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sábado, 21 de abril de 2018

"Os golpistas não querem eleições em 2018, por não ter candidato forte", diz cientista político.



Juarez Guimarães: "O papel de Lula será fundamental na campanha".


Jornal do Brasil, 19.04.2018.TEREZA CRUVINEL
 Para o cientista político Juarez Guimarães , professor da Universidade Federal de Minas Gerais, a incerteza que cerca a eleição presidencial deste ano tem sua principal causa no impasse vivido pela centro-direita,  que ele chama de coalizão golpista,  determinada a ganhar a eleição custe o que custar, embora não tenha, até agora, viabilizado nenhuma de suas candidaturas.  
O recurso extremo poderia ser o adiamento do pleito.  
Nesta entrevista ao JB ele avalia também que, mesmo preso, Lula será uma força relevante: uma presença constante apesar da ausência. 
Juarez Guimarães é autor de Democracia e marxismo: crítica à razão liberal (Xamã), A esperança crítica (Scriptum) e A esperança equilibrista: o governo Lula em tempos de transição (FPA), entre outros livros.  
Confira a entrevista:
Tereza Cruvinel: Como o senhor avalia o momento político dentro desta prolongada turbulência?
Juarez Guimarães: Continuamos no território da indeterminação. Todos os padrões políticos foram rompidos e a coalizão golpista controla todos os centros de poder  de Estado, vale dizer, o Congresso Nacional, o Poder Executivo, as cortes superiores do Poder Judiciário, os aparelhos de repressão, inclusive as Forças Armadas.  Mas esta coalizão não conseguiu até agora uma ruptura suficiente para legitimar seu projeto de implantar no Brasil um Estado neoliberal.  As incertezas que cercam a eleição presidencial se inserem neste impasse. 
O senhor diria então que ,com sua impopularidade, o governo Temer não consegue executar o programa para o qual foi levado ao cargo com o impeachment?
 Ele conseguiu executar parcialmente a agenda dos que fizeram o impeachment mas ela é de natureza violentamente antipopular, e por isso ele nunca aspirou à  popularidade.  Com as eleições, a coalizão conservadora pretende  ter um governo legitimado e menos impopular do que o de Temer mas o problema é que não têm um candidato viável, como as pesquisas têm mostrado.  Desde o início houve o pressuposto de que este governo, por suas características excepcionais, teria melhores condições de adotar medidas neoliberais impopulares, sem as mediações próprias da democracia, vale dizer, sem as devidas negociações com o parlamento ou  com as corporações. E,  principalmente,  com total inobservância do principio da soberania nacional.  Participei de um debate com alguns economistas desenvolvimentistas no inicio do golpe em que se discutia se a recessão seria em V ou U.  Ou seja, se a recessão seria profundo mas de curta duração, ou mais suave mas com recuperação mais lenta. Eu argumentava que não se tratava de uma coisa ou de outra  mas de um processo de destruição da economia nacional. E apontava quatro vetores que puxariam a economia permanentemente para baixo:  a retração do mercado interno, a redução dos investimentos públicos,  o crédito restrito, com juros altos para o consumidor,  e a ausência de alterações significativas no plano internacional.  Penso que estamos inseridos de fato num processo de destruição da democracia e da economia nacional.  Estamos sendo tragados para dentro do caos sistêmico, num processo de destruição sem criação.
De fato, após um ensaio tímido de recuperação, as projeções de crescimento já estão sendo revistas para baixo. Mas a quem interessa uma destruição da economia nacional?
Esta pergunta nós nos fazemos desde a instauração da conjuntura que levou ao impeachment, primeiro passo do golpe. Cabe aqui uma comparação com a coalizão que liderou o golpe de 1964. Ali havia  um projeto de Estado nacional subordinado  aos Estados Unidos, no contexto da Guerra Fria, que até se diferenciava dos projetos da ditadura argentina e da ditadura chilena. Buscava-se estabelecer, através da doutrina da segurança nacional,  um Estado centralizador e forte, que produzisse uma modernização conservadora, com acumulação de capital para alguns setores da burguesia nacional e um ciclo de desenvolvimento assentado num tripé:  a grande empresa estatal, a grande empresa nacional e as multinacionais.  O agronegócio, que tem hoje um peso tão grande na economia brasileira, começou a ser fabricado pela ditadura militar, assim como o sistema financeiro nacional e as grandes empreiteiras.   Agora, não. Agora, este golpe não se produz no tempo do liberalismo democrático, keynesiano, mas no contexto do neoliberalismo.  Seu centro político...


Quem é o centro ou cérebro desta coalizão?
Acredito que instabilidade  decorre principalmente da desestabilização do partido que deveria ser o centro, que é o PSDB, mas este partido vive hoje sua maior crise. Era ele que fazia a mediação entre os interesses nacionais e os interesses internacionais. Mas partir de 2011 e 2012, o centro orgânico do PSDB deixou de ser a Avenida Paulista e transferiu-se para  Wall Street.  Se Aécio tivesse vencido a eleição de 2014, Armínio Fraga seria o ministro da Fazenda, não é mesmo?  E ele é muito mais um homem de Wall Street do que do capitalismo financeiro brasileiro, sediado na Avenida Paulista.  Aquela era uma campanha que tinha como lema vencer ou vencer. Eles não admitiam a possibilidade de derrota.  Tiveram que ganhar de outro modo,  com a desestabilização do governo Dilma.  Era preciso interromper, seja lá por que meios fosse,  o ciclo de governos petistas.  Com a crise do PSDB, a coalizão passou a se ancorar nas forças da retaguarda, ligadas ao Estado norte americano.     
Por motivos geopolíticos, a disputa comercial com a China, em sintonia com os que comandam a unificação do Estado na Europa, desestabilizaram o polo mais fraco dos Brics, que era o Brasil.  Há muitas evidencias circunstanciais disso, que ainda serão documentadas pelos historiadores. Como em relação a 1964, ainda levaremos algum tempo para saber tudo o que houve, mas não tantos anos como em relação ao golpe militar.  Agora não foi um envolvimento conspirativo  direto dos Estados Unidos. O que eles garantiram foi um apoio na retaguarda, não precisando se expor, tomar a frente.  O senador José Serra, um pensador estratégico do PSDB, foi para o Ministério das Relações Exteriores no  primeiro momento do governo Temer,  na suposição de que a Hillary e não o Trump  ganhasse a eleição americana. Eles trabalhavam com esta expectativa. Mas existe, sobretudo, o processo de pilhagem, porque é disso que se trata. Um patrimônio de centenas de bilhões de dólares que está sendo oferecido ao capital estrangeiro.  Trata-se de uma nova pilhagem colonial.
Como o senhor insere neste quadro a inabilitação e a prisão do ex-presidente Lula?
 Não está na imaginação dos atores do golpe  entrar numa eleição com alta imprevisibilidade,  para não ganhar.  Eles buscam um cenário de vitória garantida mas não estão conseguindo o candidato adequado.  Gosto muito de uma frase do cientista politico Adam Przeworski:   “amas a incerteza e serás um democrata”. Eles não são democratas, não admitem a incerteza.  Eles querem a certeza de que não haverá vitória de um candidato da esquerda.  Em 2014 eles apostavam na vitória. Agora, querem a vitória a qualquer preço.   Por isso, se for necessário vão adiar as eleições.

Juarez Guimarães: Temer conseguiu executar parcialmente a agenda dos que fizeram o impeachment mas ela é de natureza violentamente antipopular

         A busca desta garantia de vitória exigia a remoção da candidatura do ex-presidente Lula e acho que tiveram de antecipar a prisão.  Diante da ameaça de inabilitação de Lula, o PT respondeu inteligentemente com o lançamento de sua candidatura e o plano de  levá-la até agosto, até o momento do registro, valendo-se de todas as brechas jurídicas.   Se esta estratégia fosse executada, em agosto Lula estaria no horário eleitoral, falando  no rádio e na televisão.  Por isso aceleraram o calendário no julgamento do recurso ao TRF-4 e anteciparam a  própria prisão,  antes mesmo do esgotamento dos recursos.
Mas a centro-direita tem outro obstáculo, que é o Bolsonaro. Como acha que este bloco vai lidar com a candidatura dele?
Bolsonaro faz parte deste processo destrutivo da esquerda, através das  dinâmicas promovidas pela coalizão neoliberal,  produzindo  áreas cinzentas de convergência com as forças fascistas.  Quando li, no Valor Econômico, uma matéria sobre o encontro de Bolsonaro com os banqueiros, achei que era erro de grafia. Bolsonaro “mitou”.  Pensei que quiseram escrever “micou”.  Mas de fato era “mitou”,  no sentido de que  foi recebido com o entusiasmo que provoca em seus seguidores.   O Bolsonaro já prestou um bom serviço à centro-direita mas acho que eles têm à mão recursos para destruir a candidatura dele na hora certa.  Se o Jornal Nacional fizer três edições com as denúncias já comprovadas que existem contra ele, quando pontos ele perderá?  Na recente pesquisa Datafolha ele se manteve em segundo lugar mas não cresceu.
Nesta altura, com os demais candidatos da centro-direita empacados, Geraldo Alckmin poderá ser o candidato de convergência?
Os elementos da  micropolítica apontam para uma convergência em torno da  candidatura do Alckmin mas ele não consegue corresponder, não decola, como se tem visto nas pesquisas. Eu aponto quatro elementos que fazem dele este candidato  de uma possível unidade:   Primeiro,  ele  conseguiu o apoio da maioria do PSDB. Segundo, conseguiu acomodar a divergência Dória como candidato ao governo do estado. Terceiro, Fernando Henrique deve ter indicado o coordenador de seu programa de governo, o Pérsio Arida, um quadro da Casa das Garças, este sim, um homem civilizado dos mercados. Conseguiu finalmente a blindagem contra a Lava Jato e até a proeza de convencer o senador Anastasia a ser candidato em Minas, que é um colégio eleitoral importante.
Mas agora Aécio Neves tornou-se réu ....
R – Eu já duvidava que o Anastasia  iria fazer campanha para o Alckmin para valer. Isso porque o Aécio já não perdoava o fato de ter sido  expulso, de maneira grotesca, da convenção do PSDB pelos tucanos de São Paulo. Um mineiro não esquece isso.  Agora, no momento de sua maior fragilidade, Alckmin pede para ele não ser candidato a nada. Por tudo isso acho difícil o Alckmin entrar em Minas.
         Existe uma tradição de sociologia eleitoral no Brasil de tratar as eleições a partir de regularidades sociológicas eleitorais.
O que é isso?
É você  identificar certas regularidades, que de fato existem, e fazer previsões a partir delas.  Mas a politica é o lugar da indeterminação.  Esta sociologia eleitoral pode ser perspicaz mas induz a muitos erros. E o erro maior é apostar na repetição dos fenômenos.  A eleição deste ano tem como característica principal a incerteza, a indeterminação. Ela está altamente judicializada,  está sob tutela militar,  sofre os efeitos da instabilidade do golpe.  Eu destaco, entre nossos cientistas políticos, três campos de visão sobre o processo em curso.
Quais são?
O professor  Marcus Melo, da Universidade Federal de Pernambuco, formulou a tese de que haveria renovação no Congresso mas de que, na disputa pela Presidência, prevaleceria a máquina e o poder econômico, favorecendo a candidatura Alckmin. Em sua visão, a recuperação econômica produziria uma melhoria perceptível pela população, que também beneficiaria o candidato tucano, mas com ele guardando uma distância preventiva em relação ao Temer, para não se desgastar.
Já o Marcos Coimbra, do Instituto Vox Populi, acha que a candidatura de Alckmin nasceu morta, só restando aos tucanos rezar. Que a polarização será entre Lula, ou o candidato que ele indicar, e  Bolsonaro. Ele captou com muita acuidade, desde abril de 2017, o movimento de recuperação de suas bases pelo PT e o crescimento da candidatura Lula.  Mas acho que ele erra ao subestimar a força do PSDB e superestimar as chances de Bolsonaro, apesar de acertar sobre a resiliência da influência do Lula, que será forte, mesmo estando ele preso.
E há uma terceira avaliação, que é a do professor Antonio Lavareda, um cientista politico muito experiente, já fez muitas campanhas. Na avaliação dele tudo ainda está indeterminado e vai depender muito da evolução do quadro econômico e de como isso vai influenciar a opinião das pessoas.
Eu, pessoalmente, não acredito em recuperação, por achar que estamos não apenas num quadro recessivo, mas de destruição da economia.  Cada uma destas três visões, a meu ver, traduz uma verdade parcial, de modo que a melhor perspectiva é a que integra todas elas num quarto ponto de vista: que não se deve desprezar as forças organizadas em torno de Alckmin, embora ele não venha conseguindo crescer nas pesquisas.  Por outro lado, concordo com Coimbra, sobre a força da resiliência de Lula. O Datafolha mostrou que a capacidade de transferência de votos dele é muito alta.   A indeterminação apontada por Lavareda é real mas decorre do fato de que a eleição, pela primeira vez depois de 1988, não ocorrerá em regime democrático pleno, mas num regime de tutela judicial, de intervenção judicial  e de tutela militar.
E nestas condições, a centro-esquerda tem chance?
O papel de Lula será fundamental na campanha.  Mesmo com a antecipação de sua prisão, seus adversários tardaram.  Ele já havia reconstituído suas bases eleitorais e estava em franco crescimento. Agora estamos naquela situação lacaniana em que a ausência será uma presença. Lula foi preso mas continua presente, falam dele o tempo todo.  E continuará presente, influenciando atores da esquerda e mesmo da direita. Terão todos que  se posicionar diante do fato de que o candidato favorito foi interditado por uma razão jurídica que se mostra cada vez mais ilegítima e mais escandalosamente fraudulenta.
Lula,  com esta onipresença na ausência, pode levar um candidato da esquerda ao segundo turno?
Isso será mais possível se houver unidade da esquerda, o que forçará inclusive o posicionamento do Ciro Gomes,  a menos que ele queira desaparecer. A polarização é tão forte que pode fazer desaparecer  aqueles que tentarem agir como se ela não existisse, buscando um lugar intermediário.  Isso não é da natureza do Ciro, que não é filho do PSD mineiro.  Ele é um cearense , que tem como marca mais interessante a autenticidade, além das suas ideias.  Se ele perder isso, não será mais nada.  Se fizer calculo politico sobre a prisão do maior líder popular brasileiro, perderá sua marca forte de homem veraz.
Mas por ora, ele tem oscilando...
Estas idas e vindas do Ciro sugerem que ele tenta penetrar em arraiais antilulistas e ao mesmo tempo desfrutar da proximidade com a esquerda.  Acho que há maus conselheiros sugerindo esta ambivalência.   Mangabeira Unger certamente não é um bom conselheiro. Agora Ciro está dizendo que pretende ir a Curitiba visitar Lula. Vamos ver se consegue.
E esta frente de esquerda, a seu ver tem futuro?
Neste momento eu vejo um PT menos hegemonista, um PSOL mais aberto ao diálogo, sem perder sua singularidade, e o PC do B muito atento à dimensão da soberania, como sempre foi. Vejo os movimentos sociais e as centrais sindicais com uma clara compreensão do momento, assim como os novos movimentos de mulheres e de negros. A intelectualidade está mobilizada e respondeu de forma importante, oferecendo os cursos sobre o golpe, reagindo à ameaça feita ao nosso colega Luiz Felipe Miguel, da UnB.  E vejo também o meio artístico e cultural muito atento,  de modo que até poderemos ter Chico e Caetano lado a lado. Todos estes sinais devem ser bem trabalhados pela esquerda, se ela quiser sobreviver, pois estamos diante de uma escalada montante de violência em que só a unidade pode potencializar a voz e a força da esquerda.  

quinta-feira, 15 de março de 2018

Golpe político é debatido nas Universidades.

 A reação em cadeia das disciplinas sobre o golpe de 2016
A tentativa de censura à UnB leva universidades a oferecer outros cursos sobre o tema.
A universidade reverbera a visão majoritária no Brasil: o impeachment foi golpe
O ministro da Educação, Mendonça Filho, conseguiu transformar um caso isolado em uma reação em cadeia. Em 22 de fevereiro, ele dedicou parte de seu expediente para publicar mensagens em sua conta no Twitter, onde combatia o curso “O golpe de 2016 e o futuro da democracia no Brasil”, recém-criado pelo Instituto de Ciências Políticas da Universidade de Brasília.
Ao longo da tarde, foram 16 mensagens, entre elas a de que havia “indicativos claros de uso da universidade pública para proselitismo político e ideológico do PT”. O discurso ganhou destaque na mídia, quando o ministro declarou que a investida iria adiante e anunciou a decisão de acionar, entre outros, o Ministério Público Federal para “a apuração de improbidade administrativa por parte dos responsáveis pela criação da disciplina”. 
A investida de Mendonça Filho contra a grade de aulas surgiu do seu conceito pessoal, a partir do cargo público que exerce no governo e de dentro do grupo político que assumiu o poder, de que a destituição da ex-presidenta Dilma Rousseff do cargo para o qual foi eleita não caracteriza um golpe de Estado, e que, portanto, o tema não poderia ser discutido em sala de aula, como proposto na ementa. Em suas palavras, “não há base científica para a criação do curso, assim como a aderência do tema à realidade brasileira”.
Não é o que pensa a massiva maioria dos cientistas políticos e a comunidade acadêmica. Para o coordenador do curso na UnB, Luiz Felipe Miguel, a se entender que foi um golpe, não a mera substituição da presidenta, o debate é fundamental para compreender a natureza, a profundidade e a abrangência das transformações em curso no País. Além de obrigação dos estudos contemporâneos na ciência social e política. 
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A reação da academia à investida de Mendonça Filho contra a coordenação do curso foi imediata e reacendeu o debate sobre a autonomia universitária e a liberdade de cátedra. Universidades de todo o Brasil passaram a anunciar a oferta da extensão, cujo motivo da obra é o golpe de 2016, com nome e ementas similares àquela proposta por Miguel.
A primeira a anunciar foi a Universidade Estadual de Campinas, e pelo menos outras 31 instituições confirmaram o curso em suas grades para este semestre. Entre elas, as federais da Bahia, Minas Gerais, Rio Grande do Norte e Rio de Janeiro, além da Universidade de São Paulo e da Universidade Estadual Paulista. 
Para o professor, a compreensão de que houve golpe de Estado em 2016 é amplamente majoritária na sociedade, dentro e fora das universidades, inclusive em campos populares que divergem politicamente entre si, e não uma extravagância de um pesquisador, como o ministro tentou fazer parecer. “Existem vozes que dizem que não houve ruptura democrática. Na academia são vozes minoritárias. Quem assiste ao GloboNews vai ouvir essas vozes, mas isso não é representativo. Fica claro que vetar a palavra golpe busca aprofundar esse processo de ruptura.”
Embora o ministro tenha anunciado a ofensiva, até agora não existe nenhuma representação contra a coordenação do curso na UnB, e a tendência é de que ela não saia do papel. Desde a reação das universidades e da sociedade em geral, Mendonça Filho minimizou o discurso.
Deputado federal licenciado, o demista comunicou que vai deixar o ministério em abril, para concorrer às eleições deste ano. “O ônus do recuo ficará para o seu sucessor. Ele jogou a polêmica para a plateia, o que, para nós, era seu objetivo principal. O caso vai morrer [na instância jurídica] porque não tem nenhuma base”, diz Luiz Felipe Miguel. 
O debate sobre a liberdade de pensamento, ideia seminal das universidades, foi reativado a partir do movimento de resistência da academia contra o ensaio de censura. O ministro é acusado de ferir a autonomia universitária e, nesse caso em especial, a liberdade de cátedra, que é o direito de a universidade, a partir dos seus colegiados, decidir o que e como ensinar, independentemente dos governos e de quem está no poder. Foi na Constituição de 1988, nos artigos 205, 206 e 207, que a autonomia didático-científica apareceu pela primeira vez com força de lei no Brasil. 
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Segundo o professor Luiz Araújo, especialista em educação, agredir o pensamento crítico é uma tendência histórica dos grupos hegemônicos. “Eles não querem que nada mude, ou seja, que não se questionem coisas que parecem eternas. E os governos incomodam-se com a crítica que as universidades lhes podem fazer. A indústria também se comporta assim.”
Para o coordenador do curso originário da querela, a atitude do ministro está alinhada a uma ideia de que quem fala em golpe no Brasil é petista, fecundando a dualidade política a serviço dos grupos ultraconservadores.
“O que me incomoda é que eu teria o direito de ser militante e professor ao mesmo tempo, mas não sou. Tentaram me emparedar numa posição partidária que nunca foi minha, o que não significa que não tenho posicionamento político. Se tivessem se dado ao trabalho de ler alguma coisa que já escrevi, saberiam que sou bastante crítico às limitações do PT.”
O movimento das universidades provou que a academia está disposta a resistir à exposição de condições que comprometem sua própria existência, e uma vitória contra a censura e o autoritarismo. As aulas na UnB começaram como programado na segunda-feira 5 e, ao que tudo indica, o golpe de 2016 será extensivamente debatido nas universidades. 
Fonte: Carta Capital, por Carolina Scorce — publicado 15/03/2018 00h15, última modificação 14/03/2018 16h49

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

: “Lula não será candidato”, afirma cientista político

Wanderley Guilherme dos Santos acredita que Lula deveria indicar quem apoia, desde já.

Escrito por , Postado em Eleições 2018, Theo Rodrigues
Em mais um brilhante artigo publicado no blog Segunda Opinião, o professor Wanderley 
Guilherme dos Santos critica a narrativa de parcela da esquerda brasileira de que uma eleição 
sem Lula seria uma fraude.
Como Lula não poderá ser candidato na eleição de outubro, Wanderley defende que o 
ex-presidente aponte logo quem será seu candidato ou sua candidata presidencial.
De acordo com Wanderley Guilherme, “a vitória de um candidato ou uma candidata indicado/a 
por Lula, tendo abortado a festa conservadora ao exclui-lo das eleições, reduziria a estrume 
cavalar os votos fúteis de juízes boquirrotos”.
Entre os nomes que surgem como possíveis candidatos de Lula, figuram Manuela D´Ávila
 (PCdoB), Fernando Haddad (PT) e Ciro Gomes (PDT).
Leia abaixo o texto na íntegra.
Opiniões de um pequeno burguês
Por Wanderley Guilherme dos Santos
Lula não será candidato. Apesar da cristalina excepcionalidade de interpretações da lei e
evidentes arranhões em sua aplicação discricionária, só há fraude eleitoral quando o eleitor é
coagido, as urnas violadas ou o resultado adulterado. São mais de cento e quarenta milhões de
eleitores já registrados. A ausência de Lula castra a liberdade de escolha de cerca de um terço
deles, havendo sólido fundamento para a passionalidade com que reagem ao estupro.
Fraude eleitoral, porém, não será.
Quanto mais cedo as legendas populares perceberem a extensão da materialidade do que
elas próprias denunciam – comportamento seletivo de instâncias do Judiciário – mais clara
se tornará a ineficácia de pressões externas para alterar decisões recentes. Os últimos fracassos
se repetirão, com o risco nada desprezível de que a militância tenda a crescente desânimo.
As tempestades bíblicas têm faltado ao compromisso de inundar as instituições coatoras e
seria penoso, além de fatal, assistir ao raquítico desenlace de manifestações brancaleônicas.
Um líder da estatura de Lula, indestrutível encarnação da livre escolha de milhões de brasileiros,
não deve permitir a figuras subalternas expropriarem-no de autonomia para decidir.
Sair da disputa por acachapante submissão à sentença que o expulsa, seria desastroso.
Rebelar-se, tolo e infrutífero. O fantástico cabedal de confiança de que dispõe acabaria
balado, pois não existe derrota vencedora senão na esfarrapada desculpa de perdedores
crônicos. Não é próprio de líderes populares transferirem ao empenho dos liderados a
responsabilidade pelo sucesso de uma causa; no caso, garantia legal da candidatura Lula
à presidência. Especialmente quando se tem por certo que a derrota jurídica é inevitável.
O desbloqueio das candidaturas populares ocorrerá, quer por decisão antecipada de Lula,
quer por insuperável imposição legal: Lula não será candidato. O amargo de uma causa
perdida arrisca atropelar o entusiasmo dos responsabilizados, abandonando aos adversários
a arena que mais temem: a competição por votos. E o infeliz refrão de que eleição sem Lula
 é fraude acompanharia o féretro de uma campanha esquizofrênica, intrinsecamente
contraditória.
Ao contrário, a vitória de um candidato ou uma candidata indicado/a por Lula, tendo
 abortado a festa conservadora ao exclui-lo das eleições, reduziria a estrume cavalar os
votos fúteis de juízes boquirrotos. O jogo pede uma intervenção decisiva na estratégia:
superar o cerco de bispos dogmáticos e submeter um rei faz-de-conta, quase tísico,
a constante ameaça de cheque mate. Preso ou solto, vivo ou morto, Lula, sua rouquidão
e surpreendentes analogias, apavoram os grandes.
Embora conquistando degraus na escala de renda e prestígio, Lula manteve-se atado ao
fio terra que o conecta ao insubornável faro político dos desvalidos. Não se justifica
reduzi-lo a intérprete de um dos segmentos do seu eleitorado. Mais do que os conselhos de
uma classe média ilustrada e brava, a arriscar apenas o voto, é a expectativa de emprego,
comida, saúde, educação, segurança e habitação que orienta a escolha dos grupos vulneráveis.
e os benefícios da vitória são imponderáveis, o custo da derrota é certo e bruto.
Não há conciliação digna com o adversário nem é conveniente alimentar um radicalismo
encurralado pela legislação.
Interromper a catástrofe social impondo indiscutível derrota eleitoral à reação aponta para
objetivo constitucional e razoável. Contudo, é indispensável inaugurar, sem tergiversação,
 persistente propaganda em favor de eleições conforme a legislação em vigor, sem casuísmos
urgidos pela oscilação das pesquisas. Nem antes e nem, definitivamente, depois da votação.
A lei está a favor das expectativas dos desvalidos. Opor-se a ela, difamando as eleições, não
passa de grosseria contra a totalidade do eleitorado brasileiro.
Fonte: OCafezinho

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Governo de Minas remaneja secretarias e anuncia extinção de 67 mil cargos vagos no Estado

O governo de Minas Gerais enviou hoje, 04.05.16, à Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) os 19 projetos que integram a reforma administrativa elaborada pelo Executivo. Eles preveem o contingenciamento de R$ 2 bilhões no orçamento deste ano e a extinção de 67 mil cargos atualmente vagos. Não haverá demissões. Também serão preservados cargos cuja ocupação está prevista em concursos homologados e em andamento.

Conforme os projetos, serão realizadas diversas mudanças na organização do Poder Público, envolvendo principalmente autarquias, fundações e empresas. No total, 11 órgãos deixarão de existir ou serão incorporados a outras estruturas.
Os servidores lotados em estruturas extintas serão abrigados em órgãos ou secretarias responsáveis por atribuições iguais ou similares. No entanto, servidores que ocupam cargos comissionados poderão perder a função e o salário correspondente. A quantidade de pessoas afetadas pela medida ainda não foi informada.
Descentralização
A reforma administrativa do governo mineiro vinha se desenhando desde 2015, com o início do mandato de Fernando Pimentel (PT). Em junho do ano passado, foi assinado um decreto para descentralizar a administração do estado. As então dez microrregiões foram substituídas por 17 territórios de desenvolvimento: Noroeste, Norte, Médio e Baixo Jequitinhonha, Mucuri, Alto Jequitinhonha, Central, Vale do Rio Doce, Vale do Aço, Metropolitana, Oeste, Caparaó, Mata, Vertentes, Sul, Sudoeste, Triângulo Norte e Triângulo Sul.
Na época, Pimentel explicou que a descentralização tinha por objetivo ampliar o processo de participação popular nos municípios mineiros, permitindo a realização de mais audiências públicas e consultas regionalizadas. Ao mesmo tempo, a medida permitiria economia aos cofres públicos, já que a gestão dos recursos seria mais eficiente e direcionadas às necessidades locais.
Segurança pública
Uma das principais mudanças sugeridas está relacionada à segurança pública. A Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds) seria desmembrada em duas secretarias: Administração Prisional e Segurança Pública. A medida objetiva dar mais autonomia às ações ligadas ao sistema penitenciário.
Sob a presidência do secretário de Segurança Pública, um comitê também seria constituído e integrado por representantes da Polícia Militar, Polícia Civil, Corpo de Bombeiros e Secretaria de Administração Prisional. Esta estrutura passaria a coordenar as políticas de segurança pública.
Mais mudanças
Outra mudança prevista é a extinção da Secretaria de Desenvolvimento Econômico. Suas atribuições seriam incorporadas pela Companhia de Desenvolvimento de Minas Gerais (Codemig), que ganharia status de secretaria. Ela passaria a executar a política de desenvolvimento planejada por um comitê composto por seis secretarias, pelo Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG), Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig), entre outros.
Entre os órgãos que seriam extintos estão o Departamento de Telecomunicação (Detel), Departamento de Obras Públicas (Deop), Instituto Hidroex e a Rural Minas. Na proposta, a Imprensa Oficial passa a ser uma subsecretaria da Secretaria de Estado de Casa Civil e de Relações Institucionais. A Ouvidoria Geral do Estado também seria extinta e os atuais ouvidores ficariam subordinados à Controladoria Geral do Estado (CGE).
A reestruturação prevê ainda que a Secretaria de Estado de Desenvolvimento Regional, Política Urbana e Gestão Metropolitana (Sedru) seria transformada na Secretaria de Estado de Cidades e Integração Regional. Também seria criada a Empresa Mineira de Comunicação. Ela reuniria na mesma estrutura a Rede Minas e a Rádio Inconfidência. 
Fonte: Agência Brasil

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Emir Sader: Por que eles têm medo do Lula?



Emir Sader, via Carta Maior

Lula representa o líder que não foi cooptado pela direita, pela mídia, pelas nações imperiais. 

Lula virou o diabo para a direita brasileira, comandada por seu partido: a mídia privada. Pelo que ele representa e por tê-los derrotado três vezes sucessivas nas eleições presidenciais, por se manter como o maior líder popular do Brasil, apesar dos ataques e manipulações de todo tipo que os donos da mídia – que não foram eleitos por ninguém para querer falar em nome do País – não param de maquinar contra ele.
Primeiro, ele causou medo quando surgiu como líder operário, que trazia para a luta política aos trabalhadores, reprimidos e superexplorados pela ditadura durante mais de uma década e o pânico que isso causava em um empresariado já acostumado ao arrocho salarial e à intervenção nos sindicatos.

Medo de que essa política que alimentava os superlucros das grandes empresas privadas nacionais e estrangeiras – o santo do chamado “milagre econômico” – terminasse e, com ela, a possibilidade de seguirem lucrando tanto à custa da superexploração dos trabalhadores.
Medo também de que isso tirasse as bases de sustentação da ditadura – além das outras bases, as baionetas e o terror – e eles tivessem de voltar às situações de incerteza relativa dos regimes eleitorais.

Medo que foi se acalmando conforme, na transição do fim do seu regime de ditadura militar para o restabelecimento da democracia liberal, triunfavam os conservadores. Derrotada a campanha das diretas, o Colégio Eleitoral consagrou um novo pacto de elite no Brasil, em que se misturavam o velho e o novo, promiscuamente na aliança PMDB/PFL, para dar nascimento a uma democracia que não estendia a democracia às profundas estruturas econômicas, sociais e midiáticas do país.

Sempre havia o medo de que Lula catalisasse os descontentamentos que não deixaram de existir com o fim da ditadura, porque a questão social continuava a arder no país mais desigual do continente mais desigual do mundo. Mas os processos eleitorais pareciam permitir que as elites tradicionais retomassem o controle da vida política brasileira.
Aí veio o novo medo, que chegou a pânico, quando Lula chegou ao segundo turno contra seu novo queridinho, Collor, o filhote da ditadura. E foi necessário usar todo o peso da manipulação midiática para evitar que a força popular levasse Lula à Presidência do Brasil, da ameaça de debandada geral dos empresários se Lula ganhasse, à edição forjada de debate, para tentar evitar a vitória popular.

O fracasso do Collor levou a que Roberto Marinho confessasse que eles já não elegeriam um presidente deles, teriam que buscar alguém no outro campo, para fazê-lo seu representante. Se tratava de usar de tudo para evitar que o Lula ganhasse. Foram buscar ao FHC, que se prestou a esse papel e parecia se erigir em antidoto permanente contra o Lula, a quem derrotou duas vezes.

Como, porém, não conseguem resolver os problemas do País, mas apenas adiá-los – como fizeram com o Plano Real –, o fantasma voltou, com o governo FHC também fracassando. Tentaram alternativas – Roseana Sarney, Ciro Gomes, Serra –, mas não houve jeito.

Trataram de criar o pânico sobre a possibilidade da vitória do Lula, com ataque especulativo, com a transformação do chamado “risco Brasil” para “risco Lula”, mas não houve jeito.

Alívio, quando acreditaram que a postura moderada do Lula ao assumir a Presidência significaria sua rendição à politica econômica de FHC, ao “pensamento único”, ao Consenso de Washington. Por um lado, saudavam essa postura do Lula, por outro incentivavam os setores que denunciavam uma “traição” do Lula, para buscar enfraquecer sua liderança popular. No fundo acreditavam que Lula demoraria pouco no governo, capitularia e perderia liderança popular ou colocaria suas propostas em prática e o país se tornaria ingovernável.

Quando se deram conta que Lula se consolidava, tentaram o golpe em 2005, valendo-se de acusações multiplicadas pela maior operação de marketing político que o País já conheceu – desde a ofensiva contra o Getulio, em 1954 –, buscando derrubar o Lula e sepultar por muito tempo a possibilidade de um governo de esquerda no Brasil. Colocavam em prática o que um ministro da ditadura tinha dito: Um dia o PT vai ganhar, vai fracassar e aí vamos poder governar o País sem pressão.
Chegaram a cogitar um impeachment, mas tiveram medo do Lula, de sua capacidade de mobilização popular contra eles. Recuaram e adotaram a tática de sangrar o governo, cercando-o no Parlamento e por meio da mídia, até que, inviabilizado, fosse derrotado nas eleições de 2006.

Fracassaram uma vez mais, quando o Lula convocou as mobilizações populares contra os esquemas golpistas, ao mesmo tempo que a centralidade das políticas sociais – eixo do governo Lula, que a direita não enxergava, ou subestimava e tratava de esconder – começava a dar seus frutos. Como resultado, Lula triunfou na eleições de 2006, ao contrário do que a direita programava, impondo uma nova derrota grave às elites tradicionais.

O medo passou a ser que o Brasil mudasse muito, tirando suas bases de apoio tradicionais – a começar por seus feudos políticos no nordeste –, permitindo que o Lula elegesse sua sucessora. Se refugiaram no “favoritismo” do Serra nas pesquisas – confiando, uma vez mais, na certeza do Ibope de que o Lula não elegeria sua sucessora.

Foram de novo derrotados. Acumulam derrota atrás de derrota e identificam no Lula seu grande inimigo. Ainda mais que nos últimos anos do seu segundo mandato e na campanha eleitoral, Lula identificou e apontou claramente o papel das elites tradicionais, com afirmações como a de que ele demonstrou “que se pode governar o Brasil, sem almoçar e jantar com os donos de jornal”. Quando disse que “não haverá democracia no Brasil, enquanto os políticos tiverem medo da mídia”, entre outras afirmações.

Quando, depois de seminário que trouxe experiências de regulações democráticas da mídia em várias partes insuspeitas do mundo, elaborou uma proposta de lei de marco regulatório para a mídia, que democratize a formação da opinião pública, tirando o monopólio do restrito número de famílias e empresas que controlam o setor de forma antidemocrática.

Além de tudo, Lula representa para eles o sucesso de um presidente que se tornou o líder político mais popular da história do Brasil, não proveniente dos setores tradicionais, mas um operário proveniente do nordeste, que se tornou líder sindical de base desafiando a ditadura, que perdeu um dedo na máquina – trazendo no próprio corpo inscrita a sua origem e as condições de trabalho dos operários brasileiros.

Enquanto o queridinho da direita partidária e midiática brasileira, FHC, fracassou, Lula teve êxito em todos os campos – econômico, social, cultural e de políticas internacionais –, elevando a autoestima dos brasileiros e do povo brasileiro. Lula resgatou o papel do Estado – reduzido à sua mínima expressão com Collor e FHC – para um instrumento de indução do crescimento econômico e de garantia das políticas sociais. Derrotou a proposta norte-americana da Alca – fazer a América Latina uma imensa área de livre comércio, subordinada aos interesses dos EUA –, para priorizar os projetos de integração regional e os intercâmbios com o Sul do mundo.

Lula passou a representar o Brasil, a América Latina e o Sul do mundo, na luta contra a fome, contra a guerra, contra o monopólio de poder das nações centrais do sistema. Lula mostrou que é possível diminuir a desigualdade e a pobreza, terminar com a miséria no Brasil, ao contrário do que era dito e feito pelos governos tradicionais.

Lula saiu do governo com praticamente toda a mídia tradicional contra ele, mas com mais de 80% de apoio e apenas 3% de rejeição. Elegeu sua sucessora contra o “favoritismo” do candidato da direita.

Aí acreditaram que poderiam neutralizá-lo, elogiando a Dilma como contraponto a ele, até que se rendem que não conseguem promover conflitos entre eles. Temem o retorno do Lula como presidente, mas principalmente o temem como líder político, como quem melhor vocaliza os grandes temas nacionais, apontando para a direita como obstáculo para a democratização do Brasil.

Lula representa a esquerda realmente existente no Brasil, com liderança nacional, latino-americana e mundial. Lula representa o resgate da questão social no Brasil, promovendo o acesso a bens fundamentais da maioria da população, incorporando definitivamente os pobres e o mercado interno de consumo popular à vida do país.

Lula representa o líder que não foi cooptado pela direita, pela mídia, pelas nações imperiais. Por tudo isso, eles tem medo do Lula. Por tudo isso, querem tentam desgastar sua imagem. Por isso 80% das referências ao Lula na mídia são negativas. Mas 69,8% dos brasileiros dizem que gostariam que ele volte a ser presidente do Brasil. Por isso eles têm tanto medo do Lula.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

A fábula petista, por Frei Betto


A Cigarra & a Formiga










da Folha, 10/11/2014
Frei Betto
Com o tempo, o PT deixou de valorizar o trabalho da formiga e passou a entoar o canto da cigarra. O projeto de Brasil deu lugar ao de poder
A disputa presidencial se resumiu em um verbo predominante na campanha: desconstruir. Em 12 anos de governo, o PT construiu, sim, um Brasil melhor, com índices sociais “nunca vistos antes na história deste país”. Porém, como partido, houve progressiva desconstrução.
A história do PT tem seu resumo emblemático na fábula “A cigarra e a formiga”, de Ésopo, popularizada por La Fontaine. Nas décadas de 80 e 90, o partido se fortaleceu com filiados e militantes trabalhando como formigas na base social, obtendo expressiva capilaridade nacional graças às Comunidades Eclesiais de Base, ao sindicalismo, aos movimentos sociais, respaldados por remanescentes da esquerda antiditadura e intelectuais renomados.
No fundo dos quintais, havia núcleos de base. Incutia-se na militância formação política, princípios ideológicos e metas programáticas. O PT se destacava como o partido da ética, dos pobres e da opção pelo socialismo.
À medida que alcançou funções de poder, o PT deixou de valorizar o trabalho da formiga e passou a entoar o canto presunçoso da cigarra. O projeto de Brasil cedeu lugar ao projeto de poder. O caixa do partido, antes abastecido por militantes, “profissionalizou-se”. Os núcleos de base desapareceram. E os princípios éticos foram maculados pela minoria de líderes envolvidos em maracutaias.
Agora, a cigarra está assustada. Seu canto já não é afinado nem ecoa com tanta credibilidade. Decresceu o número de sua bancada no Congresso Nacional. A proximidade do inverno é uma ameaça.
Mas onde está a formiga com suas provisões? Em 12 anos, os êxitos de políticas sociais e diplomacia independente não foram consolidados pela proposta originária do PT: “Organizar a classe trabalhadora” e os excluídos.
Os avanços socioeconômicos coincidiram com o retrocesso político. Em 12 anos de governo, o PT despolitizou a nação. Preferiu assegurar governabilidade com alianças partidárias, muitas delas espúrias, em vez de estreitar laços com seu esteio de origem, os movimentos sociais.
Tomara que Dilma cumpra sua promessa de campanha de avançar nesse quesito, sobretudo no que diz respeito ao diálogo permanente com a juventude, os sem-terra e os sem-teto, os povos indígenas e os quilombolas.
O PT até agora robusteceu o mercado financeiro e deu passos tímidos na reforma agrária. Agradou as empreiteiras e pouco fez pelos atingidos por barragens. Respaldou o agronegócio e aprovou um Código Florestal aplaudido por quem desmata e agride o meio ambiente.
É injusto e ingênuo pôr a culpa da apertada e sofrida vitória do PT nas eleições de 2014 no desempenho de Dilma.
Se o PT pretende se refundar, terá que abandonar a postura altiva de cigarra e voltar a pisar no chão duro do povo brasileiro, esse imenso formigueiro que, hoje, tem mais acesso a bens materiais, como carro e telefone celular, mas nem tanto a bens espirituais: consciência crítica, organização política e compromisso com a conquista de “outros mundos possíveis”.
CARLOS ALBERTO LIBANIO CHRISTO, 70, o Frei Betto, é assessor de movimentos sociais e escritor. É autor de “A Mosca Azul – Reflexão sobre o Poder” (Rocco), entre outros livros.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Quem decifra Marina?

Oficializada como candidata pelo PSB, Marina Silva entra no jogo eleitoral e demonstra fôlego para chegar à Presidência, mas hoje é uma espécie de esfinge política. Repleta de contradições, já provocou baixas em sua própria base de apoio

Claudio Dantas Sequeira e Josie Jerônimo.
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A PRIMEIRA BAIXA O secretário-geral do PSB, Carlos Siqueira, deixou a campanha depois de se desentender com Marina Silvaft;">Candidata oficial do PSB à Presidência da República desde a quarta-feira 20, Marina Silva vem provocando um reboliço no cenário eleitoral. Pesquisas de opinião indicam que a ex-senadora tem fôlego para superar o desempenho obtido na campanha de 2010 e até chegar a um segundo turno. Tais chances ficarão mais claras quanto maior for o conhecimento do eleitor sobre suas ideias e convicções. É aí que moram os problemas da candidata. Marina é uma personagem ainda enigmática e repleta de contradições – uma espécie de esfinge política. A evangélica fervorosa de aparência frágil esconde uma personalidade forte, geralmente inflexível e com escassa capacidade de articulação política. Essa faceta – combinada a posições radicais e a um comportamento quase messiânico – transforma Marina num enorme ponto de interrogação, praticamente um cheque em branco.


O ENIGMA MARINA
A candidata do PSB cresce nas pesquisas, em meio à comoção nacional
pela morte de Eduardo Campos, mas ainda precisa deixar claro
quais são suas ideias e seus projetos para o País

Até a morte de Eduardo Campos no brutal acidente aéreo três semanas atrás, Marina desfrutava da confortável posição de vice na chapa liderada pelo socialista. Funcionava como cabo eleitoral de luxo, tentando transferir para o colega ao menos parte dos 20 milhões de votos que amealhou há quatro anos. Era coadjuvante. Quem ia para os embates públicos, quem participava das sabatinas de entidades do setor produtivo e precisava responder às incômodas perguntas de jornalistas era Campos. Mas a tragédia que ceifou a vida do ex-governador também arrancou o véu que a protegia. Agora, na condição de protagonista, Marina terá de enfrentar esses dilemas.
Evangélica ligada à Assembleia de Deus, a candidata faz da fé religiosa um hábito político. Seja em reuniões partidárias, seja em discursos ou entrevistas, gosta de citar parábolas da “Bíblia” – e sempre carrega um exemplar no qual faz anotações constantes. Quando era ministra do Meio Ambiente, Marina convidava assessores para participar de pequenos cultos, que aconteciam muitas vezes dentro de seu próprio gabinete. Num Estado laico como o Brasil, religião é questão de foro íntimo. Convém não usá-la para justificar atos de gestão e muito menos a construção de políticas públicas, sob o risco de retrocesso à época pré-republicana, quando a Igreja controlava o Estado. O usual no País é ver a fé popular explorada por políticos de viés populista, que apostam no culto à personalidade para se perpetuarem no poder.
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CHAPA
Na quarta-feira 20, o PSB confirmou Marina Silva como candidata ao Planalto.
O deputado Beto Albuquerque (à dir.) será o vice

Marina se aproximou perigosamente desse caminho quando alegou não ter embarcado no avião de Eduardo Campos por “providência divina”. Menos mal que Marina tenha incluído o filho caçula e a viúva de Campos na afirmação. Ou seja, segundo seu próprio entendimento, ela não foi a única escolhida por Deus para permanecer no convívio entre os mortais. De qualquer forma, declarações nesse tom reforçam o caráter messiânico de sua candidatura e reduzem as chances de justificativas racionais. Na verdade, Marina não embarcou para o Guarujá, no mesmo avião de Eduardo Campos, porque não queria encontrar-se com o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, nem com seu vice, o socialista Márcio França. Ela sempre foi contra a aliança do PSB com o PSDB. Mas mexer com o imaginário coletivo, ao que parece, rende mais votos do que falar sobre escaramuças partidárias.
Marina se cerca de cuidados, no entanto, quando suas crenças podem colocar muitos votos em risco. É assim com o debate sobre a liberação do aborto. Antes, aliando-se à grande maioria dos evangélicos, era contra. Hoje, segundo ela, o assunto deve ser decidido em plebiscito. Sobre o casamento gay, já teve várias posições. Em 2010, se dizia contrária, agora defende a criminalização da homofobia e até apoia a adoção por casais homosafetivos. Mas numa palestra na Universidade Católica de Pernambuco, no ano passado, saiu em defesa do deputado Marco Feliciano (PSC-SP), que se notabilizou pelas atitudes homofóbicas. Para Marina, o parlamentar estava sendo criticado só “por ser evangélico”. Ao tentar explicar a declaração, Marina atacou um representante do agronegócio e provocou outra polêmica.
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A declaração não ocorreu por acaso. Para Marina, o agronegócio, que representa 23% do Produto Interno Bruto (PIB), é o maior vilão do meio ambiente. Essa é outra questão que a candidata a presidente pelo PSB precisa esclarecer. Como alguém que anseia assumir o Executivo do País pode desconsiderar um setor que responde por 23% do PIB? Contra a agricultura e a pecuária extensivas, ela propõe um modelo “inteligente”, que produza mais com menos recursos. “Temos que agregar o conhecimento e a base tecnológica, ampliando cada vez mais para ter uma produtividade que crie uma nova narrativa para os nossos produtos”, diz Marina. Mas a candidata não explica como fará isso, o que só apavora os empresários do setor. Para tentar ganhar a confiança do campo, ela e a cúpula do PSB, com o aval da família de Campos, decidiram indicar como vice na chapa o deputado federal gaúcho Beto Albuquerque.
Importantes empresas do setor doaram para as últimas campanhas de Albuquerque, que também atuou fortemente para a liberação do cultivo da soja transgênica – coincidentemente, na época em que Marina era ministra do Meio Ambiente e nem sequer era chamada para os debates sobre o tema no Palácio do Planalto. Ele também recebeu contribuições de indústrias de agrotóxicos, armas e bebidas. Ao redigir o estatuto da “Rede Sustentabilidade”, Marina proibiu doações desses segmentos. Na condição de candidata, na semana passada, ela reforçou a intenção de vetar contribuições desses setores. Resta saber se o veto se estenderá ao seu vice.
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Outras questões essenciais para quem almeja a Presidência da República permanecem mergulhadas em água turva por Marina. Questionada sobre a matriz energética brasileira, na semana passada, entoou discurso que parecia um eco da campanha de 2010. “Infelizmente, estamos sujando a matriz energética brasileira. Os arremedos que estão sendo feitos com as térmicas para os momentos de baixa dos reservatórios têm de ser reduzidos”, afirmou. Como resolverá o problema, não deixou claro. Falou em compensar a produção com investimentos em fontes já existentes. No passado recente, Marina defendia a ampliação do parque eólico e de energia solar, além da substituição de grandes hidrelétricas por pequenas centrais. As medidas são consideradas insuficientes por especialistas. A postura de Marina traz incerteza para o futuro de projetos cruciais para a ampliação da oferta de energia, como a construção da usina de Belo Monte. 
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A PRIMEIRA BAIXA
O secretário-geral do PSB, Carlos Siqueira, deixou a campanha
depois de se desentender com Marina Silva

Durante o governo Lula, o debate sobre a política energética acomodou em trincheiras opostas as atuais adversárias na corrida eleitoral Dilma Rousseff (PT), então chefe da Casa Civil, e Marina Silva, à época ministra do Meio Ambiente. “Desde então, é como água e óleo. Elas não se misturam”, disse à ISTOÉ um ex-ministro do PT. As duas, no entanto, guardam semelhança numa característica essencial ao exercício do poder: ambas têm pouco jogo de cintura político. Toda vez que ocupou cargos administrativos, Marina Silva cultivou uma maneira bem peculiar de tomar decisões, que escapa aos moldes usuais. Segundo assessores próximos, ela gosta de reunir todos ao redor de uma mesa para colher suas opiniões. A decisão, no entanto, ela toma sozinha, fechada em copas. A palavra final nem sempre é consenso entre seus pares. Antes da derradeira tomada de posição, normalmente provoca suspense, deixando tensos até os aliados mais próximos. Foi assim, surpreendendo a todos, que em reunião com dirigentes do PSDB, Marina sacou essa: “Busco uma aliança com a sociedade, não com as forças políticas tradicionais. Se isso prevalecer, e se eu for eleita, só governo por quatro anos, sem reeleição”, disse, para o espanto da maioria. Essa maneira de operar gera problemas na articulação política. Quando era senadora, tinha dificuldades para negociar com colegas de plenário. Sem diálogo, sem capacidade de convencimento, Marina demonstrou um desempenho parlamentar pífio. Das 73 proposições apresentadas, a parlamentar conseguiu a aprovação de apenas três: uma PEC regulamentando a aposentadoria do “extrativista vegetal”, um projeto de lei que obriga o SUS a garantir transporte e alimentação a pacientes e outra proposição criando o “Dia Nacional dos Povos da Floresta”.
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A falta de traquejo ficou novamente evidenciada nas negociações da nova chapa da coligação. Para ser chancelada pelo PSB, a candidata exigiu o controle do comando e das finanças da campanha. Escalou o ex-deputado Walter Feldman para a coordenação-geral, escanteando o socialista Carlos Siqueira. Ele abandonou a reunião no meio da fala de Marina, a quem chamou de “hospedeira”. “Ela não representa o legado de Campos. Que vá mandar na Rede dela”, disse ele, antes de resolver abandonar a campanha. Também desertaram os governadores Camilo Capiberibe (Amapá) e Ricardo Coutinho (Paraíba). Na quinta-feira 21, na tentativa de apaziguar os ânimos internos, Marina resolveu mudar a equipe. Designou Luísa Erundina para a coordenação e acomodou Márcio França na tesouraria. Questionada sobre a crise, Marina disse que houve uma incompreensão. De fato, fazer com que os outros a compreendam não é muito o forte da candidata.  
Foto: Adriano Machado