Mostrando postagens com marcador cultura. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador cultura. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 23 de abril de 2021

Livro é artigo de primeira necessidade. Só o governo não vê isso.

 Pobre é o país que taxa livros a quem já não pode comprar

Vagner de Alencar

Em tempos difíceis, de uma crise sanitária sem precedentes, com pessoas passando fome, precisando trocar o gás pela lenha, definitivamente o livro está longe de se tornar um item da “cesta básica” do brasileiro. Está difícil ter acesso até mesmo ao básico arroz e feijão. 

Enquanto o governo brasileiro parece desejar um Brasil com mais armas (vide os últimos decretos de ampliação do acesso a armamento e munições) e menos livros, neste dia 23 de abril se celebra o dia mundial do livro. 

Uma data que cada vez tem poucos motivos para comemorarmos, em um país onde a Receita Federal diz que pobres não consomem livros como justificativa para aumentar impostos. 

Na verdade, é preciso formar leitores e fazer o livro chegar até eles. Afinal, a leitura sim é uma verdadeira arma para a formação de qualquer indivíduo. 

Valorizar os saraus, as feiras literárias, os novos escritores das periferias, que consigo podem ajudar a atrair mais amantes da leitura. 

Livro Cidade do Paraíso - Há vida na maior favela de São Paulo

Leitores como a estudante Maria, que em um encontro virtual há algumas semanas, me revelou: “Não sei ler direito, mas pedi pro meu filho comprar seu livro”. 

A obra em questão é “Cidade do Paraíso – Há vida na maior favela de São Paulo”, livro que revela o cotidiano de uma das maiores favelas de São Paulo, publicado em 2014, pela Primavera Editorial, uma editora independente.

O bate-papo virtual fazia parte de uma atividade com estudantes de EJA (Educação de Jovens e Adultos) do oitavo ano, do colégio Santa Cruz, em São Paulo. 

Maria passou dos 40 anos, e disse ainda ter dificuldades para ler a pergunta feita durante a sabatina sobre meu trabalho como jornalista, na Agência Mural.

Todos os vinte alunos eram pobres e retornavam à sala de aula (virtual) para seguir os estudos interrompidos no passado, por diferentes motivos.

A medida defendida pela Receita busca alterar a lei de 2004 que isenta a indústria do livro do PIS/Cofins. 

O órgão do Ministério da Economia sugere unificar esses impostos e transformá-los no CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços), tributo que teria alíquota de 12%. A arrecadação seria destinada, segundo a RF, para políticas mais direcionadas.

Essa taxação, no entanto, vai impactar o bolso de quem compra, em consequência do aumento dos custos de quem produz, as editoras, em especial as editoras independentes.  

Antes da pandemia, biblioteca comunitária funcionava em cemitério em Parelheiros (Anderson Meneses/Agência Mural)

Em entrevista ao podcast “Conversa de Portão”, do Nós, mulheres da periferia, a escritora Cidinha Silva comentou sobre o risco de fechamento.

“A conta nunca iria fechar. As editoras já pagam impostos. O imposto proposto, na verdade, tem como objetivo robustecer o projeto de emburrecimento da população brasileira, esse projeto de vilipêndio à cultura e à educação”.

Ter dificuldades na leitura e ser pobre não são sinônimos de não querer comprar ou se interessar por livros. Está aí a estudante Maria e seus colegas, jovens e adultos, para comprovar. 

“Vagner, quando você vai lançar o próximo livro?”.

“Vagner, minha amiga já queria pedir seu livro emprestado. Eu disse que só depois que eu ler primeiro”.

Quem sabe, neste momento, Maria esteja de sua casa, na periferia, lendo sobre os becos e as vielas de Paraisópolis. Assim como Fabiana, uma colega minha de infância na Bahia. Ao contrário da paulistana, a baiana nunca pôde comprar um livro ao longo de seus mais de 30 anos.

Numa mensagem, confessou sonhar em ler o “Cidade do Paraíso”, o que aconteceu ano passado em minha última viagem à terrinha, quando a presenteei com a obra, com dedicatória e tudo. 

Os pobres também querem ler (e não só publicações didáticas na escola). Acredito que apenas o governo não sabe ou não quer ler isso. 

Vagner de Alencar é cofundador e diretor de jornalismo da Agência Mural de Jornalismo das Periferias

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

Memória afetiva da formação musical no Vale do Jequitinhonha

 


A "Deusa Música" ganha um relato de vida intenso e presente na história de uma mulher do Vale do Jequitinhonha. Rosélia Ferreira relata como a música a formou como cidadã e pessoa.   

Fios de memória: “Como querer Caetanear o que há de bom.”

Rosélia Ferreira*

Posso dizer que a música é a maior herança que une minha família de origem, e que a família que constituí leva essa herança a sério, em veias e vozes. Pra minha grande alegria, diga-se de passagem.

Há muito transformei em prece – bem ouvida - um trecho de "Vila de amor e lobos", do cantor João Bosco: “peço aqui pra ela estar sempre no meu lar...música música sempre no meu lar”. E assim, quase que diariamente, nosso lar é saudado com a musicalidade dos meus dois filhos e, em muitas ocasiões, minha copa/cozinha se transforma em palco de vozes e violões, onde jovens amigos músicos-compositores-cantadores reverenciam, incontestes, a Deusa Música.

E não por acaso esses colóquios musicais se transformam, muitas vezes, em debate. Sendo quase todos remanescentes do Vale do Jequitinhonha, a música do Vale transforma-se, com alguma frequência, em tema central desses debates. Não apenas a música dos artistas do Jequitinhonha, mas aquela que ganhou corpo e projeção nos palcos do Festivale, o pioneiro e mais importante festival de cultura popular do Vale do Jequitinhonha, e que, em 2019, realizou sua 36ª edição, dividida entre Belmonte e Serro. Uma inovação digna de nota e reconhecimento, como o é o próprio Festivale, que pela primeira vez viajou até a porção baiana do Vale, na foz do Rio.



Pois bem, e um dos aspectos que incitam esse debate diz respeito ao estilo da maioria das músicas selecionadas e premiadas no Festivale, cujas características são, ainda hoje, muito próximas ao que se fazia nas primeiras edições, lá pelo final do anos  setenta e início dos 80. A opinião que muitos de nós têm é que o evento é pouco permeável a qualquer mudança ou inovação na chamada música do Vale do Jequitinhonha.

E confesso que, após um período ausente dos Festivales, senti, ao retornar em 2009, na edição de Grão Mogol, uma pontada de decepção ao ouvir as novas músicas premiadas, que me soaram meio velhas e sem muito brilho; destoavam do vigor juvenil e maduro do evento. Porém venho tentando entender esse desconforto, contraposto à enorme satisfação e prazer que o Festivale, em seu conjunto, me provoca ainda hoje. Vivenciar a força e resistência da cultura popular do Vale, em suas mais diversas manifestações, não é pouca coisa. Mas a música...bem...

E um sinal de entendimento veio dia desses, quando me peguei mostrando aos meus filhos Pedro e Caio, e a Eliezer Gonçalves - um músico muito querido que se hospedou conosco na última semana – a música “That’s what I want”, da banda The Square Set, da África do Sul. Um enorme sucesso de 1969, a música me fez voltar e me ver, aos cinco anos, sentada na porta de casa, ouvindo não apenas esta, mas toda uma geração de roqueiros como Beatles, Rolling Stones, Led Zepellin,  Janes Joplin, Jimi Hendrix e toda a turma do Iê iê iê, como Roberto e Erasmo Carlos, que faziam furor e revolucionavam os costumes, mesmo em cidades tão pequenas e periféricas como Coronel Murta, situada no Médio Jequitinhonha, a quase 700 km da capital.

Na época, a televisão não tinha chegado por lá e as Rádios AM eram os grandes canais midiáticos a levar o mundo pra nossa cidade. Porém naquele momento minha escuta vinha de altofalantes instalados no telhado do mercado municipal, onde o querido Dizim mantinha um mini estúdio de som e transmitia, diariamente, sua paixão pela nova música. Que prazer!!! E ao longo dos dias vinha de rádios como a Jornal do Brasil, Mundial e Cultura da Bahia; chegava com Chico Buarque, Maria Bethânia, Gal Costa, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Jobim, Secos e Molhados, Mutantes, Raul Seixas, Taiguara, Milton Nascimento, O Terço e inumeráveis artistas que despontavam naquele momento, junto com os da velha guarda, como Nelson Gonçalves, Pixinguinha e ainda Dalva de Oliveira e Maysa, para citar poucos.

 Nesse caldeirão de ritmos e sons vinham também os ícones da chamada música brega, como Altemar Dutra, Odair José, Valdick Soriano, Paulo Sérgio... que nos alto falantes dos circos e parques de diversão que chegavam e saíam da cidade, eram os campeões de pedidos para corações apaixonados. Impossível esquecer de Paulinho da Viola, Agepê, Roberto Ribeiro, Martinho da Vila, Clara Nunes, Alcione, Benito de Paula e toda uma legião de sambistas que invadiram o rádio no início dos 70, e que estimularam as rodas de samba para muito além dos morros e da Lapa carioca. Sei bem o quanto elas ainda me pegam de jeito! Pois bem, íamos crescendo com toda essa gama de influências musicais, (e este texto seria um capítulo de livro, fôssemos citar todos os artistas que ouvíamos) somadas ainda às nossas cantigas de roda, nossos cantos de domínio público, ensinados pelos mais velhos e cantados em festejos e, especialmente, pelas lavadeiras de roupas, nas suas labutas diárias à beira do Jequitinhonha.



 A grande diferença é que essas cantigas eram coisa nossa, do interior, coisa menor, da ponta do fim do mundo. Na minha criancice, jamais podia imaginá-las tocando nas rádios; eram cantigas, não ganhavam status de música, na sua acepção popular. Mas na segunda metade da década de 1970 vimos, com surpresa e espanto, se consolidar os movimentos de organização da cultura popular do Vale do Jequitinhonha.

Ali, nossos modos de existência, moldados às margens das políticas públicas, ou com políticas equivocadas e excludentes; sob a seca e na carência de tecnologias modernas tinham, finalmente, conquistado lugares de escuta e de reconhecimento. De algum modo não éramos mais os filhos da ponta do fim do mundo, passivos receptáculos de culturas desenvolvidas, mas ganhávamos status de produtores de cultura; poderíamos finalmente romper o monólogo e ofertar, trocar produtos e valores, doar a arte que criávamos e a singularidade dos atores que éramos. O vale da miséria estava sendo reinventado.

O que era periférico podia ser universal, ganhando outra centralidade nas nossas existências. Ver nosso artesanato em barro e algodão, nossa literatura, teatro e especialmente, nossa música, ganharem valor e importância trouxe um sentido de identidade e de força até então inimagináveis! A poesia orgânica dos poetas Gonzaga Medeiros, Tadeu Martins e Cláudio Bento - para citar alguns - nos agitando o coração em saraus que poderiam varar noites. E muitas vezes varavam.



Na música, Os Trovadores do Vale traziam, em disco, nossas cantigas, que poderiam agora transformar-se em música. Para além do disco, a Mestra Lira Marques despontava altiva, pra mim, no livro Me Ajude a Levantar, de Castilim (Carlos Figueiredo), um dos idealizadores do Festivale, junto com o poeta Tadeu Martins, com Aurélio Silby e George Abner. Pouco antes havia chegado o Jornal Geraes, o debate acerca de um Vale que não mais queria viver à sombra. Um manifesto libertário que também se opunha à ditadura militar. O Vale era Minas Gerais, era o Brasil, o Vale era o mundo, em vida verso e viola, depois também em verde, este menos monocromático que os extensos eucaliptais de um verde amargo.

Mas antes de tudo isso, uma eu menina de sete anos, com enorme espanto, ouviu numa manhã que na noite anterior, no Planalto Clube, em Araçuaí, um padre pulava carnaval. Foi difícil não sair para um canto, a caraminholar o turbilhão mental: - quer dizer então que o carnaval, a festa da carne e do pecado, a alegria, o prazer, não eram coisas do demônio?? Gostar, desejar e fazer isso não nos levaria fatalmente ao fogo do inferno, como diziam nossos pais e avós?? Então a festa também era de Deus?? Apenas prenúncios da ebulição cultural que viria depois.

O holandês franciscano Frei Chico abria em mim, alguns portais. Em Araçuaí e região, mostrava a esse povo singular que eles eram os portais. E o Festivale veio como uma corrente agregadora de tudo isso. E vimos surgir outros músicos e compositores, que cantavam e poetavam nossas dores e alegrias, nossas artes e fazeres, nossos pensares e sentires, mais ao pé do ouvido, de um lugar que na alma, aberta ao mundo lá de fora, parecia um cantinho, uma periferia. O Festivale nos mostrou que não era. Era sim, nosso cartão de visitas, até então ofuscado, marginal.

A música de Paulinho Pedra Azul, Rubinho do Vale, Saulo Laranjeira, Carlos Farias e muitos, muitos outros que nos fizeram cantar em coro a cada festival, show, roda e festejo, é testemunha da nossa emoção. “Canta conta cantador, conta a história que eu pedi, dizem que o Jequi tem onha, conta as onhas do Jequi”. E Rubinho cantava, e cantávamos com indizível alegria - e ainda cantamos. E esse nosso jeito de ser e fazer, e nossa música regional pode então ganhar as ondas do rádio, a tv, as metrópoles. Ainda que em espaços específicos, ela estava lá, nesse mundão de deus. E felizmente no quesito música, internamente não operamos por exclusão, ainda que a memória seja seleção. Mas como disse Maria Bethânia, “música é perfume” – ela mesma memória.

 E de lá para cá pudemos ofertar aos nossos filhos, os novos ouvintes, não apenas a música urbana das nossas metrópoles, o rock’nroll inglês ou a invasora música estadunidense. Tínhamos a oferecer ainda o vigor da música nordestina, dos hermanos latinoamericanos e, ora vivas! A música do Vale do Jequitinhonha.

A musa música ficou mais rica, rica de nós, conosco. E percebo ser no contexto dessa riqueza e vigor que desejam cantar os novos músicos do Vale; que querem fazer ecoar sua musicalidade. Sob minha ótica – e de muitos deles – insistir em restringir a música do Vale do Jequitinhonha ao formato único e presumivelmente acabado, moldado nos anos 70/80, é miopia. Para quem duvida, sugiro o CD Lavando a Alma, que Paulinho Pedra Azul lançou em 2008. Uma obra prima contra o conservadorismo de quem só consegue ouvir Bem te vi, que ele lançou no início da carreira. Continua linda, mas ele fez mais, inovou sem se perder, ao contrário.

Do mesmo modo, é possível que ninguém ouse questionar a música inigualável da escola Clube da Esquina, tão mineiramente original quanto universal, e que estendeu sua influência para o mundo. E seus artistas jamais negaram as influências do rock, do jazz e do blues, além das sonoridades típicas dos tambores e montanhas das Minas Gerais. E quem, amante da música, se carnavais”. Que assim seja!

Talvez nossa música deseje, ela também, e sem compromisso algum, antropofagizar, dizer que sonha que “um dia a fúria desse front virá lapidar o sonho até gerar o som como querer caetanear o que há de bom”. Quiçá, como disse nosso raríssimo Djavan! É possível que Suassuna censuraria e que os conservadores torçam o nariz, mas “yes, ‘that’s what I want”.

Rosélia Ferreira – outubro/2020.

Rosélia Ferreira de Sousa é bacharel em História pela FEVALE/UEMG e Mestre  em Sociedade, Saúde e Ambiente pela UFVJM. Trabalhou por 30 anos como servidora do SUS - Sistema Único de Saúde, na Vigilância Sanitária da Superintendência Regional de Diamantina (Vale do Jequitinhonha). Nativa de Itaporé, Coronel Murta, no Médio Jequitinhonha, Rosélia, a Neguinha, mora há mais de duas décadas em Diamantina. É uma grande apreciadora da música (regional, brasileira e mundial), dos movimentos culturais de Diamantina e do Vale do Jequitinhonha. Sua casa é um fervedouro de musicalidade. 

quinta-feira, 23 de julho de 2020

Na pandemia, artesãs do Vale do Jequitinhonha vendem peças para grande rede varejista

Produtos comercializados reforçam o potencial criativo das comunidades mineirasFoto: Divulgação/Sede
FotoDivulgação/SEDE
Os produtos artesanais em cerâmica, desenvolvidos nas comunidades Coqueiro Campo e Campo Alegre, em Turmalina, no Vale do Jequitinhonha, ganharão as prateleiras de todo o país. Por meio de um empresário paulista, que conhece e admira os produtos desenvolvidos manualmente em Minas, as artesãs fecharam uma parceria e comercializaram, aproximadamente, nove mil peças para uma grande rede de varejo.
O grupo, formado por mulheres de 80 famílias, superou a crise econômica causada pelo novo coronavírus e bateu a marca de R$ 140 mil em vendas. “É muito gratificante ver o resultado do trabalho desenvolvido com as artesãs. Por causa da pandemia, não há nenhuma feira de artesanato ocorrendo no país, portanto não há como comercializar.  A conquista desta venda em grande proporção é a garantia de novas portas e outros mercados”, destaca o Superintendente de Desenvolvimento de Potencialidades Regionais, Frederico Amaral.
O esforço de logística para a entrega das mercadorias na capital paulista foi realizado pela Sede e pelo Instituto de Desenvolvimento do Norte e Nordeste de Minas Gerais (Idene), que descolocaram o caminhão do Programa do Artesanato Brasileiro, do Vale do Jequitinhonha até São Paulo. “Não temos palavras para agradecer o apoio que recebemos nesta venda. A logística de entrega foi fundamental. Estamos passando por momentos difíceis, com baixa nas vendas e a loja fechada temporariamente. O valor que recebemos irá ajudar muitas famílias”, ressalta a presidente da Associação dos Artesão de Coqueiro Campo, Terezinha Lopes dos Santos.
A coleção das peças vendidas para a rede de varejo passou por uma criação exclusiva. A inspiração foi baseada na cultura regional, respeitado o processo da tradição e a identidade cultural. Uma campanha publicitária será desenvolvida pela empresa para lançamento de vendas, valorizando o trabalho das comunidades.  
“Uma luz chegou no fim do túnel. Estávamos desanimadas com a atual situação enfrentada. A experiência com essa venda foi muito boa para nós. Trabalhamos muito para a entrega ser realizada. Estamos felizes com a valorização do artesanato mineiro”, conta animada a presidente da Associação dos Lavradores e Artesãos de Campo Alegre, Maria Aparecida Gomes.
A coordenação de logística e o acompanhamento da entrega dos produtos foi realizada pelo diretor de Artesanato da Sede, Thiago Tomaz. “Temos a certeza do reconhecimento de um produto de tradição. Ficamos felizes de ver que estamos ganhando espaço em lojas de departamento e mostrando a qualidade e a riqueza da cultura mineira”, disse.
Arte Salva
Para otimizar o deslocamento do caminhão que levou as peças artesanais de Minas até São Paulo, foram distribuídas nas regionais do Idene, representadas em 30 cidades das regiões Norte, Vale do Jequitinhonha e Vale do Mucuri, os produtos doados pela Bauduco dentro da campanha Arte Salva. Aproveitando o deslocamento até São Paulo, a entrega foi realizada também em cidades do Sul de Minas. Ao todo, três mil artesãos serão beneficiados. 
Fonte: SEDE - Secretaria de Desenvolvimento Econômico - SEDE/MG. Publicado: 21/07/2020 16:51, no site da SEDE.

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Quilimérios do Jequitinhonha: curta-metragem retrata história de comunidade isolada da sociedade

OgAAAOja5ReIxMKQNM15HMi0uQvTiuApkGSadisrjdU9bvLLlvHCKWnOOPLKUQZvJAzenebLY-2C_kjn4MDvU-8XcCgAm1T1U






Quilimérios: uma comunidade isolada entre montanhas 
de pedra, em Rubim, no  Baixo Jequitinhonha.
Uma pequena comunidade do Vale do Jequitinhonha tem o isolamento social 
como cultura. Mas não é em função da pandemia. 
Há mais de um século é assim!
No meio de uma natureza exuberante e em local quase inacessível, vivem os 
"Quilimérios", povo que foi tema de um curta metragem do diretor mineiro Emerson 
Penha, com produção do jornalista Zu Moreira.
Os quilimérios vivem isolados nas montanhas de pedra que se impõem em formas 
diferentes a quem decide visitar a região. 
Uma comunidade que se mantém no passado. 
O contato quase não existe com a cidadezinha mais próxima, chamada Rubim, 
na região nordeste de Minas, no Vale do Jequitinhonha.

Perceba a altura do local onde vivem os Quilimérios

O curta-metragem foi gravado em maio de 2019, antes da pandemia da COVID-19. 
O vídeo está disponível na internet.
Clique AQUI e assista.

“Quilimérios” – Horizonte Filmes (2020)

·         Direção de Emerson Penha.    Fotografia de Fábio Damasceno
·         Música de Túlio Mourão -        Produção de Zu Moreira
·         Montagem de Rafael Diniz (Fiel). Junho de 2020.

Pedras Seios de Rubim

Em 2011, o blog Made in Rubim, de Kawan Dutra, 
registrou a existência do povo quilimério 
Quilimério é um grupo descendente de quilombolas e tribos indígenas. 
Naturais da cidade de Pedra Azul, que sem estrutura alguma migraram 
para Rubim, onde residem em lugar íngreme e rochoso dentro da Pedra Parda, 
tendo à sua frente as Pedras Seios. Inicialmente conhecidos como Juca Preto, nome 
este que fazia referência ao mais velho habitante e também o pioneiro no povoamento 
da região. Com sua morte teve o nome do grupo alterado para Quilimério, que também 
fazia referência ao mais velho habitante naquele momento. Porém, este nome 
permaneceu mesmo após sua morte.

Dentro da Cordilheira Pedra Parda

A alimentação é obtida através do meio mais rústico possível, caçando animais e 
fazendo pequenos cultivos. A água é utilizada sem nenhum tratamento adequado, 
pois além de ser barrenta não é fervida ou filtrada. O armazenamento não 
é feito de forma correta.

Uma das principais características deste grupo é a timidez de seus integrantes e o 
isolamento em que se postam. O povo Quilimério casa-se apenas entre si.
Fotos: Zilma Souza Nascimento. Pesquisa: Rafaela Chiara.
Fonte: https://madeinrubim.wordpress.com/historia/quilimerios/
e aqui nesse Blog:
https://blogdobanu.blogspot.com/2011/04/os-quilimerios-um-povo-tradicional-de.html



sábado, 6 de junho de 2020

Jequitinhonha: De Belmonte, na Bahia, a Diamantina - uma via de conhecimento, arte, design, gente e identidade cultural

De Belmonte a Diamantina, 
do mar ao sertão.
Confira o texto, fotos e o video dos principais momentos da expedição da Casa Vogue ao Vale do Jequitinhonha, 
em 2018.
·        
·         TEXTO MARIANA CONTE | ESTILO ADRIANA FRATTINI | PRODUÇÃO RAFAEL ALVES | FOTOS RUY TEIXEIRA | PROGRAMAÇÃO VISUAL HARDY DESIGN
06 DEZ 2018 - 06H04 ATUALIZADO EM 02 SET 2019 - 17H46.

Durante dez dias, Casa Vogue percorreu a região do Vale do Jequitinhonha para explorar as expressões culturais da região que influenciam o design brasileiro. Rio acima, de Belmonte, na Bahia, a Diamantina, em Minas Gerais, encontramos beleza, inspiração e pessoas que lutam – e realizam. A seguir, os registros dessa emocionante expedição.
BELMONTE
Em terra de Zanine Caldas

“AS PESSOAS SÃO COMO OS RIOS, SE FORTALECEM QUANDO SE ENCONTRAM”. De autor desconhecido, a frase apareceu no meio da jornada desse primeiro Casa Vogue na Estrada, como que a evidenciar, em palavras, o que vivemos e presenciamos nos inúmeros encontros à beira do Rio Jequitinhonha: força, afeto e identidade.

Museu das Cadeiras de Belmonte chega a São Paulo durante o DW ...
Em frente ao recém-inaugurado Museu das Cadeiras Brasileiras, em Belmonte, BA, da esq. para a dir., as cadeiras: Esqueleto (2012), de Pedro Franco, da A Lot Of; Cobra Coral (2016), de Sérgio Matos; Menna (1978), de Sergio Rodrigues, na Dpot; Sem nome (anos 1950), de José Zanine Caldas; Assimétrica (2017), de Fernando e Humberto Campana para Tok&Stok; Torno (2017), de Gustavo Bittencourt; Guapa (2018), de Inês Schertel; Broto (2008), de Morito Ebine; e Girafa (2018), de Juliana Vasconcellos ( Ruy Teixeira)

A expedição começou num dos endereços mais bonitos que um lugar pode ter: a esquina deste rio com o Oceano Atlântico. Ali está Belmonte, cidadezinha pacata no sul da Bahia, com cerca de 20 mil habitantes, que se alimenta da foz do rio, do cacau, das belas paisagens e da arquitetura histórica. É também cidade natal do mestre José Zanine Caldas (1919-2001), arquiteto, designer e maquetista autodidata cuja memória permanece vivíssima graças ao filho, o designer Zanini de Zanine.
Casa Vogue na Estrada: os melhores momentos da nossa expedição pelo Vale do Jequitinhonha (Foto: Ruy Teixeira)
A casa onde nasceu Zanine Caldas, que hoje abriga o Sindicato Rural de Belmonte, sediará o museu sobre a obra do arquiteto ( Ruy Teixeira).
Belmonte acaba de inaugurar o Museu das Cadeiras Brasileiras, uma iniciativa que nasceu do encontro de Zanininho, como é conhecido, com Daniel Katz, da Katz Construções, e que pretende registrar a cultura nacional e perpetuar o legado do design nacional. “Vai funcionar como um apêndice do museu Zanine Caldas”, explica Zanini, revelando a próxima empreitada: um espaço em homenagem ao pai, com estreia em 2019, ano do centenário do mestre. O local escolhido não poderia ser mais simbólico: a casa onde Zanine Caldas nasceu e viveu até os 17 anos – atual sede do Sindicato Rural de Belmonte. O projeto terá assinatura do arquiteto Marcio Kogan e o museu vai contar com um acervo de móveis, maquetes, croquis, fotos, vídeos e itens pessoais. “É a realização de um sonho, dividir uma obra de extrema importância e brasilidade nessa área cultural com o povo de Belmonte e os amantes de arquitetura, arte e design”, afirma Zanini.

Casa Vogue na Estrada: os melhores momentos da nossa expedição pelo Vale do Jequitinhonha (Foto: Ruy Teixeira)
Da esq. para a dir., Lissa Carmona, CEO da Etel, o designer Zanini de Zanine e Etel Carmona, com os protótipos dos móveis de Zanine Caldas que serão reeditados pela Etel em 2019. ( Ruy Teixeira)

Além da atuação como maquetista de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa, e de projetar com extremo respeito aos contornos da natureza, Zanine Caldas foi um notável designer. Pioneiro da indústria moveleira moderna, amante das madeiras nacionais, na década de 1970, ele se dedicou ao design artesanal e às formas brutas, essenciais. Todo esse repertório foi estudado e esmiuçado pela Etel, marca que valoriza o traço brasileiro e mantém em produção peças de grandes nomes, e que lançará, também no próximo ano, uma coleção com poltrona, cadeira, espreguiçadeira, mesa lateral, escrivaninha, estante, revisteiro e outras peças de Zanine Caldas. “Serão entre 12 e 15 móveis reeditados e realizados em intensa parceria com a família Caldas, com total supervisão do seu filho”, diz Lissa Carmona, CEO da Etel. Esse trabalho de reviver ícones do mobiliário nacional, preservando suas identidades e usando a tecnologia atual, é uma especialidade da empresa, que tem no portfólio criações de Oscar Niemeyer, Lina Bo Bardi, Sergio Rodrigues, Jorge Zalszupin, entre outros. “Para nós, é como um resgate da história, do legado desses profissionais. Queremos dar vida ao universo de Zanine Caldas e preservar sua herança”, conclui.
Casa Vogue na Estrada: os melhores momentos da nossa expedição pelo Vale do Jequitinhonha (Foto: Ruy Teixeira)
A artesã Dagmar Muniz esculpe um de seus vasos de 2 metros ( Ruy Teixeira)
Completando nossa passagem por Belmonte, outra descoberta notável foi dona Dagmar. Aos 76 anos e com 1,60 m de altura, a artesã produz, num vai e vem e sobe e desce constantes, peças de cerâmica que incluem vasos de 2 m. “Deus me deu saber e me deu o poder de subir nos bancos para ir a dois metros de altura”, fala, enquanto demonstra sua arte e sua energia incansável. E tudo isso sem usar torno: são as próprias mãos e o auxílio de cartões de plástico e galhos que dão forma e autenticidade às suas obras.
Casa Vogue na Estrada: os melhores momentos da nossa expedição pelo Vale do Jequitinhonha (Foto: Ruy Teixeira)
Manuelle Ferraz, cozinheira e idealizadora do restaurante A Baianeira ( Ruy Teixeira)
ALMENARA
A Baianeira

Seguindo em direção à nascente do Rio Jequitinhonha, paramos em Almenara, MG, cidade natal de Manuelle Ferraz (acima), cozinheira e idealizadora do restaurante A Baianeira, em São Paulo. Ela nos recebeu com sua família na casa onde passou boa parte da infância, e preparou uma refeição recheada das raízes e da alma do Vale do Jequitinhonha. No cardápio, abóbora com quiabo, maxixe e mamão verde com carne-de-sol, receitas típicas de um almoço de domingo da região. A energia de Manu, do seu fazer com simplicidade e da essência que mistura Minas e Bahia, transparece quando ela fala da comida, das suas influências e do poder das mulheres de sua vida. E todas essas forças somadas estão no sabor de sua culinária. Com Manu, passeamos pelo Mercado Municipal de Almenara, de onde ela importa boa parte dos ingredientes que usa no restaurante paulistano, fortalecendo e valorizando a rede de produtores da região.

Casa Vogue na Estrada: os melhores momentos da nossa expedição pelo Vale do Jequitinhonha (Foto: Ruy Teixeira)
O artesão seu Paulo, de 83 anos, usa pedaços de madeira achados soltos pela natureza para construir brinquedos ( Ruy Teixeira)
ARAÇUAÍ
Madeira lúdica

No caminho para a comunidade rural de Córrego da Velha, no município de Araçuaí, MG, estradas de terra e um cenário com cactos descortinava o sertão mineiro. Casinhas comuns, dessas que desenhamos quando criança, margeavam nossa travessia. Apesar do clima árido da região, a chuva veio forte naqueles dias, a poeira baixou e a vegetação acendeu: um lindo contraste de cores.
Casa Vogue na Estrada: os melhores momentos da nossa expedição pelo Vale do Jequitinhonha (Foto: Ruy Teixeira)
Brinquedos feitos pelo seu Paulo ( Ruy Teixeira)

À direita da estrada, uma árvore potente e um portãozinho feito de lascas de madeira dão as boas-vindas ao universo do seu Paulo (mais acima), um senhor de 83 anos que usa pedaços de madeira achados soltos pela natureza para construir brinquedos. Vacas e bezerrinhos, cavalos, meninos, meninas, mulheres e homens fazem parte do repertório do artesão – são referências presentes no seu dia a dia. A criatividade vai longe, encanta crianças e adultos, mas a energia para produzir já não é a mesma de alguns anos atrás. “A gente vai seguindo. Tem gente que fala que vou fechar os 90, mas 100 acho que não fecho não. É só Deus que sabe. Nós não sabe de nada” [sic], reflete.
Casa Vogue na Estrada: os melhores momentos da nossa expedição pelo Vale do Jequitinhonha (Foto: Ruy Teixeira)
A tecelã dona Ana e a diretora criativa da Coven, Liliane Rebehy, no Curtume, com as bolsas da grife feitas a partir das mantas tecidas por dona Ana ( Ruy Teixeira)
JENIPAPO DE MINAS
Unidas pelo bordado

Por onde passávamos, a recepção combinava abraços apertados, uma felicidade guardada em sorrisos ora tímidos ora escancarados, e um cafezinho com biscoitos e queijo. Ao chegarmos na Associação Jenipapense de Assistência à Infância (Ajenai), na cidade de Jenipapo de Minas, não foi diferente. Elisângela Pedroso Lopes, coordenadora da associação, guiou-nos rumo a um dos encontros mais preciosos da expedição, na comunidade do Curtume. Lá, vivem mulheres fortes. Muito mais fortes e resistentes depois de terem se conhecido e formado o grupo das Bordadeiras do Curtume.

Casa Vogue na Estrada: os melhores momentos da nossa expedição pelo Vale do Jequitinhonha (Foto: Ruy Teixeira)
As bordadeiras, com Ana Vaz ao centro, e seus estandartes, que estão à venda na loja Marcas Mineiras, em Tiradentes, MG, pelo instagram @tecelas_ bordadeiras e, a partir de fevereiro, nas lojas da Coven
( Ruy Teixeira)
Com a coordenação da consultora de projetos sociais Viviane Fortes e o apoio da Ajenai, essas mulheres foram estimuladas a fazer companhia umas às outras e a resgatarem sua autoestima e cultura. “O dia a dia delas é muito duro. Os maridos saem para procurar trabalho, normalmente no corte de cana ou em plantações de café, e ficam meses, às vezes anos, fora de casa. Elas vivem um abandono, adoecem, ficam deprimidas e, ainda assim, precisam dar conta de sustentar a família, trabalhando na roça e plantando o que comem”, relata Viviane.
Foi durante essas reuniões que manifestou-se o conhecimento do bordado. Quem sabia ensinou para quem não sabia e o filho de uma delas, Diogo, fez os desenhos, que são imagens que ele vê na comunidade: as mulheres, os bichos, as plantas. As bordadeiras preenchem e dão vida a esses contornos com a técnica do ponto cheio. O resultado é um bordado com muita identidade. “A gente conversa, ri, canta, brinca e se distrai. Bordar ajuda não só financeiramente, mas psicologicamente. É um prazer ver a nossa arte agradar outras pessoas”, orgulha-se Marli, umas das artesãs.

Casa Vogue na Estrada: os melhores momentos da nossa expedição pelo Vale do Jequitinhonha (Foto: Ruy Teixeira)
As camisas da Coven assinadas pelas Bordadeiras do Curtume (Foto: Ruy Teixeira)
Uma vez engrenado o trabalho, veio a ideia de torná-lo fonte de renda. Para dar suporte, Viviane convidou a designer têxtil Ana Vaz, que auxiliou a estruturar o processo e, em conjunto com as bordadeiras, deu luz a uma coleção de estandartes com bordados de desenhos autorais e tecidos tingidos com cascas e plantas nativas, tudo feito por elas. “É como se a gente estivesse levantando uma bandeira.  A bandeira do afeto, do amor, porque mesmo com tantas dificuldades, é incrível a generosidade dessas mulheres”, diz Ana.

A rede de colaboração foi aumentando, e Ana contatou Liliane Rebehy, diretora criativa da Coven, que doou tecidos e fios para o projeto. Mais do que isso, Liliane foi conhecer de perto o Curtume. Da sua imersão, nasceu a coleção inverno/2019 da marca mineira, referência fashion em todo o Brasil. “A moda precisa ser movida por uma paixão. A Coven está fazendo 25 anos e eu estava me sentindo muito desmotivada. Quando voltei do Vale e comecei a mexer nas coisas que eu trouxe, relembrar o que vi e vivi, percebi que estava tudo ali”, conta Liliane. 

Lá, ela também conheceu outras duas figuras fundamentais, dona Ana e dona Cena, que trabalham com teares pequeninos e tecem lindas mantas com uma noção estética genuína. Essas tramas estão nas novas bolsas da grife, e os bordados aparecem em camisas que terão todo o lucro revertido para as bordadeiras. 
“Me entreguei ao desafio de criar a coleção com uma temática regionalista, para direcionar atenção para essas pessoas, mas sem deixá-la literal, caricata, acrescentando meu olhar e a identidade da Coven. É muito mais prazeroso e faz muito mais sentido quando você tem esse envolvimento com pessoas, quando essa inspiração não é só material ou estética, ela é afetiva, humana”, completa Liliane, com a preocupação de manter esse compromisso social após a temporada chegar ao fim. 
“Pretendo expor e vender as peças da comunidade tanto nas lojas em Belo Horizonte e São Paulo quanto no e-commerce, que está quase pronto”.

Casa Vogue na Estrada: os melhores momentos da nossa expedição pelo Vale do Jequitinhonha (Foto: Ruy Teixeira)
Zé do Ponto, o famoso artesão de Chapada do Norte ( Foto: Ruy Teixeira)

CHAPADA DO NORTE
Design naif

A caminho de Turmalina, paramos na cidade de Chapada do Norte, MG, para encontrar o famoso Zé do Ponto (acima). Filho de tropeiro, aos 12 anos ele já produzia caixas de couro para ajudar no transporte de secos e molhados. Hoje, é famoso por seus itens de madeira, com tramas em couro e palha de milho. São bancos, cadeiras, baús, tamboretes e bolsas com marca registrada. “O trabalho dele tem puro estilo rural, campestre. É genuíno, como arte naïf. Ele produz de forma espontânea, mas com muito senso estético, peças que estão no imaginário coletivo”, resume Adriana Frattini, diretora de estilo da Casa Vogue, que se encantou pelo seu Zé do Ponto.

Casa Vogue na Estrada: os melhores momentos da nossa expedição pelo Vale do Jequitinhonha (Foto: Ruy Teixeira)
Fábrica Divina Terra, em Turmalina, MG (Ruy Teixeira).
TURMALINA
Artesanato industrial

Chegando em Turmalina, MG, uma mudança de perspectiva: das microproduções para uma escala maior. Era a fábrica da Divina Terra, onde o fazer artesanal ainda prevalece na produção industrial de revestimentos, tornando únicas as mercadorias saídas dali – que são, em sua grande maioria, prensadas, cortadas e esmaltadas à mão.

Casa Vogue na Estrada: os melhores momentos da nossa expedição pelo Vale do Jequitinhonha (Foto: Ruy Teixeira)
Cobogó Mão, assinado pelos irmãos Campana em parceria com a Divina Terra (Foto: Ruy Teixeira).
Foi essa prática manual e cuidadosa que atraiu o Instituto Campana, dos irmãos Fernando e Humberto, para desenvolver, em parceria com a Divina Terra, o cobogó Mão (acima), peça que celebra o design autoral brasileiro e chama atenção para o desastre ambiental ocorrido em Mariana, MG, em 2015. Aproximar o design de técnicas ancestrais de diferentes regiões do Brasil e, com isso causar uma transformação na sociedade, é a bandeira levantada pelo Instituto Campana.

Casa Vogue na Estrada: os melhores momentos da nossa expedição pelo Vale do Jequitinhonha (Foto: Ruy Teixeira)
O banco Trio, de Juliana Vasconcellos, feito com mogno africano do Grupo Khaya Woods .
(Foto: Ruy Teixeira)
CAPELINHA
Mogno africano

Seguindo pelo Vale do Jequitinhonha, a paisagem começa a mudar quando plantações de café despontam no horizonte. O destino da vez era a Fazenda Primavera, no município de Capelinha, MG. Por lá, junto à produção cafeeira, árvores altas roubam a cena. São os mognos africanos, plantas de uma madeira nobre com excelentes propriedades físicas e mecânicas para a indústria moveleira, e uma opção ao mogno brasileiro, que teve seu corte proibido pelo Ibama devido ao desmatamento ilegal e à quase extinção da espécie. “É uma árvore de crescimento relativamente rápido em comparação com outras madeiras de lei”, conta Patricia Fonseca, diretora executiva da Associação Brasileira dos Produtores de Mogno Africano.

Casa Vogue na Estrada: os melhores momentos da nossa expedição pelo Vale do Jequitinhonha (Foto: Ruy Teixeira)
Plantação de mogno africano na Fazenda Primavera e estátuas esculpidas nessa madeira por Ricardo das Artes, de Prados, MG. (Foto: Ruy Teixeira)
Segundo ela, ao unirem as plantações, os produtores perceberam que o café se beneficiava do sombreamento das árvores de mogno. A associação tem se encarregado de estimular testes com a matéria-prima e criou o Mahog Project, que incentiva o uso do material em peças de design, como o banco Trio, da arquiteta e designer mineira Juliana Vasconcellos.

Casa Vogue na Estrada: os melhores momentos da nossa expedição pelo Vale do Jequitinhonha (Foto: Ruy Teixeira)
Uma das salas da Pousada Relíquias do Tempo, sediada em um casarão do século 19 no centro de Diamantina, que guarda preciosidades como fotografias do renomado retratista Chichico Alkmim, boneca de Durvalina Gomes Francisco e arraiolo de Maria Tadeu (sobre o sofá). (Foto: Ruy Teixeira)
DIAMANTINA
Design final

Próxima à nascente do Rio Jequitinhonha, que fica em Serro, Diamantina, MG, foi a parada final do primeiro Casa Vogue na Estrada. Pelas ruelas de pedra, íngremes e sinuosas, estão casarões históricos de arquitetura colonial, que enchem de charme a cidade. A beleza de suas construções e de seu povo foi amplamente admirada e registrada pelo fotógrafo Chichico Alkmim (1886-1978) entre as décadas de 1910 e 1950. Chichico tinha uma sensibilidade única para retratar pessoas. Mulheres, homens e crianças, negros e brancos, ganhavam vida e um registro na história através de suas lentes. Em busca destes retratos, chegamos à Pousada Relíquias do Tempo, com obras raras do fotógrafo e um patrimônio cultural da história diamantinense. Fomos apresentados a cada cantinho do local, que conserva pequenos “museus” sobre a cidade, por Carmen, nascida em um daqueles quartos, e Leonardo, seu marido.

Casa Vogue na Estrada: os melhores momentos da nossa expedição pelo Vale do Jequitinhonha (Foto: Ruy Teixeira)
Clube Social, obra de Oscar Niemeyer no centro histórico de Diamantina, MG, hoje completamente abandonado (Foto: Ruy Teixeira).
Em meio aos prédios históricos, é possível achar obras modernas de Oscar Niemeyer, como o Hotel Tijuco, ainda em operação, e o Clube Social, que teve importante papel na cidade e, hoje, encontra-se totalmente abandonado. Os edifícios fazem parte da modernização do município, iniciada um pouco antes de um de seus cidadãos mais ilustres assumir o governo de Minas Gerais: Juscelino Kubistchek.

Casa Vogue na Estrada: os melhores momentos da nossa expedição pelo Vale do Jequitinhonha (Foto: Ruy Teixeira)
A pequena capela da Pousada Relíquias do Tempo (Foto: Ruy Teixeira).
Outra riqueza local é a música. Todos os anos, entre abril e outubro, Diamantina recebe as Vesperatas. Em dias específicos, a partir das 20 h, músicos diversos se apresentam por mais de duas horas das sacadas dos casarões seculares enquanto os maestros regem do meio da rua. Em 2016, o evento foi considerado Patrimônio Cultural de Minas Gerais. A música diamantinense, no entanto, já aparecia em crônica de Carlos Drummond de Andrade, em 1972: 
“Quem, conhecendo Diamantina, será capaz de não gostar de Diamantina? Mesmo não conhecendo: ouvindo falar. Pois, entre outras excelências, o povo de Diamantina é povo que canta, e isto significa riqueza de coração.” 
Impossível discordar do poeta!

Confira a publicação original e o bonito video da expedição Casa Vogue:
casavogue.globo.com/LazerCultura/Viagem/noticia/2018/12/os-melhores-momentos-da-nossa-expedicao-pelo-vale-do-jequitinhonha.html

Fonte: Revista Vogue, 06.12.2018

Outras informações do Blog:
O Vale do Jequitinhonha é retalhado em muitas partes e microrregiões pelos técnicos planejadores do Estado. Isso cria desinformações sobre o território da Bacia Hidrográfica do Rio Jequitinhonha. 
A Bacia do Rio Jequitinhonha forma o Vale do Jequitinhonha que ocupa um vasto território em Minas, parte da região central, nordeste e norte de Minas, e também no sul da Bahia. 
O rio Jequitinhonha nasce na Serra do Espinhaço, na região de Milho Verde, no município de Serro, região Central de Minas, percorre 1.090 km até chegar na sua foz no município de Belmonte, na Bahia. A bacia do rio Jequitinhonha compreende uma área de 70.315 km², sendo que 66.319 km² situam-se em Minas Gerais, enquanto 3.996 km² pertencem à Bahia representando 11,3% da área do estado mineiro e apenas 0,8% do baiano.
Confira o Mapa do IBGE:
Vale do Jequitinhonha - Blog do Banu: Mapa do Vale do ...