domingo, 6 de janeiro de 2019

Os três núcleos duros do governo Bolsonaro

SOBRE POLÍTICA, DISTRAÇÃO E DESTRUIÇÃO
por Sílvio Luiz de Almeida*
O atual governo tem três núcleos:
1. O *ideológico-diversionista*. 
Serve apenas para manter a moral da "tropa" em alta, dando representatividade e acomodação psicológica a quem realmente acredita que o Brasil é socialista, que existe ideologia de gênero ou que a terra é plana. Serve também para causar indignação e tristeza nos "progressistas" e, assim, desviar a atenção das questões centrais manejadas pelos núcleos 2 e, especialmente, pelo 3.
Pode também ser utilizado para criar bodes expiatórios: se algo der errado em qualquer setor dir-se-á que foi porque não houve "pulso" para combater a ameaça vermelha, os defensores dos direitos humanos ou os apologistas da ideologia de gênero. Basta trocar por outro mais moderado ou ainda mais alucinado, a depender das circunstâncias.
Por mais que haja oportunismo, é importante que os recrutas desse núcleo acreditem nas coisas que dizem. É o exército de Brancaleone, mas causará muitos estragos.

2. O *policial-jurídico-militar*. 
Aqui não tem brincadeira e nem folclore. Acabou o circo. 
Gente profissional, que sabe operar a máquina repressiva. Vai garantir a materialidade das loucuras do núcleo 1 eliminando os críticos e dando corpo aos "inimigos da pátria", provavelmente por meio do processo penal. Mas também irá este núcleo abrir espaço para a concretização das medidas no núcleo 3. Aqui não tem arminha com o dedo. 
É arma de verdade. É cadeia. É destruição física e moral.

3. Por fim, o *núcleo econômico*. 
Aqui está o nervo. Aqui a terra é redonda; não tem fala contra a globalização; ninguém acredita que exista socialismo no horizonte. 
Aqui a turma estuda, tem PHD e já leu Marx. Aqui "dinheiro não fede", podendo vir dos EUA, da China ou da Rússia. 
Os direitos trabalhistas, a previdência, a assistência social, a saúde e a educação irão para o vinagre a partir daqui e não pelas mãos da turma do "menino veste azul e menina veste rosa" _(que baita distração, hein?)_. 
Daqui vem a ordem para por agrotóxico na comida, retirar terra de índio e quilombola, afrouxar licenciamento ambiental e garantir o sequestro dos bens públicos e do orçamento. O resto é tudo lateral. 
Depois de feito o trabalho, será até possível o nucleo 2 pegar mais leve. Até essa coisa de direitos humanos pode voltar. E assim o núcleo 1 se torna dispensável. 
Depois que tudo for (des)feito, pode vir uma pessoa "sensata", um liberal, uma versão _made in Brazil_ do francês *Macron* para reestabelecer a "racionalidade", a "democracia" e o "estado de direito"."

P.S. Edit para evitar incompreensões: toda ideologia é “distração; é próprio da ideologia distrair. E são essas distrações que matam pessoas e destroem vidas. 
Nesse sentido, o racismo é a “distração” necessária do colonialismo e da desigualdade; a bobagem dita sobre a “ideologia de gênero” é a distração do patriarcado e do domínio masculino, que só o feminismo pode quebrar. 
O sem sentido do combate ao “marxismo cultural” e o “escola sem partido” são a distrações para desmoralizar a crítica e a apresentação de alternativas políticas. 
Para dominar a economia é fundamental que se exerça poder sobre os corpos, sobre as identidades, sobre o gênero e a sexualidade. É necessário que alguém diga o que você é para a economia funcionar. Isso implica que a ideologia mata e deve ser capaz de matar, e para tanto existe o núcleo 2. 
Esse texto, portanto, é simplesmente para chamar a atenção sobre o que NÃO está sendo dito e não sobre o que está sendo vocalizado.

Fonte: Jornalistas Livres - Texto de *Silvio Luiz de Almeida* - Professor da FGV - Fundação Getúlio Vargas - presidente do Instituto Luís Gama 


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