quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Projeto social leva turistas a conhecer comunidades quilombolas do Vale.

Criatividade para driblar as dificuldades do dia a dia, vontade de vencer e persistência impulsionam os moradores das comunidades sertanejas.

 postado em 17/11/2015 00:12 / atualizado em 18/11/2015 18:54
Elizabeth Colares/EM/D.A Press
Só pelo título desta matéria já dá para perceber que o que o espera é um roteiro diferente e inusitado. Quem, em sã consciência, sairia do conforto do seu lar para se embrenhar sertão adentro, se hospedando, muitas vezes, em casas de nativos e convivendo com toda uma infraestrutura simples e até mesmo deficitária, quando se trata de estradas? Mas a ideia de conhecer uma cultura que acumulou riquezas imateriais e mantém a tradição herdada dos antepassados, especialmente na religiosidade, nos cânticos e na criatividade para driblar as dificuldades do dia a dia, atrai mais pessoas do que se imagina. E é exatamente essa a proposta do Projeto Agentes Quilombolas Socioambientais, realizado pela ONG Centro de Documentação Eloy Ferreira da Silva (Cedefes), com o apoio do Oi Futuro. É o que se chama de turismo social, pois tem a intenção de, principalmente, gerar renda para os moradores e, em contrapartida, oferecer ao turista um pouquinho do saber das comunidades.

A ideia é mostrar para todo o mundo a beleza e a diversidade do local e que a cultura quilombola tem muito para acrescentar e encantar. A começar pela gastronomia, que vai arrebatar de vez quem ainda tinha dúvida de que estaria indo para o lugar certo. Mas prepare-se para fazer uma dieta alimentar na volta, porque, com certeza, você vai precisar. É que é difícil resistir a tantas guloseimas fresquinhas, servidas em cada lugar a que se chega. Quitandas de todo tipo e comidas típicas como a galinha caipira, quiabo, molho de mamão verde com carne de sol cozida, angu de fubá de produção própria, tropeiro com feijão-de-corda e outras infinitas variedades que seu estômago vai agradecer. Os doces, bolos e biscoitos são capítulo à parte, com destaque para o de polvilho escaldado e frito na hora. Tudo com receitas que passam de mães para filhas, por várias gerações.


Elizabeth Colares/EM/D.A Press
Quilombolas de Berilo são simples, mas já têm estrutura para receber visitantes (( Foto: Elizabeth Colares / EM/DAPres}
MEMORIAL A forte manifestação religiosa, presente tanto nos cânticos quanto nas danças, é outro atrativo importante. A festa de Nossa Senhora do Rosário é um exemplo, sendo responsável por atrair centenas de fiéis aos vários municípios onde é realizada. As congadas são outro tesouro muito bem representado pelos quilombos. É certo que essa manifestação esteve por um tempo meio esquecida, mas foi resgatada por pessoas que lutam para manter sua origem viva. 

Alessandro Borges de Araújo, de 27 anos, não se rendeu às pressões para sufocar sua história. E, num esforço exemplar, vem conseguindo fazer valer a tradição em Berilo, cidade com cerca de 12 mil habitantes, distribuídos na sede e nas comunidades próximas. “A dança do congado aqui é resistência. Enquanto puder contribuir para mantê-la viva, o farei.” Além de convencer as pessoas a abraçar a causa, ele organiza e cuida de um pequeno memorial, com instrumentos, estandartes, bandeiras e outras peças. “A ideia é fazer um memorial de Berilo, que tem cerca de 280 anos”, diz.


Elizabeth Colares/EM/D.A Press
Alessandro Araújo busca manter fortes as raízes de Berilo e diz que congado lá é sinal de resitência cultural ( Foto: Elizabeth Colares / EM/DAPres}

Como Alessandro, representantes em cada comunidade nas regiões de Berilo, Chapada do Norte e Minas Novas lutam pela preservação de seus bens e por dias melhores. E o turismo vai ajudar um pouco nesse papel de desenvolvimento. Qualquer época é interessante, mas a melhor mesmo é a partir de março, quando as chuvas, que começaram agora em novembro, terão passado e transformado a paisagem de vermelha (marcada pela poeira), para verde e colorida pelas flores. Quando os rios, que agora estão por um fio, voltam a brotar e a convidar para um mergulho. E, quem sabe, até as estradas possam ter a atenção dos governantes e ofereçam melhor acesso às localidades, já que, atualmente, o percurso é coberto por cascalho, com vários pontos críticos (BR-367 – Berilo/Araçuaí).



Depoimento
  
“O lugar se chama Vale do Jequitinhonha, mas bem que poderia se chamar Vale Encantado, pelo tanto que toca a alma e mexe com nossa estrutura. Tive vontade de chorar várias vezes, ao ver a situação daquela gente tão sofrida, mas me contive ao ver também a alegria estampada nos rostos e a felicidade ao nos receber (a mim 
e meu grupo). É uma gente brava, resistente, que tem que lutar até contra ela mesma para sobreviver. A simplicidade de lá nos faz refletir sobre a ganância de cá. Um povo esquecido pelos governos e que, mesmo assim, toca a vida como pode. O que dizer das viúvas de maridos vivos, como são chamadas as mulheres que cuidam sozinhas dos filhos, enquanto o companheiro sai em busca de trabalho nos grandes centros? O que dizer das estradas, de terra esbarrancada, às vezes com cascalho, mas a maioria sem condições de tráfego, cheias de poeira e que, quando chove, não tem jeito de passar, e as pessoas chegam a ficar dias ilhadas? Problemas à parte, o lado bom é que é uma gente criativa e persistente. A terra é boa para plantar e comida na mesa não falta. As chuvas também renovam o verde e a esperança do morador. Isso sem falar das tradições mantidas com muito afinco e valor. Sem dúvida, a riqueza imaterial do Vale compensa por si só.” (Beth Colares)

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Turismo chega a comunidades quilombolas de Minas Gerais.

Geralda Oliveira passou os últimos 26 anos trabalhando como empregada doméstica em São Paulo, mas agora está de volta à comunidade de Caititu - Gustavo Miranda / Agência O Globo

Danças, culinária e rituais são atrações dos grupos no Vale do Jequitinhonha, que buscam na iniciativa
uma nova forma de romper ciclo de miséria e isolamento.

POR CHICO OTAVIO
15/11/2015 7:00 / atualizado 15/11/2015 13:28
Suor descendo pelo rosto, roupas cobertas de poeira e garganta seca. Assim que o grupo de mulheres da comunidade de Caititu do Meio rompia em Berilo, cidade do Médio Jequitinhonha a 550 quilômetros de Belo Horizonte, após duas horas de caminhada sob um sol abrasivo, muita gente torcia o nariz: “Ih, lá vêm as pretas feiticeiras do Caititu.’’ Uma delas, a jovem Maria Geralda Gomes Oliveira, corria para pedir um copo d’água à primeira janela. Quando o morador dava-lhe as costas sem responder, Geralda não sabia o que fazer: se esperava pela água ou se saía de fininho, cabeça baixa, sem olhar para trás.

VEJA O VÍDEO

Três décadas depois, Geralda ergue a cabeça para evoluir ao ritmo do batuque. Não é mais “preta feiticeira’’. É quilombola, condição já reconhecida oficialmente. E o Feitiço de Caititu, razão do preconceito que as deixava de garganta seca, é agora o legado cultural que poderá livrá-las do ciclo de miséria que assola uma das regiões mais pobres do país. Para vencer o abandono histórico, a carência, a fome, os latifúndios, a grilagem de terras e, para agravar, uma seca recente nunca vista por ali, as comunidades quilombolas do Jequitinhonha, o “vale da miséria” mineiro, querem virar atração turística. Para isso, estão tirando do fundo do baú da memória uma tradição ironicamente preservada pelo isolamento imposto pelo descaso.

O Brasil tem hoje 5 mil comunidades quilombolas, de acordo com o recém-lançado “Mocambos e quilombos, a história do campesinato negro no Brasil”, do professor de História Flávio Gomes. Porém, menos de 10% foram reconhecidas pelo governo federal. No caso de Minas, são 300 grupos certificados, formados provavelmente após o declínio da mineração, por escravos fugidos e uma população negra livre que se juntaram para iniciar o processo de ocupação de terras devolutas nos grotões do estado no fim do século XIX.

É neste pedaço de terra arenosa, cortada por leitos de rios secos, que o Centro de Documentação Eloy Ferreira da Silva (Cedefes), uma ONG de Belo Horizonte, está abrindo ao turismo a Rota dos Quilombos, que vai cruzar 12 comunidades do Médio Jequitinhonha. Especialistas presumem que a região tenha servido de refúgio às últimas gerações de africanos, deslocados antes e depois da Lei Áurea da economia cafeeira de Juiz de Fora. Este isolamento, também provocado pelo estigma, preservou quase intacto um conjunto singular de manifestações culturais, que mistura o batuque com a viola, a culinária mineira com a nordestina, reinterpreta a tradição católica e ainda fia o algodão com os mesmos métodos e maquinário dos ancestrais.


Ouvi-los cantar no galpão do centro comunitário do Córrego do Rocha, em Chapada do Norte, a 528 quilômetros da capital, é como entrar num túnel do tempo: “Bambu, quero ver quebrar/ Êêêê bambu, cê quebra já/ Cê quebra devagarinho/ Êêêê bambu/ Pra não machucar.’’ 

Mulher beneficia algodão no Córrego do Rocha: mesmos métodos e maquinário dos ancestrais - Gustavo Miranda / Agência O Globo

No passado, a música servia para amenizar o sofrimento dos escravos nas lavras de diamantes e ouro da região. Mas a liberdade não reduziu a importância do canto de trabalho, derivado do vissungo (ocisungo, hino ou canção no idioma umbundo, de Angola), que passou a fazer parte da rotina dos habitantes do Médio Jequitinhonha, continuando a ajudá-los a vencer a rudeza do sertão. As letras são uma mescla de elementos do campo, principalmente da lavoura de subsistência, com promessas de um amor inocente perdido no tempo: “Roda morena, morena torna a rodar/ Nunca vi em quem tem amor despedida sem chorar.’’

Se os anos não conseguiram apagar o repertório da memória, os novos tempos mostram-se implacáveis com esta música secular. Enquanto os mais jovens parecem encantados com o funk da cidade grande, os idosos evitam as cantorias regadas a bebidas alcoólicas para não despertar a ira dos pastores que conduzem um amplo processo de evangelização do sertão. O camponês aposentado Vicente Alves dos Santos, de 66 anos, ainda sabe as músicas na ponta da língua, mas prefere o templo cristão às rodas de viola e sanfona onde “não demora a aparecer confusão’’.

A Rota dos Quilombos, que está trazendo Vicente de volta à cantoria, por não ameaçar seus valores religiosos, é um reencontro das comunidades negras do vale com um passado quase esquecido. Maria Geralda, que passou os últimos 26 anos trabalhando como empregada doméstica em São Paulo, está de volta ao Caititu. Ela tem pressa. Quer aprender rápido as congadas — um bailado dramático com canto e música que recria a coroação de um rei do Congo —, a tempo de receber na comunidade a primeira leva de turistas, prevista para o início de 2016.

O melhor remédio contra o esquecimento é conviver com Alessandro Borges de Araújo, de 26 anos. Ele é uma espécie de guardião da memória dos quilombos do semiárido mineiro, comandando o batuque do Grupo de Cultura Viva Berilo. Não há uma letra escrita, um arquivo digital que o socorra. O jovem, que aprendeu a cantar com a mãe quando iam pegar água no rio, assume com recato a condição de Mestre dos Santos Reis. Ele é um dos encarregados dos festejos de Nossa Senhora do Rosário, em outubro, com muitas danças e cantos, vestimentas de saiões e turbantes brancos, rodas de tambores e batuques, com uma mistura de elementos cristãos católicos e rituais de religiões de origem africana.

Ritual de matriz africana realizado dentro de igreja: sincretismo - Gustavo Miranda / Agência O Globo

O batuque de Alessandro foi acolhido pela casa paroquial da Igreja Matriz de Berilo, onde ocupa uma salinha nos fundos, colorida pelos instrumentos de percussão, por faixas e outros elementos da tradição. Mas nem sempre foi assim. Para evoluir numa festa católica, foi preciso vencer a resistência dos padres e de certa parcela da população. Ainda hoje, o Mestre dos Santos Reis é visto com alguma reserva. Quando não está cantando, ele recolhe o lixo da cidade. De luvas encardidas e máscara, Alessandro é gari da Prefeitura de Berilo.

Para evitar que toda essa riqueza cultural termine numa caçamba de lixo, as comunidades quilombolas passaram a cobrar políticas públicas mais efetivas. Uma resposta importante foi dada este ano pelo governo mineiro, com a criação da Diretoria de Povos Tradicionais (envolve também as comunidades indígenas), vinculada à Secretaria Estadual de Desenvolvimento Agrário. Cabe a Vandeli Paulo dos Santos, 34 anos, nascido e criado no Quilombo Santa Cruz, no Vale do Mucuri, cuidar de mais de 500 comunidades identificadas, 300 delas já certificadas, e uma imensa lista de carências, agravada pela distância, a começar pela falta de titulação das terras.

O processo não é simples. A regularização fundiária, que vem depois da certificação do quilombo, exige o recadastramento das famílias. Para desapropriar as terras, muitas delas devolutas, o governo mineiro precisa analisar milhares de documentos, há anos arquivados e até guardados em sacos de lixo nos cartórios. O próximo passo é convencer os moradores a aceitar a emissão do título coletivo, caminho mais rápido para a posse definitiva das propriedades. Embora o título seja inalienável, indivisível, intransferível e imprescritível, os quilombolas desconfiam. Não aceitam a ideia de dividir as terras com todos, achando que acabarão por perdê-las.

A regularização é sinônimo de créditos nos bancos e, particularmente para os moradores do semiárido, de acesso à água. A seca, que veio com uma força inédita este ano, arrasa a agricultura da região.

José Nilson Araújo da Costa, presidente da Associação de Agricultores Familiares e Feirantes de Berilo, alerta que a estiagem agravou o êxodo rural. Homens que, no passado, migravam para a colheita de cana e café em São Paulo, produzindo o fenômeno das “viúvas de maridos vivos’’, estão seguindo para o estado vizinho com a família toda, deixando para trás um imenso vazio demográfico e hídrico.

Geraldo Magela, de 62 anos, perdeu as contas dos anos vividos como boia-fria em São Paulo. Hoje, finalmente fixou-se como auxiliar de serviços gerais na Escola Municipal Nossa Senhora Aparecida, em Chapada do Norte. Ele é um dos agentes socioambientais quilombolas, treinados nos últimos dois anos pelo Cedefes para guiar os futuros turistas pela Rota dos Quilombos, convencendo-os de que a pobreza física contrasta com uma inexplorada fortuna cultural. O objetivo básico do projeto é oferecer às populações locais uma alternativa de renda.

A FORÇA DE UMA MATRIARCA
Estas muitas idas e vindas de Geraldo, junto com outros seis irmãos homens, serviu para reafirmar o poder da matriarca da família, Isolina Antônia de Jesus, de 91 anos, espécie de rainha-mãe da comunidade de 60 famílias de Caititu do Meio, a quem coube cuidar das mulheres e crianças. A habilidade de Dona Duquinha, como é chamada, na produção de panelas de barro garantiu a sobrevivência do clã — são os potes de barro da região que servem até hoje a comida na Quinta-feira do Angu na Festa de Nossa Senhora do Rosário.
— Eu andava oito quilômetros levando na cabeça cinco potes, cinco botijas, uma talha e um buião de coar café — lembra Dona Duquinha.

Dona Duquinha, que também já lavou roupa para fora, torrou mandioca e fiou algodão (quatro rolos diários, na fase mais produtiva), dá nome à rua principal do quilombo. Ela conta nove filhos, quatro já mortos, e 53 netos. Até hoje, vai às missas dominicais na Igreja de Santa Luzia, uma ermida no núcleo central de Caititu. Suas roupas coloridas, com babados nas bordas, remetem a uma aldeia africana.

A memória está impecável. Abre um sorriso ao recordar-se das festas no Córrego do Buraco, antiga moradia, onde preparava mais de 30 galinhas caipiras. A matriarca é do tempo em que o mesmo riacho era chamado de “córrego sujo’’, quando cortava a área ocupada por comunidades negras, e “córrego limpo’’, assim que entrava na sede do município. Mas a anciã não guarda mágoas, evita as histórias tristes. Só reclama de um incômodo nas pernas, que reduziu os deslocamentos dentro de casa. Na parede, imagens de santos dividem espaço com retratos de parentes.

Quem já experimentou a culinária de Isolina garante que ela sabia o que fazer com as pnelas de barro que fabricava. Mas poucas cozinheiras da região se comparam a Maria Ferreira de Souza Santos, a Nega, da comunidade do Córrego do Rocha, que nocauteou os visitantes naquele início de tarde quente e empoeirado ao extrair do fogão de lenha uma farofa com feijão-de-corda e torresmo, carne de panela temperada com urucum, mamão verde com cebolinha e salada variada.

A culinária é outra joia da tradição quilombola mineira. O calor não foi adversário para Nega, que entrou na cozinha às sete da manhã e deu conta de duas dezenas de visitantes levando à panela três quilos de feijão-de-corda.

Candombe, tamborzada, congado, invernada, curiango, o nove, catira. O baú de tradições dos quilombos mineiros não tem fundo. É difícil acreditar que, depois de tanto treino, eles consigam receber os visitantes de longe — espera-se um fluxo até da Europa — com o distanciamento de um recepcionista de hotel ou de um guia turístico. O visitante de um quilombo é quase um parente que a família ainda não conhecia. Não demora para ele mergulhar neste universo único, que já encantou antropólogos e historiadores e agora abre as portas para os viajantes amadores.


Fonte: G1

Quick Cia de Dança se apresenta em 5 cidades do Vale do Jequitinhonha

As cidades de Bocaiúva, Minas Novas, Capelinha, Itamarandiba e Diamantina, na região do Vale do Jequitinhonha, receberão, de 17 a 25 de novembro, programação gratuita da Quik Cia de Dança que inclui espetáculo, oficinas e exposição.






Diferentes cidades do Jequitinhonha, no interior de Minas, receberão, durante o mês de novembro, os trabalhos da Quik Cia de Dança. O público poderá conhecer um pouco mais da Cia, que excursiona pela primeira vez pela região, promovendo uma programação especial em cada cidade, que inclui apresentação de espetáculo, realização de oficinas e uma exposição fotográfica, todos gratuitos.  A Circulação pelo Vale do Jequitinhonha marca o início das comemorações de 15 anos da Quik Cia de Dança.

A primeira parada será em Bocaiúva (17/11). Na sequência, as ações seguem para Minas Novas (19/11), Capelinha (21/11), Itamarandiba (23/11) e Diamantina (25/11). A circulação ainda terá uma segunda etapa, no primeiro semestre de 2016, que contemplará as cidades de Almenara, Araçuaí, Salinas, Itinga e Chapada do Norte, no Vale do Jequitinhonha, além de Juiz de Fora, na Zona da Mata.  “A Quik vem fazendo uma importante parceria com a Secretaria de Cultura de Minas Gerais, cumprindo um dos seus objetivos principais que é difundir a Dança Contemporânea no Estado. Já nos apresentamos em mais de 40 cidades e agora chegamos ao Vale. A linguagem e metodologia que desenvolvemos tem, em sua essência, o diálogo com a cultura local. Percebemos a potência que vai ser de trocarmos com uma cultura tão rica desta região de Minas. Acrescido a isto, vamos também convidar escolas públicas para participarem deste projeto. Enxergamos na educação uma grande possibilidade de formar público, outro importante objetivo nosso”, explica a bailarina Letícia Carneiro.


O espetáculo que será apresentado é “Ressonâncias”.  A história se constrói em parceria com a plateia, que compõe a cena, envolvendo dança, música, espaço, arquitetura e público em uma formação única, resultando em uma construção inédita a cada apresentação. A transversalidade da arte neste espetáculo se propõe a refletir o cenário vivo de cada local de apresentação, permitindo a seus interlocutores olhares que dialogam e revelam seus imaginários. Cada apresentação possibilita ao público diferentes perspectivas e formas de recepção e assimilação da montagem, de acordo com o perfil e características de cada espaço e do público presente.  Por se tratar de um espetáculo que dialoga bastante com o público e também com local onde está sendo apresentado, a expectativa da Cia. de encená-lo no Vale do Jequitinhonha é bastante grande.

Teoria e prática

Duas oficinas marcarão a estadia da Cia pelas cidades. A primeira terá como foco o público escolar. Uma escola pública de cada município receberá o jogo de cartas de memória, desenvolvido pela equipe da Quik dentro do projeto “Corredor Cultural”, aprovado pelo Fundo Estadual de Cultura de Minas Gerais. O jogo fala da história da dança, despertando nos alunos o interesse pela arte, além de sensibilizá-los para a apresentação de “Ressonâncias”, que será realizada em praça pública.

Já na oficina “Permeabilidades - Estratégias para uma dança criativa”, ministrada por Rodrigo Quik e Letícia Carneiro, os bailarinos irão trabalhar com a improvisação como um meio de aproximação do público com o seu sensório e sua percepção, potencializando sua sensibilidade através da exploração deste corpo e suas relações com o espaço, com outros corpos e com a música. Neste sentido, esta oficina desenvolverá, através de técnicas de consciência corporal e de jogos de improvisação em dança, a possibilidade de sensibilização e da vivência do público com os processos de criação utilizados durante o espetáculo “Ressonâncias”. A atividade é aberta a todo o público.

Exposição “Outros Olhares” - A exposição reúne o olhar de vários fotógrafos sobre o espetáculo “Ressonâncias”, desde 2010, criando diferentes possibilidades de novas realidades, interlocuções e transversalidades. A proposta é refletir o cenário vivo e a presença do público de cada local de apresentação, permitindo a seus interlocutores olhares que dialogam e revelam seus imaginários.

A curadoria foi feita por Rodrigo Quik e Letícia Carneiro. Dentre os fotógrafos participantes estão Ilana Lansky, Foca, Nina Blauth, Ary Kerner, Guto Muniz e Tarcísio de Paula.  “Essa variedade de fotógrafos é algo que nos estimulou muito, pois são diversos olhares, em situações bem distintas e também com público e arquitetura completamente diferentes. Alguns fotógrafos foram encontrados espontaneamente, durante nossas apresentações, e outros foram contratados pelos eventos e nos passaram as imagens. O que nos motivou a criar esta exposição foi a possibilidade interdisciplinar, pois  estamos misturando um trabalho de artes visuais com artes cênicas e performance. Criamos assim, novos significados e símbolos para  nós, artistas envolvidos, e para o público”, conta Rodrigo Quik.

Ressonâncias é um marco no trabalho de improvisação desenvolvido pela Quik Companhia de Dança.  Desde 2006,  a Cia  tem focado suas  pesquisas a partir da improvisação. Para isso, tem investigado novos métodos de composição,  construindo  partituras de relações cênicas como um caminho possível.  “Ressonâncias”, que vem sendo realizado desde 2008, tem passado por várias fases, modificações e amadurecimentos. É uma obra artística com uma metodologia muito interessante e própria, que vem sendo construída e descoberta através do próprio fazer, em locais muito diferentes e na relação aberta e interativa com cada um dos públicos. É um espetáculo que tem tido uma aceitação grande em festivais no Brasil, não só de dança, mas também de teatro. Só neste ano, o espetáculo esteve  no “Festival Internacional de Rua de Porto Alegre”, em Porto Alegre; “Festival de Inverno de Garanhuns”, em Pernambuco; e “Festival Internacional Latino de Teatro”, em Salvador.

Ficha Técnica do espetáculo “Ressonâncias”

Concepção, Criação e Interpretação: Letícia Carneiro e Rodrigo Quik
Criação e execução da trilha sonora ao vivo: Rodrigo Salvador  e Antônio Moreira
Figurino: Silma Dornas e Rodrigo Quik
Cenografia: Letícia Carneiro  
Produção executiva: Merry Couto

Ficha Técnica da Exposição “Outros Olhares”:
Realização: Quik Cia de Dança
Curadoria: Letícia Carneiro e Rodrigo Quik
Fotógrafos: Ary Kerner, Guto Muniz,  Ilana Lansky, Foca, Nina Blauth,  Paula Ternoval  e Tarcísio  de Paula

Sobre a Quik Companhia de Dança - Fundada em 2000, no bairro Jardim Canadá – Município de Nova Lima(MG), pelos bailarinos Letícia Carneiro e Rodrigo Quik. Ambos com vasta experiência profissional em dança contemporânea no Brasil e no exterior, como integrantes do Grupo Corpo de 1984 a 1996. A Cia completou, em 2015, 15 anos de existência possuindo no seu repertório oito  espetáculos. Nesse processo, construiu uma metodologia de criação artística, na qual sempre valorizou os procedimentos de pesquisas sistematizadas em dança contemporânea e suas interfaces com outras linguagens artísticas. A Quik descobriu, nesta trajetória, que novos olhares para o mundo e diferentes possibilidades de dialogar  com outras linguagens artísticas, trazem potencialidade de criação para seus espetáculos. Há 13 anos, a Quik atua na comunidade do Jardim Canadá, em Nova Lima(MG), por meio de seus projetos sócio-artístico-cultural, contribuindo para o acesso da população aos bens culturais, através das atividades promovidas no "Quik Espaço Cultural" e pelas ações produzidas em seu projeto de educação pela arte, o "Quik Cidadania".

Patrocínio: Petrobras, Governo Federal Brasil Pátria Educadora. Incentivo: Lei Estadual de Incentivo à Cultura de Minas Gerais.

Programação Quik Cia de Dança – Jequitinhonha

Espetáculo “Ressonâncias”, exposição “Outros Olhares” e oficinas
(Todas as atividades ocorrerão nas praças)

Bocaiúva
Data: 17/11

Espetáculo “Ressonâncias”
Horário: 17h
Local: Praça Wan-Dick Dumont

Oficina “Vivência Criativa”
Horário: das 18h às 18h45
Local: Praça Wan-Dick Dumont

Exposição fotográfica”Outros olhares”
Horário: das 16h às 19h
Local: Praça Wan-Dick Dumont

Minas Novas
Data: 19/11

Espetáculo “Ressonâncias”
Horário: 18h
Local: Praça Nossa Senhora da Gruta

Oficina “Vivência Criativa”
Horário: das 19h às 19h45
Local: Praça Nossa Senhora da Gruta

Exposição fotográfica”Outros olhares”
Horário: das 17h às 20h
Local: Praça Nossa Senhora da Gruta

Capelinha
Data: 21/11

Espetáculo “Ressonâncias”
Horário: 9.30h
Local: Praça do Povo

Oficina “Vivência Criativa”
Horário: das 10.30h às 11h15
Local: Praça do Povo

Exposição fotográfica”Outros olhares”
Horário: das 9h às 12h
Local: Praça do Povo

Itamarandiba
Data: 23/11

Espetáculo “Ressonâncias”
Horário: 16h
Local: Praça dos Agricultores

Oficina “Vivência Criativa”
Horário: das 17h às 17h45
Local: Praça dos Agricultores

Exposição fotográfica”Outros olhares”
Horário: das 15h às 18h
Local: Praça dos Agricultores

Diamantina
Data: 25/11

Espetáculo “Ressonâncias”
Horário: 17h
Local: Praça do Mercado Velho

Oficina “Vivência Criativa”
Horário: das 18h às 18h45
Local: Praça do Mercado Velho

Exposição fotográfica”Outros olhares”
Horário: das 16h às 19h
Local: Praça do Mercado Velho

Informações para a imprensa
Fábio Gomides – (31) 9693-2767
Cristiana Brandão – (31) 9791-5702

@aduplainforma

Artesãos do Vale expoem em Galeria de arte de São Paulo

Em meio à miséria, mulheres do Vale do Jequitinhonha se refugiam na arte

Luna D'Alama
Colaboração para o UOL, em São Paulo
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Artesãos do Vale do Jequitinhonha8 fotos

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A artista mineira Lira Marques, de 70 anos, começou a se interessar por argila e cerâmica, aos 5 anos de idade. As peças de barro são confeccionadas por ela no Vale do Jequitinhonha, em MG Maurício Nahas
Foi vendo a mãe fazer presépios de Natal que a artista mineira Lira Marques, 70, começou a se interessar por argila e cerâmica, aos 5 anos de idade. As peças de barro confeccionadas por ela no Vale do Jequitinhonha --região nordeste de Minas Gerais, conhecida nos anos 1970 como "Vale da Miséria"-- saíram de lá para ganhar o mundo, em exposições na Áustria e em Boston (EUA) e pelas mãos de compradores da Alemanha, Bélgica, Holanda e Itália, entre outros.
A partir desta sexta-feira (13), a vida e a obra de Lira e dezenas de outros artesãos da região mineira chegam a São Paulo com a exposição fotográfica "Do Pó da Terra", que é assinada pelo paulistano Maurício Nahas e fica em cartaz no Museu Afro Brasil, no parque Ibirapuera, até 3 de janeiro.
A mostra, que reúne 50 imagens em preto e branco, tem como foco as pessoas –a maioria, mulheres– por trás de cada trabalho, além das paisagens regionais. São artistas que vivem em meio à seca, à violência, ao desemprego e a baixíssimos níveis de IDH, mas mantêm viva uma tradição oral passada de geração para geração. 
"É gratificante ter o nosso trabalho divulgado em São Paulo, assim como a vida e a trajetória do artesão. Tenho uma produção bastante variada, mas gosto muito de fazer máscaras de negros e índios, pois sou descendente dos dois, e o rosto sofrido deles retrata bem a nossa realidade, os problemas sociais", explica Lira, que mora com a família na cidade de Araçuaí e veio à capital paulista para o lançamento da exposição e de um livro homônimo. Segundo ela, "coisas bonitinhas" são mais fáceis de vender, mas, apesar disso, o interesse do público --principalmente de turistas estrangeiros que visitam o Vale do Jequitinhonha – tem sido grande para conhecer suas obras.
"Viver de arte não é tão simples, mas faço um trabalho sério, dou oficinas na UFMG e também mexo com desenhos e pinturas. Já ensinei três sobrinhos [duas mulheres e um homem], pena que eles não estão querendo dar continuidade. Fico um pouco chateada com isso, eles têm peças bonitas, as pessoas veem e incentivam, mas não é tão fácil assim vender", conta ela, que acredita que sua região tem mudado aos poucos, ao longo dos anos. "Hoje muita gente vai lá para conhecer a nossa cultura, os artesãos, os grupos de teatro, os corais, e fazer compras", destaca.
As "paneleiras", como são conhecidas essas mulheres, começaram produzindo objetos utilitários (como panelas, potes e moringas), sob forte influência indígena, passaram a fazer brinquedos e figuras para presépios --caso da mãe de Lira-- e hoje se concentram em peças decorativas, como figuras humanas, esculturas de animais e cenas do dia a dia. Assim, os artistas têm conquistado independência econômica e valorização profissional.

Bendito entre as mulheres

Apesar de reunir predominantemente artistas do sexo feminino, também há homens que trabalham a cerâmica no vale mineiro. O artesão e produtor cultural Amaury Ferreira, 43, é um desses representantes: assim como Lira, ele está retratado na exposição do Museu Afro Brasil e veio a São Paulo para a inauguração.
Morador da cidade de Minas Novas, Amaury iniciou a carreira há 22 anos, modelando pequenos objetos com Durepoxi. "Depois que conheci o barro, nunca mais parei. No começo, era estranho, por ser um ofício quase exclusivo das mulheres, mas era muito bonito e trazia resultados. Criei figuras e personagens como a 'magrela' e um casal se beijando --com este, fiquei muito conhecido, vendi várias peças na Vila Madalena, em São Paulo, e para turistas e colecionadores da França e Itália", conta.
Ele também é professor, com foco em comunidades quilombolas, e já ensinou sua arte para a mulher –que agora ministra oficinas– e para a filha mais nova, de 10 anos, que pretende seguir os passos do pai. "Ajudei, ainda, a capacitar uma localidade chamada Cachoeira do Fanado. Hoje, todo mundo lá vive do artesanato. E consegui viver de arte, adquiri bens e comprei até um pedaço do lugar de onde, no início, eu tirava o barro para trabalhar", afirma.

Livro e filme

Além da exposição, o fotógrafo Maurício Nahas, 51, está lançando um livro sobre os artesãos do Vale do Jequitinhonha, com cerca de 80 imagens. Segundo Nahas, o nome "Do Pó da Terra", que batiza todo o projeto, tem a ver com uma frase do Gênesis ("E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra...") e faz essa analogia entre o barro e a essência humana.
O fotógrafo esteve no vale mineiro em 2013 para gravar um documentário sobre o tema, que será lançado no primeiro semestre de 2016, e voltou em janeiro deste ano para fazer as fotos presentes na exposição.
"O que mais me impressionou foi ver um talento enorme de pessoas que, muitas vezes, são semianalfabetas, é quase surreal. Você também percebe a força da mulher, numa sociedade que virou matriarcal. Estamos falando de uma atividade com 80% de predominância feminina, e muitas delas trabalham enquanto os maridos cuidam da casa e dos filhos", diz. O projeto dele se concentra em mais de dez artesãs, como Lira, e em alguns homens, como Amaury.
No documentário, Nahas assina seu primeiro trabalho na direção. "Rodamos mais de 3 mil km em 25 dias, passamos por sete cidades. O Vale é um personagem importante, acho que já melhorou muito, não cabe mais ser chamado de 'Vale da Miséria'. Apesar disso, ainda é um lugar com escassez de trabalho e oportunidades, onde vive um povo muito castigado", pondera.
Exposição "Do Pó da Terra"
Quando: de 13/11 a 3/1; ter. a dom., das 10h às 17h
Onde: Museu Afro Brasil (Parque Ibirapuera, portão 10, acesso pelo portão 3; av. Pedro Álvares Cabral, s/n)
Quanto: R$ 6 (inteira) e R$ 3 (meia). Entrada gratuita aos sábados
Informações: (11) 3320-8900 e www.museuafrobrasil