcal, que os expõe a maior vulnerabilidade. Acrescenta-se aí o aumento em 9% no número de denúncias de violência doméstica no Brasil, segundo dados federais. Até março o acréscimo chegou a 50% no Rio de Janeiro e de 30% em São Paulo.
O momento atual acende a luz de alerta. O avanço da pandemia sobre os setores mais empobrecidos e com condições de vida mais precárias pode ser catastrófico. Estes segmentos da população vivem em bairros periféricos, nas ruas, favelas, cortiços e abrigos que vivem milhares de trabalhadores e trabalhadoras negras que precisam lutar diariamente para sobreviver com os trabalhos informais, prestação de serviços ou outras formas.
Especialistas chamam a atenção para a probabilidade do aumento do número de óbitos em domicílios, albergues e em via pública. Geralmente, vítimas do racismo institucional, muitas são aquelas pessoas que possuem os sintomas, mas diante da impossibilidade de fazer o teste da covid-19, são orientadas a deixar os hospitais. Há mesmo aquelas que nem buscam o serviço médico. Nessas circunstâncias, são muitos os óbitos sem causa confirmada para a covid-19. 
Na cidade de São Paulo, por exemplo, conforme o censo da população em situação de rua, havia 24.344 pessoas vivendo nestas condições, na capital, até 2019 (número que é bem maior segundo pesquisadores e ativistas). Desse total, 69,3% são pessoas pretas e pardas e a maior porcentagem é do sexo masculino – 85% contra 15% de mulheres e 386 pessoas transexuais, transgêneros e travestis. Cumpre ressaltar que essa população não tem acesso à água nem a kits de higiene pessoal, e menos ainda a alimentação regular, nem à possibilidade de quarentena. Esta é a realidade sintetizada pela foto acima, feita por Pedro Conforte em uma rua na Praia de Icaraí, em Niterói no Rio de Janeiro.
É importante destacar que a pandemia da covid-19 tem implicações distintas para a classe trabalhadora, negra, pobre e para as mulheres, ou seja, ela é demarcada pelo recorte de raça, classe e gênero. Essa desigualdade social atinge graus extremos de perversidade quando impõe sobre os (as) infectados (as) a culpa por esta condição. Como é o caso da população que se aglomera há vários dias nas filas dos bancos à espera do acesso ao tal auxílio emergencial para aliviar a fome e outras necessidades. 
A classe trabalhadora, que lutou muito para que o SUS existisse e pela sua defesa como sistema público universal, precisa urgentemente se levantar contra o genocídio social promovido por um governo neofascista, que aprofunda a crise no país frente à pandemia e aproveita de forma covarde deste momento difícil e de luto de muitas famílias, para impor medidas contrárias ao interesse e soberania do povo brasileiro.
Como bem têm demonstrado as ações de solidariedade construídas entre trabalhadores e trabalhadoras para minimizar os efeitos desta crise, são exercícios de unidade e de auto-organização política. É do fortalecimento destes vínculos orgânicos, entre os mais diversos setores da classe trabalhadora, que deve surgir a força necessária para superar o coronavírus, derrotar o governo Bolsonaro e a necropolítica que o Estado capitalista impõe sobre os povos do Brasil e do mundo.
Fontes
LAMARÃO & URBINATI. Gripe Espanhola, In: , acesso em 11/05/2020.
BRASIL. SECRETARIA DE VIGILÂNCIA EM SAÚDE. MINISTÉRIO DA SAÚDE; <https://portalarquivos.saude.gov.br/images/pdf/2020/May/09/2020-05-06-BEE15-Boletim-do-COE.pdf> acesso em 11/05/2020.
PREFEITURA DE SÃO PAULO. CENTRO DE PESQUISA E MEMÓRIA TÉCNICA
Fonte: Outras Palavras

domingo, 30 de dezembro de 2018

Aguenta, Brasil! Ultracapitalismo vem aí!


"Isso que vem aí não é neoliberalismo. 
É ultracapitalismo!"

O neoliberal compra e suborna político para gerar lucro. 

O ultracapitalismo sequestra o Estado e elege seu lobista ou representante de vendas. O ultracapitalismo não tem nenhuma responsabilidade com a democracia. 
Pra ele, melhor sem.

Não estranhem o descaramento. O golpe do mercado rentista, contra democracias do mundo, é descarado.

O neoliberalismo escondia o interesse da elite, num candidato com "jeitão que o povo gosta e respeita".

O ultracapitalismo compra eleição com Caixa 2 e resolve o problema, se não der muito na cara, já no primeiro turno.

Pro ultracapitalismo não existe nem direita, nem esquerda, nem democracia.

Isso que está aí também não é "direita", são youtubers, são fakes, são memes, são trolls...

Essa é a trash política do ultracapitalismo.

A elite brasileira sempre acompanhou o movimento global de capitais, até por questão de sobrevivência e permanência no poder. Usou e abusou do país pra enriquecer. Destruiu o solo do nordeste, levou até o último pau-brasil daqui, contrabandeou minério e pedras preciosas, enriqueceu com comércio e exploração escrava, ingressou na política e manteve 4 ou 5 gerações com dolo do patrimônio público e exploração de mão-de-obra, no poder. Nos anos 90, ingressou no mundo dos negócios e passou a viver do rentismo. Vendeu empresas familiares pra marcas estrangeiras, ficava com 20% das ações da nova empresa, passando a vida de pernas pro ar, jogando golfe, tomando sol nas praias virgens da Bahia.

Nossa elite roubou o que tinha que roubar, explorou o que tinha que explorar, enganou o que tinha que enganar, sai da economia patrimonial e vira sócia dos donos do mundo.

Não cabe indignação da nossa parte, porque Bolsonaro só indica lobista. Porque o #Caixa2doBolsonaro elegeu governadores-empresários, inquilinos do NOVO, num mesmo #ZapGate.

Tá tudo desenhadinho. O golpe da Janaina Paschoal, a "Ponte para o Futuro", o processo contra Lula, a condenação unânime... Era isso que queria o mercado. Os que dominam o mercado do petróleo, da energia, do combustível, de fármacos e de serviços, em todo o planeta.

Nossa elite entregou o Brasil com comida, água, luz e gasolina pagas por 30 anos, mais 210 milhões de pessoas pra lavar, passar, cozinhar e carregar peso, de graça.

Com o controle do Estado, do Banco Central, da Casa da Moeda com todo o tipo de informação privilegiada, pra ganhar mais dinheiro nas bolsas mundiais e articular golpes financeiros, nossa elite já elegeu seus trash-memes e, como eles mesmos confessaram, gastaram muito menos dinheiro em whatsapp.

Não cabe indignação. Cabe denúncia. O ultracapitalismo comprou a Democracia Brasileira em pacotes do whatsapp. 

O "elenco Bolsonaro" é a distração de mais 4 anos, enquanto os mais criminosos lobistas atuam no ingresso da nossa elite, na festa dos donos do mundo.

A elite que já vendeu vida que não era dela, já vendeu terra que nunca foi dela, já comprou juiz e bandeirinha, agora está vendendo um país inteirinho que não é dela. 

Não cabe indignação. Cabe denúncia".
Cristiana Araújo

sábado, 21 de abril de 2018

Corrupção construiu a fortuna dos Inconfidentes

Obra revela que propina, venda de cargos públicos e sonegação de impostos eram comuns entre os inconfidentes - e esses golpes eram articulados pelas musas que os poetas revoltosos cantavam.

Natália Rangel, na Revista Isto É, de 16.04.10
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HERANÇA 
Em Vila Rica, atual Ouro Preto, os poderosos pagavam por privilégios pessoais

Se depender da exaustiva e minuciosa pesquisa do historiador paulista André Figueiredo Rodrigues, o calendário nacional corre o risco de perder um de seus feriados mais importantes e festejados: o de 21 de abril. Nessa data se homenageia o alferes Joaquim José da Silva Xavier, o “Tiradentes”, mártir da Inconfidência Mineira enforcado e esquartejado no ano de 1792. 
O historiador Rodrigues é o autor do recémlançado livro “A Fortuna dos Inconfidentes” (Globo), obra que revê radicalmente alguns aspectos do movimento mineiro, desconstruindo parte de seu ideário. Tiradentes era um dos rebeldes dessa sublevação. 
O autor do livro teve acesso a uma infinidade de documentos e de processos judiciais da época. A grande novidade é que, através deles, descobre- se que a corrupção e a festa com o dinheiro público não é característica dos atuais dias republicanos. 
A Inconfidência foi uma reação do Brasil Colônia contra os impostos escorchantes cobrados pela Coroa Portuguesa. Através da íntegra dos relatórios, a obra revela  que boa parte dos bens que até hoje se atribuíam aos inconfidentes correspondia, na verdade, a uma ínfima parte de seu patrimônio real – ou seja, eles sonegavam o máximo que podiam. “Tudo o que era possível esconder, eles escondiam”, diz Rodrigues.
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O OURO DE TIRADENTES
De acordo com o livro, o mártir da Inconfidência não vivia de seu modesto soldo militar como

alferes – ele foi um homem influente e rico. Ganhou o direito de explorar 47 pontos de mineração na
Mantiqueira, criava gado, possuía sítios, sesmarias e escravos. Atuava também como agiota, 
emprestando dinheiro a juros escorchantes. O livro defende a tese de que Tiradentes 
não queria reformas sociais e igualdade de direitos.
Assim, é equivocada a versão que se tinha até agora de que os 24 inconfidentes condenados por crime de lesa-majestade eram pessoas de posses muito modestas. 
Na visão de Rodrigues, os inconfidentes estavam distantes dos ideais de igualdade e liberdade defendidos pela Revolução Francesa e prova disso é que 60% deles eram proprietários de escravos e não se mostravam dispostos a aderir às teorias abolicionistas. 
Na narrativa do autor, o que se percebe é que todos eles buscavam burlar a autoridade da Coroa Portuguesa em benefício próprio e muitos entraram para o grupo dos inconfidentes em busca justamente de ajuda financeira. 
Entre os idealistas estão os poetas Cláudio Manuel da Costa e Tomás Antônio Gonzaga (autor de “Marília de Dirceu”) e entre os pragmáticos que se aproveitaram do movimento para ganhar mais poder e fortuna estão os coronéis Domingos de Abreu Vieira e Francisco Antônio de Oliveira Lopes, os padres José da Silva e Oliveira Rolim e Carlos Corrêa de Toledo, o sargento Luís Vaz de Toledo Pisa, o minerador, e também poeta, Inácio José de Alvarenga Peixoto. Esse último se tornou ouvidor de Minas por indicação de um amigo influente – cargo que lhe foi comprado a peso de ouro. 
O livro conta que Alvarenga Peixoto, como representante do governador, pediu seis contos de réis para comprar produtos para a guerra contra os espanhóis travada no Sul do País. Recebeu o dinheiro público, mas o guardou para si e deu um calote geral. Utilizou-o para pagar as suas próprias dívidas, que nada tinham a ver com o conflito.
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“É a mesma forma de burlar e se apropriar do bem público.
Igualzinho ao que acontece hoje”
André Figueiredo Rodrigues, autor de “A Fortuna dos Inconfidentes”
Mulheres comandavam o esquema de corrupção
Alguns nomes pouco lembrados na história da Inconfidência Mineira são os das mulheres dos revoltosos e elas ganharam destaque no livro. Após a prisão dos rebeldes coube a essas esposas administrar os bens da família para que tudo não se perdesse nos leilões da Coroa. E no processo de preservação do patrimônio, nunca por meios lícitos, elas mostraram ser mestres no ofício, como explica Rodrigues: “As mulheres burlaram as leis, tocaram as fazendas, subornaram os meirinhos e juízes. Foram responsáveis pela preservação da fortuna dos inconfidentes nas mãos das próprias famílias.” 
Para isso lançaram mão dos compadres influentes e dos amigos que tinham funções no alto escalão do palácio. É o caso de Bárbara Eliodora, mulher de Alvarenga Peixoto, e de Hipólita Jacinta, esposa de Antônio de Oliveira Lopes, grande proprietário da região mineira de Prados – ambos os maridos presos como inconfidentes.
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O QUE HÁ DE NOVO

O poeta Alvarenga Peixoto enriqueceu ao “comprar” um cobiçado cargo de ouvidor.
O confisco dos inconfidentes pela Coroa foi em vão: eles ocultaram 90% de seus bens. 
Bárbara Eliodora não ficou louca nem miserável: salvou grande parte de seu patrimônio.
Bárbara Eliodora entrou para a historiografia oficial como uma viúva que enlouqueceu de amor e morreu na penúria. Na verdade, ela teve uma velhice tranquila e ainda deixou riquezas para toda a sua descendência, segundo provam os dados reunidos no livro. Bárbara soube acionar parceiros para proteger a fortuna do marido que Portugal tentava embolsar. 
Já Hipólita, também esperta, mostrou- se uma hábil financista ao encontrar por si mesma uma forma de subornar os fiscais da Coroa Portuguesa que tinham ordem para efetuar o seqüestro de seus bens. Numa carta reproduzida no livro e que revela claramente a mentalidade daquele período, Alvarenga Peixoto escreve às autoridades coloniais: “Entretanto, espero que Vossa Mercê dê alguma desculpa a um mineiro que tem obrigação e necessidade de ser mentiroso como os outros.” O trecho da correspondência aponta para uma das características marcantes dos inconfidentes: a mentira na divulgação do patrimônio e a consequente sonegação. 
Como se vê, a partir da obra de Rodrigues, há muita gente no Brasil, sobretudo na classe política, que vive um eterno 21 de abril.

Leia sobre Inconfidentes corruptos do Vale do Jequitinhonha:

Inconfidência Mineira: os inconfidentes corruptos do Vale do Jequitinhonha.

Os inconfidentes Domingos de Abreu Vieira e Padre Rolim participaram da Inconfidência Mineira para fugirem do fisco,  por posse de riquezas, não abrindo mão da escravidão dos negros .


A Inconfidência também passou pelo Vale do Jequitinhonha. 
Quem diria? 
E foi a sua parte mais podre - se é que tem alguma que é sadia - que se destacou.

Domingos de Abreu Vieira e Padre Rolim são os tristes personagens da nossa história colonial. Eles viveram no Vale ,  no século XVIII, e exploraram as riquezas regionais.

Abreu Vieira na Vila do Água Suja, atual Berilo, no Médio Jequitinhonha, e em Minas Novas. Padre Rolim, no Tejuco, atual Diamantina.

Três grupos de interesses
O movimento da Inconfidência Mineira tinha três grupos de homens com interesses diversos. O primeiro era considerado o dos ideólogos formado por Tomás Antônio Gonzaga e Cláudio Manoel da Costa.
O segundo grupo era de ativistas que propagava as idéias entre o povo e nos mais diferentes lugares. São os que mais se expunham à perseguição da polícia de Portugal. Tiradentes era o mais exaltado e mais conhecido deste grupo.
Por trás dos ativistas e dos ideólogos, havia um terceiro grupo de homens, mais discretos, também interessados na ruptura com Portugal.
A pólvora tinha sido assegurada aos conspiradores por Domingos de Abreu Vieira. O velho contratante português era intimamente vinculado a muitos dos principais inconfidentes.
Abreu Vieira estava em dívida com a Fazenda Real: devia muito mais de dois milhões de réis, e é evidente que o velho negociante português envolveu-se na conspiração só por um motivo: porque ela proporcionava um meio de eliminar suas dívidas .



Elite inconfidente
Assim, é equivocada a versão que se tinha de que os 24 inconfidentes condenados por crime de lesa-majestade eram pessoas de posses muito modestas.
Os inconfidentes estavam distantes dos ideais de igualdade e liberdade defendidos pela Revolução Francesa. A prova disso é que 60% deles eram proprietários de escravos e não se mostravam dispostos a aderir às teorias abolicionistas.
O que se percebe é que todos eles buscavam burlar a autoridade da Coroa Portuguesa em benefício próprio e muitos entraram para o grupo dos inconfidentes em busca justamente de ajuda financeira.
Entre os idealistas estão os poetas Cláudio Manuel da Costa e Tomás Antônio Gonzaga (autor de "Marília de Dirceu") e entre os pragmáticos que se aproveitaram do movimento para GANHAR MAIS poder e fortuna estão os coronéis Domingos de Abreu Vieira e Francisco Antônio de Oliveira Lopes, os padres Rolim e Carlos Corrêa.

Foto: Casarão colonial, na Rua do Porto, em Berilo, construído por Domingos de Abreu Vieira. Esta edificação foi restauradam em 2011, pelo IEPHA e Prefeitura Municipal.



Domingos de Abreu Vieira, de Berilo, Minas Novas e Ouro Preto
Domingos de Abreu Vieira, na época da elaboração dos planos de liberdade, além de contratador de dízimos era Tenente Coronel, auxiliar da Companhia de Dragãos de Minas Novas. Ocupou o posto de Capitão da Companhia do Distrito do Arraial de Água Limpa ( atual Berilo) e de Regimento de Cavalaria.
Domingos de Abreu Vieira tinha casa em Ouro Preto, na Região Central, mas visitava com freqüência o seu Sobradão em Vila do Água Suja, atual Berilo, como também sua casa em Minas Novas, na Praça da Rodoviária, propriedade da família Badaró, onde funciona, hoje, a Rádio Bom Sucesso.

Ele exerceu o cargo de contratador dos dízimos, em Vila Rica, entre 1784 e 1789. Era padrinho da filha de Tiradentes, que também teria passado temporadas na sua casa de Berilo.

Ele foi condenado à forca junto com outros 10 acusados de conspirar contra o Reinado português, do qual era funcionário graduado. Ele jurou fidelidade à Rainha "Maria Louca" de Portugal e negou qualquer participação na Inconfidência Mineira. Como outros espertalhões da elite colonial foi preso e deportado. Somente Tiradentes assumiu defender os ideais da Independência do Brasil. Por isso, foi o único a ser enforcado.

Abreu Vieira teve os bens penhorados e enviado para Angola, tendo vivido em Luanda, na África Ocidental, e morrido no presídio de Nossa Senhora da Conceição de Muxima.

PADRE ROLIM, DE DIAMANTINA
José da Silva e Oliveira Rolim (Diamantina, 1747 - Diamantina, 1835), o Padre Rolim, foi um dos conspiradores da Inconfidência Mineira.

Filho do contratador de diamantes (Caixa na Real Extração Diamantina) da cidade, o sargento-mor José da Silva de Oliveira, era amaziado com Quitéria Rita, filha de Chica da Silva e do antigo contratador João Fernandes de Oliveira, e com ela teve os filhos Thadeo José da Silva, Domingos José Augusto, Maria Vicência da Silva e Oliveira e Maria da Silva dos Prazeres. Envolvido em negócios ilegais, foi o mais rico participante da Inconfidência.

Quando da mudança da Extração Diamantina, seus pais, em casa de quem morava, foram prejudicados financeiramente. Foi então que a família passou a se dedicar ao contrabando de pedras preciosas. Também traficavam escravos e praticavam a usura.
Foto: Construído em 1749, este Casarão da Rua Direita, em Diamantina, foi da família do Padre Rolim. Hoje funciona o Museu do Diamante.

Procurou a carreira eclesiástica para se ver livre de um processo criminal, como testemunhou Joaquim Silvério dos Reis. Ordenou-se ao 32 anos em Coimbra, sem gostar de estudar, tendo dificuldades para escrever e sendo péssimo em comunicação verbal.

O Padre Rolim era um homem inescrupuloso e corrupto e quando o Visconde de Barbacena se negou a revogar uma ordem de banimento contra ele, uniu-se à Inconfidência Mineira no final da década de 1780, da qual participou ativamente, tendo se comprometido a arranjar 200 cavaleiros armados para a revolução. À essa época, já tinha grande influência sobre a região do Serro, motivo de a Coroa Portuguesa temê-lo.

Após serem denunciados, foi julgado junto com seus companheiros da Inconfidência Mineira e passou quinze anos preso, primeiro na Fortaleza de São Bento da Saúde - até 1796 -, e depois no Mosteiro de São Bento da Saúde, em Lisboa. Já em 1805 estava de volta ao Brasil com a esposa e filhos.
Lutou, então, para reaver seus bens que haviam sido confiscados, mas só o conseguiu com a declaração da Independência do Brasil, quando foi também indenizado.
                                                                                                                                                                           
Morreu, aos 88 anos, em 1835, tendo sido sepultado na Igreja do Carmo, após ter sido velado com paramentos da Maçonaria.

Leia mais sobre corrupção na Inconfidência Mineira, clicando aqui:

Elaborado por Álbano Silveira Machado, tendo como fontes de pesquisa a Wikipedia, mgquilombo  e o livro "A devassa da devassa", de Kenneth Maxuell.
Este texto foi publicado em abril de 2010 e reproduzido na íntegra.