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domingo, 3 de dezembro de 2017

Bocaiúva e Olhos D'Água terão regularização fundiária de agricultores familiares

Norte de Minas Gerais receberá mais um mutirão para regularizar terras rurais

Agricultores familiares exibem orgulhos os títulos agrários, em Setubinha, no Vale do Mucuri.
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O Governo de Minas Gerais, por meio da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Agrário (Seda), vai realizar mutirão para cadastramento de famílias interessadas em regularizar a posse de suas terras rurais nos municípios de Bocaiuva e Olhos D’água, no Território Norte. A ação acontecerá no período de 11 a 15 de dezembro, no escritório da Empresa Mineira de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater-MG) nos dois municípios.
O trabalho também é realizado em parceria com a Federação dos Trabalhadores Rurais do Estado de Minas Gerais (Fetaemg), por meio dos Sindicatos dos Trabalhadores Rurais, e conta com o apoio das câmaras e das prefeituras municipais.
“Essa é uma ação muito importante, porque 90% da nossa população rural não tem a escritura”, diz o presidente da Câmara Municipal de Olhos D´água, vereador José Aparecido Gomes.
A presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Bocaiuva e região, Marli Duarte de Souza, ressalta que a retomada do programa de regularização fundiária rural em Minas Gerais atende demanda histórica da região. “Fizemos vários cadastros no passado e não acontecia nada. Agora estamos satisfeitos com essa proposta da Seda”, diz.
“Para mim, é uma das ações mais importantes do atual Governo do Estado, porque garante dignidade ao homem e à mulher do campo”, completou o presidente da Fetaemg, Vilson Luiz da Silva, ao participar da audiência pública realizada nesta semana em Bocaiúva para debater o plano de trabalho, apresentado pelo subsecretário de Acesso a Terra, Geraldo Abreu. A Seda também realizou o encontro em Olhos D’água, na última terça-feira (28).

Desde 2015, a Seda já realizou 41 audiências públicas (Divulgação/Seda)


Registro gratuito
O Oficial Titular do Cartório de Registro de Imóveis da Comarca de Bocaiuva, Hélio Francisco Alves, lembra que o registro do título de posse da terra é gratuito. “É muito triste a pessoa não ter o documento que comprova a posse. Estamos preparados e vamos fazer com carinho (o registro), porque a gente sabe da importância do título para as famílias”, diz.
Desde 2015, a Seda já realizou 41 audiências públicas que marcaram a retomada do programa em municípios de nove dos 17 Territórios de Desenvolvimento: Norte, Alto Jequitinhonha, Médio e Baixo Jequitinhonha, Metropolitano, Mucuri, Caparaó, Vale do Aço, Noroeste e Central.
“A audiência pública é o primeiro passo para a regularização fundiária e é uma inovação em nosso governo, para dar mais transparência ao processo. Depois da audiência, a gente já faz o cadastramento e na sequência a medição dos terrenos”, explica o secretário de Estado de Desenvolvimento Agrário, Professor Neivaldo. O processo até a emissão do título pode durar de sete meses a um ano.
Documentos
Para que seja feito o cadastramento nos municípios, a pessoa interessada deve levar qualquer um dos documentos pessoais (Identidade, CPF, certidão de nascimento, certidão de casamento; atestado de óbito; comprovante de residência; etc).
Para comprovar a posse, é preciso também levar uma declaração (Sindicato de Trabalhadores Rurais, EmaterMG, Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural Sustentável – CMDRS, Prefeitura Municipal); contratos particulares que versem sobre cessão ou transferência, a qualquer título, do imóvel rural; conta de luz; CCIR; ITR; CAR; cartão de produtor rural (inscrição estadual); cadastro perante o IMA, IEF, IGAM, etc; fotografias; recibos ou notas fiscais relativos a insumos utilizados na posse; recibos ou notas fiscais relativos a negociação de bens ou produtos agrícolas ou animais; fotografias; etc.
Fonte: Agência Minas

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Diamantina: Quilombolas tem direitos expropriados no Parque das Sempre-Vivas.

MG – Parque das sempre-vivas: expropriação territorial e violação de direitos de quilombolas e comunidades tradicionais

Por , 11/12/2013 
PSV5Por Claudenir Fávero* e Andréa Zhouri**
O Parque Nacional das Sempre-vivas (PNVS) é só mais um exemplo, no Brasil, de criação de unidade de conservação de proteção integral sobre territórios tradicionais, neste caso, de comunidades apanhadoras de flores sempre-vivas e quilombolas. Nesta porção da Serra do Espinhaço, em Minas Gerais, um visitante desavisado pode ser levado a acreditar que toda a beleza da natureza preservada e pujante que ali se encontra ocorre sem a presença humana, que a serra é vazia. Um ledo engano.
Desde a presença dos primeiros habitantes, que as pinturas rupestres revelam – dizimados e afugentados pelo colonizador europeu – e, posteriormente, com a chegada dos africanos escravizados[1] – deserdados a própria sorte após a Lei Áurea (1888) -, os cantos de serra, as grotas, os vales e campos dessa região foram intensamente ocupados e utilizados. Ao longo do tempo, esses grupos valeram-se dos recursos naturais disponíveis, dos conhecimentos transmitidos por gerações e da invisibilidade estratégica para sobreviver.
Aos primeiros habitantes escravizados desta região foi imposto, sob chibata, o ofício de extrator de pedras preciosas. Conforme relato de Saint-Hilaire:
“O processo de administração dos diamantes sofreu também modificações em diferentes épocas. Vou mostrar o que ela era em 1817, [...]. Os lugares onde se extraem diamantes chamam-se serviços. Cada serviço tem um guarda-armazém e um moleiro, cargos da mesma categoria e do mesmo vencimento dos feitores. Os diferentes serviços são dotados de carpinteiros, serralheiros, etc., do mesmo nível dos feitores e tendo sob suas ordens vários escravos. Todos os escravos ocupados nos diversos serviços pertencem a particulares que os alugam à administração. Houve tempo em que seu número ascendeu a três mil [...]” (Auguste De Saint-Hilaire – Viagem Pelo Distrito Dos Diamantes e Litoral do Brasil, 2004 [1833], p. 14 e 16).
Após o cativeiro, mesmo continuando com o ofício de garimpeiro, enquanto foi permitido, este não garantia todas as condições de sobrevivência. Foi necessária a busca de produtos alimentares e medicinais diretamente na natureza e o desenvolvimento de cultivos e criações que lhes garantisse a segurança e a soberania alimentar, complementadas pelas estratégias de comercialização e trocas a grandes distâncias, viabilizadas pelos tropeiros.
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No decurso da história, os meios necessários para a manutenção e reprodução social das comunidades tradicionais formadas por indígenas, quilombolas e camponeses que se encontram nesta região, foram viabilizados em interação com o meio. Essas comunidades desenvolveram estratégias variadas de uso, manejo, conhecimento e representações simbólicas relativas a esses ambientes. Desde a alimentação até os vestuários e artefatos utilizados no cotidiano foram obtidos diretamente dos elementos da natureza. Em função das possibilidades de comercialização, a coleta de flores e outros produtos dos cerrados e campos de altitude passou a ser praticada. Assim, essas comunidades tradicionais se tornaram “apanhadoras de flores sempre-vivas”. Nesta perspectiva, uso e conservação estão intimamente imbricados, pois destes recursos depende a continuidade da existência.
A coleta de flores: cultura e economia
A identidade “apanhadores de flores sempre-vivas” identifica grupos com práticas e saberes tradicionais envolvendo uma pluralidade de atividades que ocupam e utilizam diversos ambientes com fluxos e sazonalidades temporais e espacias que inclui: o cultivo das roças e quintais nas partes mais baixas ou planas do relevo, próximas aos cursos d’água ou em ambientes em que o solo propicia o cultivo nas estações chuvosas; a criação de animais de pequeno porte próxima aos quintais e a solta de gado nos campos de altitude nas estações mais secas do ano; e a coleta de flores secas (como são conhecidas) em diferentes épocas de maturação das inflorescências, dependendo de cada espécie, mas com uma concentração no período de janeiro a maio, época em que famílias inteiras se deslocam para as partes mais altas da serra e habitam “lapas[2]” ou ranchos construídos com materiais locais.
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Ainda que a coleta de flores não seja a única atividade que se realiza sobre a serra, essa identidade aproxima as comunidades de distintos locais que fazem uso comum de terras tradicionalmente ocupadas[3] ao longo de gerações. A condição de população tradicional das comunidades que habitam a área delimitada como PNSV foi atestada em parecer antropológico emitido pelo 6ª. Câmara do Ministério Público Federal:
“Como os dados da pesquisa de campo demonstraram, as populações locais que ocupam a área do Parque Nacional das Sempre-vivas e sua área de amortecimento, há mais de um século, constituem uma população tradicional de apanhadores de flores. São descendentes de lavradores da terra e de garimpeiros que desenvolveram em comum saberes e modos de vida articulados com a natureza da Serra do Espinhaço, que lhes oferecia quase tudo que necessitavam – madeira para lenha e construção de suas casas, palhas para cobertura das moradias, remédios do mato, frutos e flores nativos.
A terra que ocupam é um território, um bem coletivo, pois foi construído socialmente como espaços de pertencimento necessários à sua reprodução física, social, econômica e cultural. Seu modo de vida é dependente do meio ambiente em que vivem e suas atividades principais são a agricultura de subsistência com manejo de gado e o extrativismo de sempre-vivas, atividade mais importante na geração de renda.
Nas narrativas dos moradores do Parque Nacional das Sempre-vivas, natureza e cultura formam uma teia de significados, de saberes e atividades tradicionais da Serra do Espinhaço que constroem sua identidade de apanhadores de flores” (Dra. Ângela Maria Baptista – Antropóloga. Parecer Pericial n0 083/2011 – 6a Câmara de Coordenação e Revisão – Populações Indígenas e Comunidades Tradicionais/Ministério Público Federal, 2011, p. 43 e 44).
As comunidades apanhadoras de flores sempre-vivas detêm conhecimentos aprofundados sobre as espécies de flores, caros à sua conservação: em que ambiente cada espécie ocorre; em quais épocas do ano as inflorescências de cada espécie estão maduras o suficiente para serem coletadas e garantir o ressemeio; qual a melhor forma de coletar as inflorescências sem arrancar as plantas; quais espécies necessitam do manejo com fogo controlado para sua perpetuação; quais espécies suportam o pastejo de animais na área antes da emissão das inflorescências etc, etc. Este acúmulo de conhecimentos é fruto da coexistência que leva a interdependência e a co-evolução entre espécies. A paisagem e a riqueza em biodiversidade encontrada na região delimitada como PNSV e que foi justificativa para sua criação é resultado, também, da presença humana e seus modos tradicionais de vida.
A receita obtida pela venda das flores e demais produtos resultantes da coleta pode significar a maior fonte de renda monetária de uma família. Entretanto, ela pode representar uma complementação junto à renda obtida pela venda de animais e produtos oriundos da agricultura, por exemplo. De qualquer forma, ela cumpre papel importante nas estratégias de reprodução econômica, social e cultural das famílias.
Estudos realizados pelo Núcleo de Estudos em Ecofisiologia Vegetal da UFVJM (entre 2005 e 2012) comprovam que as principais espécies de sempre-vivas coletadas e que vêm sendo consideradas em risco de extinção podem ser cultivadas obtendo-se elevada produtividade, desde que sejam cultivadas em ambientes similares aos campos nativos, ou seja, nos campos de altitude utilizados pelas comunidades. Além disso, a partir das pesquisas realizadas é possível estabelecer critérios de manejo sustentável para as demais espécies junto às comunidades que acumulam vasto conhecimento a respeito.
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Isso indica a potencialidade do manejo sustentável de espécies nativas que se traduzem em produtos exclusivos desta região e que podem continuar gerando renda para dezenas de comunidades tradicionais que se encontram nesses campos. Certamente, ao sair da “invisibilidade” a atividade passa a demandar normatizações específicas que viabilizem sua continuidade. Requer, portanto, organização de procedimentos específicos e políticas públicas adequadas à atividade de forma a promover a atividade que traz consigo a cultura e a história dessas comunidades. Fato que ocorreu com outras atividades ao longo do tempo e que cabe ao contexto colocado, considerando-se uma sociedade que busca fortalecer as potencialidades locais e promover a inclusão social.
Ilegalidade, violação de direitos e violência na criação e implantação do Parque
O Parque Nacional das Sempre-vivas foi criado pelo Decreto Presidencial s/n, de 13 de dezembro de 2002. A tramitação, nos órgãos ambientais, do processo de criação ocorreu após a aprovação da Lei que estabeleceu o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), Lei no 9.985, de 18 de julho de 2000, e o Decreto que regulamentou a Lei foi publicado anteriormente a sua criação, Decreto no4.340, de 22 de agosto de 2002.
A Lei no 9.985, de 18 de julho de 2000, estabelece em seu Artigo 22, § 2º que: “A criação de uma unidade de conservação deve ser precedida de estudos técnicos e de consulta pública que permitam identificar a localização, a dimensão e os limites mais adequados para a unidade, conforme se dispuser em regulamento”, complementado pelo § 3º: “No processo de consulta de que trata o § 2º, o Poder Público é obrigado a fornecer informações adequadas e inteligíveis à população local e a outras partes interessadas” (grifos nossos).
O Decreto no 4.340, de 22 de agosto de 2002, ratifica e regulamenta: “Art. 5º  A consulta pública para a criação de unidade de conservação tem a finalidade de subsidiar a definição da localização, da dimensão e dos limites mais adequados para a unidade. § 1º A consulta consiste em reuniões públicas ou, a critério do órgão ambiental competente, outras formas de oitiva da população local e de outras partes interessadas. § 2º No processo de consulta pública, o órgão executor competente deve indicar, de modo claro e em linguagem acessível, as implicações para a população residente no interior e no entorno da unidade proposta”(grifos nossos).
Segundo os ritos de criação de UCs, os estudos técnicos devem preceder sua proposição levando-se em conta as características socioeconômicas e ambientais para se definir qual a categoria da unidade. Entretanto, no caso do PNSV não ocorreu dessa forma. Mesmo confirmada a importância do uso da área para as famílias da região – a exemplo da coleta de flores e criação de animais – foi definida pelo órgão ambiental a criação de uma unidade de proteção integral que proíbe o extrativismo vegetal dentre outras atividades em seu interior. Além disso, o parque foi delimitado após um sobrevoo da área realizado por técnicos do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) e atingiu o território de mais de uma dezena de comunidades tradicionais[4].
A maioria dos comunitários só ficou sabendo da existência do parque e das implicações do mesmo para suas vidas quando, a partir de 2007, assumiu a gestão da unidade uma esquipe técnica que no afã de implantar a unidade a qualquer custo, desconsiderou a condição de comunidades tradicionais e violou direitos previstos por lei nacionais através de práticas como ameaças, constrangimentos, intimidações, destruição de plantações e instalações familiares. Sem entendimento do que estava acontecendo, os comunitários tiveram seus modos de vida criminalizados e sujeitos a multas e prisões. Cabe ressaltar que a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, da qual o Brasil é signatário, promulgada pelo Decreto no 5.051, de 19 de abril de 2004, que tem força constitucional e estabelece direitos as comunidades tradicionais, bem como, o Decreto no 6.040, de 07 de fevereiro de 2007, que estabelece a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável de Povos e Comunidades Tradicionais são anteriores a esta época.
Organização e reivindicação de direitos pelas comunidades tradicionais
Com o tempo, as comunidades tradicionais atingidas pelo PNSV foram compreendendo a política de criação de unidades de conservação e tomando consciência dos seus direitos. No início de 2010, a partir de debates e reflexões sobre os conflitos socioambientais envolvendo comunidades tradicionais na região de Diamantina e a violação de seus direitos, foi criada a Comissão em Defesa dos Direitos das Comunidades Extrativistas (CODECEX). Representantes das comunidades atingidas pelo PNSV compuseram a CODECEX e impulsionaram ações no sentido de contrapor as posturas ostensivas dos gestores do parque e na busca da garantia dos seus direitos. Buscaram assegurar seus direitos junto ao Ministério Público Federal, a Defensoria Pública Federal e a Comissão Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais (CNPCT) e protocolaram reivindicações junto a Presidência do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), responsável pelo parque.
É notória a ausência das ações do Estado brasileiro junto à essas comunidades tradicionais da região. Isso é expresso, por exemplo, pelo baixo acesso a políticas públicas básicas e muitas das justificativas oficiais referem-se à dificuldade de acesso e longas distâncias físicas. Entretanto, para garantir metas e compensações ambientais o mesmo não se observa. Para muitos dos moradores das comunidades atingidas, a chegada deste parque significou a primeira vez em que o Estado nacional marcou forte presença em suas vidas. Isso se deu de forma ostensiva, expropriatória e violando direitos humanos.
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As reivindicações das comunidades referem-se ao óbvio, que já deveria ter sido realizado pelos órgãos responsáveis, mesmo antes da criação da unidade conforme previsto em lei: que sejam reconhecidas como tradicionais; que sejam ouvidas, como prescreve a legislação; que sejam realizados estudos com a participação das comunidades apontando as possibilidades de continuidade do uso tradicional do território, ou seja, as possibilidades de recategorização do parque (unidade de proteção integral) para unidade de uso sustentável e a desafetação de áreas que não justifica pertencer a qualquer categoria de unidade de conservação ou que esteja sombreando com territórios quilombolas; enfim, que as comunidades não sejam excluídas socialmente, mais sim que participem da conservação ambiental.
Mesmo após um representante do  ICMBio ter declarado publicamente que a criação desta unidade de conservação como parque foi um erro; do parecer da Sexta Câmara do Ministério Público Federal ter apontado a necessidade e pertinência de recategorização da unidade; da CODECEX ter recolhido 687 assinaturas de comunitários reivindicando a constituição de um Grupo de Trabalho para a realização de estudos visando à redefinição dos limites e da categoria da unidade; e do Grupo de Trabalho ter sido constituído por determinação da Presidência do ICMBio, há dificuldades e resistências para que as reivindicações dos comunitários sejam atendidas.
Ocorrem tentativas de desqualificar e deslegitimar os representantes da CODECEX; há tentativas de desvio do objeto central das reivindicações, ou seja, de aprofundamento nas possibilidades de recategorização do parque; e o próprio Grupo de Trabalho não dispõe das condições que garantam seu pleno funcionamento, principalmente em relação a disponibilidade de recursos financeiros para viabilização dos trabalhos necessários. Há, inclusive, quem diga que não existem conflitos entre as comunidades e o parque, que estes foram forjados por terceiros, pois os comunitários recebem e dialogam com os atuais gestores da unidade quando esses chegam às suas comunidades. Antes de se fazer tais afirmações, é necessário entender o contexto histórico, os princípios e valores destas comunidades e o poder simbólico do qual é imbuído um gestor público alçado na condição de representante do Estado brasileiro perante esses grupos.
Conservação ambiental e uso sustentável
Alguns ambientalistas insistem na velha concepção de que para conservar a natureza é necessário retirar o ser humano, imputando às comunidades tradicionais o preço desta conservação ao serem expropriados seus meios e condições de vida. Em todos os biomas brasileiros experiências demonstram que a integração ser humano-natureza em sistemas fundamentados nos princípios da agro-ecologia possibilita a conservação ambiental, a geração de renda e a melhoria nas condições de vida das pessoas.
Este debate não pode ser feito a partir da perspectiva produtivista-reducionista utilizada pelo agronegócio do tipo produção/ha, renda/ha, etc. Os sistemas agroextrativistas e os modos de vida das comunidades tradicionais são muito mais diversificados e complexos. Embora para algumas famílias a comercialização dos produtos do extrativismo seja a principal fonte de geração de renda, ela não é a única e a vida das pessoas não são mantidas e resumidas, unicamente, a esta fonte de renda. Há que serem feitos, sim, estudos com a participação dos comunitários sobre as diferentes formas de manejo, técnicas e estratégias que possibilitem o uso sustentável dos recursos. No entanto, a ausência ou lacunas de conhecimentos e, até mesmo, alguns entraves legais não podem ser motivos para impedir a continuidade de uso do território pelas comunidades tradicionais e a efetivação de seus direitos previstos na legislação.
Ao mesmo tempo, afirmações descontextualizadas são apontadas no intuito de defender o indefensável – a legalidade deste parque e sua legitimidade social. Assim como, soluções superficiais são apontadas como receitas de sucesso para o futuro das comunidades fora de seus territórios. Há que se ressaltar dois aspectos. O primeiro, refere-se à pluralidade de atividades desses grupos que confere maior flexibilidade perante os contextos internos e externos à família sendo, portanto, importante estratégia econômica a viabilizar a reprodução sociocultural das famílias ao longo do tempo. O outro, é que há uma tentativa clara de despolitização do processo em questão e de legitimação da expropriação territorial e violação de direitos ora em curso.
Certamente, a paisagem, a beleza cênica e a biodiversidade não serão sucumbidas por unidades de conservação de uso sustentável. Pelo contrário, poderão ser reafirmadas tendo as comunidades locais como aliadas a viabilizar o cuidado com esta área alicerçado na ancestralidade, na noção de pertencimento e na proximidade cotidiana com seus lugares de vida. E os turistas, se acessarem a região, terão a oportunidade de conhecer os povos, tradições e histórias que habitam e conservam esta região através de gerações. Nesse sentido, as comunidades propõem abertura ao diálogo: “nós somos a favor da preservação da natureza e fizemos isso a vida inteira (…). A questão é que nós não queremos ser excluídos da preservação”. A demanda apresentada por uma liderança comunitária afirma a necessidade da noção de sustentabilidade ser tomada, também, por sentidos de justiça, democratização e diversidade cultural.
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*Doutor em Agronomia, Coordenador do Núcleo de Agroecologia e Campesinato (NAC/UFVJM)
**Doutora em Sociologia, Coordenadora do Grupo de Estudos em Temáticas Ambientais  (GESTA/UFMG)
[1] Segundo Machado Filho (1985, p. 20) “Até 5.000 escravos chegaram a ser empregados nos serviços de Extração” de diamante durante o “Regimento Diamantino” – Regime especial de domínio da Coroa Portuguesa na região de Diamantina, MG, que durou cerca de 70 anos entre os séculos XVIII e XIX.
[2] Formações rochosas, tipo gruta, que permite acomodações e abrigos das intempéries naturais.
[3] Em consonância com os estudos de ALMEIDA, A. W.B. (2006) Terras de quilombo, terras indígenas, “babaçuais livres”, “castanhais do povo”, faxinais e fundos de pasto: terras tradicionalmente ocupadas.
[4] Como evidenciado pelos estudos de MONTEIRO, F. T. (2011)  Os(as) apanhadores(as) de flores e o Parque Nacional das Sempre-vivas (MG): travessias e contradições ambientais.
Enviada para Combate Racismo Ambiental por Claudenir Fávero, via Carlos Alberto Dayrell, do CAA-norte de Minas
Onde fica o Parque Nacional das Sempre-Vivas
O Parque Nacional das Sempre-Vivas situa-se na Serra do Espinhaço no divisor de águas das bacias dos rios São Francisco e Jequitinhonha, no norte de Minas Gerais, Brasil, a 250 quilômetros de Belo Horizonte aproximadamente. 
Abrange quatro municípios: Olhos-d'Água, Diamantina, Buenópolis e Bocaiúva. 
O nome do Parque é referência às variadas espécies de “sempre-vivas”, pequenas flores típicas da região onde se localiza. O turismo só é permitido após autorização dos seus organismos de proteção. O acesso ao Parque é feito através do distrito de Inhaí, que está a 50 km de Diamantina.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Polícia Federal faz cerco a fraude em Prefeituras do Vale do Jequitinhonha e norte de Minas


O esquema consistia em fraudar licitações para obras de calçamento, construção de meio-feio e calçadas. Estão envolvidas na fraude, 37 prefeituras (35 do Norte de Minas e duas do Vale do Jequitinhonha).



A Polícia Federal deflagrou na quinta-feira (27,12) a Operação Recidiva, na qual foram expedidos mandados de prisão contra quatro pessoas acusadas de desvio de recursos públicos por meio de fraudes em licitações de obras realizadas por prefeituras.
Foi preso o engenheiro Edilson Renato Caldeira, servidor da Prefeitura de Olhos DÁgua (Norte de Minas), e expedidos mandados de prisão também contra o empresário Evandro Leite Garcia, a mulher dele, Maria das Graças Garcia, e a cunhada de Evandro, Elizângela Pereira.

Os três já estão presos desde 21 de junho, por força da Operação Máscaras da Sanidade.

O trabalho policial realizado nessa quinta-feira é um desdobramento da própria Máscaras da Sanidade, que desmontou um esquema de fraudes em licitações.

Patrocinado por um grupo de empresas supostamente controlado por Evandro Leite Garcia e sua família, o esquema resultou, segundo as investigações, em desvios de recursos públicos de R$ 100 milhões, por meio de fraudes em licitações envolvendo 37 prefeituras (35 do Norte de Minas e duas do Vale do Jequitinhonha).

Na ocasião, 16 pessoas foram detidas. Evandro, a mulher dele e Elizângela continuam recolhidos no presídio regional de Montes Claros, para onde foi levado ontem o engenheiro Caldeira, depois de ser detido na casa dele, em Olhos DÁgua.

De acordo com as investigações, foi montado no município esquema de fraudes em licitações e de simulação de pagamento a empreiteiras de serviços, que, na verdade, eram executados pela própria prefeitura, nos moldes dos casos apurados na Máscaras da Sanidade.

Foram apontadas irregularidades em obras como pavimentação de ruas, calçamento, construção de meio-fio e de calçadas.

Até o momento, foram constatados desvios de R$ 2,58 milhões. Foram periciadas 20 obras suspeitas, envolvendo, além de Olhos DÁgua, seis cidades norte-mineiras: Coração de Jesus, Bonito de Minas, Guaraciama, Porteirinha, São João da Ponte e Pai Pedro.

Serão analisadas as planilhas de custos de pelo menos mais 40 obras em outros municípios da região.

Laudos falsos
Segundo o delegado Thiago Garcia Amorim, da delegacia da PF em Montes Claros, o Caldeira assinava laudos falsos, que eram usados para esquentar as licitações fraudulentas e os pagamentos. Ele emitia boletins falsos atestando que os serviços estavam sendo executados pela empresa envolvida, explicou o delegado.

Ainda de acordo com Thiago Amorim, os envolvidos vão responder a inquéritos pelos crimes de formação de quadrilha, falsidade ideológica, peculato, desvio de recursos públicos e fraudes em procedimentos licitatórios. Eles poderão pegar penas de até 25 anos de reclusão.
Fonte: Luiz Ribeiro, no jornal Estado de Minas

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Moradores do Parque Nacional das Sempre-Vivas, no Alto Jequitinhonha, querem garantias de direitos


Parque situado nos municípios de Diamantina, Bocaiúva e Olhos D'Água, é moradia de quilombolas 

O Parque Nacional das Sempre-Vivas foi criado em 2002, com área de estudo para sua criação de 50 mil hectares. Localizado na Serra do Espinhaço, em Minas Gerais (municípios de Olhos D'Água, Diamantina, Curimataí e Bocaiúva), de repente teve seu tamanho ampliado para 120 mil hectares. Com isto, mais de três mil famílias foram atingidas pela área do parque e a mais 20 comunidades tradicionais, inclusive duas comunidades quilombolas reconhecidas pela Fundação Palmares.

O deputado Padre João esteve reunido com o presidente do Instituto Chico Mendes (ICMBIO), Roberto Ricardo Vizentin, nesta terça-feira, 18.12. Participaram da agenda também o professor do Núcleo de Agroecologia e Campesinato (NAC) da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri, Claudenir Fávero; e membros da Comissão em Defesa dos Direitos das Comunidades Extrativistas do Parque Nacional das Sempre-Vivas, Maria de Fátima Alves, Geralda  Maria Soares da Silva e Flávio Rodrigo da Cruz.


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No processo de implantação, a equipe constituída para este fim, em 2007, agiu com violência, truculência, pressão psicológica e ameaças. Isto deixou uma marca de medo e prejudicou a população que vive da cultura de subsistência, da coleta de flores, do extrativismo de modo geral. O plano de manejo do Parque segue seu ritmo, agora tocado por outra equipe gestora.

Segundo a lei que rege o Sistema Nacional de Unidades de Conservação, dentro de parque não pode haver moradores. Eis o impasse: como remover todas estas famílias, inclusive as comunidades quilombolas que estão dentro do Parque Nacional das Sempre-Vivas? As mesmas vivem há séculos ali, em perfeita harmonia com a natureza, protegendo e coletando de maneira sustentável os recursos naturais. 
Este foi o objetivo da reunião: criar um Grupo de Trabalho para fazer estudos, envolvendo as comunidades e as entidades acadêmicas que trabalham com o tema para buscar uma saída. Uma alternativa seria fazer a recategorização, ou seja, mudar a categoria de parque para reserva extrativista, se não o todo da área, pelo menos parte dela.


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O Grupo será criado em fevereiro de 2013 e os trabalhos e análise para uma possível categorização se iniciam em seguida. 

O deputado Padre João ressaltou que é preciso preservar o meio ambiente.
“Não podemos menosprezar as comunidades tradicionais que vivem há séculos em convívio harmonioso com a natureza, tirando dela o sustento com responsabilidade.  No Parque Nacional das Sempre-Vivas temos várias comunidades tradicionais, inclusive quilombolas, e não podemos expulsá-las assim. É possível manter a unidade de conservação e as comunidades que vivem ali. É preciso fazer um ajuste no enquadramento da categoria. Esta é a saída”, afirmou.

Fonte: Assessoria do deputado federal ( PT/MG() Padre João.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Três prefeitos são afastados por corrupção. Um é preso

Norte de Minas fica sem três prefeitos em uma semana
Instabilidade atinge São João do Paraíso, Guaraciama e Olhos D’Água; afastamentos ocorrem a 6 meses das eleições
GIRLENO ALENCAR/ARQUIVO HOJE EM DIA
José Agostinho Chaves
José Agostinho Chaves foi preso em Olhos D'Água suspeito de participar de fraude com prefeito

MONTES CLAROS - Denúncias de apropriação indébita de bens, desvios de recursos e contratações irregulares de servidores fizeram com que três cidades do Norte de Minas perdessem seus prefeitos na última semana. Os afastamentos ocorrem a cerca de seis meses das próximas eleições municipais. As vítimas mais recentes da instabilidade política que atinge as cidades foram os moradores de São João do Paraíso. No final da noite de quinta-feira, o prefeito Manoel Andrade Capuchinho (PSDB) foi afastado do cargo pela Câmara, por 90 dias, acusado de apropriação indébita. 

Capuchinho foi cassado pela segunda vez, sob a alegação de apropriação indébita dos recursos do INSS. No último dia 22 de outubro, os mesmos vereadores tinham cassado o prefeito, mas o desembargador José Altivo Brandão Teixeira, da 2ª Câmara Civil do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) concedeu liminar e ele reassumiu o cargo em novembro. O vice-prefeito José Aparecido Souza, que tinha ficado no cargo um mês no ano passado, foi empossado novamente. Ele é candidato a prefeito em outubro com o apoio de Capuchinho.
 
O presidente da Câmara, Francisco José da Rocha (PR), alega que durante todo ano de 2011 Capuchinho repassou apenas dois meses dos recursos do INSS. Com isso, o FPM foi bloqueado e os salários dos servidores atrasados, além do repasse à Câmara. O prefeito afirma que o bloqueio do FPM ocorreu por causa do ex-prefeito José de Souza Nelsi. Segundo ele, seu afastamento é uma perseguição política. Ele vai recorrer da decisão.
 
Além de Capuchinho, na segunda-feira, foi a vez do prefeito Antônio Dias Neto (PSDB), de Olhos D'Água. A Policia Federal fez a prisão de seis pessoas, entre elas o vice-prefeito, Jefferson Maurício Coelho de Moura, a secretária da Fazenda, Geiziane Aparecida Dias, filha do prefeito, e seu esposo, o servidor Carlos José Dias, o contador Henri Leonardo Alves, além do casal de empresários José Agostinho e Simone Freitas Chaves, donos do posto de combustível. Todos foram acusados de um rombo de R$ 1 milhão aos cofres públicos, na compra de combustíveis.
 
Na quarta, o prefeito Francisco Adevaldo Soares Praes (DEM), de Guaraciama, foi cassado, acusado de contratar irregularmente servidores no ano de 2004. A ação de improbidade administrativa foi movida pelo Ministério Público, que acusa o prefeito de ter feito contratações com fins eleitorais.