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segunda-feira, 29 de maio de 2017

O Golpe cria condições para os grandes empresários terem lucros cada vez maiores

CRISE, REFORMAS, FORA TEMER, ELEIÇÕES INDIRETAS

13 PONTOS PARA EMBASAR QUALQUER ANÁLISE DE 

CONJUNTURA

O complexo financeiro-empresarial não tem opção partidária, não veste
nenhuma camisa na política, nem defende pessoas. Sua intenção 
é tornar as leis e a administração do país totalmente favoráveis
para suas metas de maximização dos lucros.

por: Maurício Abdalla*
24 de maio de 2017
Crédito da Imagem: Mídia Ninja/cc
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1 – O foco do poder não está na política, mas na economia. Quem comanda a sociedade é o complexo financeiro-empresarial com dimensões globais e conformações específicas locais.
2 – Os donos do poder não são os políticos. Estes são apenas instrumentos dos verdadeiros donos do poder.
3 – O verdadeiro exercício do poder é invisível. O que vemos, na verdade, é a construção planejada de uma narrativa fantasiosa com aparência de realidade para criar a sensação de participação consciente e cidadã dos que se informam pelos meios de comunicação tradicionais.
4 – Os grandes meios de comunicação não se constituem mais em órgãos de “imprensa”, ou seja, instituições autônomas, cujo objeto é a notícia, e que podem ser independentes ou, eventualmente, compradas ou cooptadas por interesses. Eles são, atualmente, grandes conglomerados econômicos que também compõem o complexo financeiro-empresarial que comanda o poder invisível. Portanto, participam do exercício invisível do poder utilizando seus recursos de formação de consciência e opinião.
5 – Os donos do poder não apoiam partidos ou políticos específicos. Sua tática é apoiar quem lhes convém e destruir quem lhes estorva. Isso muda de acordo com a conjuntura. O exercício real do poder não tem partido e sua única ideologia é a supremacia do mercado e do lucro.
6 – O complexo financeiro-empresarial global pode apostar ora em Lula, ora em um político do PSDB, ora em Temer, ora em um aventureiro qualquer da política. E pode destruir qualquer um desses de acordo com sua conveniência.
7 – Por isso, o exercício do poder no campo subjetivo, responsabilidade da mídia corporativa, em um momento demoniza Lula, em outro Dilma, e logo depois Cunha, Temer, Aécio, etc. Tudo faz parte de um grande jogo estratégico com cuidadosas análises das condições objetivas e subjetivas da conjuntura.
8 – O complexo financeiro-empresarial não tem opção partidária, não veste nenhuma camisa na política, nem defende pessoas. Sua intenção é tornar as leis e a administração do país totalmente favoráveis para suas metas de maximização dos lucros.
9 – Assim, os donos do poder não querem um governo ou outro à toa: eles querem, na conjuntura atual, a reforma na previdência, o fim das leis trabalhistas, a manutenção do congelamento do orçamento primário, os cortes de gastos sociais para o serviço da dívida, as privatizações e o alívio dos tributos para os mais ricos.
10 – Se a conjuntura indicar que Temer não é o melhor para isso, não hesitarão em rifá-lo. A única coisa que não querem é que o povo brasileiro decida sobre o destino de seu país.
11 – Portanto, cada notícia é um lance no jogo. Cada escândalo é um movimento tático. Analisar a conjuntura não é ler notícia. É especular sobre a estratégia que justifica cada movimento tático do complexo financeiro-empresarial (do qual a mídia faz parte), para poder reagir também de maneira estratégica.
12 – A queda de Temer pode ser uma coisa boa. Mas é um movimento tático em uma estratégia mais ampla de quem comanda o poder. O que realmente importa é o que virá depois.
13 – Lembremo-nos: eles são mais espertos. Por isso estão no poder.
Texto publicado no Le Monde Diplomatique Brasil, no dia 24.05.17.
 * Maurício Abdalla é professor de filosofia na Universidade Federal do Espírito Santo

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

A Reforma da Previdência Social visa aprofundar injustiças, afirma Margarida Salomão






A reforma da Previdência avança na desconstrução do tardio estado de bem-estar social.
Aprofundar as injustiças.

 


Margarida Salomão*

O recente relatório da Oxfam revela que a economia é planejada para funcionar em favor do 1% mais rico da população mundial: oito homens possuem o mesmo montante de riquezas que a metade mais pobre da população. No Brasil, não perdemos em perversidade: seis homens têm a mesma riqueza que 100 milhões de brasileiros.
Neste contexto, o ilegítimo governo brasileiro tem a desfaçatez de buscar o equilíbrio fiscal por meio de Reforma da Previdência (PEC 287/16), justificada pela propaganda oficial (explícita ou subliminar) com ameaças apocalípticas.
A bem da racionalidade, é discutível o cálculo do “rombo” (futuro, pois, até 2015, o orçamento da Seguridade Social era superavitário em R$11,2 bilhões). Deve-se considerar no abatimento do “rombo” que a gestão da Previdência promoveu, nos últimos anos, em nome de uma expectativa não confirmada de retomada do investimento, desonerações da folha de pagamento. Na mesma conta, acrescentar o somatório da dívida fundada com a Previdência mais o montante da sonegação praticada pelos grandes, de R$ 340 bilhões, segundo a ANFIP.
Além disso, a despesa previdenciária tem papel social no Brasil, com seus 33 milhões de beneficiários. Em 82% dos municípios brasileiros, o repasse da Previdência é maior que o orçamento municipal. Cortar esses recursos prejudica a subsistência da população de 3.875 cidades.
Denunciamos ainda a injustiça expressa nessa proposta. Como falar de idade mínima num país com tamanha desigualdade, regional e social? 
Como ignorar a diversidade no perfil do trabalho e no seu acesso que diferencia as profissões dos mais e menos escolarizados? 
Como tratar o trabalho rural da mesma forma que o urbano? 
Como castigar os professores e professoras, já assoberbados por uma tarefa cinicamente classificada como essencial? 
Como adotar “igualdade de gênero” para idade e tempo de contribuição, desconsiderando as condições do trabalho feminino, a sobrecarga da(s) outra(s) jornada(s), as desigualdades no reconhecimento e na remuneração das mulheres?
Essa proposta aprofunda injustiças e constitui uma real ameaça à vida. A seu modo, ainda atende ao antigo desejo do setor bancário, com estímulos para que as pessoas busquem programas de previdência privada.
A PEC 287/16 avança na desconstrução do tardio estado de bem-estar social brasileiro, resultante da redemocratização e inscrito na Constituição de 88.
Em grave crise social, de que rebeliões nos presídios não são mais que a ponta do iceberg, este governo ilegítimo busca tornar real a predição da Professora Laura Carvalho: Enquanto a insustentabilidade do sistema previdenciário em meio à elevação da expectativa de vida for vista pela maioria como mais dramática que a insustentabilidade de um sistema penitenciário em meio à produção de um número cada vez maior de excluídos, estaremos condenados à barbárie.
*Artigo inicialmente publicado no jornal “O Globo”, no dia 6 de fevereiro de 2017

Margarida Salomão é deputada federal pelo PT-MG. Foi reitora da UFJF - Universidade Federal de Juiz de Fora. É graduada em Letras pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), mestre em Linguística pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e doutora também em Linguística pela Universidade de Berkeley (EUA). No ano de 2007, concluiu Pós-Doutorado pela University of California.