quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Mulher de 68 anos é resgatada de situação análoga à escravidão, no Vale do Jequitinhonha

Mulher de 68 anos é resgatada de situação análoga à escravidão em MG


    Foto: Reprodução/MPT-RJ
Uma denúncia anônima recebida por procuradores do Trabalho de Minas Gerais permitiu o resgate, nesta segunda-feira (10), de uma empregada doméstica de 68 anos que trabalhava em condições análogas à escravidão na cidade de Rubim, no Vale do Jequitinhonha, no nordeste mineiro.
Além de não pagar o salário da doméstica, a empregadora, de 50 anos, ainda usava o dinheiro da pensão que a trabalhadora recebia pela morte do marido e chegou a fazer três empréstimos consignados, num total de R$ 9 mil, em nome da empregada.
O resgate da trabalhadora foi uma operação conjunta do Grupo Especial de Fiscalização Móvel, composto por representantes do Ministério do Trabalho (MTE), do Ministério Público do Trabalho (MPT), da Defensoria Pública da União (DPU) e da Polícia Rodoviária Federal (PRF). A denúncia anônima foi feita à Procuradoria do Trabalho em Teófilo Otoni e repassada à Coordenadoria Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo (Conaete) do MPT, que acionou o Grupo Móvel.
De acordo com a procuradora do Trabalho, Juliane Mombelli, do Ministério Público do Trabalho no Rio de Janeiro (MPT-RJ) e integrante do Grupo Móvel, a doméstica trabalhava em situação análoga à de escravo há cerca de oito anos. Além de não receber o salário pelo trabalho doméstico, a empregadora ainda sacava o dinheiro do benefício da pensão para custear gastos feitos em uma venda de propriedade da sua família. A procuradora preferiu não revelar o nome da vítima nem da empregadora, porque o processo ainda será instaurado.
“A trabalhadora é uma pessoa idosa, analfabeta, não sabia a quem recorrer. Era conhecida da família e quando o marido morreu, ficou desamparada, e a empregadora encaminhou os documentos para receber o benefício da pensão. A empregadora alegou que não repassava o benefício porque ela tinha uma dívida na venda, que é de propriedade da empregadora. Isso caracteriza servidão por dívida”, afirma a procuradora.
A doméstica cuidava da casa de três quartos, onde moravam a empregadora, dois filhos e uma neta. E morava em um quarto separado da casa, com um filho maior de idade. “Tem a questão da submissão psicológica: mora aqui, contribui com serviço e comprando mantimentos. A patroa alegou que fazia um bem para ela, porque ela não tinha onde morar “, contou Juliane Mombelli.
“O resgate se deu na região mais pobre do estado de Minas. É fruto de desinformação, de achar que trabalho doméstico não é trabalho e não precisa ser remunerado. Não se pode admitir a troca de serviço por moradia e alimentação”completou a procuradora.
Punição  
Segundo o coordenador do Grupo Móvel, o auditor fiscal do Ministério do Trabalho, Geraldo Fontana, foi lavrado um auto de infração e determinado o pagamento das verbas trabalhistas pela empregadora, que terá que arcar com cerca de R$ 72 mil pelos últimos cinco anos não pagos. Ainda não foi possível chegar ao valor que a empregadora reteve da pensão da doméstica. “ Vamos emitir também um guia de seguro desemprego para ela”, acrescentou o auditor.
Ele informou ter visitado a região há cerca de um mês, ocasião em que foram constatados indícios de trabalho escravo tanto em residências nas cidades quanto em fazendas. E que a denúncia do MPT permitiu o flagrante. “É um hábito ainda vivo na cultura deles. O empregador manter como agregados pessoas em vulnerabilidade social, isso remonta à República Velha, é um retrocesso que persiste” argumentou Geraldo Fontana.
O MPT fez o levantamento da situação e irá apresentar à empregadora uma proposta de termo de ajuste de conduta (TAC) para pagamentos por danos morais à doméstica. A trabalhadora foi encaminhada a pessoas de sua família.
Segundo o defensor público da União, Pedro Paulo Chiazini, que integra o Grupo Móvel, a DPU fará um requerimento administrativo junto ao INSS para a suspensão dos empréstimos feitos de maneira fraudulenta e cobrar que a empregadora pague o que deve à doméstica, caso contrário irá propor uma reclamação trabalhista. “A empregadora praticou crime previsto no estatuto do idoso, de retenção do cartão de benefício. Vamos apresentar uma notícia crime ao Ministério Público de Minas”, disse Chiazini.
Informações do MPT-RJ. 

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Maria José, ex-prefeita de Teófilo Otoni e ex-deputada estadual, faleceu nessa segunda-feira.

Ex-deputada Maria José Haueisen Freire falece aos 87 anos.

Corpo foi velado no Salão Nobre da Assembléia Legislativa, de 8 às 12 horas, dessa terça-feira. Uma ambulância transporta o corpo para Teófilo Otoni, onde também será velado a partir das 20 horas.

O sepultamento acontece nesta quarta-feira, 21.02, às 16:30 horas.

Devido a problemas pulmonares, faleceu, aos 87 anos, na última segunda-feira (19/2/18), a ex-deputada estadual e ex-prefeita de Teófilo Otoni, Maria José Haueisen Freire. 

O velório foi realizado na manhã desta terça-feira (20.02), no Salão Nobre da Assembleia Legislativa. O corpo segue para sua cidade natal, Teófilo Otoni, no Vale do Mucuri, nordeste de Minas, onde também será velado, a partir das 20 horas, na Praça de Esportes, no Bairro Grão Pará. 

O sepultamento está marcado para as 16h30, desta quarta (21.02), no Cemitério Municipal João Gabriel Costa.

Teófilo Otoni amanheceu em luto nesta terça-feira (20). Maria José estava internada depois de sentir fortes dores nos rins. Ela reclamava de muitas dores e, com o agravamento da situação, acabou evoluindo para óbito ao final da noite.

Biografia
Nascida em 27 de setembro de 1930, Maria José Haueisen Freire era professora por formação, foi sindicalista, ex-presidente da União dos Trabalhadores no Ensino (UTE) em Teófilo Otoni; fundadora do PT municipal (em Teófilo Otoni) e estadual (MG); participante das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs); presidente do PT em Teófilo Otoni; deputada estadual por 5 mandatos e prefeita de Teófilo Otoni, de 2005 a 2012.
Como prefeita, investiu prioritariamente em educação, construindo uma rede de educação infantil e melhorando a qualidade da educação na rede de ensino fundamental e médio.
Procurou valorizar os profissionais da educação, com a melhoria das condições de trabalho e aumento salarial, além de propor ações de inovações pedagógicas.
Maria José deixou um legado que fará com que o seu nome seja eternamente lembrado nos anais da história do Município. Foi em sua Administração, e com forte participação sua, que, entre tantas outras realizações do seu governo, foi inaugurado na cidade o campus avançado da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM), em setembro de 2005, com a presença do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Atuação Parlamentar na ALMG
A ex-deputada Maria José assumiu o seu primeiro mandato como parlamentar na ALMG no dia 04 de janeiro de 1989, onde permaneceu, por cinco mandatos consecutivos, até o dia 31 de dezembro de 2014, quando renunciou ao mandato para assumir a Prefeitura de Teófilo Otoni, para a qual havia sido eleita.
Na Assembleia, foi líder da bancada do PT, Líder da Minoria, integrante das Comissões de Educação, Direitos e Garantias Fundamentais e Constituição e Justiça. Foi presidente das comissões de Defesa do Consumidor e de Direitos e Garantias Fundamentais, além de ser eleita para compor a Mesa da Assembleia, onde foi 2ª secretária no biênio 1995/1996. Foi também a primeira mulher a presidir a Sessão de Instalação de uma Legislatura, em 2003.
Na Assembleia, participou de cinco legislaturas, sendo eleita como 1ª suplente, em 1986, assumindo de 1989 a 1991, com a eleição do deputado estadual Chico Ferramenta, como prefeito de Ipatinga. Foi reeleita em 1990, 1994, 1998 e 2002.

Ainda no Legislativo mineiro, ela foi representante do PT na Comissão Pró-Impeachment de Newton Cardoso. Foi líder da Bancada do PT, Líder da Minoria, integrante das Comissões de Educação, Direitos e Garantias Fundamentais e Constituição e Justiça.

Foi presidente das comissões de Defesa do Consumidor e de Direitos e Garantias Fundamentais, além de ser eleita para compor a Mesa da Assembleia, onde foi 2ª-secretária no biênio 1995/1996. Foi também a primeira mulher a presidir a Sessão de Instalação de uma Legislatura (2003). Em 2003 e 2004, presidiu a Comissão de Meio Ambiente e Recursos Naturais.

Homenagens
Durante toda a madrugada de segunda (20/02) inúmeras manifestações de pesar foram oferecidas por fãs, admiradores e simpatizantes da grande líder política, mas também do grande ser humano que era a ex-prefeita Maria José. O prefeito Daniel Sucupira, ainda na manhã de hoje, decretou luto oficial pela perda da ex-prefeita.
O presidente Lula postou no facebook, a seguinte mensagem:
Com muita tristeza recebi na manhã de hoje a notícia do falecimento de minha querida amiga Maria José Haueisen Freire, ex-prefeita da cidade de Teófilo Otoni, em Minas Gerais. Ao longo de uma trajetória aguerrida na vida política sempre com a atenção voltada para os mais pobres, tanto como prefeita quanto como deputada, Maria José deixa um legado na história do Vale do Mucuri, como a Universidade Federal dos Vales que, juntos, tivemos o privilégio de inaugurar, transformando a educação pública na região. O PT perde uma de suas maiores guerreiras que tanto fez pelo partido. Meus profundos sentimentos à família e a todos mineiros que tiveram a oportunidade de conviver com nossa querida Maria José.
Luiz Inácio Lula da Silva
(foto Ricardo Stuckert)

Emocionado, o deputado estadual Jean Freire falou à TV Assembleia sobre o legado de Maria José Haueisen Freire. 
O parlamentar mostra o lado caridoso da ex-deputada e ex-prefeita de Teófilo Otoni, com quem conviveu desde a infância. 


Deputado estadual Rogério Correia - PT

O deputado estadual Rogério Correa disse:
"Fui colega da companheira Maria José no Sind-UTE/MG, no PT, desde sua construção e na Assembléia Legislativa. 
Uma mulher de luta, íntegra, firme, que fez da própria vida uma nítida opção pelos pobres e os trabalhadores".

Deputado federal Padre João - PT
"Maria José Sempre pautou a sua luta nos princípios éticos e em defesa dos trabalhadores e do povo menos favorecido. 
Companheira aguerrida, mulher firme em seus propósitos e democrática. Militante ativa por uma sociedade melhor, onde todos pudessem ter seus direitos resguardados. Foi presidente da União dos Trabalhadores no Ensino (UTE) em Teófilo Otoni; fundadora do PT municipal e estadual; Sempre atuante nas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e nos embates políticos e sociais pelo direito à vida, enfrentando preconceitos, em tempos difíceis da ditadura, mas foi audaciosa, foi mulher!
Foi muito bom conhecê-la e trabalhar com ela. Vá em paz! 
Você combateu o bom combate, como disse o apóstolo Paulo, e guardou a fé. 
Sua trajetória nos inspira, sobretudo para a importância da atuação da mulher na política e nas organizações sociais, na luta pelos direitos fundamentais.
Nossos sinceros sentimentos aos familiares e amigos. 
Força de Deus!
Deputado Federal Padre João

Outras lideranças do Jequitinhonha e Mucuri destacaram o legado de Maria José

Vanderley Gomes , de Nanuque - Vale do Mucuri
Grande companheira de muitas lutas. Acompanhamos e participamos de sua trajetória política em favor dos oprimidos principalmente nos Vales do Jequitinhonha e Mucuri. Maria José Haueisen Freire, ex deputada estadual e ex prefeita de Teófilo Otoni, é mais uma estrela que deixa a terra para continuar brilhando na constelação celestial! Que nosso pai celestial a receba em seus braços e a acolha em sua infinita bondade!
Marcus Vinícius - Itaobim - Médio Jequitinhonha
Encantou-se Maria José Haueisen Freire, ex-Dep. Estadual por MG e ex-prefeita de Teófilo Otoni. Mulher de fibra, à frente de seu tempo, grande inspiradora para várias lutas e conquistas nos Vales do Mucuri e Jequitinhonha. Mais do que notas de pesar, precisamos honra-la, com mais dias de vitórias dos trabalhadores e trabalhadoras, nas lutas sociais! Companheira Maria José...PRESENTE!

Odair Carvalho - Novo Cruzeiro - Médio Jequitinhonha
Maria José. Uma mulher que fez história na luta pelo desenvolvimento regional. Percorreu inúmeras comunidades rurais e urbanas, associações, igrejas e escolas. Fez dos seus mandatos um serviço ao povo. Insubstituível exemplo.

Nota de Falecimento





segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Estudante quilombola de Berilo inicia Mestrado em Antropologia Social na UFMG

Comunidades quilombolas do Vale do Jequitinhonha têm sua primeira remanescente a ingressar no Mestrado em Antropologia Social da UFMG, em Belo Horizonte

Raquel de Souza Pereira, 23 anos, é da comunidade quilombola de Morrinhos,
em Berilo, no Médio Jequitinhonha.  Foto: Arquivo Pessoal de Raquel

        Quantas vezes ouvimos a frase “sonhar não é poder" e muitas vezes desistimos de sonhar porque muitos não acreditam que você realmente pode? Dependendo de sua etnia e da posição social que você se encontra este direito de sonhar é cortado a todo momento. Mas, essa realidade vem mudando. Nosso povo está empoderando-se, no reconhecimento fisicamente e intelectualmente. Assim, as portas vão se abrindo pela persistência do estudar. O estudo é o caminho que nos leva a realizar sonhos.
         E agora, uma dessas sonhadoras acaba de mostrar para todos nós que pode e deve ter sonhos cada vez mais altos. Raquel de Souza Pereira tem 23 anos. Filha de agricultores familiares, nascida na comunidade quilombola de Morrinhos, localizada no município de Berilo, no Médio Jequitinhonha, nordeste de Minas, sempre foi uma menina engajada nas ações de luta pelos direitos de seu povo. Seja na luta contra o avanço da monocultura do eucalipto, na luta por igualdade de gênero ou na luta pela garantia dos direitos das comunidades quilombolas. Dedicada, sempre estudou em escola pública, e teve nos livros a inspiração dos sonhos possíveis.
     Graduou-se no Curso Superior de Tecnologia em Gestão Ambiental pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Norte de Minas Gerais – IFNMG /campus Araçuaí.
    Participou, num período de 06 meses, do processo seletivo no Programa de Pós - Graduação em Antropologia Social  (PPGan) da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas - FAFICH, na Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG. Foi selecionada com uma excelente nota, tornando-se a primeira descendente de quilombolas do Vale do Jequitinhonha a ingressar no Programa de Antropologia da UFMG. 
Essa área é de suma importância para as comunidades de remanescência quilombola, tendo em vista que são os profissionais da área antropológica que fazem os estudos para titularização coletiva dos territórios quilombolas e há poucos profissionais com este perfil, o que dificulta este trabalho.
      Sonhar é sim, possível. Basta acreditarmos em nós mesmos. Não há limites para os sonhos.
Que outros e outras Raquéis continuem a sonhar.
Todos nós temos os mesmos direitos, o direito de ocuparmos as Universidades Federais, seja em graduação, mestrado ou doutorado.
Que Raquel sirva de inspiração a todos os nossos jovens que mantêm vivo dentro de si o direito de sonhar alto, porque sonhar é sim, poder!

Publicado no Blog do Jô Pinto


sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Poema atual: A Implosão da Mentira

Affonso Romano e a implosão da mentira

QUI, 28/10/2010 - 07:42
ATUALIZADO EM 29/10/2010 - 08:16
no Blog do Luiz Nassif.
No dia 08 de abril de 2010 o poeta Affonso Romano publicou em seu blog o seguinte (e nós dos blogs que tratam de literatura repercutimos):
Me vejo obrigado a uma vez mais a desmentir um texto que continua a circular doidamente na internet com meu nome.
Agora piorou. Adicionaram o seguinte:
"Esse texto deve se tranformar na maior corrente que a internet já viu, para que na época das eleições consigamos frear a escalada do mal!".
Favor divulgar o poema correto que não tem nada a ver com a contrafacção que anda pela internet, este poema é de 1984, escrito durante a ditadura e o episódio do 'RIO CENTRO'.


A Implosão da Mentira
Affonso Romano de Sant'Anna
Fragmento 1
Mentiram-me. Mentiram-me ontem
e hoje mentem novamente. Mentem
de corpo e alma, completamente.
E mentem de maneira tão pungente
que acho que mentem sinceramente.
Mentem, sobretudo, impune/mente.
Não mentem tristes. Alegre/mente
mentem. Mentem tão nacional/mente
que acham que mentindo história afora
vão enganar a morte eterna/mente.
Mentem. Mentem e calam. Mas suas frases
falam. E desfilam de tal modo nuas
que mesmo um cego pode ver
a verdade em trapos pelas ruas.
Sei que a verdade é difícil
e para alguns é cara e escura.
Mas não se chega à verdade
pela mentira, nem à democracia
pela ditadura.
Fragmento 2
Evidente/mente a crer
nos que me mentem
uma flor nasceu em Hiroshima
e em Auschwitz havia um circo
permanente.
Mentem. Mentem caricatural-
mente.
Mentem como a careca
mente ao pente,
mentem como a dentadura
mente ao dente,
mentem como a carroça
à besta em frente,
mentem como a doença
ao doente,
mentem clara/mente
como o espelho transparente.
Mentem deslavadamente,
como nenhuma lavadeira mente
ao ver a nódoa sobre o linho. Mentem
com a cara limpa e nas mãos
o sangue quente. Mentem
ardente/mente como um doente
em seus instantes de febre. Mentem
fabulosa/mente como o caçador que quer passar
gato por lebre.E nessa trilha de mentiras
a caça é que caça o caçador
com a armadilha.
E assim cada qual
mente industrial/mente,
mente partidária/mente,
mente incivil/mente,
mente tropical/mente,
mente incontinente/mente,
mente hereditária/mente,
mente, mente, mente.
E de tanto mentir tão brava/mente
constroem um país
de mentira
diária/mente.
Fragmento 3
Mentem no passado. E no presente
passam a mentira a limpo. E no futuro
mentem novamente.
Mentem fazendo o sol girar
em torno à terra medieval/mente.
Por isto, desta vez, não é Galileu
quem mente.
mas o tribunal que o julga
herege/mente.
Mentem como se Colombo partindo
do Ocidente para o Oriente
pudesse descobrir de mentira
um continente.
Mentem desde Cabral, em calmaria,
viajando pelo avesso, iludindo a corrente
em curso, transformando a história do país
num acidente de percurso.
Fragmento 4
Tanta mentira assim industriada
me faz partir para o deserto
penitente/mente, ou me exilar
com Mozart musical/mente em harpas
e oboés, como um solista vegetal
que absorve a vida indiferente.
Penso nos animais que nunca mentem.
mesmo se têm um caçador à sua frente.
Penso nos pássaros
cuja verdade do canto nos toca
matinalmente.
Penso nas flores
cuja verdade das cores escorre no mel
silvestremente.
Penso no sol que morre diariamente
jorrando luz, embora
tenha a noite pela frente.
Fragmento 5
Página branca onde escrevo. Único espaço
de verdade que me resta. Onde transcrevo
o arroubo, a esperança, e onde tarde
ou cedo deposito meu espanto e medo.
Para tanta mentira só mesmo um poema
explosivo-conotativo
onde o advérbio e o adjetivo não mentem
ao substantivo
e a rima rebenta a frase
numa explosão da verdade.
E a mentira repulsiva
se não explode pra fora
pra dentro explode
implosiva.
(Poema publicado no Jornal do Brasil em 1984, quando do episódio do Rio Centro e em diversas antologias do autor. Está em "Poesia Reunida" - L&PM,1999, v.2) 

Affonso Romano de Sant'Anna é poeta e cronista mineiro, radicado há mais de 50 anos no Rio de Janeiro. Nas décadas de 1950 e 1960 participou de movimentos de vanguarda poética. Em 1961 diplomou-se em Letras Neolatinas, na então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da UMG, atual Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais.
Lecionou na Califórnia (Universidade de Los Angeles - UCLA), e em 1968 participou do Programa Internacional de Escritores da Universidade de IOWA, que agrupou 40 escritores de todo o mundo.
Doutorou-se pela Universidade Federal de Minas Gerais e, um ano depois, montou um curso de pós-graduação em literatura brasileira na PUC do Rio de Janeiro. Foi Diretor do Departamento de Letras e Artes da PUC-RJ, de 1973 a 1976, realizando então a "Expoesia", série de encontros nacionais de literatura.
Ministrou cursos na Alemanha (Universidade de Colônia), Estados Unidos (Universidade do Texas, UCLA), Dinamarca (Universidade de Aarhus), Portugal (Universidade Nova) e França (Universidade de Aix-en-Provence).
Sua tese de doutorado abordou uma análise da poética de Carlos Drummond de Andrade, com o título Drummond, um gauche no tempo, em que faz uma análise do conceito de gauche ao longo de sua obra literária.
Durante os anos de 1990-1996 foi presidente da Fundação Biblioteca Nacinal, onde desenvolveu grandes ações de incentivo à leitura, como o Sistema Nacional de Bibliotecas.
Foi cronista no Jornal do Brasil (1984-1988) e do jornal O Globo até 2005. Atualmente escreve para os jornais Estado de Minas e Correio Braziliense.  
É autor de diversos livros como "Que país é este?  e outros poemas", O Canibalismo amoroso, Politica e Paixão, Mistérios Gozosos, Como se faz literatura, O lado esquerdo do meu peito, A mulher madura, Catedral de Colônia, Poesia reunida e muitos outros.