domingo, 22 de março de 2015

Água, dona da vida

             Água, dona  da vida e da morte.

No Dia Mundial da Água, 22 de março, seremos inundado por notícias líquidas, pouco sólidas, sobre a crise hídrica.
Vai chover dados, estatísticas, ameaças, acusações de má gestão do nosso ouro azul.   
Seremos banhados por músicas e poesias sobre a preciosidade da água, sua simbologia e mística.
Nós, do Vale do Jequitinhonha, no nordeste de Minas, em grande parte, vivendo no semi-árido, sempre soubemos que a água é a dona da vida.
 
Cada gota tem valor sem medida. Imagine com 150 litros por dia, como o povo da cidade grande? Seria um bamburro, um estouro de riqueza.
Sempre convivemos com a falta dela, ou com sua presença pouco abundante, apesar de cada gota muito significante.
Desde criança, tomamos muito banho de caneca, gastando 10 litros ou menos.
 
E nossos pais aproveitando a água usada, aparada na grande bacia de alumínio, reutilizando-a, para outro banho de um irmão, ou para a horta e jardim.
O povo de belzonte vai ter que economizar água? Pergunte pro povo do Jequitinhonha que ele ensina.
Mas, também, tem muito desperdício, usos e abusos da água, na região do Vale.
A grande floresta artificial de eucalipto, a maior do mundo com  mais de 500 mil hectares de árvores plantadas, chupa água de nascentes, lagoas, veredas, baixando ou esgotando nossos lençóis freáticos.
A plantação irrigada de café e banana contribui para os cerca de 70% de toda a água consumível. E  despejam seus venenos agrotóxicos que retornam para os cursos dágua, nossos riachos e rios. Os mais conhecidos são o Jequitinhonha que leva o nome da bacia hidrográfica e  seus filhos Araçuaí, Itamarandiba, Preto, Fanado, Capivari, Ribeirão das Gangorras, Setúbal, Gravatá, Calhauzinho, Salinas, São João, São Pedro e Rubim.
A grande caixa d’água fica no Alto Jequitinhonha, nos municípios do Serro, Diamantina, Rio Vermelho, São Gonçalo  do Rio Preto e Itamarandiba.
Dona da vida pode trazer a morte
Cerca de 8% por cento da água consumida vai para o consumo doméstico, com quase a totalidade dos municípios sob gestão da Copanor, aquela Copasinha inventada para os pobres de Minas. O governador-inventor irresponsável tirou todos os investimentos de infraestrutura previstos pela Copasa e levou junto os funcionários já experimentados com um now how profissional impressionante. Deixou os sistemas de água e esgoto dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri sem gestão qualificada, com funcionários novatos a serem capacitados, com baixos salários e sem condições de trabalho.    
Os dados de 2013 do SNIS – Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento, do Ministério das Cidades, registram que nos 69 municípios de atuação da Copanor somente 52,08% da água distribuída é fluoretada. Ou seja, 47,92% do tratamento de água não utiliza o flúor que é obrigatório. O flúor bem aplicado combate as cáries e fortalece os ossos. Outros dados: apenas 11,3% da população que recebe água da Copanor tem esgoto. E  destes apenas 16,3% tem tratamento sanitário.  E o pior: em alguns municípios cobram por este serviço que não é prestado. O atendimento  de água da população urbana de toda a região é de 67,5%, enquanto a Copasa atende a 100%.
A criação da Copanor para atender o nordeste mineiro foi um mau negócio para o povo do Vale. O governador mau gestor quis agradar aos acionistas da Copasa, expulsando os beneficiários de regiões pobres. Realmente, daríamos pouco lucro para um estatal que deveria servir primeiro ao povo mineiro. Em 2013, a Copanor faturou apenas R$ 15,9 milhões. A Copasa faturou R$ 3,36 bilhões. Ou seja, o povo pobre de Minas que representa 5% da população total contribuiria apenas com 0,4% da receita da empresa estatal. Fomos expulsos do baile dos ricos, porque damos mais despesas do que lucros. Acabar com a Copanor, voltando a ser tudo Copasa, pode melhorar as nossas vidas.
A água bem tratada pode gerar lucros para alguns. Mal tratada, a dona da vida pode gerar mortes.
 
A água sem tratamento quando ingerida pode ser responsável pela transmissão de doenças como a amebíase, giardíase, gastroenterite, febres tifoide e paratifoide, hepatite infecciosa e cólera. Estas são chamadas doenças de veiculação hídrica. Pode também estar ligada à transmissão de algumas verminoses como a teníase,  a esquistossomose, ascardíase, ancilostomíase e oxiuríase. Além disso, há outras correlatas como a leptospirose, malária, dengue, febre amarela e outras infecções que necessitam da água para se instalarem no corpo humano. Ou seja, 80% das motivações que levam as pessoas do Vale aos consultórios médicos.
Fica mais barato oferecer saneamento básico do que tratamento de doenças, segundo  a OMS -  Organização Mundial da Saúde. Para cada R$ 1  investido em saneamento básico há uma economia de R$ 4 no sistema de saúde, dizem especialistas. Ou seja, investir em saneamento básico é quatro vezes mais barato do que no sistema curativo de doenças.
E é justamente nas regiões mais pobres que os serviços de água e esgoto mais faltam. Portanto, ao pensar em saúde, devemos lutar por saneamento básico,  prioritariamente.
Mineroduto é transformar água em mercadoria
O MAB – Movimento de Atingidos por Barragens grita “ Água e energia não são mercadorias” . Mas, para gananciosos e alguns governantes são. O sucessor do des-governador, além da Copanor, deixou a maldita herança de um decreto, tornando áreas de 9 municípios do Vale e do norte de Minas como de utilidade pública para passar um mineroduto que vai chupar 6.300 m3 por hora do Lago de Irapé ou 37 milhões de m3 por ano, ou 14% do reservatório.
A agua será utilizada para rolar o minério de ferro a ser extraído da região de Grão Mogol até o porto de Ilhéus, na Bahia. De lá, irá para a China para se transformar em produtos manufaturados. Toda esta exploração será comandada pela SAM – Sul Americana de Metais, uma multinacional chinesa.
Derrubar o decreto de mais-valia, de transformar nossa água em mercadoria, é uma tarefa de luta de David contra Golias.
 
Água no semiárido
Na região do semiárido mineiro, no Médio e Baixo Jequitinhonha e quase todos os municípios do norte de Minas, a seca sempre está presente entre os meses de maio e outubro. Muitos saem para o corte de cana e colheita do café, no sul de Minas ou interior de São Paulo.
Quem fica tem uma dura missão. Cuidar da pouca água. A água tem sido tratada com carinho por comunidades rurais que a recebem da pouca e benvinda chuva, capta no telhado da casa e direciona o líquido precioso para uma caixa de 30 ou 50 mil litros. É a reserva de água para beber, para os tempos de seca, no cerrado e caatinga. Os moradores destas comunidades vivem com menos de 20 litros d’água per capita por dia. E, na grande maioria, sem tratamento adequado para alcançar a desejada potabilidade. É daí que surgem os principais cidadãos hospedeiros das doenças de veiculação hídrica.
 
Estes mesmos cidadãos tem mostrado ao mundo dos gastadores de água tecnologias simples e populares como barraginhas para conter a umidade do solo, barreiros para represar a água para animais e água servida das casas, reutilizada para irrigar hortas, pomares e jardins.  A sabedoria do povo das grotas, dos Gerais, pode ajudar aos que usam e abusam da água.
Comissão de Águas
Nesta segunda-feira, 23.03, às 15 horas, a Assembleia Legislativa reinstala a Comissão Especial de Águas, proposta pelo deputado estadual Dr Jean Freire (PT-MG). Ela pretende recuperar os trabalhos produzidos pela Comissão anterior e combater de forma urgente e prática a crise hídrica que se instalou em Minas.
A prioridade deve estar no racionamento de 30% da água consumida, controle maior das outorgas de água para produção na agricultura, investimentos no semiárido, limitação ou proibição de instalação de novos minerodutos e maior controle social das gestoras de água e esgoto em Minas, Copasa e Copanor.
Se o governo Pimentel quiser enfrentar de forma efetiva a crise hídrica terá que investir na fiscalização de usos e abusos da água na agricultura e indústria, através do IGAM; melhorar a gestão da Copasa/Copanor para diminuir a perda de 33% da  água captada; articular ações com o governo federal, principalmente com a Funasa, para atender as pequenas cidades e comunidades rurais do interior de Minas.   
Música e poesia
 A  música e a poesia tem colocado a água em versos, prosas e melodias.
A poesia é do Aníbal Freire. A música é Planeta Água, de Guilherme Arantes.
No Vale, o poeta das águas é o Aníbal Freire, de Salinas. Engenheiro sanitarista da Copasa, desde 1975, Aníbal faz poesia ao construir Estação de Tratamento de Esgoto com recursos simples da natureza. Em 2001, publicou Montanhas e Águas e Poeta Plástico, em 2007.

 
A árvore genealógica do rio
Anibal Freire

As nascentes são folhas
os afluentes os galhos
o rio é o tronco
e o mar é a raiz?

As flores são agrícolas
e as cidades serão os frutos apodrecendo nas margens?

os peixes serão pássaros sem folhas?

a água-selva sobe pro ar para irrigar a planta-rio?

a fotossíntese do rio é que torna o rio de verdade?

a árvore do rio tem os pés no mar
e a cabeça nas nuvens?

a árvore genealógica do rio começa em mim.
Veja o vídeo com a música
Planeta Água, de Guilherme Arantes:

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