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sexta-feira, 11 de junho de 2021

Não tem conversa com bolsonarista

 

Os bolsonaristas não sabem dialogar, conviver com quem pensa e sente diferente deles. 

Quem não concorda com eles vira inimigo. 

É o protótipo do fascista. 


"Não tem conversa com bolsonarista"

João Paulo Cunha*
"Bolsonaro está cercado do que há de pior, na caserna, nos templos e na economia" - Arquivo/Agência Brasil
O fascismo é o território em que adversários são transformados em inimigos

Não quero papo com bolsonarista. Pode ser até parente próximo, pai, filho ou mesmo o espírito santo. Sem chance. A expressão “troca de ideias” padece de uma crença na capacidade do outro em trazer algo novo para o horizonte, que mereça até mesmo ponderação ou mudança de ponto de vista. Não é o caso dos minions: não tem como ser um deles sem deixar de ser gente. Pelo menos o que entendo por gente. Tem conversa que não vale a pena.

Por isso é preciso mudar de tática. Nada de tentar convencer os imutáveis 25% de almas sebosas. Que subsistam, e é só. Mas precisam ser derrotados. O fascismo é o território em que adversários são transformados em inimigos. O desafio, por isso, não está em conquistar consenso, hegemonia ou mesmo maioria, mas recuperar a civilização isolando quem não tem estatuto ontológico para participar do clube da democracia. O Brasil, sob Bolsonaro, vive no pântano da pré-política.

Por isso, alguns desafios estão postos. Fazer oposição cerrada às políticas do presidente que vêm capando direitos, manietando as instituições e destruindo o país é o primeiro deles. Para esse trabalho estão convocados desde os partidos de oposição aos movimentos sociais, passando por todos os grupos afetados por decisões no campo das políticas públicas e decisões na arena econômica e dos valores culturais. Enquanto o governo existe, é preciso que seja vigiado em seus equívocos, criticado em seus erros, inviabilizado dentro das regras e constrangido em suas boçalidades.

O segundo desafio está em ocupar todas as frentes possíveis para viabilizar o “Fora, Bolsonaro”, do afastamento judicial ou popular ao impeachment. Vale muita coisa nesse caminho, das CPIs aos movimentos de rua, passando por denúncias em foros internacionais de direitos humanos e cortes de defesa da civilização como a concebemos nos últimos 200 anos. Afastar o presidente é um imperativo democrático, não um ato de exceção. A paralisação do processo no Congresso e a blindagem nos órgãos de controle exige uma atitude de coragem que começa nas ruas.

O terceiro caminho é a construção da vitória nas urnas no ano que vem. Pode parecer a via mais condescendente e fácil, mas nem por isso está garantida. A ser mantida a atmosfera de polarização, atravessada pela incapacidade de união das forças democráticas e do cenário de exploração industrial da desinformação criminosa, não está afastada a possibilidade de reedição da última disputa eleitoral, inclusive em seus resultados. Parte minoritária, mas unida e vitaminada pela rede de ódio, pode de novo se alimentar dos mitos da antipolítica e do antipetismo.

 

O “Fora, Bolsonaro” precisa vir pelo afastamento judicial ou popular ou impeachment

 

A mudança de postura política exige apenas humildade em aprender com o passado recente. O que significa estabelecer com competência uma frente feita ao mesmo tempo de valores compartilhados e nomes viáveis. Os dois precisam vir juntos. Quem fala que o principal é o programa ou quem defende apenas os favoritos em pesquisa, faz o jogo da divisão que só reforça o ego e enfraquece os resultados. Que já deu no que deu.

Três são as bandeiras capazes de unir o que a divergência política das forças progressistas, de centro-esquerda ou, simplesmente, racionais, separa. Defesa da democracia como valor inegociável, retomada do combate à desigualdade e proteção do meio ambiente. Quem assina embaixo deve vir junto. As outras demandas serão somadas no processo de alianças posterior. Os nomes para levar esse programa adiante devem ser debatidos a partir daí, com pragmatismo e objetivo definido: ganhar a eleição, não uma vaga no tribunal da vitória moral. De boas intenções, o inferno bolsonarista dos nossos dias está cheio.

Baixo clero militar

Além de fazer oposição ao governo, trabalhar pelo impedimento do presidente por crimes cometidos e construir a vitória eleitoral, recentemente mais um fator passou a dominar o cenário e exigir mais um esforço aos defensores da democracia no Brasil: o combate à ditadura militar. Mas a ditadura não acabou em 1985? O que Bolsonaro está conseguindo fazer é algo que parecia impossível: transformar o que era ruim em algo ainda pior, ao naturalizar o que é inaceitável: uma ditadura militar singular, mas expressiva nos marcos da democracia de fachada.

O atual governo tem mais militares em cargos de ministério e presidência de estatais do que qualquer outro do período militar. Nos escalões inferiores, o recrutamento (a palavra nunca foi tão exata) nas forças armadas para cargos de direção e chefia do serviço público extrapola a casa dos milhares. O presidente é um ex-militar afastado por insubordinação, seu vice é general e o aparelhamento da justiça e das polícias tem a marca compósita da caserna e dos templos evangélicos. Bolsonaro recupera a mitologia da competência militar para cumprir missões em todas as áreas onde o problema parece ser excesso de democracia.

 

É preciso unirmos em torno da defesa da democracia, do combate à desigualdade e da proteção do meio ambiente

 

Militarizou tudo, do meio ambiente à saúde, não por acaso dois dos mais incompetentes setores da administração pública, que vêm enxovalhando o país em dimensão internacional. Pôs o Exército para produzir cloroquina, dirigir agências de controle de medicamentos, comandar a repressão contra defensores do meio ambiente.  Convocou militares da ativa contra as normas disciplinares, insuflou a divisão entre o oficialato, incorporou as polícias em sua visão abrangente de militarização como corpo armado e obediente.

As Forças Armadas nunca foram unidas. A dissenção faz parte de seu DNA, inclusive com revoltas e protestos vindos da caserna. Durante a ditadura militar de 1964-1985, foram pelo menos duas ondas fortes de conspiração, o que mostrava a vida política pulsando nos quartéis. Os protestos, na verdade, não eram contra o endurecimento do regime, pelo contrário, pela cobrança de mais ditadura. Nos dois casos, quem clamava por endurecimento eram representantes das baixas e médias patentes. Como Bolsonaro e sua turma.

 

Militares se nutrem do tripé oferecido pelo chefe: prestígio, poder e dinheiro

 

Mesmo assim, os militares, ainda que capazes de segurar a bagunça no seu pátio, gostavam do que faziam e se sentiram tirados do jogo antes da hora. Negociaram uma anistia que passou por cima de crimes contra a humanidade, o que permitiu que anos depois nomes de torturadores sejam alvo de homenagens e a defesa da tortura feita aos quatro ventos. Agora, inspirados pelo presidente, parece que os revoltosos do fechamento estão de volta. E se nutrem do tripé oferecido pelo chefe: prestígio, poder e dinheiro.

São três alimentos para a alma de qualquer pessoa menos convicta de seus princípios. Os militares ganharam promessas de investimento em seus brinquedos, estão no comando da máquina administrativa (inclusive no ordenamento de despesas civis) e tiveram aumentos e decisões favoráveis em meio a reformas trabalhistas e previdenciárias que afetaram negativamente todas as outras categorias profissionais. São admirados, poderosos e bem pagos.

Por essa e outras, o ex-capitão insiste em chamar as Forças Armadas de “meu” Exército. No sentido da propriedade individual pode ser um erro, mas no que diz respeito à identificação do grupo mais próximo, parece acertar o alvo. Com isso, a oposição de parte dos oficiais e mesmo o pedido de demissão dos comandantes das três armas não parecem incomodar o presidente. Na verdade, reforça a mudança da origem do domínio estabelecido nos quartéis, a partir do rebaixamento da linha de comando rumo aos setores menos graduados e, até então, menos valorizados pela corporação. Uma espécie de baixo clero da farda.

O recente caso de Eduardo Pazuello, general logístico e ex-ministro da Saúde, foi o coroamento da desmoralização dos militares. Tanto dentro de casa como para a opinião pública. Por um lado, rifou um oficial da ativa que carregou nas costas de forma humilhante os erros propositais da política sanitária defendida pelo presidente. Se um general da ativa em cargo de ministro já era uma forma de desobediência dos códigos militares que afirmam independência de governos para reforçar o papel de Estado de seus membros, sua entrega aos leões foi uma demonstração de desprezo.

 

Militarizou tudo, do meio ambiente à saúde, não por acaso dois dos mais incompetentes setores da administração pública

 

Em seguida, sua convocação para um ato político e exposição gratuita em episódio sem maior relevância, como um passeio de motociclistas fantasiados de homem, afrontou novamente as regras profissionais dos militares. Ao entrar em cena encaminhando o arquivamento da denúncia ao general, Bolsonaro remarcou sua posição de comando e plantou mais uma divisão entre os militares. O Exército saiu mais fraco e perdeu no terreno que moralmente sempre se destacou.

O presidente sempre manteve fechados os canais com a democracia. É inimigo da imprensa livre. Foi sempre reticente com partidos. Não confia em empresários, já que não se decidiu se é nacionalista ou liberal. Utilizou-se de todos que davam a ele palanque para sua cruzada antissistema, a começar por Moro, que depois foi descartado sumariamente e vive hoje seu inferno sem horizonte político ou profissional. Merecidamente.

Agora reduz sua interlocução até com a base da qual mais se orgulhava, os militares. Está ficando cercado do que há de pior, na caserna, nos templos, na economia e nas forças de segurança. É com eles que pretende se manter. Na falta de categoria sociológica confiável, esses espécimes atendem pelo nome de bolsonaristas. Eles não merecem papo.

Artigo publicado no https://www.brasildefatomg.com.br/2021/06/10/nao-tem-conversa-com-bolsonarista, no dia 10.06.2021

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quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Bolsonaro quer dar golpe com fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal

O presidente Jair Bolsonaro após uma cerimônia no Palácio do Planalto em fevereiro de 2020.O presidente Jair Bolsonaro após uma cerimônia no Palácio do Planalto em fevereiro de 2020.ADRIANO MACHADO / REUTERS (REUTERS)

O golpe de Bolsonaro está em curso

Já está acontecendo: 

a hora de lutar pela democracia é agora

Só não vê quem não quer. E o problema, ou pelo menos um deles, é que muita gente não quer ver. O amotinamento de uma parcela da Polícia Militar do Ceará e os dois tiros disparados contra o senador licenciado Cid Gomes (PDT), em 19 de fevereiro, é a cena explícita de um golpe que já está sendo gestado dentro da anormalidade. Há dois movimentos articulados. Num deles, Jair Bolsonaro se cerca de generais e outros oficiais das Forças Armadas nos ministérios, substituindo progressivamente os políticos e técnicos civis no Governo por fardados – ou subordinando os civis aos homens de farda nas estruturas governamentais. Entre eles, o influente general Luiz Eduardo Ramos, da Secretaria de Governo, segue na ativa, e não dá sinais de desejar antecipar seu desembarque na reserva. O brutal general Augusto Heleno, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, chamou o Congresso de “chantagista” dias atrás. Nas redes, vídeos com a imagem de Bolsonaro conclamam os brasileiros a protestar contra o Congresso em 15 de março. “Por que esperar pelo futuro se não tomamos de volta o nosso Brasil?”, diz um deles. Bolsonaro, o antipresidente em pessoa, está divulgando pelas suas redes de WhatsApp os chamados para protestar contra o Congresso. Este é o primeiro movimento. 
No outro, uma parcela significativa das PMs dos estados proclama sua autonomia, transformando governadores e população em reféns de uma força armada que passa a aterrorizar as comunidades usando a estrutura do Estado. Como os fatos já deixaram claro, essas parcelas das PMs não respondem aos Governos estaduais nem obedecem a Constituição. Tudo indica que veem Bolsonaro como seu único líder. Os generais são a vitrine lustrada por holofotes, as PMs são as forças populares que, ao mesmo tempo, sustentam o bolsonarismo e são parte essencial dele. Para as baixas patentes do Exército e dos quartéis da PM, Bolsonaro é o homem.
É verdade que as instituições estão tentando reagir. Também é verdade que há dúvidas robustas se as instituições, que já mostraram várias e abissais fragilidades, ainda são capazes de reagir às forças que já perdem os últimos resquícios de pudor de se mostrarem. E perdem o pudor justamente porque todos os abusos cometidos por Bolsonaro, sua família e sua corte ficaram impunes. De nada adianta autoridades encherem a boca para “lamentar os excessos”. Neste momento, apenas lamentar é sinal de fraqueza, é conversinha de sala de jantar ilustrada enquanto o barulho da preparação das armas já atravessa a porta. 
Bolsonaro nunca foi barrado: nem pela Justiça Militar nem pela Justiça Civil. É também por isso que estamos neste ponto da história.
Essas forças perdem os últimos resquícios de pudor também porque parte do empresariado nacional não se importa com a democracia e a proteção dos direitos básicos desde que seus negócios, que chamam de “economia”, sigam dando lucro. Esta mesma parcela do empresariado nacional é diretamente responsável pela eleição de um homem como Bolsonaro, cujas declarações brutais no Congresso já expunham os sinais de perversão patológica. Estes empresários são os herdeiros morais daqueles empresários que apoiaram e se beneficiaram da ditadura militar (1964-1985), quando não os mesmos.
Uma das tragédias do Brasil é a falta de um mínimo de espírito público por parte de suas elites financeiras. Elas não estão nem aí com os cartazes de papelão onde está escrita a palavra “Fome”, que se multiplicam pelas ruas de cidades como São Paulo. Como jamais se importaram com o genocídio dos jovens negros nas periferias urbanas do Brasil, parte deles mortos pelas PMs e suas “tropas de elite”. Adriano da Nóbrega – aquele que, caso não tivesse sido morto, poderia dizer qual era a profundidade da relação da família Bolsonaro com as milícias do Rio de Janeiro e também quem mandou assassinar Marielle Franco – pertencia ao BOPE, um destes grupos de elite.
Não há nada comparável à situação vivida hoje pelo Brasil sob o Governo de Bolsonaro. Mas ela só é possível porque, desde o início, se tolerou o envolvimento de parte das PMs com esquadrões da morte, na ditadura e além dela. Desde a redemocratização do país, na segunda metade dos anos 1980, nenhum dos governos combateu diretamente a banda podre das forças de segurança. Parte das PMs se converteu em milícias, aterrorizando as comunidades pobres, especialmente no Rio de Janeiro, e isso foi tolerado em nome da “governabilidade” e de projetos eleitorais com interesses comuns. Nos últimos anos as milícias deixaram de ser um Estado paralelo para se confundir com o próprio Estado.
A política perversa da “guerra às drogas”, um massacre em que só morrem pobres enquanto os negócios dos ricos aumentam e se diversificam, foi mantida mesmo por governos de esquerda e contra todas as conclusões dos pesquisadores e pesquisas sérias que não faltam no Brasil. E seguiu sustentando a violência de uma polícia que chega nos morros atirando para matar, inclusive em crianças, com a habitual desculpa de “confronto” com traficantes. Se atingem um estudante na escola ou uma criança brincando, é “efeito colateral”.
Desde os massivos protestos de 2013, governadores de diferentes estados acharam bastante conveniente que as PMs batessem em manifestantes. E como ela bateu. Era totalmente inconstitucional, mas em todas as esferas, poucos se importaram com esse comportamento: uma força pública agindo contra o cidadão. Os números de mortes cometidas por policiais, a maior parte delas vitimando pretos e pobres, segue aumentando e isso também segue sendo tolerado por uns e estimulado por outros. É quase patológica, para não dizer estúpida, a forma como parte das elites acredita que vai controlar descontrolados. Parecem nem desconfiar de que, em algum momento, eles vão trabalhar apenas para si mesmos e fazer os ex-chefes também de reféns.
Bolsonaro compreende essa lógica muito bem. Ele é um deles. Foi eleito defendendo explicitamente a violência policial durante os 30 anos como político profissional. Ele nunca escondeu o que defendia e sempre soube a quem agradecer pelos votos. 
Sergio Moro, o ministro que interditou a possibilidade de justiça, fez um projeto que permitia que os policiais fossem absolvidos em caso de assassinarem “sob violenta emoção”. Na prática é o que acontece, mas seria oficializado, e oficializar faz diferença. Essa parte do projeto foi vetada pelo Congresso, mas os policiais seguem pressionando com cada vez mais força. Neste momento, Bolsonaro acena com uma antiga reivindicação dos policiais: a unificação nacional da PM. Isso também interessa – e muito – a Bolsonaro.
Se uma parcela das polícias já não obedece aos governadores, a quem ela obedecerá? Se já não obedece a Constituição, a qual lei seguirá obedecendo? Bolsonaro é o seu líder moral. O que as polícias militares têm feito nos últimos anos, ao se amotinarem e tocarem o terror na população é o que Bolsonaro tentou fazer quando capitão do Exército e foi descoberto antes: tocar o terror, colocando bombas nos quartéis, para pressionar por melhores salários. É ele o precursor, o homem da vanguarda.
O que aconteceu com Bolsonaro então? Virou um pária? Uma pessoa em que ninguém poderia confiar porque totalmente fora de controle? Um homem visto como perigoso porque é capaz de qualquer loucura em nome de interesses corporativos? Não. Ao contrário. Foi eleito e reeleito deputado por quase três décadas. E, em 2018, virou presidente da República. Este é o exemplo. E aqui estamos nós. Vale a pergunta: se os policiais amotinados são apoiados pelo presidente da República e por seus filhos no Congresso, continua sendo motim?
Não se vira refém de uma hora para outra. É um processo. Não dá para enfrentar o horror do presente sem enfrentar o horror do passado porque o que o Brasil vive hoje não aconteceu de repente e não aconteceu sem silenciamentos de diferentes parcelas da sociedade e dos partidos políticos que ocuparam o poder. Para seguir em frente é preciso carregar os pecados junto e ser capaz de fazer melhor. Quando a classe média se calou diante do cotidiano de horror nas favelas e periferias é porque pensou que estaria a salvo. Quando políticos de esquerda tergiversaram, recuaram e não enfrentaram as milícias é porque pensaram que seria possível contornar. E aqui estamos nós. Ninguém está a salvo quando se aposta na violência e no caos. Ninguém controla os violentos.
Há ainda o capítulo especial da degradação moral das cúpulas fardadas. Os estrelados das Forças Armadas absolveram Bolsonaro lá atrás e hoje fazem ainda pior: compõem sua entourage no Governo. Até o general Ernesto Geisel, um dos presidentes militares da ditadura, dizia que não dava para confiar em Bolsonaro. Mas aí está ele, cercado por peitos medalhados. Os generais descobriram uma forma de voltar ao Planalto e parecem não se importar com o custo. Exatamente porque quem vai pagar são os outros.
As polícias são a base eleitoral mais fiel de Bolsonaro. Quando essas polícias se tornam autônomas, o que acontece? Convém jamais esquecer que Eduardo Bolsonaro disse antes da eleição que “basta um cabo e um soldado para fechar o Supremo Tribunal Federal”. Um senador é atingido por balas disparadas a partir de um grupo de policiais amotinados e o mesmo filho zerotrês, um deputado federal, um homem público, vai às redes sociais defender os policiais. Não adianta gritar que é um absurdo, é totalmente lógico. Os Bolsonaros têm projeto de poder e sabem o que estão fazendo. Para quem vive da insegurança e do medo promovidos pelo caos, o que pode gerar mais caos e medo do que policiais amotinados?
É possível fazer muitas críticas justas a Cid Gomes. É possível enxergar a dose de cálculo em qualquer ação num ano eleitoral. Mas é preciso reconhecer que ele compreendeu o que está em curso e foi para a rua enfrentar com o peito aberto um grupo de funcionários públicos que usavam a estrutura do Estado para aterrorizar a população, multiplicando o número de mortes diárias no Ceará.
A ação que envergonha, ao contrário, é a do governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), que, num estado em dificuldades, se submete à chantagem dos policiais e dá um aumento de quase 42% à categoria, enquanto outras estão em situação pior. É inaceitável que um homem público, responsável por tantos milhões de vidas de cidadãos, acredite que a chantagem vai parar depois que se aceita a primeira. Quem já foi ameaçado por policiais sabe que não há maior terror do que este, porque além de terem o Estado na mão, não há para quem pedir socorro.
Quando Bolsonaro tenta responsabilizar o governador Rui Costa (PT), da Bahia, pela morte do miliciano Adriano da Nóbrega, ele sabe muito bem a quem a polícia baiana obedece. Possivelmente não ao governador. A pergunta a se fazer é sempre quem são os maiores beneficiados pelo silenciamento do chefe do Escritório do Crime, um grupo de matadores profissionais a quem o filho do presidente, senador Flavio Bolsonaro, homenageou duas vezes e teria ido visitar na cadeia outras duas. Além, claro, de ter empregado parte da sua família no gabinete parlamentar.
Não sei se pegar uma retroescavadeira como fez o senador Cid Gomes é o melhor método, mas era necessário que alguém acordasse as pessoas lúcidas deste país para enfrentar o que está acontecendo antes que seja demasiado tarde. Longe de mim ser uma fã de Ciro Gomes, mas ele falou bem ao dizer: “Se você não tem a coragem de lutar, ao menos tenha a decência de respeitar quem luta”.
A hora de lutar está passando. O homem que planejava colocar bombas em quartéis para pressionar por melhores salários é hoje o presidente do Brasil, está cercado de generais, alguns deles da ativa, e é o ídolo dos policiais que se amotinam para impor seus interesses pela força. Estes policiais estão acostumados a matar em nome do Estado, mesmo na democracia, e a raramente responder pelos seus crimes. Eles estão por toda a parte, são armados e há muito já não obedecem ninguém.
Bolsonaro têm sua imagem estampada nos vídeos que conclamam a população a protestar contra o Congresso em 15 de março e que ele mesmo passou a divulgar por WhatsApp. Se você não acha que pegar uma retroescavadeira é a solução, melhor pensar logo em outra estratégia, porque já está acontecendo. E, não se iluda, nem você estará a salvo.
Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Brasil, Construtor de Ruínas, Coluna Prestes - o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, meus desacontecimentos, e do romance Uma Duas. Site: desacontecimentos.com Email: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter: @brumelianebrum/ Facebook: @brumelianebrum/ Instagram: brumelianebrum

terça-feira, 25 de junho de 2019

Como se explica a eleição de Bolsonaro, Hitler e Mussolini? Pergunte à História, afirma Frei Betto

A escolha das 'massas' nas eleições.


A história mostra que em momentos de crise, eleitores tendem s fazer escolhas desastrosas: "Há boa dose de irracionalidade naqueles que votam contra isso ou aquilo, movidos pelo ódio e a sede de vingança. Quanto mais demonizam os adversários, mais mitificam o candidato preferido, como se a política prescindisse de instituições democráticas e dependesse apenas da vontade pessoal do eleito". 
Foi assim com Bolsonaro, Hitler, Mussolini e outros.
Este artigo foi publicado no Brasil247 com o título "A escolha das "massas" nas eleições".  O Globo publicou com o título "Pergunte à História". O Portal Vermelho foi também diferente: "Como se explica a eleição de Bolsonaro?".  Frei Betto analisa a eleição de personagens autoritárias para o comando de nações, em países com diferentes culturas e estágios de evolução civilizatória. Afirma: "Eleitores nem sempre votam com a razão; muitos recorrem à emoção. É assim que adversários são demonizados enquanto o candidato preferido é alçado à condição de mito". 
E conclui com o texto do austríaco Sigmund Freud, o criador  da Psicanálise, que publicou o clássico "Psicologia das massas e análise do eu", de 1921. Parece que foi hoje tamanha a atualidade. Obra a ser lida, tão necessária quanto a "Psicologia de massas e do fascismo"  do psicanalista-marxista alemão Wilhelm Reich, publicada em 1933 (escrita entre 1930-1933), no clima de nascimento e  crescimento do fascismo e totalitarismo europeu.  
Grátis: Wilhelm_Reich_-_A_Psicologia_de_Massas_do_Fascismo.pdf
Boa leitura do Frei Betto, do Freud e do Reich, o revolucionário!
Frei Betto*
Em conferências na Europa, me perguntaram como se explica eleitores brasileiros preferirem eleger presidente da República um homem notoriamente defensor da tortura, da homofobia, das milícias, do machismo e da ditadura. Como entender que a maioria tenha escolhido um candidato que considera mais importante armar a população do que reduzir a desigualdade social.

Por que os eleitores não preferiram Haddad, Alckmin, Meirelles, Ciro Gomes ou Álvaro Dias?

Minha resposta foi sempre “perguntem à história”. A ela recorro. Como foi possível, após 15 anos de Estado Novo (1930-1945), um regime ditatorial de dura repressão, censura à imprensa e promulgação, em 1937, de uma Constituição fascista, conhecida como “polaca”, Vargas ter sido democraticamente eleito presidente da República nas eleições de 1950?


Como explicar que a nação de Kant, Beethoven, Bach, Goethe e Einstein tenha escolhido um austríaco racista e genocida, Adolf Hitler, para comandá-la? E a Itália de Dante Alighieri, Maquiavel, Da Vinci e Michelangelo, um fascista como Mussolini?


Eleitores nem sempre votam com a razão. Muitos votam com a emoção. Insatisfeitos com o atual estado de coisas, optam pelo extremo oposto na esperança de que, num passe de mágica, tudo venha a melhorar. Muitas vezes, o voto não é propriamente a favor do candidato que amealha a preferência do eleitorado. É contra tudo que ele critica e promete combater, como na eleição de Jânio Quadros a presidente, em 1960. Ao brandir como símbolo de sua campanha a vassoura, prometeu varrer a corrupção e os corruptos do Brasil... Idem Collor, em 1989, ao ostentar o título de “caçador de marajás”.


Há boa dose de irracionalidade naqueles que votam contra isso ou aquilo, movidos pelo ódio e a sede de vingança. Quanto mais demonizam os adversários, mais mitificam o candidato preferido, como se a política prescindisse de instituições democráticas e dependesse apenas da vontade pessoal do eleito. Esses eleitores não votam a favor de um projeto de nação e propostas consistentes, e sim contra aqueles que, na opinião do avatar escolhido, representam o mal.


No Brasil, a redução do tempo de campanha política, as restrições a comícios e propagandas eleitorais fazem com que as candidaturas não favoreçam a educação eleitoral e política. Assim, o clima de revanche tende a suplantar a reflexão cívica, o debate democrático, a avaliação dos candidatos e de suas propostas.
Perguntem à história quem ganha eleições, e ela certamente responderá que não são necessariamente os melhores, mas aqueles capazes de servir de imã às insatisfações e frustrações da população. Em países em crise, e cuja nação carece de consciência histórica, os eleitores não buscam solução, buscam salvação. Já não são um povo, formam uma massa.


“A massa é extraordinariamente influenciável, crédula, acrítica; o improvável não existe para ela.
Pensa em imagens que evocam umas às outras associativamente, como no indivíduo em estado
de livre devaneio, e que não tem sua coincidência com a realidade medida por instância razoável.
Os sentimentos da massa são sempre muito simples e exaltados. Ela não conhece dúvida,
nem incerteza. Vai prontamente a extremos; a suspeita exteriorizada se transforma
de imediato em certeza indiscutível; um germe de antipatia se torna ódio selvagem.”
“Quem quiser influir sobre ela não necessita medir logicamente os argumentos; deve pintar com
imagens mais fortes, exagerar e sempre repetir a mesma fala. Como a massa não tem dúvidas
quanto ao que é verdadeiro ou falso, e tem consciência da sua enorme força, ela é, ao mesmo
tempo, intolerante e crente na autoridade. Respeita a força, e se deixa influenciar apenas
moderadamente pela bondade, para ela uma espécie de fraqueza. O que exige de seus heróis é
fortaleza, até mesmo violência. Quer ser dominada e oprimida, quer temer os seus senhores.
No fundo, inteiramente conservadora, tem profunda aversão a todos os progressos e inovações,
e ilimitada reverência pela tradição” (Freud, Psicologia das massas e análise do eu –1921).
  
*Frei Betto é natural de Belo Horizonte. Mora há mais de 40 anos em São Paulo. Frei dominicano, é um dos principais defensores da Teologia da Libertação.  Foi preso e torturado pela  Ditadura Militar pela sua solidariedade aos defensores da democracia. Assessor de movimentos populares e escritor. Já publicou mais de 60 livros como "Fidel e a Religião", "Cartas da Prisão",  "Batismo de Sangue", "Paraíso Perdido: Viagens ao mundo socialista", "O que são Comunidades Eclesiais de Base", "Felicidade, foi-se embora?", "A mosca azul", "Calendário do poder", "Oito vias para ser feliz", "Reiventar a vida", entre muitos.  

Leia aqui neste Blog outras análises do Frei Betto sobre eleições, política, ditadura e fascismo:

domingo, 6 de janeiro de 2019

Os três núcleos duros do governo Bolsonaro

SOBRE POLÍTICA, DISTRAÇÃO E DESTRUIÇÃO
por Sílvio Luiz de Almeida*
O atual governo tem três núcleos:
1. O *ideológico-diversionista*. 
Serve apenas para manter a moral da "tropa" em alta, dando representatividade e acomodação psicológica a quem realmente acredita que o Brasil é socialista, que existe ideologia de gênero ou que a terra é plana. Serve também para causar indignação e tristeza nos "progressistas" e, assim, desviar a atenção das questões centrais manejadas pelos núcleos 2 e, especialmente, pelo 3.
Pode também ser utilizado para criar bodes expiatórios: se algo der errado em qualquer setor dir-se-á que foi porque não houve "pulso" para combater a ameaça vermelha, os defensores dos direitos humanos ou os apologistas da ideologia de gênero. Basta trocar por outro mais moderado ou ainda mais alucinado, a depender das circunstâncias.
Por mais que haja oportunismo, é importante que os recrutas desse núcleo acreditem nas coisas que dizem. É o exército de Brancaleone, mas causará muitos estragos.

2. O *policial-jurídico-militar*. 
Aqui não tem brincadeira e nem folclore. Acabou o circo. 
Gente profissional, que sabe operar a máquina repressiva. Vai garantir a materialidade das loucuras do núcleo 1 eliminando os críticos e dando corpo aos "inimigos da pátria", provavelmente por meio do processo penal. Mas também irá este núcleo abrir espaço para a concretização das medidas no núcleo 3. Aqui não tem arminha com o dedo. 
É arma de verdade. É cadeia. É destruição física e moral.

3. Por fim, o *núcleo econômico*. 
Aqui está o nervo. Aqui a terra é redonda; não tem fala contra a globalização; ninguém acredita que exista socialismo no horizonte. 
Aqui a turma estuda, tem PHD e já leu Marx. Aqui "dinheiro não fede", podendo vir dos EUA, da China ou da Rússia. 
Os direitos trabalhistas, a previdência, a assistência social, a saúde e a educação irão para o vinagre a partir daqui e não pelas mãos da turma do "menino veste azul e menina veste rosa" _(que baita distração, hein?)_. 
Daqui vem a ordem para por agrotóxico na comida, retirar terra de índio e quilombola, afrouxar licenciamento ambiental e garantir o sequestro dos bens públicos e do orçamento. O resto é tudo lateral. 
Depois de feito o trabalho, será até possível o nucleo 2 pegar mais leve. Até essa coisa de direitos humanos pode voltar. E assim o núcleo 1 se torna dispensável. 
Depois que tudo for (des)feito, pode vir uma pessoa "sensata", um liberal, uma versão _made in Brazil_ do francês *Macron* para reestabelecer a "racionalidade", a "democracia" e o "estado de direito"."

P.S. Edit para evitar incompreensões: toda ideologia é “distração; é próprio da ideologia distrair. E são essas distrações que matam pessoas e destroem vidas. 
Nesse sentido, o racismo é a “distração” necessária do colonialismo e da desigualdade; a bobagem dita sobre a “ideologia de gênero” é a distração do patriarcado e do domínio masculino, que só o feminismo pode quebrar. 
O sem sentido do combate ao “marxismo cultural” e o “escola sem partido” são a distrações para desmoralizar a crítica e a apresentação de alternativas políticas. 
Para dominar a economia é fundamental que se exerça poder sobre os corpos, sobre as identidades, sobre o gênero e a sexualidade. É necessário que alguém diga o que você é para a economia funcionar. Isso implica que a ideologia mata e deve ser capaz de matar, e para tanto existe o núcleo 2. 
Esse texto, portanto, é simplesmente para chamar a atenção sobre o que NÃO está sendo dito e não sobre o que está sendo vocalizado.

Fonte: Jornalistas Livres - Texto de *Silvio Luiz de Almeida* - Professor da FGV - Fundação Getúlio Vargas - presidente do Instituto Luís Gama 


segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

O fascismo não perdoa ninguém. Se preciso for, ameaça, mata, extermina, até mesmo aliados.


O fascismo não perdoa nem os que por burrice, oportunismo ou covardia, o atraem.

Mauro Santayanna*

A cada vez que alguém divulgar uma notícia fake na internet sabendo que no fundo, intimamente, está mentindo miseravelmente e não passa de um canalha vil e desprezível... .
A cada vez que cidadãos que dizem se preocupar com a Liberdade, a Nação, o Estado de Direito e a Democracia, assistirem passivamente à publicação de comentários econômicos, jurídicos e políticos mentirosos, e a outras calúnias e absurdos na internet, mansa e passivamente, sem resistir nem responder a eles...
A cada vez que alguém defender a tortura e a volta dos assassinatos da ditadura, sabendo que em um regime de exceção ninguém está a salvo do guarda da esquina, ele estará mais próximo
A cada vez que alguém disser que o Brasil está quebrado por incompetência de governos anteriores quando somos o quarto maior credor individual externo dos Estados Unidos, temos 380 bilhões de dólares – mais de 1 trilhão e 200 bilhões de reais – em reservas internacionais, o BNDES está pagando antecipadamente 230 bilhões de reais ao Tesouro e a divida bruta e líquida públicas são menores do que eram em 2002 com relação ao PIB...

A cada vez que alguém gritar que temos de entregar o pré-sal, a Petrobras, a Embraer, a Eletrobras e a Amazônia porque somos ladrões e incompetentes para cuidar do que é nosso, como se o governo e as empresas norte-americanas fossem um impoluto poço de honestidade e moralismo e até o genro do Rei da Espanha não tivesse sido apanhado em cabide de emprego da Vivo depois que esta veio para o Brasil aproveitando a criminosa privatização da Telebras, feita por gente que depois ocupou aqui a Presidência dessa empresa espanhola...
A cada vez que alguém defender raivosamente o livre comércio quando o Eximbank e a Opic norte-americanos emprestam mais dinheiro público que o BNDES no apoio a exportações e Trump adota sobretaxas contra a importação de aço e alumínio brasileiros e para vender aviões ao governo dos Estados Unidos a Embraer é obrigada a instalar primeiro com participação minoritária uma fábrica nos Estados Unidos...
A cada vez que alguém vangloriar o Estado mínimo, quando os Estados Unidos – que está mais endividado que o Brasil – está programando investir mais de um trilhão de dólares de dinheiro público em obras de infraestrutura para reativar a economia, tem apenas no Departamento de Defesa mais funcionários federais que todo o governo brasileiro e todo mundo – principalmente a China – sabe que não existem nações fortes sem estados fortes, ou sem empresas nacionais privadas ou estatais poderosas que é preciso preservar e defender...
A cada vez que alguém defender a volta de militares golpistas ao poder – porque milhares de militares legalistas foram contra o golpe de 1964 e foram perseguidos depois por defender a Constituição e a Democracia – abrindo mão de votar e suspirar e sentir o cabelo da nuca arrepiar quando vir um reco passar por perto...
A cada vez que alguém afirmar que em 1964 não houve um golpe contra um Presidente eleito, consagrado pelo apoio popular, poucas semanas antes, em um plebiscito amplamente vitorioso...
A cada vez que alguém defender a tortura e a volta dos assassinatos da ditadura, sabendo que em um regime de exceção ninguém está a salvo do guarda da esquina, como aprenderam golpistas que desfilaram pedindo o golpe de 1964 e depois tiveram filhos e parentes assassinados ou torturados pela repressão...
A cada vez que alguém achar normal – desde que não seja seu parente – que, sem flagrante, uma pessoa possa ser levada pela polícia para depor sem ter sido antes previamente intimada a depor pela justiça...
A cada vez que informações sigilosas de inquéritos em andamento forem vazadas propositalmente por quem deveria preservar o sigilo de Justiça, para determinadas e particulares emissoras de televisão...
A cada vez que alguém aceitar que um cidadão pode ser acusado, condenado e encarcerado sem provas e apenas pela palavra de um investigado preso que teve muitas vezes sua prisão sucessiva imoralmente prorrogada, disposto a tudo para sair da cadeia a qualquer preço...
A cada vez que alguém achar que algum cidadão pode ser acusado de ser dono de alguma propriedade sem nunca ter tomado posse dela ou sequer possuir uma escritura que prove que é sua...
A cada vez que alguém acreditar que um apartamento fuleiro que vale menos de um milhão de reais pode ter servido de propina para comprar a dignidade de alguém que comandou durante oito anos uma das maiores economias do mundo...
A cada vez que alguém soltar foguetes por motivos políticos, celebrando sua própria ignorância e imbecilidade...
A cada vez que alguém aceitar promulgar leis inconstitucionais para ceder à pressão dos adversários adotando um republicanismo pueril e imaturo...
A cada vez que a lei aceitar tratar de forma diferente – ou igualmente injusta e ilegal – aqueles que são iguais...
A cada vez que um juiz ou procurador emitir – sem estar a isso constitucionalmente autorizado – uma opinião política...
A cada vez que juízes ou procuradores falarem em fazer greve para defender benesses como auxílio-moradia quando já ganham muitas vezes – também de forma imoral – perto ou mais de 100 mil reais, muito acima, portanto, do limite constitucional vigente, que é o salário de ministros do STF...
A cada vez que alguém defender que "bandido bom é bandido morto" (até algum parente se envolver em um incidente de trânsito ou em uma discussão de condomínio com algum agente prisional, guarda municipal ou agente de polícia)...
A cada vez que alguém comemorar a morte de alguém por ele ser supostamente "comunista", ou negro, viciado, gay ou da periferia...
A cada vez que alguém ache normal – e com isso vibre – que candidatos defendam o excludente automático de ilicitude para agentes de segurança pública que matem "em serviço", em um país em que a polícia já é a que mais mata no mundo...
A cada vez que alguém achar que só ele tem o direito ou, pior, a exclusividade de usar os símbolos nacionais e o verde e amarelo – que pertencem a todos os brasileiros...
A cada vez que um ministro da Suprema Corte se calar quando for insultado publicamente por juízes e procuradores ou por um energúmeno qualquer nas redes sociais...
A cada vez que alguém acreditar que água de torneira – abençoada por um sujeito na tela da televisão – cura o câncer, que a terra é plana, ou que Hitler, obrigado a suicidar-se durante a Batalha de Berlim pelo cerco das tropas soviéticas, era socialista...
A cada vez que alguém achar que é normal que institutos de certos ex-presidentes tenham ganho milhões com a realização de palestras de um certo ex-presidente e outros institutos de outros ex-presidentes tenham de ser multados em todo o dinheiro ganho por palestras de outro ex-presidente...
A cada vez que alguém ache normal que alguém vá para a cadeia por não ter comprado um apartamento e outros sequer sejam investigados por ter comprado várias outras propriedades imobiliárias por preços abaixo do mercado...
A cada vez que uma emissora de televisão, pratique, nas barbas do TSE, impune e disfarçadamente, política, "filtrando" e exibindo depoimentos "espontâneos" de cidadãos de todo o país, para defender subjetivamente suas próprias teses – ou aquelas que mais lhe agradem – em pleno ano eleitoral...
A cada vez que alguém adotar descaradamente a chicana e o casuísmo, impedindo que se cumpra a Constituição, porque está apostando na crise institucional e foi picado pela mosca azul quando estava sentado na principal cadeira do Palácio do Planalto...
A cada vez que ministros do Supremo inventarem dialetos javaneses ou hermenêuticos lero-leros para justificar votos incompreensíveis e confusos que vão contra a Constituição e que a História não esquecerá nem absolverá...
O Fascismo estará mais perto da vitória.
E não perdoará, em sua orgia de ódio, violência e hipocrisia, nem mesmo aqueles que agora estão empenhados, por burrice, oportunismo ou covardia, em chocar o ovo da serpente e abrir-lhe o caminho para o triunfo.
Mauro Santayanna


(Este texto foi originalmente publicado em 13 de abril de 2018, na Rede Brasil Atual, pouco depois da prisão política de Lula por seus opositores) 
Fonte: Rede Brasil Atual, em 13.04.18