O poeta, cantor e compositor Aldir Blanc morre aos 73 anos.
Aldir Blanc deixa legado monumental para a MPB, calculado em cerca de 600 letras. Com o mineiro João Bosco, criou as obras-primas 'O bêbado e a equilibrista' e 'Dois pra lá, dois pra cá'
Ângela Faria 04/05/2020 08:38
"Chora nossa pátria mãe gentil", "choram Marias e Clarices no solo do Brasil" nesta
segunda-feira (04.04.20). Morreu, aos 73 anos, no Rio de Janeiro, o compositor Aldir
Blanc, vítima de uma infecção generalizada provocada pela COVID-19, doença
o compositor foi finalmente transferido para o leito de terapia intensiva do hospital Pedro
Ernesto.
Ainda não há informações sobre os ritos fúnebres, que devem ser rápidos, reservados
e sem aglomerações, como recomendam protocolos fixados pelas autoridades sanitárias
em função da pandemia de coronavírus. Aldir era a alma do subúrbio carioca
'Aldir era grande porque era muitos: o ídolo, o inacreditável letrista'
Bruno Thys - 04/05/2020 11:16
Tive muitos ídolos na vida, nenhum
do tamanho do Aldir Blanc. Aldir era grande
porque era muitos: o ídolo, o
inacreditável letrista, o Garrincha da MPB que nos fazia rir,
chorar e chorar de rir com suas crônicas
musicadas por João Bosco.
Aldir era a alma do subúrbio carioca,
o olhar único sobre a vida na Zona Norte, o Proust de Vila Isabel.
Aldir era o homem que
abandonou a medicina para se dedicar à a poesia da vida, fosse lida, cantada,
falada, escrita, conversada, versada e improvisada.
Aldir era o parceiro de bebida de
todo o bêbado, embora não bebesse há muitos anos.
Nunca fui a um botequim com
ele, mas jamais deixei de brindar os melhores
sentimentos de um fã quando chega
à segunda casa de um ídolo. Entrar num botequim, na minha
cabeça de adolescente, era sair de uma música ou crônica de Aldir
para a vida real.
O Aldir, aliás, quando nasceu
foi surpreendido por um anjo meio torto português que lhe disse “Bai Vlanc, ser Basco na
Bida”. Era um vascaíno intransigente e ranheta . Sabia tudo do time.
Aldir era de uma geração que
ganhou o nome de MAU, Movimento Artístico
Universitário, uma galera que se
reunia em torno da música na Rua Jaceguaí, na Tijuca, todos os
sábados, na casa da família Portocarrero; Jovens cheios de
sonhos e sambas muitos deles cantados por gente como Elis já naquela época.
Eram “nativos” daquele lugar, entre outros, Gonzaguinha e Ivan
Lins.
Quando o conheci pessoalmente,
levado à casa dele, na esquina da Muda com a Usina por João Máximo, para
entrevistá-lo para o Jornal do Brasil, em meados dos
anos 1980, não tive pudor em revelar minha admiração.
“Tinha o sonho de
conhecer pessoalmente duas pessoas: você e o Samarone.”
“Tu tá me sacaneando...”
Essa resposta, lembrada por ele desde
então quando nos encontrávamos ou quando umportador levava um abraço meu
pra ele e vice-versa, me faz pensar até hoje.
Nunca soube e nem teria a coragem de
perguntar, se ele se sentiu sacaneado por ser vascaíno, por ser comparado a um
jogador de clube, ídolo, mas muito distante da constelação do futebol brasileiro ou
sei lá por que outro motivo. Me pego rindo sempre que lembro dessa nossa primeira troca
de palavras, cara a cara. Já o havia entrevistado por telefone
algumas vezes, mas estar diante da figura do Aldir era um presente da
vida.
Quando o conheci já
tinha lido todos os seus livros de crônicas, cada uma mais
engraçada do que a outra, editados pela
Codecri, da turma do Pasquim, onde desfilavam personagens reais: o tio Waldir
Iapetec, o avô Aguiar, de longe a grande figura da vida de
Aldir, o pai Ceceu Rico e outras figuras absolutamente humanas, movidas pela sem-vergonhice em seu sentido mais amplo: não se ter a vergonha de
ser o que se é. Sua obra tinha muito da sem-vergonhice da vida, a emoção verdadeira,
os sentimentos mais surpreendentes que o homem pode expressar.
Sou grato por ter
Aldir como ídolo, inspiração, por ler suas histórias, algumas contadas por ele mesmo, ouvir suas músicas, por ter conhecido sua
casa, a mulher, as filhas e vivido alguns momentos com ele que guardo com todo
o cuidado no cantinho do afeto .
Uma noite inacreditável
Vivi com o meu colega e amigo Claudio
Henrique uma noite inacreditável em torno do
Aldir. Início dos anos 1980, o samba andava
em baixa e os compositores se reuniam na casa do Moacir Luz, no primeiro andar
do prédio onde morava o Aldir. Como as
gravadoras não queriam saber de
samba, eles passavam a noite mostrando uns para os outros o
que estavam compondo. Naquela noite, que virou reportagem da
revista de Domingo do JB, estavam o Betinho, Paulo Cesar Pinheiro, Fátima
Guedes, o Magro do MPB-4, Sílvio da Silva Filho, Aldir, Mary, Guinga e uma das
filhas, Dudu Falcão e
mais gente. O violão passava
de mão em mão e isso durou até de manhã. Betinho disse para mim e para o Claudio:
“Essas reuniões aqui são os melhores momentos musicais da minha vida.”
Foi lá, numa dessas reuniões,
que nasceu Saudades da Guanabara, escrita a seis mãos por Aldir, Paulo Cesar
Pinheiro e Moacir Luz. Eu era editor do caderno Cidade do JB. Aldir me ligou e contou:
“Nêgo, fiz uma música que é um passeio pela
nossa saudade do Rio e um lamento à
desesperança desses tempos de degradação e
violência. Vou te mandar pra ouvir e acho que pode render uma matéria.”
O Rio era uma de nossas paixões em
comum. Ouvi a fita cassete e chorei e ainda choro com o refrão:
"Brasil, tira as flechas do
peito do meu padroeiro
Que São Sebastião do Rio de Janeiro
ainda pode se salvar".
Na mesma época convidei-o a escrever
uma coluna no jornal. Ele recebia um desenho
do Lan, o grande caricaturista, e
fazia o texto. Eram geniais. Lan e o Lan se adoravam.
Aldir brincava. “Sou letrista
de caricatura”!
Que pena Aldir ter partido assim. Não
merecia sofrer no final, nem nunca. Foi-se um
olhar único da vida, personagem de si
mesmo. Imagino a dor de tanta gente, tantos eram o Aldir. Ele
era ligado demais à família, tinha um amor incontrolável pela
mulher, um ciúme de maluco das filhas e um tremendo orgulho da
terceira geração, da neta que deve estar fazendo residência médica.
Era preocupado com os parentes, com os amigos.
Quando soube que eu estava com hepatite também
lá pelos anos 1980, me ligava toda a semana para saber a quantas estavam minhas
transaminases e bilirrubinas. E dizia: “Fica tranquilo, daqui a um
ano a gente vai tomar uma cerveja!”
Aldir amava, sobretudo os
livros. Moacyr Luz me contou, um dia, de uma viagem que fizeram para a casa de campo de
um amigo num feriado. Aldir já estava recluso, quase não saía do quarto. Todos ficaram
muito felizes em ele topar passar uns dias fora. E lá foram. Aldir levou três malas e todo
mundo estranhou. Chegou na casa do amigo na Serra, entrou no quarto e desfez
a curiosidade. Eram malas de livros. Se trancou ficou lendo e só saiu do quarto na hora
de embora. Moacyr comentou:
Como lia aquele
filho da puta!”
Aldir era o olhar desconcertantemente lúcido
sobre a tragédia da vida no sentido grego da palavra. Não saberia hierarquizar os
grandes de todos os tempos, mas no meu time ele joga com a 10.
O carioca Bruno Thys é jornalista e
um dos sócios da editora Máquina de Livros. Trabalhou no Jornal do Brasil,
revista Veja e grupo Globo. O texto acima foi publicado nas redes sociais e
reproduzido com autorização do autor.
Eis nossa sugestão:
Amigo É pra Essas Coisas Um dos primeiros grandes sucessos de Aldir Blanc, a música foi criada em parceria com Sílvio da Silva Jr. e conquistou o segundo lugar no Festival Universitário da Música Popular Brasileira de 1970, ocasião na qual foi interpretada pelo grupo MPB-4.
Bala com Bala Fruto da parceria com João Bosco, foi uma das primeiras canções da dupla oferecidas à cantora Elis Regina, que a escolheu para o álbum “Elis”, de 1972.
Dois pra Lá, Dois pra Cá Também entoado por Elis Regina, o bolero se tornou um dos grandes sucessos da carreira da cantora, que o gravou junto a uma leva de outras composições vindas da parceria entre Blanc e Bosco.
Cabaré Um tango, a gravação na voz de Elis Regina foi elogiada por Astor Piazzola, um dos maiores nomes do gênero argentino. “Que fabuloso escutar ‘Cabaré’, está muito bem feito”, disse ele em entrevista à Folha nos anos 1970.
O Bêbado e a Equilibrista Um dos mais poderosos hinos contra a ditadura militar, foi imortalizada na voz de Elis Regina e tinha uma série de menções a figuras perseguidas no período, como às viúvas de Manoel Fiel Filho e de Vladimir Herzog, e a Herbert José de Sousa, irmão do cartunista Henfil. Surgiu como uma homenagem que Bosco queria fazer a Charles Chaplin, morto em 1977.
Rancho da Goiabada A triste letra da canção mostra a vida sofrida e simples dos boias-frias, que, diante da pobreza do campo, sonham com “goiabada cascão, com muito queijo, depois café”. Foi mais uma parceria de sucesso com Bosco.
Incompatibilidade de Gênios Blanc e Bosco também se juntaram para a canção, que tratou de um tema recorrente na obra da dupla: a vida conjugal. Na letra, um marido reclama das brigas com a mulher, que tem personalidade oposta à do eu-lírico.
O Mestre-sala dos Mares A canção chegou a ser censurada pela ditadura militar, por abordar a vida do líder da Revolta da Chibata, ocorrida em 1910. A letra era um esforço para recuperar um personagem soterrado pela história e, por mencionar um movimento contra as forças políticas, não foi vista com bons olhos pelo regime.
Resposta ao Tempo Imortalizada na voz de Nana Caymmi, a parceria de Aldir com Cristovão Bastos foi um sucesso nas rádios nos anos 1990, impulsionada pela minissérie “Hilda Furacão”, da Globo, que a escolheu como tema de abertura. Mais tarde, foi entoada por importantes nomes da música brasileira, como Milton Nascimento e Fafá de Belém.
Vida Noturna Carro-chefe do disco homônimo lançado em 2005, o único em que Blanc interpretou todas as faixas, traz a voz do artista e de Bosco acompanhada somente de piano e violão.
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