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sexta-feira, 6 de março de 2020

8 de março: dia de luta coletiva contra a opressão machista

Por um feminismo de baderna, ira e alarde.

Neste 8M, ocuparemos politicamente as ruas e as nossas casas, em festa e protesto. Não queremos flores, parabéns e elogios — mas sacudir uma ordem social irrespirável, que tem a mesma cara dos machos rivalistas e opressores.
Pelo SOS Corpo
Baderna, nova coluna em Outras Palavras

Os tempos exigem baderna, gritaria e desobediência. Somos coletivas. Negritamos com alarde nossas feministas palavras. Nascemos do pensamento pensado e, no movimento, construímos pensamento pensante. Oferecemos aqui nossas provocações. O que queremos é atiçar desordens, porque do pessoal ao público, tudo é política. Portanto, que a baderna seja feminista. Esta coluna é feita pelo Cfemea e SOS Corpo, dois coletivos políticos profissionais feito por mulheres e com uma longa história de atuação feminista no Brasil.
O feminismo veio para ocupar tudo! Não tem como conter essa forma de ver, pensar e transformar o mundo. O pensamento feminista foi fundamental para que a democracia ganhasse demandas reais em espaços do cotidiano, foi fundamental para compreendermos que ele é uma forma de organizar a vida social. Nós mulheres não só denunciamos as declarações sexistas de políticos ou escrachamos os machos que se esfregam “nelas” no metrô ou no carnaval. É mais que isso: o feminismo revelou que o espaço “privado” imposto a nós mulheres, à família e à casa nada tinha de privado, mas representou e representa violação e privação. O feminismo respondeu aos que enaltecem a família patriarcal burguesa, como núcleo sagrado abençoado por Deus, dizendo desde o seu começo que o pessoal é político e provando que pais, tios e irmãos são os principais responsáveis por estupros de meninas e assassinato de mulheres.
O feminismo, além de pensamento, é movimento. Suas ideias levam mulheres a se encontrar umas com as outras e ir às ruas, com lutas feitas por mulheres de carne, osso e coração sangrando. Nas periferias das cidades, no campo, nas florestas, à beira das águas e nas margens da sociedade nós mulheres estamos, na prática e no cotidiano, construindo a democracia. Somos nós, as mães, brigando com governos locais por creches e escolas para nossos filhos; somos mulheres indígenas defendendo umas às outras, nossas comunidades e também os nossos territórios; somos mulheres negras denunciando a polícia militar por racismo institucional contra nossos jovens filhos/as negros; somos mulheres transsexuais batalhando para conseguir reconhecimento de nosso nome social; somos mulheres lésbicas espalhando a potência do amor entre mulheres; mulheres agricultoras rurais estabelecendo uma relação orgânica, pessoal e natural com a Terra; somos mulheres quilombolas tomando a liderança de nossas comunidades para termos reconhecido o direito a nossos territórios ancestrais e nossa cultura; somos mulheres sindicalizadas declarando a importância da organização feminista no mundo do trabalho produtivo e denunciando as desigualdades trabalhistas fruto da desigual divisão sexual do trabalho. Somos trabalhadoras domésticas, mulheres que trabalhamos em casas de famílias, alertando para a continuidade da cultura escravocrata que se estampa na falta de reconhecimento de direitos trabalhistas básicos e violências sofridas constantemente no ambiente de trabalho; somos mulheres de fé enfrentando a violência dos que se dizem nossos companheiros em casa; mulheres de axé enfrentando ataques de fanáticos religiosos aos nossos terreiros e a nosso sagrado; somos jovens estudantes reclamando para nós a autoria de um feminismo combativo e ligado às lutas pela educação pública de qualidade; somos as mulheres que estão em postos de representação política que sofrem violências políticas e violências fatais, que nos transformamos em sementes desse novo tempo que está por vir. O feminismo é mais que uma ideia que está sendo combatida, ele tem se traduzido em organização política e movimento social pela transformação.
Em novembro de 2019, o mundo conheceu a performance “Un Violador En Tu Camino”, criada por um grupo performático interdisciplinar de feministas, o Las Tesis. Elas levaram para as ruas chilenas o hino que denuncia e nomeia os antagonistas na violência patriarcal em nossos cotidianos. A potência da ação artivista virou o fenômeno: em um mês, a performance chegou em todos os continentes. Mulheres de diferentes idades, ligadas ou não a movimentos feministas, replicaram a performance, mostrando que a culpa pela violência nunca é nossa e que a retórica de que a culpa é da roupa ou do lugar onde transitamos também é refutada. Por explicitar o caráter estrutural da violência contra as mulheres em suas dimensões sexista e racista, os homens violadores e a força patriarcal organizada no Estado e suas instituições, a performance ganhou visibilidade em todo o mundo.
O feminismo se espalhou, mas é preciso ter cuidado para não ser capturado pelas forças dominantes. O 8M não é sobre mulheres brancas estampando capas de revistas nacionais, posando como grandes executivas na tentativa de provar que existe alguma igualdade. Não haverá oportunidade para todas dentro de um sistema que se alimenta de crises e desigualdade, se apropriando do tempo e da força de trabalho das pessoas. Não existe igualdade possível nesse mundo de exploração e mercantilização capitalista. Por isso o 8 de Março não é sobre flores, parabéns, doces e elogios. Não é sobre um dia de folga para mulheres ou de equipe só de mulheres. Não é sobre ser empoderada sozinha e empreender para sobreviver. Nossa luta é antagonista a isto, é luta contra-hegemônica. Não existe empoderamento sem feminismo, sem luta coletiva.
É preciso lembrar que o 8 de março nasceu comunista. Todas as manifestações originais que aconteceram no século 18 tinham como objetivo dar visibilidade às péssimas condições em que se encontravam as mulheres trabalhadoras, no contexto fabril. É comum relacionar o Dia Internacional de Luta das Mulheres ao incêndio ocorrido em Nova York no dia 25 de março de 1911 na Triangle Shirtwaist Company, quando 146 trabalhadores morreram, sendo 125 mulheres e 21 homens. Entretanto, a data do 8 de Março vem de uma manifestação ocorrida na Alemanha. Em 1910, a comunista Clara Zetkin propôs a criação de uma jornada anual de manifestações que visibilizasse as condições de trabalho das mulheres nas fábricas. A proposta de Zetkin era de uma jornada anual de manifestações das mulheres pela igualdade de direitos. O primeiro dia oficial da mulher seria celebrado, então, em 19 de março de 1911. Em 1917, houve um marco ainda mais forte daquele que viria a ser o primeiro 8 de Março. Naquele dia, um grupo de operárias saiu às ruas para se manifestar contra a fome e a Primeira Guerra Mundial, movimento que seria o pontapé inicial da Revolução Russa. O protesto aconteceu em 23 de fevereiro pelo antigo calendário russo – 8 de março no calendário gregoriano, que os soviéticos adotaram em 1918 e é utilizado pela maioria dos países do mundo hoje.
Na Rússia, em 1917, milhares de mulheres foram às ruas contra a fome e a guerra; a greve delas foi o pontapé inicial para a revolução e deu origem ao Dia Internacional da Mulher
Entretanto, para falar do sentido do 8 de março como marco de resistência feminina é imprescindível negritar que a luta das mulheres é muito mais antiga que essas resistências europeias e norte-americanas. Essa história oficial sempre tentou apagar a enorme resistência protagonizada pelo povo negro, especialmente as mulheres negras. No Brasil e na América Latina, as mulheres negras resistem desde o século XVI quando foram traficadas de África para este país. Dandara, Aqualtune e Luiza Mahin são mulheres negras símbolos, tanto no campo quanto na cidade, da luta contra a escravidão no Brasil. Elas estiveram em constante rebeldia para libertar a si e a seu povo da escravidão e violência. Estas e outras mulheres negras deram um sentido especial ao significado de revolta das mulheres no Brasil. Eram mulheres que iam às ruas vender quitutes e lavar roupas, conseguiam dinheiro para alforriar companheiros e se envolviam em rebeliões e aquilobamentos.
Há algum tempo, o Dia Internacional de LUTA das mulheres tem crescido em mobilização. A greve de mulheres na Espanha reuniu mais de meio milhão de mulheres nas ruas no ano passado. Na América Latina o movimento de protestos de mulheres também atinge a casa das centenas de milhares. No Brasil as manifestações têm crescido em número de mulheres nas ruas e em força. Lembramos todas as marchas, insurgências, ocupações e ações diretas. Recordamos a ação do Movimento de Mulheres Camponesas contra a empresa Aracruz Celulose. Na madrugada do dia 8 de março de 2006, 1.800 mulheres da Via Campesina ocuparam o viveiro florestal da Aracruz Celulose, em Barra do Ribeiro, município que fica a cerca de duas horas de Porto Alegre. Na ação, elas destruíram estufas e bandejas de mudas de eucalipto para ampliar o debate sobre a monocultura de eucalipto que vem destruindo florestas selvagens, territórios quilombolas e indígenas. Em 2018, as mulheres rurais realizaram a Jornada Nacional de Luta das Mulheres Sem Terra, organizada pela Via Campesina, Movimento Sem Terra, Levante Popular da Juventude e Marcha Mundial das Mulheres. Foram diversas ações diretas contra grandes corporações e latifundiários. Elas ocuparam o parque gráfico do jornal O Globo, no Rio de Janeiro, invadiram uma fábrica de roupas da Riachuelo no Rio Grande do Norte e ocuparam também a Superintendência Regional do Incra (Instituto de Reforma Agrária) em Brasília. Em Dourado, no Mato Grosso do Sul, as camponesas fecharam o trânsito e puseram fogo na entrada da empresa de fertilizantes químicos Heringer. Em Porto Velho, Roraima, os acessos aos portos e postos de gasolina foram bloqueados. Na Amazônia, a multinacional Hydro, com sede em Belém, foi invadida, pichada e denunciada como a maior responsável do crime ambiental no município de Barcarena. As mulheres têm feito do 8 de março um momento de desobediência civil, inspirador e mobilizador, porque o 8M é sobre um outro mundo que tornaremos possível. Resgatamos a memória de todas as Marielles que brotam como semente no seio da política para desespero dos bilionários machistas racistas, cujo projeto de poder é aumentar as desigualdades para ampliar suas riquezas, mesmo que isso signifique o genocídio da população negra, feminicídios, encarceramento em massa, pobreza, fome, epidemias e até mesmo a destruição do planeta.
O 8 de março é o símbolo da nossa luta conjunta em defesa das nossas vidas e de nossos territórios. É o dia em que todos os feminismos se encontram na mesma rua, no mesmo grito. Ele representa um marco de potência por articular todas as forças políticas do nosso campo. O 8M é como uma festa que reanima nossa resistência, é quando chegam novas companheiras, novos coletivos se formam, a história das que vieram antes é lembrada e podemos sonhar juntas um futuro feminista. A cada ano nos encontramos nas ruas e nas rodas, em luta, em festa, em música, em arte e em denúncias. Nossos corpos ocupam as ruas, ambos como território político, requerendo que a democracia aconteça nas nossas vidas, nos subúrbios e favelas, becos e vielas, nos territórios indígenas e quilombolas, nos interiores, nas cidades pouco habitadas e nas megalópoles. Neste ano de 2020, ocuparemos politicamente não apenas o poder legislativo municipal, mas também as praças e as nossas casas, os ônibus e as paradas, ruas, calçadas, postos de trabalhos, as quebradas, as fábricas, as feiras, as filas, as florestas, águas, aeroportos, rodoviárias, os lugares de prazer e os espaços de lazer tanto negados a nós mulheres.
Sabemos que todas essas lutas que fazemos são nas brechas deixadas pelo patriarcado racista e capitalista. Isso porque, trancafiadas em casa, as mulheres nunca tiveram liberdade para protestar. O patriarcado até aqui nos ofereceu concessões, mas, como nos ensinou Simone de Beauvoir, basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos de nós mulheres sejam questionados. Se somos desobedientes e insurgentes é porque sofremos na pele a violência política que se direciona a nós quando ocupamos os espaços públicos. Essa violência tem como objetivo nos excluir da arena política, da vida pública, dos espaços de poder. Enquanto as feministas forem demonizadas, apontadas como mulheres furiosas, raivosas, peludas e o feminismo difamado, atacado como um “machismo de saia”, “uma doença infantil do lulismo” ou uma ideologia de gênero, o espaço reservado a nós mulheres, no capitalismo, continuará sendo o da submissão. As igrejas defendem isso abertamente através de seus astros do mundo gospel dizendo que a mulher não deve esquecer o seu papel em casa, recusando igualdade entre homens e mulheres, levantando que a presença do feminismo nas igrejas é armadilha para desviar as mulheres das igrejas e de suas missões para com o lar.
Desde as violências perpetradas contra a primeira presidenta eleita democraticamente no Brasil, Dilma Rousseff, usadas para destituí-la do poder executivo do país, prevalece na sociedade brasileira um clima de ataque ao movimento feminista e a nós feministas. Michel Temer foi o autor da polêmica “Bonita, recatada e do lar”, muito bem contestada por feministas em todo o Brasil. A equipe de mídia social que faz terrorismo digital em nome do Palácio do Planalto, muito bem denunciada na CPMI das fake news ainda em curso no Congresso Nacional, também definiu como seu inimigo social o símbolo da vênus, utilizado para representar o feminismo. Os ataques sexistas do presidente, seus filhos e aliados às mulheres, como Patrícia Campos Mello e Joice Hasselmann, são exemplos de autorização e encorajamento para a prática de violência contra mulheres. Prova disto foi o ataque por simpatizantes do presidente Jair Bolsonaro feito à então a deputada estadual e pré-candidata à presidência Manuela D’Ávila (PCdoB-RS), enquanto concedia entrevista, no acampamento em Curitiba, cidade onde o ex-presidente Lula estava detido.
Essa violência patriarcal é expressa numa estrutura que tem o racismo como um sustentáculo, como se pode ver nos índices de feminicídio, onde 63% das vítimas são mulheres negras. Uma violência que furta direitos de ir e vir, de existir em plenitude e com cidadania, em cidades que garantam nosso bem viver. Estar em situação de pobreza e fome, sem direitos à moradia, acesso à água de forma gratuita, a uma alimentação sem veneno, à educação pública e de qualidade, a um sistema de saúde público e universal e a condições de trabalho dignas, e ainda ter imposta a dupla jornada de trabalho e o medo constante de andar nas ruas, são também expressões da violência como estrutura do capitalismo-racista-patriarcal. Ela tolhe direitos e a democracia.
A tentativa de silenciamento é grave. A violência “simbólica” está associada a violências institucionais que visam reprimir e massacrar os setores que se opõem ao conservadorismo reacionário e às medidas neoliberais que estão sendo implementadas à revelia da população. Ela se reflete na criminalização dos movimentos sociais, em ataques policiais a qualquer tipo de manifestação de rua contrária ao governo, em perseguição às lideranças de esquerda, assassinatos de lideranças indígenas, militarização dos territórios, instauração de processos criminais contra lideranças sociais em processos que dão maior credibilidade a convicções de juízes do que fatos e provas concretas. Assim que eleito, Bolsonaro apresentou um plano para acabar com todo e qualquer ativismo no Brasil. Desde então a política de criminalização tem seguido o caminho para caracterizar como “terroristas” de movimentos que lutam pelo respeito à Constituição Federal.
O objetivo da direita brasileira é criar um clima de ódio contra defensores/as de direitos humanos e contra a própria concepção de direitos humanos: visa destruir a subjetividade que crescia na população mais pobre e desfavorecida de que eles também são sujeitos com direito a ter direitos, visa destruir a concepção de um Estado Democrático de Direitos. É um governo que se pauta pela ode ao racismo, ao sexismo e à desigualdade e está promovendo um completo desmonte da solidariedade social coletiva para desobrigar a burguesia a arcar com os custos da necessária transformação social. A bem da verdade, este governo está usurpando o Estado brasileiro e colocando todas as suas políticas a serviço do rentismo nacional e internacional.
Se as crises do capitalismo nos ensinaram algo ao longo de todos esses séculos submetidos a esse sistema, foi que essas crises são seletivas: elas fazem os mais pobres ficarem miseráveis para que a burguesia acumule mais lucros. No Brasil, por exemplo, segundo IBGE, a taxa média nacional de desocupação em 2019 caiu de 12,3% em 2018 para 11,9% no ano passado, mas isso aconteceu porque a taxa de informalidade atingiu seu maior nível desde 2016 no Brasil (41,1%) e também em 20 estados. Ou seja, os empregos gerados são mais precários e dependem do empreendedorismo individual, que está ou submetido aos mecanismos tecnológicos das grandes plataformas do tipo uber e Ifood ou se refletindo nas vendas de sinais, calçadas e comércio. Enquanto a população está se virando como pode para sobreviver, os bancos acumulam lucros recordes. O lucro acumulado de Bradesco, Itaú Unibanco, Santander e Banco do Brasil neste ano é de R$ 59,7 bilhões, o maior para o período pelo menos desde 2006. Os quatro bancos são os maiores do país com ações negociadas na Bolsa. É assim que os donos dos meios de produção fazem para disfarçar seus lucros: financeirização. Assim trocou-se a figura do patrão pela do acionista.
Depois da tragédia de Brumadinho, em janeiro de 2019, que culminou em um cenário comprometedor para a empresa Vale S.A., a mineradora multinacional perdeu espaço entre os analistas, mas nas últimas 52 semanas suas ações na Bolsa de Valores ganharam valorização de 18,25%. Enquanto os acionistas da Vale continuam lucrando e pressionando por mais produtividade, a Justiça de Minas Gerais acatou denúncia do Ministério Público do Estado contra 11 executivos da empresa, incluindo o ex-presidente da mineradora e cinco funcionários da empresa de consultoria Tüv Süd por homicídio doloso duplamente qualificado e crimes ambientais causados pelo rompimento da Barragem em Brumadinho, na Grande BH.

Nunca acumularam tanto. Segundo relatório de 2020 da Oxfam, os 2.153 bilionários do mundo têm mais riqueza do que 4,6 bilhões de pessoas – ou cerca de 60% da população mundial. Os governos em geral vêm cobrando poucos impostos dos mais ricos e de grandes corporações. E o relatório enfoca em um tema invisível, mas que é um dos combustíveis que alimentam essa engrenagem: as economias do mundo são sexistas, valorizam mais a riqueza de um grupo de poucos privilegiados, na sua maioria homens, do que bilhões de horas dedicadas ao trabalho mais essencial – o do cuidado não remunerado e mal pago, prestado principalmente por mulheres e meninas em todo o mundo. A pesada e desigual responsabilidade pelo trabalho de cuidado perpetua as desigualdades de gênero e econômica. Ainda assim, os governos estão sub-financiando serviços públicos e infraestruturas essenciais que deveriam reduzir o peso do trabalho de cuidado sobre mulheres e meninas. Investir em saneamento básico, eletricidade, creches e saúde, por exemplo, poderia dar às mulheres e meninas oportunidades para melhorarem a qualidade de suas vidas.
O racismo, sem dúvida, é outro pilar de sustentação do capitalismo neoliberal! Definimos como NECROPOLÍTICA essa nova forma de exploração do trabalho de pessoas negras associado ao encarceramento em massa e ao genocídio da população negra. Em 2018, estava na população preta e parda do país a maioria dos trabalhadores desocupados (64,2%) ou subutilizados (66,1%),segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Desde 2016, a taxa de homicídios de negros tem sido duas vezes e meia superior à de não negros. Em 2017, 75,5% das vítimas de homicídios foram indivíduos negros. Os dados são do Atlas da Violência (IPEA e FBSP). O racismo brasileiro chegou a patamares tão elevados que uma pesquisa recente do departamento de antropologia da Unicamp levantou a existência de 324 células neonazistas no Brasil. Os grupos se dividem em até 17 movimentos, entre hitleristas, supremacistas/separatistas, de negação do Holocausto ou até mesmo três seções locais da Ku Klux Klan.
Se estamos sobrevivendo a estes tempos, só as drogas podem dizer como. A depressão, a epidemia mais alarmante do nosso tempo, é a consequência das condições de vida das pessoas neste contexto político: estamos sucumbindo. Nossos alimentos estão envenenados, os remédios oferecidos pela indústria farmacêutica apenas combatem sintomas. Enquanto isso a política de proibição de algumas outras drogas é usada como desculpa para controlar e exterminar ainda mais corpos negros. E se tem algo que também foi transformado em droga foi “Jesus”. A destruição das culturas originárias do Brasil e afro-brasileiras serviu à manipulação da fé da população pobre, negra e periférica para enriquecimento ilícito de pastores neopentecostais que simulam religião para fazer negócios. Como o capitalismo sempre teve uma crença para valorizar seu espírito, os neopentecostais, em consonância com o neoliberalismo, produziram a teologia da prosperidade, uma doutrina religiosa cristã que defende que a bênção financeira é o desejo de Deus para os cristãos, e que a fé, o discurso positivo e as doações para os ministérios cristãos irão sempre aumentar a riqueza material do fiel.
Esse é o retrato da crise civilizatória atual. Controla-se os corpos das mulheres, de pessoas afeminadas e os corpos negros como parte do sistema de poder, mas esconde-se com hipocrisia as contradições e os objetivos desta manipulação. A direita defende a vida de fetos, mas tanto criminaliza e prende as mães negras que conseguem sobreviver aos abortos clandestinos, quanto elimina jovens negros nas periferias. Para a burguesia há um único tipo de família digna de direitos: a família branca, de origem europeia, dona dos meios de produção. Para eles, qualquer outra raça é descartável. O feminismo tem uma importância crucial quando faz a contestação da família patriarcal burguesa, porque ela é o centro ao redor do qual gira também o capital.
Nós somos sujeitos da nossa própria emancipação, mas se ela não for coletiva, não haverá transformação real, porque não estamos confrontando pessoas, mas um sistema ineficaz, predador e falido que oferece às mulheres, população negra, indígena, LGBTQI+ e à classe trabalhadora majoritariamente precarizada apenas migalhas que sustentam a sobrevivência de alguns/as poucos/as de nós – o mínimo de nós. O feminismo é mais que uma organização de classe contra o capitalismo. Através da demanda de reorganização profunda e complexa das relações públicas e privadas, de trabalho e de afeto, relações pessoais e coletivas, o feminismo propõe um caminhar consciente para um novo sistema de relações sem dominação, sem exploração, não somente para nós mulheres, mas para todas as pessoas. O feminismo, como bem afirma bell hooks, “é para todas as pessoas”, e o 8 de março, não é o início, muito menos o único, mas é um momento forte na trilha que percorremos todas nós, para somar na tarefa inescapável de nossa emancipação coletiva.
Fonte: Outra Palavras

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Arma de fogo em casa é ameaça para a vida da mulher

Metade das mulheres mortas em 2016 foram vítimas de armas de fogo

Em 2016, 2.339 mulheres foram mortas por arma de fogo no Brasil, o que significa, em média, metade dos homicídios de pessoas do sexo feminino naquele ano, segundo os últimos dados disponíveis pelo sistema Datasus, do Ministério da Saúde, em levantamento feito pelo Instituto Sou da Paz. Em 11 estados, a morte de mulheres por armas de fogo chegou a ultrapassar a média nacional.
De todas as mulheres mortas por arma de fogo, 560 foram assassinadas dentro de casa. Para especialistas ouvidos pelo GLOBO, isso é um indicativo de que o decreto que flexibiliza a posse de armas no Brasil pode ser um fator de risco para as mulheres.
— A mulher não vai se sentir mais segura com arma em casa. A arma é elemento de risco, não de segurança. Provavelmente, elas passarão a ser mais ameaçadas em ambientes de violência doméstica — afirma Stephanie Mori, do Instituto Sou Paz.
Stephanie afirma que, no Brasil, muitos homicídios são decorrentes de conflitos banais e a arma cria situação de perigo não apenas para envolvidos em brigas, mas para pessoas que estão próximas. Para a especialista, o machismo é um desafio histórico no Brasil e muitas mulheres ainda têm medo de denunciar quando sofrem agressão de seus parceiros.

Os números mostram o seguinte ranking, considerando a porcentagem de mortes femininas envolvendo armas entre o total de homicídios de mulheres por estado: Rio Grande do Norte (75.8%), Alagoas (71%), Sergipe (64,4%), Ceará (64,1%), Rio Grande do Sul (61,7%), Pará (60,1%), Paraíba (59,8%); Bahia (59,4%), Goiás (54,9%). Espírito Santo (53,5%) e Maranhão (52,5%).
Um estudo feito pelo Ministério Público de São Paulo entre março de 2016 e março de 2017, em 161 municípios, mostrou que 66% das mortes por agressão, seja com armas brancas (facas, canivetes, foices), armas de fogo ou com as próprias mãos ocorreram dentro da casa onde a vítima morava. As armas brancas corresponderam a 58% e as armas de fogo, 17%.
O MP mostrou ainda que 85% dos agressores foram maridos, companheiros ou ex-maridos ou ex-companheiros das vítimas. Namorados e ex-namorados corresponderam a 12% dos criminosos. Separação ou pedido de separação foram a causa de 45% das mortes. Outros 30% dos casos foram motivados por ciúme, sentimento de posse ou machismo.
Valéria Scarance, promotora do Ministério Público de São Paulo e coordenadora do Núcleo de Gênero, afirma que a arma é mais um fator de risco para as mulheres que sofrem violência doméstica.
— A presença de arma na residência é um dos elementos que levam a conceder medida protetiva para mulheres em todo o mundo. Não existir arma de fogo não faz com que o risco diminua, mas a presença de uma arma agrava os riscos de morte — explica.
Valéria lembra que arma de fogo é a mais usada na morte de mulheres jovens, com até 30 anos de idade. As armas brancas ou espancamento são as causas de morte de mulheres entre 30 e 59 anos. No caso de idosas, o asfixiamento é o meio mais usado pelos criminosos.
— É consenso no mundo inteiro que, com arma de fogo em casa, o risco é maior — diz ela.
Fonte: O Globo, 15.01.19

sábado, 29 de dezembro de 2018

Minha família é a humanidade

Ouça a matéria:

"Partidários da entronização da família no lugar supremo da sociedade pregam valores particulares, de modelos de família muito específicos" / Mídia NINJA

Papai e mamãe são, na escola sem partido, proprietários da consciência do filho
Família não é um conceito único e menos ainda as famílias são todas iguais. Como escreveu o romancista russo Liev Tolstói na abertura de “Anna Kariênina”: “Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira”. Para não dar vez à ignorância é bom explicar: o romance foi escrito entre 1873 e 1877. É russo, não soviético.
Em outras palavras, em matéria de família, a regra é a diversidade. Por isso defender os chamados “valores familiares” nada mais é que uma forma de autoengano. Na verdade, os partidários da entronização da família no lugar supremo da sociedade pregam valores particulares, de modelos de família muito específicos. Quase sempre conservadores, tradicionais, quando não regressivos e autoritários.
Nunca se falou tanto de família na República como agora. Num contexto em que pega bem acabar com ministérios, sobretudo aqueles ligados aos direitos, chega-se a falar de boca cheia em Ministério da Família. Sugerindo, é claro, seu comando por evangélicos convocados nas hostes neopentecostais. Ministério no sentido teológico, algo bem próprio da teocracia que ronda a vida brasileira.
Por trás dessa ideia, como vem sendo mostrado de forma intensiva pelo governo eleito, está a chamada pauta dos costumes. Mas que não ficam estacionadas apenas na faixa do comportamento, com repercussões perigosas que vão da política externa à política educacional. A divisão do governo em czares (da economia, justiça e caserna) deixou para o presidente eleito o comando do playground dos valores.
A mesma divisão parece contemplar grande parte dos eleitores. Para eles, o que interessa é a economia, a corrupção do sistema político e a segurança pública. Para isso têm Guedes, Moro e generais a mancheias. Aceitam, embora por vezes com certo constrangimento ilustrado, as bizarrices do mandatário supremo e de seus rebentos, como contrapeso do filé neoliberal, antissistema e autoritário.
Um dos grandes equívocos de um governo ainda não empossado, mas com capacidade aparentemente infinita de gerar crises, está no projeto da escola sem partido. Sem entrar em detalhes desse monstrengo anti-intelectual e na contramão da liberdade, destaca-se a declaração do presidente eleito sobre educação sexual. Com uma candura que parece psicologicamente perversa - em razão de sua forma de expressão habitualmente grosseira -, o capitão afirma que sexo é questão para “o papai e a mamãe”.
Há muitos riscos nessa postura. Em primeiro lugar a desmontagem de conquistas pedagógicas no campo da educação sexual, que contribuíram para diminuir a incidência de doenças, educar para sexualidade saudável e formar jovens mais autônomos. Em segundo lugar, pode trazer de volta preconceitos e atitudes violentas que vinham sendo reduzidas com informação, inclusão e respeito às diferenças, em um ambiente preparado para o debate. Sem falar no estímulo ao tabu, com sua já conhecida carga repressiva, decorrente da limitação do debate sobre o tema apenas ao recesso familiar.
O mesmo projeto registra outras formas de manifestação incisiva e não democrática dos pais na condução do processo escolar, dando à família a exclusividade e juízo inquestionável no tratamento de temas referentes a valores morais e religiosos. Papai e mamãe são, na letra da escola sem partido, proprietários das consciências de seus filhos. Uma espécie de neoliberalismo no campo da moral, fundado no direito à propriedade. Meu filho, minhas regras.
Já que a defesa da família entrou em cena de forma avassaladora, é importante resgatar o debate sobre a verdadeira face da família na sociedade contemporânea. Há um processo de permanente de discussão em torno do tema, seja no âmbito da psicologia, da política, do direito e da moral. Por isso a família não pode ser um tema apropriado apenas pela direita, como se fosse seu território exclusivo.
O avanço na compreensão da dinâmica familiar aponta para valores que são universais, como a busca da igualdade e o respeito à diferença, que são suporte de uma visão de mundo humanista e civilizador. O que vale para uma família deve valer para todas.
O sentido do conceito de fraternidade, evocado pela Revolução Francesa, não é apenas um complemento do par igualdade e liberdade, mais explicitamente político, mas a condição de possibilidade desses dois universos.
Não há vida pública digna sem liberdade e igualdade. Vem daí as grandes correntes ideológicas, com a direita se identificando mais com a liberdade e a igualdade sustentando principalmente os projetos da esquerda. Mas, no limite, não há vida humana sem fraternidade. Sem a liberdade há o arbítrio, sem a igualdade a injustiça, sem a fraternidade a barbárie.
Por isso a família é hoje uma estrutura tão importante e precisa ser repensada em sua dimensão política, muito além do moralismo que tumultua o cenário. Ela não retira as pessoas do mundo para o egoísmo de projetos pessoais, das convicções morais inquestionáveis e dos muros reais e imaginários que separam as pessoas em castas. É preciso conceber a família como algo que liga as pessoas ao mundo, e não o contrário. 
A defesa da família com viés conservador perde o que ela tem de melhor: a capacidade de ver o outro como irmão.
Fonte: Brasil de Fato - Edição Minas Gerais
* João Paulo Cunha é  jornalista, colunista do BrasildeFato-MG e Diretor Cultural do BDMG. Após 18 anos como editor de Cultura do jornal Estado de Minas, pediu demissão quando foi impedido de escrever sobre política na coluna que assinava semanalmente.

sábado, 12 de maio de 2018

Dias das Mães: dia de reflexão sobre a escravidão da mulher

O Dia das Mães e as feridas abertas da maternidade

Imagem de perfil do Colunista
Mães fazem mamaço na Estação do Metrô de Samambaia para superar o preconceito contra amamentar em público. / Elza Fiuza/Agência Brasil
O melhor presente que vocês podem dar a elas é refletir sobre a paternidade
Recentemente uma amiga me mostrou uma entrevista que foi realizada com crianças espanholas de 7 anos sobre o que elas pensam sobre as suas mães. As respostas não são nada surpreendentes. Perguntas do tipo “como Deus fez as mães?” tiveram respostas diretas: “com mágica, superpoderes e misturou tudo”. 
Outra resposta que me chamou atenção foi a dada para a seguinte questão: “qual a diferença entre as mamães e os papais? As respostas foram: "as mamães trabalham no trabalho e em casa, os papais só vão aos trabalhos". E, por fim, a pergunta "O que suas mães fazem no tempo livre delas" teve uma resposta certeira: "mães não tem tempo livre".
Sempre que leio esse tipo de coisa me dá um incômodo. Essas respostas estão em consonância com todo nosso imaginário social e coletivo sobre o que é ser “mãe” e quais as suas características. 
As propagandas de televisão nessa época do Dia das Mães refletem bem essa imagem da mulher mãe. Aquela mulher abnegada, por vezes descabelada dando de mamar pro bebê enquanto esquenta a sua comida, entre tantos outros exemplos.

O esforço e superação demonstrados são bonitos, mas também tristes. A sociedade machista e patriarcal que nós vivemos conseguiu transformar em elogio – e positivar – uma coisa que é um problema!

Se tornou um elogio atualmente para as mulheres – especialmente as mães – expressões como “você é uma guerreira! Trabalha fora e ainda dá um duro no trabalho de casa”.  
Em síntese, somos elogiadas – basicamente – menos pelo o que somos e mais pelo que os homens costumam não ser quando são pais. 
Não, não é bonito nos desdobrar em milhões para dar conta do cuidado dos filhos, da casa e do trabalho extradoméstico. É triste e é injusto!
Essa percepção da mulher/mãe guerreira e a invisibilização do papel dos homens na paternidade vai gerando uma pressão de que precisamos nos desdobrar muito mais para corresponder a essa expectativa social do que é ser uma mulher e/ou uma mãe “forte”. Jamais abordamos as dificuldades de ser mães, nossos cansaços a dureza da maternidade, até porque isso seria um absurdo, afinal, nascemos para ser mães e só a maternidade nos completa. 
A não ser que alguém me comprove que existe “instinto materno”, até onde eu sei, essa idéia de que as mães são mais apegadas aos filhos não é natural, é construído socialmente e serve ao modelo de divisão sexual do trabalho que engendra nossas relações de gênero e também o capitalismo.
Nesse Dia das Mães o melhor presente que vocês podem dar a elas é refletir sobre que papel os homens têm desempenhado na paternidade, e também pensar que os filhos e a casa são atribuições dos dois e devem ser realizados com equidade! 

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Araçuaí: Filho reencontra pais 53 anos depois


Busca durou cerca de 20 anos

Foto: divulgaçãoFilho reencontra pais 53 anos depois em Araçuai
O comerciante ladeado pelos pais, Wilson e Elcina Chaves
O comerciante Claúdio Soares Costa, de 63 anos, já não tinha esperança de rever a família. Depois de 53  anos, ele reencontrou em Araçuai, no Vale do Jequitinhonha (MG)os pais Wilson Rodrigues Chaves, 88 anos e a mãe, Maria Elcina Soares da Costa, de 83, além dos outros 6 irmãos que não conhecia. 

O distanciamento foi uma consequência da separação do comerciante, que foi morar com o avô materno, na cidade do Lufa, quando ainda era criança. Depois, mudou-se para Ataléia, no Vale do Mucuri e aos 17 anos, foi morar em Londrina, no Paraná, quando se distanciou por completo da família.

 Há 20 anos, uma filha do comerciante, começou a procurar pelos avós e tios,  ao ver a tristeza do pai em não ter mais contato com a família. “Eu via o semblante no meu pai e a desesperança dele de encontrar meus avós vivos. Prometi que daria esse presente a ele”, disse Claudinéia Soares Costa, de 29

Nas primeiras tentativas,  Claudinéia não teve sucesso.” Liguei para diversas casas comerciais de Governador Valadares, Teófilo Otoni e Lufa, mas nem imaginava que pudesse ter familiares em Araçuai” destacou Claudinéia.

A procura só ganhou força  quando ela conheceu uma funcionária de um cartório em Varginha, no sul de Minas, onde Claudinéia trabalha em uma padaria.

“Ela me orientou a ligar para um cartório em Novo Cruzeiro, onde meu pai havia sido registrado pela segunda vez, após o avô dele rasgar a certidão original de nascimento, mas não consegui nenhuma informação. Foi então que meu pai informou que havia sido registrado primeiro em Araçuai mas no cartório da cidade, não foi possível localizar familiares, já que ele tinha apenas o sobrenome do meu bisavô materno. Então eu falei o nome dos meus avós paternos e um funcionário informou que sabia quem eram eles. Isso foi no dia 18 de dezembro de 2017.O funcionário conseguiu o telefone de uma irmã do meu pai. Entrei em contato com ela. Foi muito emocionante descobrir que meus avós paternos e tios estavam vivos”, relembrou. 

 “Quando falei para  meu pai que eu tinha encontrado a família dele, ele quase não acreditou”, lembrou Claudinéia. 

 O reencontro  foi marcado para o inicio desse ano e tudo aconteceu em clima de emoção, alegria, festa e comemoração realizada na casa dos pais de Cláudio, dia 13 de janeiro, em Araçuai.  

Reencontro reuniu a família
Reencontro reuniu a família

  
Uma faixa foi estendida no muro do quintal da casa, para saudar a chegada do filho. O momento reuniu parte da família em uma confraternização.

“Eu nem esperava mais reencontrar meus filho. Foi o maior presente do mundo que já ganhei”, desabafou Wilson Chaves.

 “Eu sentia falta dele nas datas comemorativas, mas nunca perdi a esperança de reencontrá-lo”, ressaltou a mãe Maria Elcina. 
  
 O comerciante permanece ao lado dos pais, desde que chegou. A filha dele, o genro e uma neta, retornaram para Varginha, “ Vou trazer a família toda, para conhecer os 27 netos, os 31 bisnetos  dos meus pais, além dos meus sobrinhos”, garante o comerciante; proprietário de um bar  em Córrego do Ouro, distrito de Varginha, no sul de Minas. 

Sérgio Vasconcelos
Repórter

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Pai é preso por sequestro de filho de 11 anos em Bocaiuva

Segundo militares, a prisão ocorreu depois de perseguição policial na rodovia MG-451.

Pai tem guarda compartilhada, mas não queria devolver filho. Mãe da criança mora em Turmalina, no Alto Jequitinhonha. 

Foto: arquivo Pai é preso por sequestro de filho de 11 anos em Bocaiuva
Ainda segundo informações da PM, houve perseguição policial pelas ruas e rodovia MG 451
Um homem de 37 anos foi preso em Bocaiuva, no Vale do Jequitinhonha/norte de Minas, na tarde de  sexta-feira (22.09), suspeito de sequestrar o filho de 11 anos. Segundo a Polícia Militar da cidade, militares desconfiaram do homem depois que ele passou de carro em alta velocidade, fazendo movimentos de zig-zag,  em frente ao batalhão e quase bateu nas viaturas que estavam estacionadas na rua, no centro de Bocaiuva.
Ainda segundo informações da PM, houve perseguição policial na rodovia MG-451 e só depois que os militares atiraram nos pneus do veículo é que o motorista parou o carro, na altura do km 2. "Atiramos nos pneus, ele tentou andar alguns metros com os pneus furados, mas depois parou, mesmo assim, se recusou a descer do carro. Não estávamos preparados para arrombar a porta do veículo e o GATE foi chamado", disse o Sargento José Coimbra da 210 cia de Bocaiuva. 
Sargento Coimbra ainda informou  que só depois que o GATE arrombou a porta do carro a criança de 11 anos conseguiu sair. O pai dele, ainda resistiu e não queria sair do carro.
No automóvel, foram encontradas malas com roupas, alimentos e um facão. Ainda segundo o sargento, o menino disse à polícia que o pai ia leva-lo para Montes Claros. O homem não quis prestar esclarecimentos.
De acordo com informações dos militares, o homem tem a guarda compartilhada do filho e se recusou a devolver o menino à mãe na última quarta-feira (20). A mãe mora na cidade de Turmalina, região do Vale do Alto Jequitinhonha. O menino foi levado para a casa da mãe. Já o pai, foi preso e encaminhado para a Delegacia da Polícia Civil de Bocaiuva e pode responder por sequestro e cárcere privado. 

sábado, 24 de junho de 2017

Irmãs se reencontram em Minas Gerais após 46 anos separadas


A Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) promoveu, nessa quinta-feira (22/06/2017), o encontro de quatro irmãs que ficaram separadas por 46 anos. Maria de Lourdes Fernandes (68) morava com os pais e os irmãos em Mantena/MG, e, aos 22 anos deixou sua casa, na companhia do namorado, com quem se casou e teve três filhas. Após isto, não teve mais contato com seus familiares, e, nessa jornada, mudaram várias vezes de estado e até de país. Viveram em São Paulo, no Paraná e no Paraguai. Atualmente, moram no Mato Grosso do Sul, no município de Mundo Novo.
O restante da família continuou residindo em Minas Gerais e mantém contato constante apesar de parte da família ter mudado para Belo Horizonte. A irmã caçula, Leir Rita Lopes, de 60 anos, nunca se esqueceu de Maria de Lourdes. “Todo aniversário eu lembrava, em um ano fiz até um bolo.”, afirmou.
Em maio deste ano, o porteiro Oziel Lopes, filho de Leir Lopes, soube do serviço de reencontro de família, prestado pela PCMG, e estimulou a mãe para que tentasse rever sua irmã. Ela aceitou a sugestão e preencheu os papéis para o reencontro. Em menos de duas semanas, a Polícia Civil localizou Maria de Lourdes no Mato Grosso do Sul.
Irmãs se reencontraram em BH (Foto: Divulgação/PCMG).

O reencontro ocorreu na Divisão de Referência da Pessoa Desaparecida, com a presença das quatro irmãs. Francisca Rita Fernandes, 64, Deuza Rita Fernandes, 62, Lenir Lopes e Maria de Lourdes foram tomadas pela emoção. Para complementar e dar continuidade ao reencontro, Leir organizou um almoço especial em sua casa para receber a irmã. Para aumentar a alegria do esperado reencontro, as irmãs trouxeram seus respectivos filhos, seis ao todo, ampliando o encontro também para os primos, que não se conheciam.

Com a aproximação do aniversário da Maria de Lourdes, em 4 de julho, Leir já está animada e planejando a comemoração. “Já vou preparar um bolo para ela. Dessa vez vamos passar juntas e colocar o papo em dia.”, comemora. Também emocionada, Maria de Lourdes contou às irmãs sua trajetória após a saída de casa e agradeceu pelo reencontro. “Só clamava a Deus para que meus irmãos estivessem vivos e agora estamos aqui”, desabafou.
Segundo a delegada Maria Alice Faria, chefe da Divisão de Referência da Pessoa Desaparecida (DRPD), essa não é a atribuição primária da Divisão. “Fazemos esse trabalho com fim de auxiliar a sociedade nesses reencontros familiares. Assim que tivemos informações do paradeiro da Maria de Lourdes fizemos contato com o serviço social de Mundo Novo e conseguimos trazê-la do Mato Grosso do Sul”, relatou.
De acordo com a delegada, estas situações diferem das relativas aos desaparecimentos, e, ao mesmo tempo não esconde a emoção por ter auxiliado o reencontro. “Estas irmãs ficaram anos sem terem contato com a Maria de Lourdes por mudanças nos caminhos de suas vidas. Elas ficaram anos sem terem qualquer tipo de contato e seus filhos nem se conheciam. Agora estão todos aqui. É uma satisfação e uma alegria muito grande prestarmos esse serviço.”, disse emocionada.
Irmãs se reencontraram em BH (Foto: Divulgação/PCMG)


Fonte: Policia Civil de Minas Gerais.