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segunda-feira, 3 de maio de 2021

Quem é este tal "mercado" que fica nervoso com candidaturas de esquerda?

Afinal, quem é o tal “mercado” que precisa ser acalmado? 


São os donos de bancos, de corretoras e os maiores gestores de fundos de investimento que se auto intitulam “o mercado” e colocam o país de joelhos como refém .

Por Eduardo Moreira * 
Basta que alguma medida que proteja trabalhadores, redistribua renda ou ofereça algum tipo de benefício para as camadas mais pobres da população seja proposta que imediatamente uma chantagem covarde alegando que tal medida pode levar o “mercado” à ruína se inicia. 

Assustada pelas manchetes dos principais meios de comunicação e com medo do que a tal “piora do mercado” pode ocasionar em suas vidas, a opinião pública se coloca prontamente contra tais medidas, numa defesa inequívoca do tal “mercado” que sequer conhece, mesmo que isto signifique abrir mão de condições mais dignas e justas para (sobre)viver. 

Mas afinal de contas, quem é este tal mercado a quem aprendemos a defender com unhas e dentes?

Em tese, a expressão deveria se referir ao mercado de capitais, ambiente onde empresas e governos podem acessar investidores para buscar financiamento para seus projetos através da emissão de dívidas e ações (estas últimas, somente empresas). Em relação a este, não há dúvidas que deva ser saudável e funcionar adequadamente. Isto é benéfico para a economia dado que ajuda projetos a sair do papel, torna a economia mais competitiva e traz a atividade das maiores empresas do país para as discussões da sociedade, dado que empresas que participam do mercado (de capitais) precisam cumprir regras de governança e informar suas atividades com transparência. Infelizmente, porém, não é a este mercado que as notícias se referem, mesmo que as pessoas tenham dificuldade de perceber este fato.

E a dica já vem na forma como as notícias são estruturadas. Percebam que a manchete sempre se refere ao tal “mercado” de maneira personificada. “Bolsonaro tenta acalmar o mercado e fala em independência do BC” (Exame, 22 de fevereiro de 2021), “Como Bolsonaro usa a Eletrobrás para afagar o mercado” (Nexo, 24 de fevereiro de 2021)… “A situação mudou de figura em junho, e o mercado ficou nervoso com a possibilidade de o PT chegar ao poder” (Infomoney, 30 de novembro de 2020).

Um ambiente de negócios, uma plataforma ou um sistema jamais ficam calmos ou nervosos, muito menos precisam ser afagados. As notícias não estão falando do mercado de capitais. Estão falando de pessoas! Mais especificamente de um punhado delas somente. São os donos de bancos, de corretoras e os maiores gestores de fundos de investimento, que se auto intitulam “o mercado” e colocam o país de joelhos como refém todas as vezes que se veem contrariados no objetivo de aumentar seus – já estratosféricos – lucros.

Já é mais do que hora de entender que o mercado é somente o termômetro de uma economia. O paciente – no caso brasileiro, o doente – é a economia em si. As atividades de criação e transformação de riqueza que ocorrem em um país.

Cuidar da economia é outra coisa. É cuidar das pessoas, aquelas esquecidas pela chantagem deste tal “mercado” de mentira.

Chega de acreditar na mentira repetida mil vezes de que temos de cuidar do termômetro para o doente melhorar. Temos é de olhar para o doente e aí inevitavelmente o termômetro refletirá esta melhora. Gostem ou não deste ou daquele candidato, desta ou daquela medida. Basta lembrar que mesmo sendo hostilizado pelo tal “mercado”, o presidente Lula ganhou as eleições em 2002 e viu o índice da bolsa brasileira medido em dólares multiplicar seu valor por quase 20 vezes em pouco mais de 6 anos, um fato inédito no país.

“Cuidar do mercado” é ter um mercado de capitais transparente, seguro, regulado, moderno e acessível ao pequeno, médio e grande investidor. Este cuidado é bem vindo.

Cuidar da economia é outra coisa. É cuidar das pessoas. Estas que estão esquecidas no país, por conta da chantagem deste tal “mercado” de mentira.  

* Empresário, é engenheiro e ex-banqueiro de investimentos

Comentário do Blog:

Esse tal mercado é o mesmo formado por pessoas que vivem de renda, de especulação financeira, que pouco investe na produção que gera trabalho, renda e movimenta a economia na produção e consumo de bens. Essas pessoas são chamadas de rentistas, aqueles que vivem de renda.

O mercado fica nervoso com as candidaturas de esquerda porque temem que suas aplicações financeiras, seus dividendos, sejam regulados e taxados, o que não ocorre hoje. Também teme que a prioridade do governo de esquerda seja a população mais pobre e não o pagamento da dívida pública acumulada por anos de rapina por esses mesmo rentistas e seus governos parceiros. 

O teto de gastos é uma das suas principais ações. Assim, foram aprovadas as PEC 55 e 241, no Governo Temer com o apoio de Bolsonaro, que limitam os gastos do governo, por 20 anos, em programas de saúde, educação, desenvolvimento social, previdência social e outros programas que beneficiam a maioria da população. São verdadeiras PECs da Morte que proíbem investimentos públicos.  

Tudo tem que ficar para o mercado tomar conta. A privatização de todos os serviços públicos, a proibição de aumento salarial de servidores e concurso público são algumas das propostas do tal mercado.

quarta-feira, 22 de maio de 2019

Crise brasileira: arrocho fiscal no povo vai aumentar desemprego

“Austeridade”, Paulo Guedes e o verdadeiro fundo do poço.

Centenas de bilhões de reais escorrem no ralo da dívida pública, isenções fiscais e sonegação. Seriam recursos para gerar ocupações, reativar economia, recuperar infraestrutura. Mas ministro insiste em dogmas e fórmulas ultrapassadas.
Há três dias o ministro Paulo Guedes falou que a economia brasileira está no “fundo do poço”. Parecia um estudioso de fora do governo, que não tinha responsabilidade para com esta situação.
Mas ele dizia isso para convencer os parlamentares de que é preciso aprovar a Reforma da Previdência proposta por ele. Se não, afundaremos mais ainda. E ele nada poderá fazer.
Anos atrás li um trabalho de Joseph Stiglitz, prêmio Nobel de economia, onde ele dizia que emprego e desemprego não são resultados fortuitos, imprevisíveis: o país gerará emprego (ou desemprego) dependendo da política econômica que adotar. Claro, tem de se levar em conta o contexto internacional, não há dúvida. Mas o que Stiglitz estava querendo dizer é que políticas de austeridade (ou de ajuste fiscal) produzem desemprego. E políticas anticíclicas, de investimento público, geram emprego.
Nós vimos isto ocorrer no governo FHC: políticas de ajuste fiscal que geraram enorme desemprego e, no período Lula, políticas de investimento público que produziram emprego, mesmo depois da crise internacional de 2008 (houve uma queda em 2009, mas depois retomou).
O país está à míngua?
Desculpem, como disse um sociólogo conhecido anos atrás, o Brasil não é um país pobre, é um país injusto. Temos, o Estado brasileiro tem, muitos recursos. Recolhe uma quantidade enorme de impostos, sobretudo dos pobres e da classe média e transfere a maior parte para os mais ricos.
Exemplo: 350 bilhões de reais, no mínimo, por ano, vão para o 1% mais rico, como pagamento de juros da dívida pública. Por que? Porque temos uma taxa de juros reais entre as mais altas do mundo: estamos em 7º lugar. Se tivéssemos uma taxa de 0% ou menos que zero, como Polônia, Estados Unidos, Japão, Grécia, não gastaríamos esta fortuna (só para os ricos). Quem decide estes juros altos recebidos pelos ricos? O governo. Então, primeira sugestão, ministro: reduza drasticamente a taxa de juros[i].
Assim, poderemos discutir a Reforma da Previdência sem medo de afundar.
A segunda coisa, segundo o economista Eduardo Fagnani, é que o Brasil abre mão de 350 a 400 bilhões por ano, em isenções fiscais. Quem decide isso? O governo. Neste caso, a sua pasta, Sr. Ministro.
Terceira coisa: ir atrás dos sonegadores. 500 bilhões por ano. A Receita Federal sabe quem são os maiores, quanto devem. É só querer cobrar.
E, por favor, taxem os juros e dividendos, que são recebidos apenas pelos mais ricos. A Estônia é o único país do mundo, além do Brasil, que comete esta injustiça (de não taxar os mais ricos). Por que o ministro não cobra do Congresso esta mudança?
Ah, sim, esqueci: a economia de agora está ruim por causa da Dilma. “Errou tudo”. Errou, sim, alguma coisa, mas não tudo.
Errou, por exemplo, ao adotar, no segundo mandato, o ajuste fiscal. O desemprego voltou a crescer por causa disso (estava em 6,8% em 2014).
Mas, depois, a partir de meados de 2016, não foi ela: o governo Temer fez aprovar a PEC do Teto dos Gastos. Traduzindo: obrigou o Estado a reduzir investimentos em saúde e educação públicas – pelos próximos vinte anos -, o que aprofundou a recessão. Votou a Lei da Terceirização e, logo em seguida, a Reforma Trabalhista, que acabou com os direitos trabalhistas. A tal reforma, contrariamente ao que diziam, não gerou emprego, gerou mais desemprego.
O ministro Paulo Guedes interrompeu o ajuste fiscal? Interrompeu a política de austeridade? Não: está aprofundando o ajuste. Traduzindo: impedindo que o Estado invista mais, impedindo o crescimento econômico.
Se o Estado não investe, diria Stiglitz, não vai ter crescimento.
Sua política econômica, ministro, ao dar continuidade ao ajuste fiscal, está nos levando ao fundo do poço. Há cinco meses, só se fala em cortes. Não dos lucros dos banqueiros (que, este ano, já tiveram lucros maiores que no ano passado, no mesmo período). Cortes nas políticas públicas, na educação, na previdência. O desemprego está aumentando, o desalento também. E o governo nada faz para mudar esta direção. Sua única proposta até agora é fazer aprovar a reforma da previdência.
E todos sabemos que esta reforma não vai produzir crescimento. Se for aprovada este ano, só começará a ter efeitos no ano que vem. E, entre os efeitos, não haverá emprego. Haverá menos dinheiro nas mãos de muitas pessoas, que vão perder parte do que já ganhavam. Ou seja: o mercado interno vai ser reduzido, justamente um dos principais fatores da melhora da economia até 2014.
Sua outra proposta de política econômica é “privatizar tudo”. O Sr. quer deixar de receber os 70 bilhões de lucros produzidos por ano pelas nossas maiores empresas estatais e transferi-los para o setor privado. Que governo reclama que faltam recursos e joga fora os recursos que tem?
Ministro, todos sabemos o que deve ser feito para aumentar a receita da Previdência: crescimento econômico, aumento do emprego, aumento dos salários. Já vimos que há recursos para o Estado investir. Se houver emprego, haverá mais trabalhadores formais, mais gente pagando a Previdência. Vai ser muito bom.