domingo, 19 de março de 2017

Artesão, um artista popular em extinção?

Dia 19 de março é o Dia Mundial do Artesão. Há muito o que comemorar devido à importância simbólica deste profissional, mas há muito o que cobrar, principalmente de políticas públicas para evitar a extinção do artesanato como produção artística ou econômica. 
Dona Isabel Pereira, de Santana do Araçuaí, em Pontos dos Volantes, é uma das artesãs mais conhecidas do Vale do Jequitinhonha.
Quem é o artesão?
É aquele cidadão que produz peças artesanais, utilizando das suas mãos e criatividade com algumas ferramentas acessórias. É quem faz da produção uma atividade de arte, de vida, de identidade cultural. Muito próximo à natureza, o artesão extrai matéria-prima com um cuidado com o meio ambiente, porque ele se sente parte da natureza, transformando-a em produtos de arte, decorativo, mas também utilitário. 
Dona Joana Pinta, de Roça Grande, em Berilo, artesã de tecelagem em algodão.
Em sua vida, boa parte da produção tem a finalidade utilitária de armazenar água, em potes, filtros e botijas. Em outros, tecem cobertores de algodão para ribuçar, cobrir. Ou criam cestos, peneiras, chapéus, bolsas, brincos ou roupas. Ou confecciona biscoitos, bolos, farinha, fubá, rapaduras, cachaças, depuram o mel, adoçando e dando prazer no dicumê das populações, principalmente no interior e nas aldeias do mundo. 
É uma atividade em extinção porque os produtos industriais invadem a vida de todas as famílias, levando conforto, mas também desconfortos com seus alimentos processados, enlatados, empacotados, contaminado o organismo humano. 
Zefinha, de Campo Alegre, em Turmalina, ceramista com peças expostas em grandes galerias nacionais.
O processo de produção capitalista leva ao encarecimento do produto artesanal e o seu consumo se torna privilégio da classe média, quando as peças produzidas, decorativas, tem esmero artístico.
A presidenta Dilma Roussef homenageou as artesãs brasileiras na figura de Dona Isabel.
O artesanato vem sofrendo transformações no tempo histórico. Dependendo das formas que o artesão usa para produzir seus produtos ele pode ser dividido em três categorias: o artesão-artista, que trabalha com criatividade; o artesão-artesão, que trabalha com diversos itens em série; e o artesão semi-industrial, que utiliza processos semi-industriais para reproduzir dezenas de peças iguais, o industrianato.
Ulisses de Itinga usou a cruz para denunciar a opressão do trabalhador rural e da mulher no Vale do Jequitinhonha.
O artesão do Vale do Jequitinhonha
O artesanato do Vale do Jequitinhonha, no nordeste de Minas, é um dos mais apreciados e valorizados no país e no mundo. A criatividade e a diversidade são suas marcas. No Vale, artesão é classificado como artista. Cria e cria muito. As técnicas de produção e criação são assimiladas de avós, pais/mães, tios/tias e aperfeiçoadas na prática do ensaio e erro, com experimentações as mais variadas com utilização de matéria-prima retirada na natureza, na observação do comportamento humano e na identidade cultural regional.
Ana do Baú de Minas Novas e algumas peças de sua criação.
Porém, a pressão do mercado consumidor da classe média das grandes cidades exige que o artesão, ou melhor, a artesã - cerca de 90% dos trabalhadores do artesanato são mulheres - reproduzam peças como bonecas, lavrador crucificado, noivas, tambores, bolsas, colchas, tapetes, panôs, potes, cestos, móveis, etc. 
A criação artística das artesãs de Diamantina tem forte inspiração religiosa.
Os artesãos do Vale são reconhecidos como artistas no país e no mundo. Destaca-se Dona Isabel, já falecida, do povoado de Santana do Araçuaí, no município de Ponto dos Volantes. Suas peças de cerâmica  estão na sede da ONU - Organização das Nações Unidas e em diversas galerias dos Estados Unidos e Europa. 
Artesãs do capim dourado do Planalto, em Diamantina.
A  artesã Maria Lira Marques, de Araçuaí, tem suas produções de cerâmica de identidade afroindígena, fazendo máscaras e fantasmas. Dona Zefa , também de Araçuaí, é eximia na criação de peças de madeira, negando-se a repetir peças. Zefinha, de Campo Alegre, em Turmalina, é ceramista de bonecas e noivas. Ulisses, de Itinga, criou um lavrador pregado em uma cruz, denunciando a penúria dos trabalhadores rurais, no Vale e no país. Esta peça é reproduzida devido ao grande apelo de consumidores e a forte imagem representada. 
Lira Marques de Araçuaí registrou a marca afroindígena da identidade regional.
As peças de artesanato em algodão de Roça Grande, em Berilo, decoram muitas casas de classe média de médias e grandes cidades com seus tapetes, colchas e panôs, de algodão cru tingidos por corantes retirados de plantas e cipós. Na tradição de mais de 300 anos, que já teve cerca de 200 artesãos produzindo, restam poucas dezenas de artesãs na comunidade e na cidade.
O artesão Antônio de Pádua, de Diamantina, resiste com a técnica secular da arte de côco e ouro.
Artesanato raro e em extinção é o ofício de côco e ouro. Ainda há oficinas em Berilo, Araçuaí, Minas Novas e Diamantina. Suas peças são produzidas com a habilidade do artesão/ourives que derrete o ouro com a técnica de produção de filigramas para a criação de broches, pingentes, anéis, flores, cruzes e alianças. Em Diamantina, tem uma das joalherias mais antigas do Brasil, a Pádua, cheia de história e preciosidades, desenvolvendo a técnica do côco e ouro, desde 1888.
Artesãs de Santana do Araçuaí, discípulas de Dona Isabel. 
Produz muito, vende pouco
Um dos gargalos do artesanato do Vale do Jequitinhonha, como em todo o Brasil e mundo, é a comercialização dos produtos.  Geralmente, o artesanato é exposto em feiras esporádicas, sempre longe dos locais de moradias dos artesãos. Isso acarreta altos custos para fazer escoar a produção e paralisação nos processos de criação.


Grande parte da da economia da produção artesanal no Brasil é apropriada pelo atravessador que compra os produtos por preços irrisórios nas tendas de criação do artesão, vendendo as peças por 5 ou até 10 vezes mais o valor de compra direta ao artesão. O artesão trabalha muito e ganha muito pouco. Alguns vivem em situação de miséria ou  com grandes dificuldades de sobrevivência. Este é um dos motivos que dificulta as novas gerações a optarem pelo artesanato como atividade profissional. 

O artesão Enivon de Berilo expõe orgulhoso o artesanato de algodão que resite há 300 anos. 

Ainda são tímidas as ações de políticas públicas de apoio à criação artesanal, à profissão do artesão e à comercialização dos seus produtos.

O artesanato é um setor de produção da economia solidária. Sua grande força consumidora está no setor de alimentos, sendo esta área mais dinamizada em cidades do interior. Os consumidores de produtos artísticos estão concentrados nas médias e grandes cidades.
A escultora Zefa de Araçuaí talha na madeira o misticismo vivido pela população do Vale. 

8,5 milhões de artesãos no Brasil e poucas políticas públicas
Aproximadamente 8,5 milhões brasileiros dedicam-se ao artesanato como atividade comercial, no Brasil, segundo dados do IBGE. Em Minas, são cerca de 300 mil profissionais.
O setor movimenta mais de R$ 50 bilhões por ano e é responsável por cerca de 3% do Produto Interno Bruto (PIB). Além dos números significativos na economia do país, há dois anos, os artesãos ganharam mais força com a aprovação, no Senado, do Projeto de Lei nº 256/15, que reconhece a profissão e oferece melhores condições para que possam empreender no país.
Zé do Balaio de Almenara expôe no Mercado Municipal a variedade de sua criação em taquara, flecha e palha.

Mesmo que essas melhorias não tenham saído do papel ainda, a iniciativa é o pontapé inicial para valorização do trabalho artesanal e ampliação da sua presença no mercado nacional e internacional. Como forma de reconhecer a importância da atividade na vida do brasileiro, neste domingo, 19 de março, é celebrado o Dia do Artesão.
Artesãs de palha de Itaobim.

Assim como no restante do Brasil, Minas Gerais vem se tornando vitrine da diversidade e da criatividade, refletidas em produtos, design e matérias-primas. Para se ter uma ideia, do total de peças vencedoras do Prêmio Top 100 de Artesanato, no ano passado, 13 são mineiras.
Mestre Bastião do Capivari é criador de tambores e sons, em Minas Novas. Aqui, acompanhado da Lira Marques de Araçuaí e uma das suas máscaras em cerâmica. 

Acreditando no potencial do artesanato mineiro, há mais de 20 anos, o Sebrae Minas tem apoiado os artesãos por meio do programa de fortalecimento da atividade, que valoriza a identidade cultural, o design, a inovação tecnológica e a gestão empresarial. 
Dona Pretinha, artesã de Barra do Ribeirão, em Berilo.
As capacitações são realizadas pelo SEBRAE para que esses empreendedores saibam comercializar seus produtos, elaborar estratégias de divulgação e para que tenham acesso a linhas de crédito, o que permite a expansão da produção. O Sebrae também atua de forma a conscientizá-los sobre sustentabilidade e uso racional dos recursos naturais.
Zé do Ponto de Chapada do Norte cria móveis aproveitando a madeira de eucalipto transformada em arte e utilitários.
A CODEMIG - Companhia de Desenvolvimento de Minas Gerais, autarquia estadual, também vem investindo no artesanato como um dos ramos da indústria criativa. Empresas como a CEMIG criam galerias ou Centro da Arte Popular como o espaço existente no Circuito Cultural na Praça da Liberdade, em Belo Horizonte.
Andréia Pereira, neta de Dona Isabel, fez Belas Artes na UFMG, aprendendo na Academia e ensinando a técnica criada pela avó. De Ponto dos Volantes, mora em Itaobim.
O IDENE - Instituto de Desenvolvimento Integrado do Norte e Nordeste Mineiro é o principal órgão publico do governo estadual que atua na promoção do artesanato.
Na contramão de valorização do artesanato, o Palácio das Artes de BH, está fechando seu espaço de exposição permanente do artesanato mineiro.  
Artesã da Roça Grande, em Berilo.

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