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sábado, 14 de abril de 2018

Uma possivel Terceira Guerra Mundial


Chovia muito e fazia um frio gélido quando cheguei naquela noite em Zahle, na fronteira entre o Líbano e a Síria, a cidade milenar que já fora um dos celeiros do Império Romano. A linda cercada pelas montanhas de Haidi e Bir Gahzour, banhada pelo rio Bardhouni e repleta de grutas descobertas pelos romanos, no coração do Vale do Beqaa, o vale dos vinhedos e de alguns dos mais importantes sítios arqueológicos do mundo. O Vale onde estãoo templos romanos de Júpiter, de Baco e da deusa Vênus. O Vale de onde partiram, em busca de um sonho, milhares de sírios e libaneses em direção ao Brasil nos séculos XIX e XX.
No dia seguinte , bem cedo, eu me encontraria com Tariq e Samira , um casal de refugiados sírios, com dois filhos pequenos, que ele professor universitário e ela médica, que haviam perdido absolutamente tudo e agora viviam no campo de refugiados de Zahle.
Tariq fazia parte de um coletivo de professores e vinha escrevendo artigos contra Assad em sua pequena cidade. Ele me contara naquele dia que, durante as primeiras manifestações de abril, ainda em 2011, foi para as praças com a esposa e chegou a acreditar que poderia haver uma transição pacífica, preservando tudo o que Assad fizera de positivo para o país, mas com novas eleições, e que não haveria uma guerra.

Sua visão do que aconteceria mudou completamente quando percebeu que um de seus vizinhos, um homem sunita que praticava o whahhabismo e que havia estudado na Arábia Saudita , estava convocando reuniões noturnas em sua casa e parecia estar recebendo caixas imensas vindas do exterior. Tariq não demorou muito para descobrir que as caixas recebidas pelo viziho e ex amigo estavam repletas de armas de fabricação americana.
Ele me contara também que poucos meses depois sua casa foi bombardeada por membros da Frente Al Nusra, o braço da Al Qaeda na Síria, 6 parentes seus foram mortos, sua cidade fora destruída e haviam começado os boatos de que Assad estava usando armas químicas contra a população síria. Um dos amigos de Tariq era um dos maiores engenheiros químicos da Síria, trabalhara durante anos na mesma Universidade, e mesmo fazendo duras críticas a Assad, afirmava categoricamente que a Síria não possuía armas químicas e que essa afirmação era tão fraudulenta quanto as de que Saddam Hussein possuía armas de destruição de massa.
Hoje , mais do que nunca , tenho poucas certezas sobre o futuro da Síria e das crianças qe conheci no campo de refugiados de Zahle. Mas uma das poucas certezas que tenho é de que a Síria jamais possuiu um arsenal químico e de os dois ataques atribuídos a Assad pela comunidade internacional foram cometidos por mãos que espalham apenas a morte, mãoos armadas pelos EUA e Arábia saudita.
No caso do ataque mais recente, na cidade de Duma, as próprias evidências de que tenha havido um ataque são confusas. Depois que foram libertadas do domínio de terroristas do ISIS, parte da cidade de Ghouta Oriental e dos arredores de Duma, foram inspecionadas por um grupo de engenheiros de várias nacionalidades e, segundo o diplomata russo Vasilli Nebenzia, os engenheiros relataram a OPAQ , a Organização para a Proibição de Armas Químicas, que não encontraram sequer rastros de substâncias químicas e não encontraram as provas materiais que os EUA afirmavam ter sobre o ataque. O grupo conversou com médicos do único hospital deixado de pé pelos terroristas que rebatem a versão dada por Trump.
As perguntas para as quaias não encontro respostas são muitas. Por que Assad, no momento final da guerra, depois de obetr uma série de vitórias contra o ISIS e outros grupos terroristas armados pela Coalizão, faria um ataque químico contra seu próprio povo? Por que, num momento em que seria crucial para ele, retomar o diálogo com quem se opunha a ele e reconquistar a confiança de uma parte da população, Assad faria um ataque desumano e dessa dimensão? Nâo seria um imenso erro estratégico?
Como se não bastassem toda a dor que testemunhei na fronteira, como se nãoo bastassem as 450 mil mortes de mulheres, homens e crianças sírias, como se não bastassem os dois milhões de feridos, como se não bastassem os 10 milhões de refugiados, as centenas de escolas destruídas , as cidades dizimadas, as dezenas de hospitais bombardeados e a esperança violentada, o presidente Donald Trump acaba de fazer, via twiter, a maior ameaça à paz mundial desde o fim da Segunda Guerra Mundial.
Depois de cancelar sua viagem a América Latina, onde participaria da Cúpula das Américas, e dizer que estava estudando uma resposta para o país árabe, Trump agora ameaça disparar mísseis contra a Síria, sem nenhum aval do Conselho de Segurança da ONU, enquanto grita, como um garoto de 11 anos jogando contra um rival mais experiente, que a Rússia deve se preparar. "A Rússia promete abater quaisquer mísseis disparados contra a Síria. Prepare-se, Rússia, pois eles estão chegando, bons, novos e 'inteligentes'! Você não deveria se ter aliado ao animal assassino com gás que mata o seu povo....! 
Trump profere as ameaças mais insanas diante da perplexidade do mundo.
A atitude perigosa de um presidente que age como estivesse em um reality show filmado numa escola de ensino fundamental, deixa o mundo todo e a todos aqueles que amamos, diante da possibilidade inexorável de uma Terceira Guerra Mundial.
Um presidente que sequestra a semântica, a dialética e os vocábulos, usando a palavra PAZ de forma obscena. Como se a PAZ pudesse de fato ser obtida através de bombardeios, mentiras, fraudes, mortes e mais guerras. Um presidente fascistóide e moralmente anão, que, não conseguindo mobilizar mentes e corações para grandes projetos humanos ou grandes transformações, os mobiliza para o mais cruel e perigoso jogo dos medíocres. A guerra.

Estados Unidos atacam Síria. Terceira Guerra Mundial à vista.

A Terceira Guerra Mundial pode ter começado nesta noite, com o ataque de Estados Unidos, França e Inglaterra contra a Síria;
O embaixador da Rússia em Washington anunciou que o ataque contra a Síria não ficará sem resposta; 
Em seu pronunciamento, Trump afirmou que o "uso de armas químicas" pela Síria, que não foi comprovado, deixou mulheres e crianças se debatendo; 
Ataque do Ocidente não foi autorizado pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas.
www.brasil247.com, com informações da Sputinik 
A Terceira Guerra Mundial pode ter começado nesta noite, 13.04.18, com o ataque de Estados Unidos, França e Inglaterra contra a Síria, um país já destruído por uma intervenção do Ocidente, que matou 450 mil pessoas e deixou 10 milhões de refugiados. 
De acordo com o site RT, o embaixador da Rússia em Washington anunciou que o ataque contra a Síria não ficará sem resposta. "As ações empreendidas hoje na Síria terão consequências, e a responsabilidade total recai sobre os Estados Unidos, o Reino Unido e a França, disse o embaixador russo nos Estados Unidos", Anatoly Antonov, em um comunicado após o ataque.
"As piores apreensões se tornaram realidade. Nossos alertas não foram ouvidos. Um cenário premeditado está sendo implementado. Novamente, estamos sendo ameaçados. Advertimos que tais ações não serão deixadas sem consequências", disse Antonov na sexta-feira. 
"Toda a responsabilidade cabe a Washington, Londres e Paris", disse o diplomata.
Na noite de sexta-feira, Trump disse um ataque estava em andamento, em resposta ao suposto ataque químico em Douma, que Damasco e Moscou negam. 
Os analistas estão intrigados com a lógica da decisão de Trump de enfrentar o "assassino Assad" com chuva de explosivos na Síria, matando sírios.
As cidades de Damasco, Homs, uma instalação de pesquisa em Barzeh foram supostamente atacadas durante as operações militares dos EUA, Reino Unido e França.
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Entenda a Guerra Civil na Síria
7 perguntas para entender o conflito
  • BBC, 15 março 2018
Sirio lamentaDireito de imagemREUTERS
Um levante pacífico contra o presidente da Síria que teve início há sete anos transformou-se em uma guerra civil que já deixou mais de 350 mil mortos, devastou cidades e envolveu outros países.
O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) calcula que mais de 5 milhões já deixaram o país.
Entenda a seguir a origem desse conflito e suas consequências até agora.

1. Como a guerra começou?

Sírios em conflitoDireito de imagemAFP
Mesmo antes do conflito começar, muitos sírios reclamavam dos altos índices de desemprego, corrupção e falta de liberdade política sob o presidente Bashar al-Assad, que sucedeu seu pai, Hafez, após sua morte, em 2000.
Em março de 2011, protestos pró-democracia eclodiram na cidade de Deraa, ao sul do país, inspirados pelos levantes da Primavera Árabe em países vizinhos.
Quando o governo empregou força letal contra dissidentes, houve manifestações em todo o país exigindo a renúncia do presidente.
O clima de revolta se espalhou, e a repressão se intensificou. Apoiadores da oposição pegaram em armas, primeiro para defender a si mesmos e depois para expulsar forças de segurança das áreas onde viviam. Assad prometeu acabar com o que chamou de "terrorismo apoiado por estrangeiros".
Seguiu-se uma rápida escalada de violência, e o país mergulhou em uma guerra civil.

2. Quantas pessoas já morreram?

Criança síria feridaDireito de imagemGETTY IMAGES
O Observatório Sírio de Direitos Humanos, uma ONG britânica que monitora o conflito com base em uma rede de fontes locais, registrou 353.900 mortes até março de 2018, incluindo 106 mil civis.
Os dados não incluem 56.900 pessoas que estão desaparecidas e consideradas mortas. O grupo também estima que 100 mil mortes não foram documentadas.
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Enquanto isso, o Centro de Documentação de Violações, que recorre a ativistas na Síria, registrou o que avalia ser violações às leis de direitos humanos internacionais, inclusive ataques contra civis.
Foram documentadas 185.980 mortes relacionadas ao conflito, entre elas as de 119.200 civis, até fevereiro de 2018.
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3. Do que se trata a guerra?

Crianças síriasDireito de imagemAFP
Agora é mais um conflito entre aqueles a favor e contra Assad.
Muitos grupos e países, cada um com suas próprias agendas, estão envolvidos, tornando a situação muito mais complexa e prologando a guerra.
Eles foram acusados de cultivar o ódio entre os grupos religiosos na Síria, colocando a maioria muçulmana sunita contra o secto xiita alauíta do presidente.
'Pelo menos no céu ele vai ter comida': o drama das crianças sírias em meio aos bombadeios
Essas divisões fizeram com que ambos os lados cometessem atrocidades, dividindo comunidades e tornando mais tímida a esperança de paz.
Também permitiram que grupos jihadistas como o autodenominado Estado Islâmico e a al-Qaeda florescessem.
Os curdos sírios, que querem ter o direito de governar a si próprios mas não combatem as forças de Assad, acrescentam outra dimensão ao conflito.

4. Quem está envolvido?

Combatentes na SíriaDireito de imagemREUTERS
Os principais apoiadores do governo são a Rússia e o Irã, enquanto os Estados Unidos, a Turquia e a Arábia Saudita apoiam os rebeldes.
A Rússia já tinha bases militares na Síria e lançou uma campanha militar aérea em apoio a Assad em 2015 que foi crucial para virar o andamento da guerra a favor do governo.
Os militares russos dizem que os ataques têm como alvo "terroristas", mas ativistas afirmam que regularmente morrem rebeldes e civis.
Acredita-se que o Irã tenha enviado centenas de soldados e gasto bilhões de dólares para ajudar Assad.
Milhares de muçulmanos xiitas que integram milícias armadas, treinadas e financiadas pelo Irã - a maioria é do Hezbollah no Líbano, mas também do Iraque, Afeganistão e do Iêmen - têm lutado ao lado o Exército sírio.
Os Estados Unidos, Reino Unido, França e outros países ocidentais forneceram variados graus de apoio para o que consideram ser rebeldes "moderados".
Uma coalizão global liderada por eles também realiza ataques contra militantes do Estado Islâmico na Síria desde 2014 e ajudou uma aliança entre milícias árabes e curdas chamada Forças Democráticas Sírias (FDS) a assumir o controle de territórios antes dominados por jihadistas.
A Turquia apoia há tempos os rebeldes, mas concentrou esforços em usá-los para conter a milícia curda que domina a FDS, acusando-a de ser uma extensão de um grupo rebelde curdo banido do território turco.
A Arábia Saudita foi um elemento-chave para conter a influência iraniana e também armou e financiou os rebeldes.
Ao mesmo tempo, Israel tem se preocupado muito com o envio de armas iranianas para o Hezbollah na Síria e tem realizado ataques aéreos para interromper isso.

5. Como o país tem sido afetado?

Menina síriaDireito de imagemAFP
Além de causar centenas de milhares de mortes, a guerra incapacitou 1,5 milhões de pessoas, entre ela 86 mil que perderam membros do corpo.
Ao menos 6,1 milhões de sírios tiveram de deixar suas casas para buscar abrigo em alguma outra parte do país, enquanto outros 5,6 milhões se refugiaram no exterior.
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Líbano, Jordânia e Turquia, onde 92% destes sírios refugiados vivem hoje, têm enfrentado dificuldades para lidar com um dos maiores êxodos da história recente.
A ONU estima que 13,1 milhões de pessoas necessitarão de algum tipo de ajuda humanitária na Síria em 2018.
Os dois lados do conflito pioraram essa situação ao se recusar a permitir o acesso de agências com fins humanitários a quem precisa de auxílio. Quase 3 milhões de pessoas vivem em áreas alvos de cerco e de difícil acesso.
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Os sírios também têm acesso limitado a serviços de saúde.
A organização Médicos por Direitos Humanos registrou 492 ataques a 330 instalações médicas até dezembro de 2017, o que resultou em 847 profissionais de saúde mortos.
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Grande parte do patrimônio cultural da Síria também foi destruído. Todos os seis locais considerados pela Unesco como patrimônio da humanidade sofreram danos significativos.
Bairros inteiros foram arrasados em todo o país.

INTERACTIVEA destruição do bairro de Jobar, em Ghouta Oriental, desde 2013

Fevereiro de 2018

A imagem de satélite mostra a destruição de muitos edifícios do bairro residencial de Jobar

Agosto de 2013

A imagem de satélite mostra parte do bairro residencial de Jobar em 2013

6. Como o país está dividido?

Criança síriaDireito de imagemREUTERS
O governo reassumiu o controle das maiores cidades sírias, mas grandes partes do país ainda estão sob o comando de grupos rebeldes e da FDS.
O principal reduto de oposição é a província de Idlib, no nordeste do país, onde vivem mais de 2,6 milhões de pessoas.
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Apesar de designada como uma zona onde não deveria haver hostilidades, Idlib é alvo de uma ofensiva do governo, que diz estar combatendo jihadistas ligados à Al-Qaeda.
Ataques por terra também estão em curso em Ghouta Oriental. Seus 393 mil residentes estão sob o cerco do governo desde 2013 e enfrentam intensos bombardeios, assim como uma grave falta de comida e de suprimentos médicos.
Enquanto isso, a FDS controla a maioria do território a leste do rio Eufrates, incluindo a cidade de Raqqa. Até 2017, esta era a capital do "califado" que o Estado Islâmico disse ter instaurado, mas, agora, o grupo controla apenas alguns bolsões na Síria.

7. A guerra vai acabar algum dia?

Guerra na SíriaDireito de imagemAFP
Não há qualquer sinal de que o conflito chegará ao fim em breve, mas todos os lados envolvidos concordam que uma solução política é necessária.
O Conselho de Segurança da ONU pediu a implementação de um governo de transição "formado com base em consentimento mútuo".
Mas nove rodadas de conversas de paz mediadas pela ONU desde 2014 obtiveram poucos progressos.
Assad parece cada vez menos disposto a negociar com a oposição. Rebeldes ainda insistem que ele renuncie como parte de qualquer acordo.
As potências ocidentais acusam a Rússia de minar as conversas de paz ao estabelecer um processo político paralelo, conhecido como processo Astana, com a Rússia sediando um "Congresso de Diálogo Nacional" em janeiro de 2018.
No entanto, a maioria dos representantes da oposição se recusaram a participar.

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Aylan, 3 anos, afogou-se num oceano de hipocrisia

Paulo Moreira Leite, no www.brasil247.com


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    Pessoas honestamente comovidas com a imagem de Aylan Shenu, 3 anos, o menino  que morreu afogado quando sua família tentava fugir da guerra civil da Síria para chegar a costa da Turquia,  devem precaver-se contra a torrente de explicações místicas, fatalismos históricos e outras falsificações típicas dessas horas.
    Quando as responsabilidades por uma tragédia vergonhosa e colossal estão aí, à vista de todos, nada mais conveniente do que procurar argumentos irracionais e obscuros para aquilo que se define com o maior colapso humanitário depois da Segunda Guerra Mundial.  
   A guerra civil da Síria – de onde a família de Aylan tentava escapar, numa fuga aonde também pereceram a mãe e um irmão do menino – é resultado direto de uma ação militar iniciada em 2011, pelo governo dos Estados Unidos. A operação fez parte do esforço de Washington para derrubar a ditadura de Bashar Al Assad, derrotar seus aliados russos e chineses, e tomar posse, entre outras coisas,  de reservas estimadas em trilhões de barris de gás e petróleo. 
  Escrevendo numa conjuntura anterior aos acordos entre Teerã e Washington sobre o programa nucelar do Irã, o diplomata Luiz Alberto Moniz Bandeira explicou  que "a  queda do regime sírio permitiria suprimir a presença da Rússia, onde ela mantém duas bases navais, cortar as vias de suprimento de armas para as organizações pró-xiitas  Hisbollah, no Líbano, e Hamas, na Palestina, conter o avanço da China sobre as fontes de petróleo, isolar completamente e estrangular o Irã."  Para Moniz Bandeira, o resultado dessa intervenção seria o estabelecimento de uma situação de controle, por parte dos Estados Unidos e de seus aliados europeus, de toda área do Mediterrâneo, revertendo uma situação que se modificou com as revoltas coloniais do século XX.
    Sustentando uma unidade de adversários de Assad que incluem mercenários e terroristas, até hoje os EUA Unidos mantém uma guerra que dificilmente poderá ser vencida, mas da qual não podem se retirar sob o risco de um vexame . Isso explica o morticínio gradual, que aos poucos inviabiliza o país, do qual a família Shenu procurava escapar de qualquer maneira.  
   Motivo de indignação internacional dias depois de uma tragédia igualmente vergonhosa -- a morte por sufocamento de 71 imigrantes eslovacos no interior de um caminhão frigorífico no interior da Áustria -- a imagem de Aylan Shenu provocou uma reação de Ângela Merkel, a chanceler alemã. "Se a Europa falhar na questão dos refugiados, essa não será a Europa que sonhamos," disse ela.
    Para sair do sonho para a realidade, no entanto, não bastam medidas de caráter humanitário, por mais que sejam inteiramente justificáveis diante da situação. Não se vislumbra o que a União Europeia possa fazer a caminho de uma solução ampla e duradoura – sem colocar em questão sua política econômica de austeridade, crescimento baixo, desemprego alto.
    Hoje, 26,5 milhões de europeus estão desempregados, numa taxa média que bateu em 9,6% em abril, contra 5,4% nos Estados Unidos. Na Espanha, o desemprego é de 22,5% e passou de 10% na França. Localizado na região geográfica que abriga o maior PIB e o maior mercado consumidor do planeta, o colapso europeu explica a dificuldade política para se tomar, de uma hora para outra, qualquer medida que possa ser interpretada como excessivamente generosa em relação a estrangeiros – a menos que venham a ser  acompanhadas de medidas de estímulo ao crescimento capazes de responder também às necessidades dos próprios europeus.
    É uma hipótese tão remota que sequer se especula a respeito – como se comprovou com o castigo imposto ao primeiro-ministro Alexis Tsripas (25% de desemprego) forçado a abandonar qualquer Europa com a qual havia sonhado diante da intransigência de Angela Merkel.
   A imagem de um menino morto, de pernas brancas, magras e finas, sendo transportado por um policial, comove e dói.
   Mas vamos combinar que a hipocrisia também machuca.