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segunda-feira, 26 de março de 2018

Precisamos falar sobre a vaidade na vida acadêmica

por Rosana Pinheiro-Machado — publicado na Carta Capital, em 24/02/2016 , às 03h37

Combater o mito da genialidade, a perversidade dos pequenos poderes e os "donos de Foucault" é fundamental para termos uma universidade melhor.
Marcelo Camargo / Agência Brasil
Unicamp
Estudante aguarda vestibular da Unicamp: a nova geração de universitários pode ajudar a melhorar a vida acadêmica
A vaidade intelectual marca a vida acadêmica. Por trás do ego inflado, há uma máquina nefasta, marcada por brigas de núcleos, seitas, grosserias, humilhações, assédios, concursos e seleções fraudulentas. Mas em que medida nós mesmos não estamos perpetuando esse modus operandi para sobreviver no sistema? Poderíamos começar esse exercício auto reflexivo nos perguntando: estamos dividindo nossos colegas entre os “fracos” (ou os medíocres) e os “fodas” (“o cara é bom”).
As fronteiras entre fracos e 'fodas' começam nas bolsas de iniciação científica da graduação. No novo status de bolsista, o aluno começa a mudar a sua linguagem. Sem discernimento, brigas de orientadores são reproduzidas. Há brigas de todos os tipos: pessoais (aquele casal que se pegava nos anos 1970 e até hoje briga nos corredores), teóricas (marxistas para cá; weberianos para lá) e disciplinares (antropólogos que acham sociólogos rasos generalistas, na mesma proporção em que sociólogos acham antropólogos bichos estranhos que falam de si mesmos).
A entrada no mestrado, no doutorado e a volta do doutorado sanduíches vão demarcando novos status, o que se alia a uma fase da vida em que mudar o mundo já não é tão importante quanto publicar um artigo em revista qualis A1 (que quase ninguém vai ler).
Na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, dizíamos que quando alguém entrava no mestrado, trocava a mochila por pasta de couro. A linguagem, a vestimenta e o ethos mudam gradualmente. E essa mudança pode ser positiva, desde que acompanhada por maior crítica ao sistema e maior autocrítica – e não o contrário.
A formação de um acadêmico passa por uma verdadeira batalha interna em que ele precisa ser um gênio. As consequências dessa postura podem ser trágicas, desdobrando-se em dois possíveis cenários igualmente predadores: a destruição do colega e a destruição de si próprio.
O primeiro cenário engloba vários tipos de pessoas (1) aqueles que migraram para uma área completamente diferente na pós-graduação; (2) os que retornaram à academia depois de um longo tempo; (3) os alunos de origem menos privilegiada; (4) ou que têm a autoestima baixa ou são tímidos. Há uma grande chance destas pessoas serem trituradas por não dominarem o ethos local e tachadas de “fracos”.
Os seminários e as exposições orais são marcados pela performance: coloca-se a mão no queixo, descabela-se um pouco, olha-se para cima, faz-se um silêncio charmoso acompanhado por um impactante “ãaaahhh”, que geralmente termina com um “enfim” (que não era, de fato, um “enfim”). Muitos alunos se sentem oprimidos nesse contexto de pouca objetividade da sala de aula. Eles acreditam na genialidade daqueles alunos que dominaram a técnica da exposição de conceitos.
Hoje, como professora, tenho preocupações mais sérias como estes alunos que acreditam que os colegas são brilhantes. Muitos deles desenvolvem depressão, acreditam em sua inferioridade, abandonam o curso e não é raro a tentativa de suicídio como resultado de um ego anulado e destruído em um ambiente de pressão, que deveria ser construtivo e não destrutivo.
Mas o opressor, o “foda”, também sofre. Todo aquele que se acha “bom” sabe que, bem lá no fundo, não é bem assim. Isso pode ser igualmente destrutivo. É comum que uma pessoa que sustentou seu personagem por muitos anos, chegue na hora de escrever e bloqueie.
Imagine a pressão de alguém que acreditou a vida toda que era foda e agora se encontra frente a frente com seu maior inimigo: a folha em branco do Word. É “a hora do vâmo vê”. O aluno não consegue escrever, entra em depressão, o que pode resultar no abandono da tese. Esse aluno também é vítima de um sistema que reproduziu sem saber; é vítima de seu próprio personagem que lhe impõe uma pressão interna brutal.
No fim das contas, não é raro que o “fraco” seja o cavalinho que saiu atrasado e faça seu trabalho com modéstia e sucesso, ao passo que o “foda” não termine o trabalho. Ademais, se lermos o TCC, dissertação ou tese do “fraco” e do “foda”, chegaremos à conclusão de que eles são muito parecidos.
A gradação entre alunos é muito menor do que se imagina. Gênios são raros. Enroladores se multiplicam. Soar inteligente é fácil (é apenas uma técnica e não uma capacidade inata), difícil é ter algo objetivo e relevante socialmente a dizer.
Ser simples e objetivo nem sempre é fácil em uma tradição “inspirada” (para não dizer colonizada) na erudição francesa que, na conjuntura da França, faz todo o sentido, mas não necessariamente no Brasil, onde somos um país composto majoritariamente por pessoas despossuídas de capitais diversos.
É preciso barrar imediatamente este sistema. A função da universidade não é anular egos, mas construí-los. Se não dermos um basta a esse modelo a continuidade desta carreira só piora. Criam-se anti-professores que humilham alunos em sala de aula, reunião de pesquisa e bancas. Anti-professores coagem para serem citados e abusam moral (e até sexualmente) de seus subalternos.
Anti-professores não estimulam o pensamento criativo: por que não Marx e Weber? Anti-professores acreditam em lattes e têm prazer com a possibilidade de dar um parecer anônimo, onde a covardia pode rolar às soltas.
O dono do Foucault
Uma vez, na graduação, aos 19 anos, eu passei dias lendo um texto de Foucault e me arrisquei a fazer comparações. Um professor, que era o dono do Foucault, me disse: “não é assim para citar Foucault”.
Sua atitude antipedagógica, anti-autônoma e anti-criativa, me fez deixar esse autor de lado por muitos anos até o dia em que eu tive que assumir a lecture “Foucault” em meu atual emprego. Corrigindo um ensaio, eu quase disse a um aluno, que fazia um uso superficial do conceito de discurso, “não é bem assim...”.
Seria automático reproduzir os mecanismos que me podaram. É a vingança do oprimido. A única forma de cortamos isso é por meio da autocrítica constante. É preciso apontar superficialidade, mas isso deve ser um convite ao aprofundamento. Esquece-se facilmente que, em uma universidade, o compromisso primordial do professor é pedagógico com seus alunos, e não narcisista consigo mesmo.
Quais os valores que imperam na academia? Precisamos menos de enrolação, frases de efeitos, jogo de palavras, textos longos e desconexos, frases imensas, “donos de Foucault”. Se quisermos que o conhecimento seja um caminho à autonomia, precisamos de mais liberdade, criatividade, objetividade, simplicidade, solidariedade e humildade.
O dia em que eu entendi que a vida acadêmica é composta por trabalho duro e não genialidade, eu tirei um peso imenso de mim. Aprendi a me levar menos a sério. Meus artigos rejeitados e concursos que fiquei entre as últimas colocações não me doem nem um pouquinho. Quando o valor que impera é a genialidade, cria-se uma “ilusão autobiográfica” linear e coerente, em que o fracasso é colocado embaixo do tapete. É preciso desconstruir o tabu que existe em torno da rejeição.
Como professora, posso afirmar que o número de alunos que choraram em meu escritório é maior do que os que se dizem felizes. A vida acadêmica não precisa ser essa máquina trituradora de pressões múltiplas. Ela pode ser simples, mas isso só acontece quando abandonamos o mito da genialidade, cortamos as seitas acadêmicas e construímos alianças colaborativas.
Nós mesmos criamos a nossa trajetória. Em um mundo em que invejas andam às soltas em um sistema de aparências, é preciso acreditar na honestidade e na seriedade que reside em nossas pesquisas.
Transformação
Tudo depende em quem queremos nos espelhar. A perversidade dos pequenos poderes é apenas uma parte da história. Minha própria trajetória como aluna foi marcada por orientadoras e orientadores generosos que me deram liberdade única e nunca me pediram nada em troca.
Assim como conheci muitos colegas que se tornaram pessoas amargas (e eternamente em busca da fama entre meia dúzia), também tive muitos colegas que hoje possuem uma atitude generosa, engajada e encorajadora em relação aos seus alunos.
Vaidade pessoal, casos de fraude em concursos e seleções de mestrado e doutorado são apenas uma parte da história da academia brasileira. Tem outra parte que versa sobre criatividade e liberdade que nenhum outro lugar do mundo tem igual. E essa criatividade, somada à colaboração, que precisa ser explorada, e não podada.
Hoje, o Brasil tem um dos cenários mais animadores do mundo. Há uma nova geração de cotistas ou bolsistas Prouni e Fies, que veem a universidade com olhos críticos, que desafiam a supremacia das camadas médias brancas que se perpetuavam nas universidades e desconstroem os paradigmas da meritocracia.
Soma-se a isso o frescor político dos corredores das universidades no pós-junho e o movimento feminista que só cresce. Uma geração questionadora da autoridade, cansada dos velhos paradigmas. É para esta geração que eu deixo um apelo: não troquem o sonho de mudar o mundo pela pasta de couro em cima do muro.
Rosana Pinheiro-MachadoRosana Pinheiro-Machado é cientista social e antropóloga. Professora do departamento de Desenvolvimento Internacional da Universidade de Oxford.

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Estudante da UFVJM é primeira mulher aceita na Escola de Engenharia de Oxford para doutorado

ImprimirBábara Emanuella fará pesquisa de terapia do câncer a partir da nanotecnologia.

A colação de grau no curso de Engenharia Mecânica, do Instituto de Ciência e Tecnologia (ICT) da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), realizada no último mês de abril, teve um sabor especial para a estudante Bárbara Emanuella Souza. Bárbara também comemorou o fato de ter sido aceita para doutorado no programa DPhill Engineering Science Departament, da University of Oxford. Soma-se a essa conquista o fato de ser a primeira mulher brasileira aceita no departamento, segundo Jin-Chong Tan, professor associado do Department of Engineering Science.
Ser aceita numa instituição que atualmente ocupa a primeira posição no ranking das melhores universidades do mundo (sendo seguida por Caltech, Stanford, Cambridge, MIT e Harvard), segundo o Times Higher Education, coroa a vida acadêmica de Bárbara com mais um sucesso, após ter cursado parte dos seus estudos em Harvard e ser premiada, recentemente, na 5ª edição da Semana da Integração: ensino, pesquisa e extensão (Sintegra) da UFVJM por um dos melhores trabalhos do evento.
Bárbara Emanuella Souza ingressou na UFVJM no 1º semestre de 2011, pelo processo de seleção seriada da universidade, denominado Sasi, quando ficou classificada em 1º lugar para o curso de Ciência e Tecnologia, bacharelado que tem o curso de Engenharia Mecânica como uma das habilitações decorrentes possíveis. Durante os anos de 2014-2015, participou do programa Ciência sem Fronteiras, do governo federal, permanecendo nos Estados Unidos por um ano e meio.
A primeira instituição na qual ingressou ao chegar aos EUA foi a University of California – San Diego, onde completou parte do bacharelado em Engenharia Mecânica, buscando ampliar seus conhecimentos em ciência dos materiais, biomateriais e bioengenharia. Foi em cursos ministrados por professores reconhecidos internacionalmente nessa área que sua paixão cresceu a ponto de definir como seu objetivo de carreira realizar uma pesquisa de doutorado sobre o desenvolvimento e caracterização de biomateriais.
E foi a partir dessa experiência lá que assumiu o compromisso de aumentar a participação das mulheres na ciência e engenharia.
Após assistir a uma artroplastia para uma substituição total do joelho nessa universidade, sentiu-se motivada a ajudar a encontrar potenciais novos métodos para o processamento de biomateriais com propriedades mecânicas superiores que minimizariam as falhas dos implantes. “Após a cirurgia, fiquei apaixonada por próteses e, ao mesmo tempo, percebi como esse procedimento é invasivo”, conta Bárbara.
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(foto: Bárbara Souza/ArquivoPessoal)
Admitida no verão de 2015 para trabalhar com pesquisa nessa área no laboratório de Anuj Bellare, na Harvard Medical School, desenvolveu um trabalho que chegou a ser apresentado no Congresso Mundial de Biomateriais (WBC, 2016).
Em março deste ano, já perto de se formar no curso de graduação, submeteu à 5ª Sintegra o trabalho “Estudo in Vitro do Efeito do Dimetilsulfóxito (DMSO) nas Propriedades Mecânicas de Linfócitos Humanos: uma análise por meio da Microscopia Óptica e Confocal”. Desenvolvido numa parceria entre membros do Grupo de Pesquisa em Biomecânica e Bioengenharia (GBB) do ICT e pesquisadores do Laboratório de Imunologia (Labimuno) do Departamento de Farmácia da UFVJM, o trabalho foi selecionado como o melhor dentre os apresentados na área de Ciências Biológicas.
No ICT, Bárbara foi orientada pelos professores Libardo Andrés González Torres e Bethânia Alves de Avelar Freitas. O objetivo desse estudo foi investigar o efeito do DMSO sobre proteínas do citoesqueleto (actina e tubulina) através da avaliação de mudanças geométricas nas células do sangue humano in vitro, já que se sabe que o DMSO é um composto com diversas propriedades farmacológicas e terapêuticas. No entanto, o seu efeito isolado sobre as propriedades mecânicas das células é pouco conhecido.
Bárbara decidiu aplicar para University of Oxford desde que voltou do Ciência sem Fronteiras, motivada principalmente pelo prestígio da academia. Em dezembro de 2016, já estava preparada para o processo de seleção, composto por provas como o TOEFL®, teste de Língua Inglesa reconhecido em todo o mundo, e o Graduate Records Examination - GRE, feito por alunos nos países estrangeiros ao saírem da graduação, que inclui Inglês e Matemática avançados.
Além disso, o Departament of Engineering Science também exige a escrita do projeto a ser desenvolvido no programa. Por fim, cartas de recomendação e análise de currículo.
O curso tem início em 2017 e previsão de duração de 3 a 3,5 anos. A estudante terá bolsa integral e ajuda de custo para cursar o doutorado em Ciências da Engenharia.
Pela sua trajetória, Bárbara demonstra que a receita de sucesso começa com a perspectiva que cada um tem a respeito de si mesmo. "Gostaria de lembrar a todos para acreditar no seu próprio potencial e no potencial da nossa universidade. Muitas vezes, pelo fato de a UFVJM ser uma universidade pequena e ainda pouco conhecida, muitos alunos acreditam que suas oportunidades aqui são limitadas. No entanto, a única coisa que nos limita somos nós mesmos. Coisas incríveis estão acontecendo dentro dos campi e nós precisamos tirar o máximo proveito delas”.
Projeto de pesquisa pretende contornar barreiras atuais na terapia do câncer a partir da nanotecnologia
O projeto submetido por Bárbara Emanuella ao Departament of Engineering Science, da University of Oxford, é “Next-Generation Nanocomposites Integrating Metal-Organic Frameworks (MOFs) for Engineering Biomedical Applications”.
As redes metal-orgânicas (Metal Organic Frameworks - MOFs), uma classe emergente de materiais híbridos, estão entre os tópicos mais fascinantes de pesquisa em nanotecnologia. Sua composição química e estrutura ajustáveis ​​e funcionalidade de alto nível leva os MOFs a serem uma plataforma promissora para aplicações de bioengenharia e dispositivos médicos, como, por exemplo, a administração controlada e direcionada de fármacos.
As funcionalidades ajustáveis ​​de nanopartículas de MOFs excedem significativamente as capacidades de nanocarregadores e de agentes de imagem existentes, com vantagens significativas sobre os sistemas aplicados atualmente. Devido ao grande número de MOFs existentes e às vastas aplicações bio-orientadas possíveis, há uma grande oportunidade para alcançar grandes avanços nesse campo emergente.
Uma possível abordagem para superar os desafios existentes é o desenvolvimento de nanocompósitos de MOFs. Embora tenha sido recentemente desenvolvida uma série de novos fármacos, muitos deles não são aplicados em razão da ausência de vias de distribuição eficazes, o que acarreta uma baixa biodisponibilidade.
No caso do tratamento quimioterápico, por exemplo, a escassez de alternativas que permitam o ataque preciso às regiões tumorais reduz a eficiência do fármaco, prolongando os tratamentos e seus graves efeitos colaterais nos tecidos normais. Tais circunstâncias destacam a necessidade de desenvolver novas plataformas que combinem função diagnóstica e terapêutica.
A nanotecnologia, aplicada à encapsulação de moléculas de fármacos, apresenta potencial para contornar as barreiras atuais na terapia do câncer. A confluência desses fatores pontua a demanda no desenvolvimento de dispositivos MOF para bioaplicações, como pretendido pelo projeto.
Fonte: UFVJM