sábado, 29 de dezembro de 2018

Ano novo, luta nova


"É importante recuperar toda a tradição de resistência das esquerdas e dos movimentos populares" / Foto: Ravena Rosa/Agência Brasil

Forças sociais precisam ganhar corpo na unidade das lutas
Em tempo de balanço e mensagens necessárias de esperança, nada melhor que renovar os votos de resistência. É uma forma de não capitular diante do que vem por aí. O fim do ano carrega com ele a certeza que a democracia precisará de muita disposição para a luta. O primeiro dia do ano que se avizinha, com a já anunciada cerimônia de posse do presidente eleito marcada por militarismo e desconfiança será o marco zero de uma nova etapa política para os defensores da democracia. Que já chega embalada em vexame duplo: a barbeiragem diplomática em desconvidar nações amigas da região e a esnobada do presidente Trump em participar da festa montada por acólitos mirins.
Antes mesmo da parada militar que vai inaugurar o novo momento, o governo Bolsonaro já deixou claro como se moverá: extinção de direitos, escola sem crítica, política externa isolacionista e tosca, defesa dos interesses privatistas e financistas, fundamentalismo moral, militarização da sociedade e incentivo à violência. A sanha prossegue nas áreas de saúde com a desmontagem do SUS, com a ideologização da justiça persecutória acima da Constituição, com a promessa de criminalização dos movimentos populares, com a entrega da questão ambiental e indígena aos interesses das mineradoras e agronegócio.
A lista completa de barbaridades pode ser conferida orgulhosamente nos veículos da chamada mídia profissional, com destaque, entre outros, para a reforma da previdência, para a retirada dos direitos trabalhistas que escaparam da primeira onda de terra arrasada promovida por Temer, para a desmontagem da comunicação pública e para o obscurantismo cultural e fanatismo fundamentalista. Não se trata de um programa de governo, mas de uma estratégia determinada de extermínio das liberdades.
E, exatamente pelo calibre da afronta à democracia e aos valores da civilização, se torna urgente preparar a reação popular, consequente e responsável com os destinos do país. O começo do novo ano e do novo governo precisa ser acompanhado de uma transformação no padrão crítico exercido até aqui. O jogo começa pra valer. E a reação não pode se fazer esperar apenas nas arenas consagradas da negociação política no Congresso, na disputa da opinião pública pelos canais convencionais, ou no campo do conflito clássico capital e trabalho.
Há um patamar novo para um renovado conflito de classes. A organização da resistência precisa ampliar o domínio tradicional, com uma estratégia que congregue várias frentes e focos de disputa. Afinal, a conquista do Executivo não se deu separada dos outros poderes da República. Bolsonaro não seria nada sem a presença orgânica de políticos eleitos, partidos fisiológicos, magistrados sem respeito às leis, policiais obtusos e promotores escatológicos. Operadores do direito e da direita.
Tanto o Legislativo tem se mostrado entregue (e exercitou sua sabujice durante a campanha) como o Judiciário se prestou ao aparelhamento ideológico e populista, trocando a letra da lei pela conveniência da aprovação popular conduzida pelo moralismo punitivista. Para completar, o quarto poder, a mídia comercial, cimentou o projeto antipopular com sua já conhecida habilidade de manipulação e defesa de interesses próprios, sob a capa de uma falsa racionalidade e interesse público.
A reação democrática e popular impõe, para os primeiros dias de 2019, a ocupação de todos os espaços de contestação. Na oposição sistemática no Congresso, com a conjugação das forças progressistas. Na crítica consistente ao Judiciário partidarizado, congregando a ação por parte de juristas democráticos e suas representações profissionais e acadêmicas. Na construção de novos canais de expressão de todas as vozes sociais, num misto de crítica da mídia e construção de uma mídia crítica.
Mas não basta. É importante recuperar toda a tradição de resistência das esquerdas e dos movimentos populares. O enfrentamento deverá se dar em todas as vertentes: na luta sindical, nas organizações partidárias, nas ONGs, nos grupos voltados para questões específicas, na defesa das minorias, nas políticas setoriais, no contexto acadêmico, na criação cultural libertária e na imprensa. A grande convocação contra o neofascismo é a pluralidade de ações.
Desta forma, tem tanta importância o fortalecimento das frentes amplas como a mobilização em torno de temas como escola sem partido, luta antimanicomial, rádios livres, restrição do uso de venenos na agricultura, demarcação de terras indígenas, mobilidade e moradia, entre dezenas de outras. A refundação da esquerda não passa pela seletividade de táticas, mas pela necessidade urgente de ocupar todas as trincheiras ao mesmo tempo. O espectro das forças sociais precisa ganhar corpo na unidade das lutas. É preciso cuidar do quintal e do planeta.
A capacidade de fazer conviver as grandes bandeiras estruturais com temas culturais e identitários desenha a pauta ambiciosa para a política em todas as dimensões. Esse propósito se torna ainda mais pungente com a interseção de formas de opressão, como as registradas contra as mulheres, negros e pessoas LGBTI, deve guiar os defensores da democracia e dos valores populares. O que já foi fragilidade, em sua dispersão, hoje é a única possibilidade de recuperar a força política.
Entre os desafios estão a recuperação das tarefas de formação e o respeito à dinâmica dos movimentos em sua autonomia. O abandono do campo de preparação política e intelectual, em nome da conquista de espaços de poder institucional, cobra agora sua conta. O retorno às bases não é um movimento de recuo, mas de avanço real. Não se conquistam corações e mentes com mensagens verticais, mas com conhecimento e confiança. A emancipação é fruto do saber e da solidariedade.
A esquerda não deveria ter abandonado sua vocação intelectual, sua disposição para o conhecimento crítico da realidade, sua capacidade de instaurar a práxis como união dialética entre teoria e prática. O consumo, já se sabe, não faz nada mais que consumidores insatisfeitos e egoístas. As palavras de ordem vazias abrem espaço para outras palavras de ordem, igualmente ocas de sentido.
Não se trata de começar tudo de novo, mas de começar o novo. Ano novo, luta nova.
Fonte: Publicado no BrasildeFato - Edição Minas Gerais
João Paulo Cunha é  jornalista e Diretor Cultural do BDMG. Após 18 anos como editor de Cultura do jornal Estado de Minas, pediu demissão quando foi impedido de escrever sobre política na coluna que assinava semanalmente.

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