sexta-feira, 20 de março de 2015

200 mulheres do Médio Jequitinhonha denunciam violência: "Estamos sendo torturadas ou mortas"!

Emocionadas, mulheres relatam sofrimento e tortura do dia a dia impostos por machos impunes.


Mais de 200 mulheres de 20 municípios do Vale do Jequitinhonha se reuniram nesta quinta e sexta-feira, 19 e 20.03, na cidade de Araçuaí, no Médio Jequitinhonha, nordeste de Minas.

Elas se encontraram no Seminário Regional "Tecendo a rede de enfrentamento à violência contra a mulher no Médio Jequitinhonha", indignadas com relatos reais e emocionantes de uma vida de tortura diária praticada pela violência psicológica, assédio moral, sexual e agressão fisica e até a própria morte, tendo como agente agressor o homem. E o pior: este homem muitas vezes está dentro da sua propria casa. A grande maioria dos estupros e tortura é praticado por pais, tios, irmãos e primos, ou então por namorados, maridos e ex que se sentem proprietários do corpo e alma da mulher.


Duas grandes lideranças do movimento de mulheres: a psicóloga e vereadora de Chapada do Norte, Adriane Coelho; e uma referência política das mulheres trabahadoras rurais, a Dôra de Piô, de Coronel Murta.

O Seminário, realizado no Teatro Lua da Lua, no centro da cidade, em frente ao Colégio Nazareht, debateu a condição de ser mulher, as lutas contra a violência, os equipamentos de empoderamento e socorro femininos, as experiências locais e estaduais, a precariedade de políticas públicas do antigo governo estadual e as perspetivas do novo governo, além da falta de interesse político das Prefeituras.

Enquanto as mulheres se preparavam para a discussão sobre formas de sobrevivência e alternativas às agressões masculinas, duas foram assassinadas barbaramente na região. 

Por ter se separado do ex-marido, uma mulher de 35 anos, em Novo Cruzeiro, foi barbaramente assassinada com 6 facadas, justamente por quem dizia ter paixão por ela. O crime aconteceu no dia 17.03, terça-feira. 



Uma jovem de 20 anos também foi assassinada, em Virgem da Lapa. O motivo é o mesmo do caso anterior: a jovem mulher decidiu se separar do seu marido por não aguentar sua agressividade constante. Ele a ameçou com uma faca e correu atràs dela, no domingo. No dia seguinte,  na segunda-feira, 16.03, ameaçou de novo com um revólver. Ela se mostrou resoluta e disse que não voltaria. Mais tarde, seu ex-marido de 23 anos, voltou e atirou nas suas costas, matando-a.

As mulheres constatam que parece que estão em um beco sem saída. Ou elas cedem aos caprichos dos homens e seus métodos de mandonismo, porradas, humilhações caracteristicas do machismo, vivendo de forma miseravel afetivamente ou morrem por não aceitarem a escravidão amorosa. 

E buscam soluções, saídas de respeito mútuo, de relacionamento respeitoso, empoderando-se, buscando o apoio das próprias mulheres ou em homens mais sensíveis e solidários.

Infelizmente, as ações tem sido reativas à opressão e assassinato de mulheres, com poucas ações efetivas em ações preventivas,  transformadoras de comportamentos enraizados culturalmente. 
A cultura do machismo, da família patriarcal e da diminuição da mulher como ser  autônomo parece intransponível.
O projeto Ônibus Lilás, coordenado pela AMEJE, desenvolve atividades nos municípios do Médio Jequitinhonha.

Estiveram presentes representações regionais mais diversas como profissionais dos CRAS, CREAS, Sindicatos de Trabalhadores Rurais, Conselhos Municipais de Defesa da Mulher, projeto Ônibus Lilás, Ameje, MAB, SEDESE, vereadoras e associações de mulheres.

Notou-se a ausência de representantes de dois setores públicos que majoritariamente tem profissionais do sexo feminino: a educação e a saúde. Os encontros das mulheres têm sido comandados por profissionais da área de assistência social e de movimentos sociais. 

Foram realizadas palestras e debates com representantes da Secretaria Nacional de Defesa de Direitos das Mulheres, ligada à Presidência da República; Sub-Secretaria Estadual de Direitos da Mulher, ligada à Secretaria de Direitos Humanos. representante da UFMG/Fórum da Mulher; da AMEJE; do Itavale; da Fetaemg.

Os municípios que enviaram representantes foram: Araçuaí, Belo Horizonte, Berilo, Cachoeira do Pajeú, Capelinha, Caraí, Chapada do Norte, Comercinho,  Coronel Murta, Francisco Badaró, Itaobim, Itinga, Jenipapo de Minas, José Gonçalves de Minas, Medina, Novo Cruzeiro, Padre Paraíso, Ponto dos Volantes, Rubelita, Teófilo Otoni e Virgem da Lapa, 

Mesmo com diversas pedras colocadas no caminho da libertação, as mulheres vão tirando uma a uma, ou derrubando grandes muros erguidos historicamente. Elas avançam no mercado de trabalho, na divisão de tarefas domésticas com os companheiros, ocupando espaços na representação política e gestão pública. E procuram construir um novo mundo, com uma relação de humanização entre gêneros, constituindo um novo conceito de família, abrindo espaços diferentes, afetivos e criativos, amorosamente vividos.  

O lema do Seminário foi um aviso e desafio: "Se é violência contra a mulher, a gente mete a colher!"

Um comentário:

marilia jardim disse...

Excelente cobertura Albano(Banu). Já existe um grupo na ALMG que está trazendo essa questão para a pauta, bem como a participação das Mulheres na Política. Há previsão de seminários regionalizados em todas as regiões do Estado. Estamos fazendo parte dessa empreitada como linha de trabalho do mandato Dr. Jean Freire.

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