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sexta-feira, 11 de junho de 2021

Não tem conversa com bolsonarista

 

Os bolsonaristas não sabem dialogar, conviver com quem pensa e sente diferente deles. 

Quem não concorda com eles vira inimigo. 

É o protótipo do fascista. 


"Não tem conversa com bolsonarista"

João Paulo Cunha*
"Bolsonaro está cercado do que há de pior, na caserna, nos templos e na economia" - Arquivo/Agência Brasil
O fascismo é o território em que adversários são transformados em inimigos

Não quero papo com bolsonarista. Pode ser até parente próximo, pai, filho ou mesmo o espírito santo. Sem chance. A expressão “troca de ideias” padece de uma crença na capacidade do outro em trazer algo novo para o horizonte, que mereça até mesmo ponderação ou mudança de ponto de vista. Não é o caso dos minions: não tem como ser um deles sem deixar de ser gente. Pelo menos o que entendo por gente. Tem conversa que não vale a pena.

Por isso é preciso mudar de tática. Nada de tentar convencer os imutáveis 25% de almas sebosas. Que subsistam, e é só. Mas precisam ser derrotados. O fascismo é o território em que adversários são transformados em inimigos. O desafio, por isso, não está em conquistar consenso, hegemonia ou mesmo maioria, mas recuperar a civilização isolando quem não tem estatuto ontológico para participar do clube da democracia. O Brasil, sob Bolsonaro, vive no pântano da pré-política.

Por isso, alguns desafios estão postos. Fazer oposição cerrada às políticas do presidente que vêm capando direitos, manietando as instituições e destruindo o país é o primeiro deles. Para esse trabalho estão convocados desde os partidos de oposição aos movimentos sociais, passando por todos os grupos afetados por decisões no campo das políticas públicas e decisões na arena econômica e dos valores culturais. Enquanto o governo existe, é preciso que seja vigiado em seus equívocos, criticado em seus erros, inviabilizado dentro das regras e constrangido em suas boçalidades.

O segundo desafio está em ocupar todas as frentes possíveis para viabilizar o “Fora, Bolsonaro”, do afastamento judicial ou popular ao impeachment. Vale muita coisa nesse caminho, das CPIs aos movimentos de rua, passando por denúncias em foros internacionais de direitos humanos e cortes de defesa da civilização como a concebemos nos últimos 200 anos. Afastar o presidente é um imperativo democrático, não um ato de exceção. A paralisação do processo no Congresso e a blindagem nos órgãos de controle exige uma atitude de coragem que começa nas ruas.

O terceiro caminho é a construção da vitória nas urnas no ano que vem. Pode parecer a via mais condescendente e fácil, mas nem por isso está garantida. A ser mantida a atmosfera de polarização, atravessada pela incapacidade de união das forças democráticas e do cenário de exploração industrial da desinformação criminosa, não está afastada a possibilidade de reedição da última disputa eleitoral, inclusive em seus resultados. Parte minoritária, mas unida e vitaminada pela rede de ódio, pode de novo se alimentar dos mitos da antipolítica e do antipetismo.

 

O “Fora, Bolsonaro” precisa vir pelo afastamento judicial ou popular ou impeachment

 

A mudança de postura política exige apenas humildade em aprender com o passado recente. O que significa estabelecer com competência uma frente feita ao mesmo tempo de valores compartilhados e nomes viáveis. Os dois precisam vir juntos. Quem fala que o principal é o programa ou quem defende apenas os favoritos em pesquisa, faz o jogo da divisão que só reforça o ego e enfraquece os resultados. Que já deu no que deu.

Três são as bandeiras capazes de unir o que a divergência política das forças progressistas, de centro-esquerda ou, simplesmente, racionais, separa. Defesa da democracia como valor inegociável, retomada do combate à desigualdade e proteção do meio ambiente. Quem assina embaixo deve vir junto. As outras demandas serão somadas no processo de alianças posterior. Os nomes para levar esse programa adiante devem ser debatidos a partir daí, com pragmatismo e objetivo definido: ganhar a eleição, não uma vaga no tribunal da vitória moral. De boas intenções, o inferno bolsonarista dos nossos dias está cheio.

Baixo clero militar

Além de fazer oposição ao governo, trabalhar pelo impedimento do presidente por crimes cometidos e construir a vitória eleitoral, recentemente mais um fator passou a dominar o cenário e exigir mais um esforço aos defensores da democracia no Brasil: o combate à ditadura militar. Mas a ditadura não acabou em 1985? O que Bolsonaro está conseguindo fazer é algo que parecia impossível: transformar o que era ruim em algo ainda pior, ao naturalizar o que é inaceitável: uma ditadura militar singular, mas expressiva nos marcos da democracia de fachada.

O atual governo tem mais militares em cargos de ministério e presidência de estatais do que qualquer outro do período militar. Nos escalões inferiores, o recrutamento (a palavra nunca foi tão exata) nas forças armadas para cargos de direção e chefia do serviço público extrapola a casa dos milhares. O presidente é um ex-militar afastado por insubordinação, seu vice é general e o aparelhamento da justiça e das polícias tem a marca compósita da caserna e dos templos evangélicos. Bolsonaro recupera a mitologia da competência militar para cumprir missões em todas as áreas onde o problema parece ser excesso de democracia.

 

É preciso unirmos em torno da defesa da democracia, do combate à desigualdade e da proteção do meio ambiente

 

Militarizou tudo, do meio ambiente à saúde, não por acaso dois dos mais incompetentes setores da administração pública, que vêm enxovalhando o país em dimensão internacional. Pôs o Exército para produzir cloroquina, dirigir agências de controle de medicamentos, comandar a repressão contra defensores do meio ambiente.  Convocou militares da ativa contra as normas disciplinares, insuflou a divisão entre o oficialato, incorporou as polícias em sua visão abrangente de militarização como corpo armado e obediente.

As Forças Armadas nunca foram unidas. A dissenção faz parte de seu DNA, inclusive com revoltas e protestos vindos da caserna. Durante a ditadura militar de 1964-1985, foram pelo menos duas ondas fortes de conspiração, o que mostrava a vida política pulsando nos quartéis. Os protestos, na verdade, não eram contra o endurecimento do regime, pelo contrário, pela cobrança de mais ditadura. Nos dois casos, quem clamava por endurecimento eram representantes das baixas e médias patentes. Como Bolsonaro e sua turma.

 

Militares se nutrem do tripé oferecido pelo chefe: prestígio, poder e dinheiro

 

Mesmo assim, os militares, ainda que capazes de segurar a bagunça no seu pátio, gostavam do que faziam e se sentiram tirados do jogo antes da hora. Negociaram uma anistia que passou por cima de crimes contra a humanidade, o que permitiu que anos depois nomes de torturadores sejam alvo de homenagens e a defesa da tortura feita aos quatro ventos. Agora, inspirados pelo presidente, parece que os revoltosos do fechamento estão de volta. E se nutrem do tripé oferecido pelo chefe: prestígio, poder e dinheiro.

São três alimentos para a alma de qualquer pessoa menos convicta de seus princípios. Os militares ganharam promessas de investimento em seus brinquedos, estão no comando da máquina administrativa (inclusive no ordenamento de despesas civis) e tiveram aumentos e decisões favoráveis em meio a reformas trabalhistas e previdenciárias que afetaram negativamente todas as outras categorias profissionais. São admirados, poderosos e bem pagos.

Por essa e outras, o ex-capitão insiste em chamar as Forças Armadas de “meu” Exército. No sentido da propriedade individual pode ser um erro, mas no que diz respeito à identificação do grupo mais próximo, parece acertar o alvo. Com isso, a oposição de parte dos oficiais e mesmo o pedido de demissão dos comandantes das três armas não parecem incomodar o presidente. Na verdade, reforça a mudança da origem do domínio estabelecido nos quartéis, a partir do rebaixamento da linha de comando rumo aos setores menos graduados e, até então, menos valorizados pela corporação. Uma espécie de baixo clero da farda.

O recente caso de Eduardo Pazuello, general logístico e ex-ministro da Saúde, foi o coroamento da desmoralização dos militares. Tanto dentro de casa como para a opinião pública. Por um lado, rifou um oficial da ativa que carregou nas costas de forma humilhante os erros propositais da política sanitária defendida pelo presidente. Se um general da ativa em cargo de ministro já era uma forma de desobediência dos códigos militares que afirmam independência de governos para reforçar o papel de Estado de seus membros, sua entrega aos leões foi uma demonstração de desprezo.

 

Militarizou tudo, do meio ambiente à saúde, não por acaso dois dos mais incompetentes setores da administração pública

 

Em seguida, sua convocação para um ato político e exposição gratuita em episódio sem maior relevância, como um passeio de motociclistas fantasiados de homem, afrontou novamente as regras profissionais dos militares. Ao entrar em cena encaminhando o arquivamento da denúncia ao general, Bolsonaro remarcou sua posição de comando e plantou mais uma divisão entre os militares. O Exército saiu mais fraco e perdeu no terreno que moralmente sempre se destacou.

O presidente sempre manteve fechados os canais com a democracia. É inimigo da imprensa livre. Foi sempre reticente com partidos. Não confia em empresários, já que não se decidiu se é nacionalista ou liberal. Utilizou-se de todos que davam a ele palanque para sua cruzada antissistema, a começar por Moro, que depois foi descartado sumariamente e vive hoje seu inferno sem horizonte político ou profissional. Merecidamente.

Agora reduz sua interlocução até com a base da qual mais se orgulhava, os militares. Está ficando cercado do que há de pior, na caserna, nos templos, na economia e nas forças de segurança. É com eles que pretende se manter. Na falta de categoria sociológica confiável, esses espécimes atendem pelo nome de bolsonaristas. Eles não merecem papo.

Artigo publicado no https://www.brasildefatomg.com.br/2021/06/10/nao-tem-conversa-com-bolsonarista, no dia 10.06.2021

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sábado, 11 de julho de 2020

Globo diz que "é hora de perdoar o PT". Petistas protestam.

Acossada pelo bolsonarismo, Globo acena bandeira branca ao PT e diz que "é hora de perdoar" o partido.
A Rede Globo e a cultura do ódio e da mentira - Jessé Souza ...
Petistas retrucam que a Globo é quem deve pedir perdão pelas mentiras contra o PT, Lula e Dilma. E assumir a paternidade do bolsonarismo. 
Proposta de armistício foi feita pelo colunista Ascânio Sêleme, que dirigiu o jornal e é ainda um de seus principais articulistas

11 de julho de 2020, em 8:23, no www.brasil247.com

O jornal O Globo, dos irmãos Marinho, enviou neste sábado uma proposta de paz ao Partido dos Trabalhadores, alvo de uma perseguição midiática e judicial liderada pelo grupo nos últimos anos, que promoveu um golpe de estado em 2016, contra a ex-presidente Dilma Rousseff, e uma eleição presidencial manipulada em 2018, uma vez que os direitos políticos do ex-presidente Lula foram artificialmente subtraídos por um processo de lawfare.

A bandeira branca partiu do jornalista Ascânio Sêleme, que já dirigiu o jornal e hoje é um de seus principais articulistas, na coluna "É hora de perdoar o PT", em que ele argumenta que o partido já foi punido com o impeachment de Dilma e a prisão de seus principais líderes. No artigo, Ascânio argumenta que é preciso reconhecer que 30% dos eleitores brasileiros são de esquerda e que o PT é a principal força político-partidária deste campo.

O aceno de paz, no entanto, não envolve ainda nenhum tipo de autocrítica da Globo por seu papel no golpe de estado de 2016, que abriu espaço para a ascensão do bolsonarismo – fenômeno que hoje ameaça o grupo de comunicação. Desde que chegou ao poder, Jair Bolsonaro tem adotado postura hostil à mídia tradicional e tem estimulado o crescimento de grupos rivais, como a CNN, aparentemente ligada ao empresário Edir Macedo.

Em seu texto, o colunista do Globo também argumenta que não faz sentido isolar o PT, dada a sua expressividade na sociedade brasileira. "Este agrupamento político, talvez o mais forte e sustentável da história partidária brasileira, tem que ser readmitido no debate nacional. Passou da hora de os petistas serem reintegrados", diz ele, que não menciona a devolução dos direitos políticos de Lula. Ascânio também afirma que "o ódio ao PT não faz mais sentido".
Foi este ódio, semeado pela Globo e outros meios de comunicação, que degenerou no bolsonarismo, um fenômeno que envergonha o Brasil aos olhos do mundo e que ameaça a própria Globo.

Leia trechos do artigo: 
“É hora de perdoar o PT”
Ascânio Sêleme – O Globo – 11.07.2020
“Não há como uma nação se reencontrar se 30% da sua população for sistematicamente rejeitada. Esse é o tamanho do problema que o Brasil precisa enfrentar e superar. Significa a parcela do país que vota e apoia o Partido dos Trabalhadores em qualquer circunstância. Falo dos eleitores, não apenas dos militantes. Me refiro aos que acreditam na política de mudança do partido, não aos seus líderes.
Os que acreditam e sustentam o PT são a maioria do terço de eleitores perenes do partido, não os que foram flagrados nos dois grandes escândalos de corrupção que marcaram as gestões petistas. Esse agrupamento político, talvez o mais forte e sustentável da história partidária brasileira, tem que ser readmitido no debate nacional. Passou da hora de os petistas serem reintegrados. Ninguém tem dúvida de que os malfeitos cometidos já foram amplamente punidos.
O partido teve um ex-presidente e seu maior líder preso e uma presidente impedida de continuar governando. Outros líderes históricos também foram presos ou afastados definitivamente da política. Hoje, respeitadas as suas idiossincrasias naturais, homens e mulheres de esquerda devem ser convidados a participar da discussão sobre o futuro do país. Têm muito a oferecer e acrescentar.(…)
Mas o PT é maior que isso e, como já foi dito, para ladrões existe a lei. Imaginar que o partido repetirá eternamente os mesmos erros do passado é uma forma simples, fácil e errada de se ver o mundo. Os erros amadurecem as pessoas, as instituições, os partidos políticos. Não é possível se olhar para o PT e ver só corrupção. O petismo não é sinônimo de roubo, como o malufismo.
(…)
Comentários dos internautas no www.brasil247.com
Ermelindo Rodiruges - Ser perdoado de que? Política externa altiva, geração de empregos e renda, tirar milhões da pobreza, desenvolvimento tecnológico como, acelerador de partículas, jatos de última geração, submarinos de propulsão nuclear, reconstrução da B de Alcântara, Universidades construídas pelo país afora com acesso a todos, defender índios, negros, mulheres, LGBT. Sair da décima sexta para a sexta economia do mundo. Tenham mais honra e sensatez! Implorem pra que Lula e o PT vos perdoem!
Adélcio Carlos de Oliveira - O PT não tem nada a fazer nesse caso. Para mim está claro que chegaram à conclusão que precisam do PT para derrubar o Bolsonaro. E nesse caso, o PT vai apenas continuar apoiando o Impeachment, nada muda. Então, estão explicando para o público que terão que dar espaço ao PT. Ou melhor, devolver o espaço.

Marcos K - Concordo. É uma armadilha, como foi o tal Manifesto pela Democracia. A Globo precisa do PT para ressuscitar o PSDB, principalmente agora que a Lava Jato está desmoronando e o Moro mostra que é acometido por paralisia cerebral.

Laercio Gasparini  - "Toma que o filho é teu" e que se vire, pois o Bozo não deu dinheiro para a Golpista midiática, por isso que está desesperada. Desespero é o nome disso. Essa mídia só quer saber de dinheiro, tanto que apoiou reformas que só contra o povo trabalhador. Que se foda!

Ernesto A Globo está é com saudades do tempo em que o Governo Federal e as estatais colocavam, em valores atualizados, quase 800 milhões por ano em seus cofres. Hoje, com o Bozo, estão próximos de receber 10% disso e topam qualquer coisa contra ele.

Sandro - É um aceno importante. Penso que o PT deveria se aproximar da Globo agora que estão borrando de medo do Bozo e seus Generais golpistas. Penso que devemos usá-la e depois dá um pé na bunda como este grupo sempre faz com quem já não serve mais à seus propósitos. Esperar um pedido de perdão da globo é inviável; já que a mesma demorou décadas para reconhecer que errou ao apoiar a ditadura; imagina que perseguiu um partido e seus dirigentes !

Marilene V Diniz - A Globo é que tem de pedir perdão ao PT e, principalmente, ao Presidente Lula e à Presidenta Dilma. Acostumada que estava de bater no PT e de disseminar mentiras forjadas pela lavajato, sem que o PT reagisse de maneira ilegal ou ignóbil, pois o PT defende a Democracia. A Globo ajudou a eleger Bolsonaro, achando que com ele seria o mesmo. Caiu do cavalo, cara pálida. Bolsonaro é um troglodita e não respeita a democracia. Ele vai acabar com a Globo. Agora é que a Globo vem pedir penico ao PT, e dando uma de boazinha? Vade retro, satanás. Somos democratas, mas não somos idiotas.


sexta-feira, 19 de junho de 2020

O bolsonarismo genocida não roubará nossos sonhos

Para Além do Cérebro: As charges como resistência atual e memória ...

Pasmo existencial

Por Antônio Carlos de Almeida Castro*
Eu me nego a ser pautado por este bando de arrematados idiotas, corruptos e incompetentes.                                               A sociedade está tomando força e se posicionando. É necessário que todos estes apoios sejam repetidos e reforçados com ações individuais e coletivas.
“O que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesmo” Clarisse Lispector
Quantas vezes somos surpreendidos, no dia a dia, pelo inusitado do que tem acontecido na política no Brasil? 
Às vezes me lembro de Pessoa, na pessoa de Caeiro, “sei ter o pasmo essencial, que tem uma criança se, ao nascer, reparasse que nascera deveras...”. Realmente “sinto-me nascido a cada momento para a eterna novidade do mundo”. 
Este governo genocida não nos dá tempo de nos dedicarmos ao assunto que deveria ser o centro de todas as nossas atenções: a pandemia, o vírus, as mortes, o drama da crise sanitária. 
No dia em que o Brasil completa, oficialmente, quase 50 mil mortos e 1 milhão de infectados todas as atenções estão voltadas para a corrupção da família Bolsonaro, para o Queiroz, para a prática da “rachadinha”, para a indicação de um analfabeto funcional para representar o país, como prêmio de consolação pela sua desumana ignorância, no Banco Mundial. 
Cansei de ter vergonha alheia. Quero minha capacidade de me indignar por questões sérias de volta! Não posso mais ter que me idiotizar para compreender o que ocorre com os destinos de um país que não tem um Ministro da Saúde no meio de uma pandemia mundial, que não tem sequer um plano para contabilizar os mortos. Eu não quero ter que explicar, para as pessoas que não vivem no Brasil, que nós temos um Presidente que incentiva seus seguidores a invadirem hospitais a pretexto de verificar se os médicos estão mentindo e que a doença não é tão grave.  E o pior, explicar porque algumas pessoas seguem esta voz insana, uma voz à procura de um cérebro, e invadem hospitais. 
Um país estranho no qual foi feito o impeachment de uma Presidente sem que ela tivesse cometido o crime de responsabilidade e, agora, o Congresso se nega a discutir o impeachment quando o atual Presidente comete crimes de responsabilidade aos borbotões, quase diariamente. 
Um país que está deixando de ser, sequer, o país do futuro, pois a mediocridade está matando todos os sonhos. Só tem futuro quem sonha, quem acredita. Eu confio mais nos que são capazes de sonhar, mas como viver sob o jugo da completa obscuridade? 
Victor Hugo disse no imortal Os Miseráveis: “Julgar-se-ia bem mais corretamente um homem por aquilo que ele sonha do que por aquilo que ele pensa”. Andei o Brasil nos últimos anos a discutir o excesso de punitivismo, fui a todos os espaços possíveis usando aquilo que a advocacia me deu: voz. 
Em todos os lugares em que estive alertei que deveríamos ter a humildade de, às vezes, nos mirar na natureza. A escuridão não cai de uma só vez. Não somos surpreendidos ao meio dia com uma noite fechada, que cai em segundos em pleno lago Paranoá. A natureza é sábia, o entardecer vai afastando a luz, vai apagando o dia e a noite começa a se impor, devagarinho, até que chegue à plenitude da força da escuridão. E nós vamos nos acostumando a falta de luz. 
Assim é o regime obscurantista. Vai aos poucos nos tirando a capacidade de resistir, de indignar, de protestar, de reagir. Até que, vencidos pela mediocridade deste projeto fascista, nós percamos a voz, o ar. E sem ar e sem voz não conseguimos resistir. Nos tornamos cidadãos como que afetados pelos efeitos do coronavírus sem estarmos infectados pelo vírus, mas infectados pelo verme do bolsonarismo. Um estado de letargia, sem inteligência, sem capacidade sequer de protestar. 
Mais uma vez socorro-me de Victor Hugo: “Chega a hora em que não basta apenas protestar: após a filosofia, a ação é indispensável”.  E, insisto, é necessário voltar a acreditar que temos que enfrentar esta mediocridade que nos deprime. O país precisa voltar a acreditar que existe vida fora desta mediocridade. 
Eu me nego a ser pautado por este bando de arrematados idiotas, corruptos e incompetentes. A sociedade está tomando força e se posicionando. São vários os grupos e manifestos. É necessário que todos estes apoios sejam repetidos e reforçados com ações individuais. 
Em tempo de isolamento vamos cada um, também isoladamente, dizer basta, chega, encheu o saco!
“Matar o sonho é matar-nos. É mutilar a nossa alma. O sonho é o que temos de realmente nosso, de impenetravelmente e inexpugnavelmente nosso” (Fernando Pessoa).
Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, é advogado criminalista.
Publicado originalmente no www.brasil247.com, em 19.06.2020.

quinta-feira, 18 de junho de 2020

Bolsonaristas envergonhados não têm coragem de pedir desculpas

Para Além do Cérebro: Leandro Fortes reflete sobre o crescente ...

Mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa 

Pedro Cafardo* 

Classe dominante sabia o que esperar de Jair Bolsonaro quando o elegeu.
O título acima, em latim, não precisa de tradução. Vem de uma reza tradicional da Igreja Católica, o “Confiteor” (Eu confesso), na qual o fiel reconhece seus erros perante o Criador.

A prática do mea culpa é rara no Brasil. O PT foi e ainda é muito cobrado para fazer autocrítica e reconhecer erros cometidos durante os anos em que esteve no poder, nos governos Lula e Dilma. Nunca os reconheceu, nunca pediu desculpas.

"Errar é humano, mas o Brasil precisa adotar a autocrítica"

Há hoje, no Brasil, uma extensa lista de entidades e pessoas que precisam fazer o mea culpa pela escolha de 2018, quando a disputa democrática oferecia pelo menos seis ou sete candidatos melhores que o eleito.

Políticos influentes se omitiram na campanha eleitoral e deram um “dane-se” ao país. Oportunistas, muitos deles se elegeram governadores e deputados na sombra do candidato presidencial e agora viraram casaca como se nunca o tivessem apoiado, sem uma palavra de arrependimento e desculpas. Empresários só pensaram no próprio quintal e passaram a aceitar “qualquer um” desde que não fosse do PT. 

Igrejas se animaram com o tom conservador e as ideias retrógradas. Juízes e procuradores influenciaram o voto sem demonstrar constrangimento. Jornalistas olharam para a economia e acharam que Paulo Guedes, o Posto Ipiranga, com sua política liberal, poderia consertar o país. Mesmo que o presidente continuasse andando por aí propagando teorias bizarras, feito criança inconsequente.

Jornalistas, portanto, não podem fugir de suas responsabilidades. Muitos dos que hoje ferozmente expõem as atrocidades presidenciais deveriam reler com distanciamento crítico o que escreveram no passado recente. Julgaram que, uma vez eleito, o presidente não iria se aventurar no autoritarismo. Que as instituições impediriam aventuras desse tipo e consideraram histéricas pessoas que se mostravam temerosas. É possível mesmo que a sociedade organizada consiga evitar o avanço autoritário para uma ditadura, mas o custo será elevado. Já está sendo.

Jornalistas, portanto, não podem fugir de suas responsabilidades. Muitos dos que hoje ferozmente expõem as atrocidades presidenciais deveriam reler com distanciamento crítico o que escreveram no passado recente.

Na hora de assumir responsabilidade por erros, é instrutivo observar o mapa das votações no segundo turno das eleições de 2018. Está lá, em verde e vermelho, uma impressionante divisão do país em dois: o rico e o pobre. Quanto mais rico, mais verde, e, quanto mais pobre, mais vermelho. Em São Paulo, o Estado mais rico, Bolsonaro venceu em 631 dos 645 municípios. No Nordeste, a região mais pobre, ele perdeu em 98% dos municípios. A faixa verde se estende desde Rondônia, Mato Grosso e Goiás, áreas do próspero agronegócio, até o sul de Minas, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, as regiões mais industrializadas do país. A vermelha domina o Norte e o Nordeste.

Está claro que a escolha do presidente foi responsabilidade das elites brasileiras, do agronegócio à indústria, passando evidentemente pelo setor financeiro. Não há clichê esquerdista algum nessa afirmação que usa a palavra “elites”. Foram, sim, os mais ricos e teoricamente bem informados que elegeram ou trabalharam com mãos e mentes pela eleição do atual presidente. Precisam agora fazer mea culpa.

Ao escolher Bolsonaro, a classe dominante sabia que ele se juntaria ao conservadorismo de Trump, que adotaria comportamento hostil em relação à China, maior parceiro comercial do Brasil, que daria uma banana para as causas ambientais, que desprezaria os povos indígenas, que poria ideologia conservadora nas escolas, que incentivaria a homofobia e o uso de armas pela população, que tiraria recursos da cultura, que a contragosto apoiaria o arrocho fiscal recessivo, que flertaria com o autoritarismo antidemocrático.

O atual presidente tem muitos e graves defeitos, mas também uma qualidade: nunca mentiu sobre suas intenções autoritárias. As elites só não sabiam, mas poderiam desconfiar, que ele adotaria uma política tão desastrosa na área da saúde. Nem que o país enfrentaria a infeliz coincidência de ser liderado por alguém que despreza a ciência e promove a morte em meio a uma pandemia nunca vista em cinco gerações.

Por que o Brasil elegeu um cidadão que agora obriga brasileiros a lutar feito leões para manter a democracia? Por que o eleitorado foi tão incompetente a ponto de minar seu próprio terreno com bombas que agora exigem tempo e energia para a sua desativação?

Assustados, heróis da campanha das “Diretas já” dos anos 1980 emergem da aposentadoria para alertar os mais jovens sobre o perigo iminente. A batalha ideal de hoje seria pela saúde, pelo crescimento econômico, pela distribuição de renda, pela educação universal e por outras causas sociais que possam melhorar a vida dos brasileiros. Mas não, 35 anos depois de ter derrubado a ditadura, cá está novamente a nação lutando para salvar sua democracia.

Por Pedro Cafardo. É editor-executivo do Valor e integra a equipe que fundou o jornal. Foi editor-chefe de "O Estado de S. Paulo" e editor de Economia em várias publicações. 
Com certeza, um bolsominion arrependido.
Publicado originalmente no https://valor.globo.com/brasil/coluna/, no dia 15.06.2020.

quarta-feira, 10 de junho de 2020

Zema é bolsonarista diet: negacionista, autoritário, enganador.

O secretário de planejamento do governo de Minas Gerais, Otto Levy, é um legítimo representante do estilo Romeu Zema de fazer política. Incapaz de diálogo, distante das regras democráticas, autoritário sem carranca, ele compõe o que poderia ser qualificado como bolsonarismo diet. É tão antipopular como o modelo federal, mas esconde seu reacionarismo com modos menos grosseiros. A dramática situação da saúde pública e a relação com a ciência são exemplos do mesmo comportamento irresponsável dos dois níveis de governo. Um grita, outro geme. Os dois mentem.
Assim como o presidente, Zema espalha seu negacionismo arrogante em relação à pandemia, evitando a compra de testes para se escorar em irresponsáveis números subdimensionados. Chegou ao extremo anticientífico e desrespeitoso de afirmar que os exames servem apenas para o trabalho de pesquisadores, não contribuindo em nada para os doentes. Mais que falso, é ato de má fé. Com isso, está a jogar o estado numa escuridão perigosa e que vai gerar uma explosão de casos e mortes evitáveis. A dissonância do discurso do governador e seus técnicos é absoluta, embora sem os atritos observados no governo federal.
Da mesma forma que o presidente, o governador mineiro embarca na divisão artificial entre o lado humano e econômico, entre a saúde e a economia, entre a vida e os negócios. Enquanto economistas e sanitaristas em todo o mundo demonstram que os dois universos são parte da mesma realidade, os terraplanistas sanitários insistem em contrapor as duas realidades, dando primazia aos negócios. Não há nada melhor para a economia que pessoas vivas. Essa é a única ação responsável para se pensar a retomada das atividades produtivas no longo prazo. Um mundo doente e triste é, inevitavelmente, mais pobre e mais lentamente recuperável.
A fatídica e horrorosa reunião de Bolsonaro com seus ministros mostrou – independentemente da questão relativa à Polícia Federal e às acusações de Moro –, o que todo mundo já sabia: trata-se de um governo de desclassificados. Os titulares de cada pasta não tiveram brio para defender suas áreas de atuação; o puxa-saquismo foi o método de relacionamento; a covardia era atributo indispensável da convivência entre pares; o desprezo pela democracia e pelas instituições testou positivo no DNA da família para-miliciana. Se no caso de Bolsonaro essa teratologia é patente, no seu aprendiz Zema se dá de forma mais difusa e melíflua.
Os secretários estaduais são igualmente submissos, exercem seus cargos em decorrência de acordos e não de competência (apesar do marketing propalado pelo governo em seu início de gestão), não apresentam postura assertiva em nenhuma área da administração. Parecem ocupar um lugar que deveria estar vago, já que detestam tudo que é público. Os exemplos podem ser colhidos na educação e seu desmonte, na saúde pública sem capacidade de articulação, na ânsia de privatização das empresas estatais. Para completar, no estado como na União, a incapacidade de negociação política com o Legislativo é constrangedora.

segunda-feira, 18 de maio de 2020

Necroeconomia em tempos de pandemia e Bolsonarismo

 

Publicado na Carta Maior, em 21.04.2020
Christian Velloso Kuhn*
Lamentavelmente, não é de hoje que governos autoritários e impopulares imputam aos mais pobres maiores doses de sacrifício em períodos de crise ou ajuste. Na ditadura civil-militar brasileira de 1964-1985, o salário mínimo em termos reais (descontada a inflação) foi deprimido em 61% (redução de R$ 1.360,74 em março de 1964 para míseros R$ 537,42 em março de 1985, a valores de abril de 2020). Por conta da aplicação da Teoria do Bolo (crescer para depois distribuir), apregoada por Delfim Netto, ministro de vários governos militares, a concentração de renda subiu consideravelmente no regime civil-militar. Enquanto em 1964, a parcela do 1% mais rico da população retinha algo entre 15-20% de toda a renda do país, ao passo que, com o fim da ditadura, este montante elevou para 30%.

Nesses primeiros 15 meses do Governo Bolsonaro, se os números não chegam a tais patamares, todavia, tão pouco são animadores. De janeiro de 2019, quando assumiu, até março desse ano, o salário mínimo cresceu 4,3% acima da inflação, bem aquém dos primeiros 15 meses do Governo Dilma, quando esta variável aumentou 13,7%, de 3 a 4 vezes mais. Já a taxa de desemprego do trimestre de dezembro de 2019 a fevereiro de 2020 permanece estagnada em 11,6%, mesmo nível do último trimestre de 2018, muito em virtude do crescimento pífio de 1,1% do PIB no ano passado. A lenta retomada da economia é explicada pela aposta que o governo fez nas reformas estruturais como estímulo para a produção, tornando a Reforma da Previdência a bala de prata para recuperar a atividade econômica. A despeito da queda da taxa de juros SELIC ter incentivado o consumo e investimento, sem incremento na renda, a demanda não correspondeu a tal impulso.

Percebe-se, portanto, que o governo Bolsonaro vinha até antes da iminência da pandemia do coronavírus, exercendo uma política econômica muito contida e tímida, calcada basicamente nas reformas estruturais e programas de privatização, em que boa parte pouco avançou até o momento. A crise pandêmica interrompeu essa estratégia e exigiu do governo a adoção de medidas mais contundentes de estímulo à demanda e manutenção do emprego e da renda. Inerte, a equipe econômica demorou para agir, propondo um programa de renda básica emergencial, inicialmente de irrisórios R$ 200,00 mensais por três meses, que foram elevados para R$ 600,00, valores ainda incipientes mas mais próximos do nível do salário mínimo, atualmente em R$ 1.045,00, pouco abaixo de 60%. Adicionalmente, prometeu auxílio aos governos estaduais e municipais na ordem de R$ 88 bilhões, bem como crédito a empresas e outras medidas que juntas representam algo em torno de R$ 750 bilhões, cerca de 5% do PIB.

Um forte razão para a timidez da política econômica do governo para conter o impacto recessivo do isolamento social, imposto por estados e municípios, está enraizada na composição de sua equipe econômica, de ideologia liberal, preocupada muito mais com métricas fiscais, como resultado primário e dívida pública, do que com o bem-estar da população, relegando a segundo plano indicadores como salário e emprego. O fiscalismo tem sido o principal obstáculo para a reação da economia desde antes da pandemia.

O presidente Bolsonaro, por suas estapafúrdias atitudes e infelizes comentários, vem sustentando um discurso que, se no começo, desdenhava do impacto que o COVID-19 teria sobre a população, vulgarmente a denominando de “gripezinha” e “resfriadinho”, com o avanço do número de infectados (atualmente em mais de 30 mil), e mortos (quase 2 mil), concentrou-se no enfoque da necessidade de amenizar os efeitos recessivos provocados pela quarentena, arguindo falaciosamente que o desemprego também pode causar mortes (não necessariamente). Entretanto, ao invés de assumir a responsabilidade do Governo Federal em pôr em prática seu plano de ação de medidas de política monetária e fiscal, engrossou o coro de grandes empresários - a maioria financiou a sua campanha eleitoral - da urgência de rompimento do isolamento horizontal e da abertura da indústria e do comércio. Estes necroempresários chegaram a audácia de discursar nas redes sociais, chantageando com demissões em massa e fechamento de estabelecimentos, inclusive tratando como normal ou natural a morte de milhares de brasileiros, distorcendo fatos e dados, como o mito de que as vítimas se concentram na faixa etária acima de 60 anos.

Não bastasse o canalhismo com requintes de crueldade do presidente e de seus apoiadores necroempresários, economistas de alto escalão do governo deram legitimidade a esse discurso hipócrita e vil. O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, palestrando para investidores do mercado financeiro, deu a entender que havia uma troca entre salvar vidas ou combater a recessão (o que teria causado consternação e constrangimento até mesmo para o seu avô, o liberal Roberto Campos, caso ainda estivesse vivo). Ainda pior, o sempre transloucado e esquizofrênico Abraham Weintraub, que mesmo sem dar conta sequer de sua pasta, a Educação, intrometeu-se defendendo o retorno das aulas, argumentando que não morreriam mais do que 40 mil pessoas, um número abaixo das mortes por acidentes de trânsito.

Esses paladinos da necroeconomia, que alimentam o falso dilema entre mais vidas e mais emprego e renda, saúde versus economia, representam uma desonra à categoria dos economistas e à classe empresarial. São legitimados pelo negacionismo promovido pelo bolsonarismo, rejeitando o uso da ciência para dar sustentação a políticas públicas, e preferindo propagar fake news e interpretações distorcidas de informações e dados a respeito do coronavírus e seu efeito pandêmico. A Economia não pode, nem deve, ser usada demagogicamente, muito menos pelo governo, para se contrapor a área da Saúde. Muito pelo contrário, a Economia tem que ser posta, primordialmente no atual contexto, a serviço da Saúde Pública. As medidas econômicas devem não somente se concentrar em dirimir os efeitos recessivos do isolamento, mas inclusive em estimular a produção de bens, equipamentos e serviços essenciais para a área da saúde, como máscaras, álcool em gel e respiradores, tendo o governo como aliado na disponibilidade de recursos orçamentários, priorizando a Saúde. Isso chega ao ponto de ser consenso mesmo entre economistas da direita (liberais) à esquerda (progressistas e desenvolvimentistas).

Infelizmente, o governo federal, muito porque o presidente possui severas limitações intelectuais, mentais e cognitivas, age na contramão dos demais líderes mundiais que conseguiram conter e amenizar o impacto do coronavírus em suas nações, sem dar sustentação a invencionices como o isolamento vertical ou a dicotomia economia versus saúde propalada pelos necroeconomistas. O desemprego não será a maior ameaça à vida dos brasileiros, até porque se o governo agir, pode mitigá-lo e controlar seus desdobramentos como fome e miséria. A Renda Básica Emergencial é o principal instrumento para isso. Até porque, se de fato o governo estivesse comprometido em combater o desemprego, teria atuado mais fortemente desde o início, ao invés de mantê-la alta e no mesmo patamar. Logo, a preocupação de Bolsonaro com o desemprego não passa de mera retórica hipócrita.

Por isso que a maior ameaça que assola o país hoje é o bolsonarismo, cujos representantes vilanescos pressionam pelo fim do isolamento social e subestimam o risco de provocar o trágico falecimento desnecessário e evitável de centenas de milhares de pessoas, sobretudo os mais pobres, pela pandemia do coronavírus. É sobre os ombros dos mais necessitados que recairá o maior peso das medidas para conter essa crise, contudo, se na ditadura foi reduzindo o poder de compra do salário mínimo, no governo Bolsonaro, será arriscando e sacrificando as suas próprias vidas. Nesse cenário funesto, defender a renúncia ou impeachment do presidente, que é o principal expoente que dá sustentação e vazão aos interesses escusos desse movimento, é também defender a saúde pública e a vida da população, alternativas que merecem ser consideradas pelos representantes dos poderes legislativo e judiciário, bem como por demais membros da sociedade.

*Christian Velloso Kuhn é professor e Economista, Doutor em Economia do Desenvolvimento na UFRGS, Instituto PROFECOM.

sábado, 4 de abril de 2020

Em tempos de pandemia, "A implosão da mentira"

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O poema "A implosão da mentira" de Affonso Romano de Sant'Anna foi publicado em diversos jornais, em 1980, na efervescência da sociedade brasileira que derrotava a ditadura militar (1964 - 1985), mas assistia a mídia comercial, lideranças políticas e empresariais servis contribuírem com a narrativa de defesa dos desvios e atrocidades dos militares. 
Apesar do tempo decorrido, face aos acontecimentos políticos que vimos assistindo nesses últimos tempos, o poema permanece atualíssimo.
Internautas usaram alguns trechos e fizeram várias adaptações do seu conteúdo para criticar o momento em que vivemos.
O poema foi publicado também em várias antologias como "A Poesia Possível", "A implosão da mentira e outros poemas". Junto com o poema "Que país é este?" é um dos mais apreciados pelos leitores do poeta Affonso Romano de Sant'Anna.

Em tempos de ira e pandemia, "A implosão da mentira", a poesia. 
Poema longo, incisivo, visceral, arrebatador e desmistificador. 


A implosão da mentira
Affonso Romano de Sant'Anna*

Fragmento 1
Mentiram-me. Mentiram-me ontem
e hoje mentem novamente. Mentem
de corpo e alma, completamente.
E mentem de maneira tão pungente
que acho que mentem sinceramente.
Mentem, sobretudo, impune/mente.
Não mentem tristes. Alegremente
mentem. 
Mentem tão nacional/mente
que acham que mentindo história afora
vão enganar a morte eterna/mente.
Mentem. Mentem e calam. Mas suas frases falam. 
E desfilam de tal modo nuas
que mesmo um cego pode ver
a verdade em trapos pelas ruas.
Sei que a verdade é difícil
e para alguns é cara e escura.
Mas não se chega à verdade
pela mentira, nem à democracia
pela ditadura.

Fragmento 2
Evidente/mente a crer
nos que me mentem
uma flor nasceu em Hiroshima
e em Auschwitz havia um circo
permanente.
Mentem. Mentem caricatural-
mente.
Mentem como a careca
mente ao pente,
mentem como a dentadura
mente ao dente,
mentem como a carroça
à besta em frente,
mentem como a doença
ao doente,
mentem clara/mente
como o espelho transparente.
Mentem deslavadamente,
como nenhuma lavadeira mente
ao ver a nódoa sobre o linho. Mentem
com a cara limpa e nas mãos
o sangue quente. 
Mentem
ardente/mente como um doente
em seus instantes de febre. 
Mentem
fabulosa/mente como o caçador que quer passar
gato por lebre. 
E nessa trilha de mentiras
a caça é que caça o caçador
com a armadilha.
E assim cada qual
mente industrial?mente,
mente partidária?mente,
mente incivil?mente,
mente tropical?mente,
mente incontinente?mente,
mente hereditária?mente,
mente, mente, mente.
E de tanto mentir tão brava/mente
constroem um país
de mentira
—diária/mente.

Fragmento 3
Mentem no passado. E no presente
passam a mentira a limpo. E no futuro
mentem novamente.
Mentem fazendo o sol girar
em torno à terra medieval/mente.
Por isto, desta vez, não é Galileu
quem mente.
mas o tribunal que o julga
herege/mente.
Mentem como se Colombo partindo
do Ocidente para o Oriente
pudesse descobrir de mentira
um continente.
Mentem desde Cabral, em calmaria,
viajando pelo avesso, iludindo a corrente em curso, 
transformando a história do país
num acidente de percurso.

Fragmento 4
Tanta mentira assim industriada
me faz partir para o deserto
penitente/mente, ou me exilar
com Mozart musical/mente em harpas
e oboés, como um solista vegetal
que absorve a vida indiferente.
Penso nos animais que nunca mentem.
mesmo se têm um caçador à sua frente.
Penso nos pássaros
cuja verdade do canto nos toca
matinalmente.
Penso nas flores
cuja verdade das cores escorre no mel
silvestremente.
Penso no sol que morre diariamente
jorrando luz, embora
tenha a noite pela frente.

Fragmento 5
Página branca onde escrevo. Único espaço
de verdade que me resta. Onde transcrevo
o arroubo, a esperança, e onde tarde
ou cedo deposito meu espanto e medo.
Para tanta mentira só mesmo um poema
explosivo-conotativo
onde o advérbio e o adjetivo não mentem
ao substantivo
e a rima rebenta a frase
numa explosão da verdade.
E a mentira repulsiva
se não explode pra fora
pra dentro explode
implosiva.

Affonso Romano de Sant'Anna - Poemas (sem erros) | A Magia da Poesia*Affonso Romano de Sant'Anna é mineiro, de Belo Horizonte. Mora a 50 anos no Rio. É poeta, cronista, crítico e professor de literatura. É também jornalista. Formado em letras pela UFMG, onde também fez o doutorado sobre obra de Carlos Drummond de Andrade. Publicou diversos livros como "O Desemprego do Poeta", "Que país é este?", "Catedral de Colônia e outros poemas", "O canibalismo amoroso: o desejo e a interdição em nossa cultura através da poesia", "A mulher madura", "A implosão da mentira e outros poemas", entre outros. Professor de literatura da PUC-Rio e UFRJ. Como professor convidado dá aulas de literatura e cultura brasileira em universidades da França, Alemanha e Estados Unidos.