terça-feira, 8 de outubro de 2019

Outra Política: o que aprender com BH

Douglas Resende e Jean-Claude Bernardet lançam um olhar sobre a experiência que sacudiu a esquerda em Minas Gerais e tentam descobrir como ela pode ajudar a encontrar saídas no deserto político brasileiro


Sob os viadutos, as Assembleias Populares Horizontais. Ao contrário do que ocorreu na maior parte das cidades, Junho de 2013 ajudou a organizar uma nova esquerda em BH | Foto: upslon.

Douglas Resende, entrevistado com Jean-Claude Bernardet
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Este texto foi publicado originalmente no blog que Jean Claude Bernardet mantém em Outras Palavras — e onde escreve sobre Cinema, Cultura e Política. Pode ser acessado aqui.
A sequência de derrotas sofridas desde o golpe de 2016 continua atordoando a esquerda institucional brasileiro. O sintoma mais nítido é a perda de horizontes utópicos. Diante de um governo que opera em modo de devastação frenética, escasseiam alternativas. Raras vezes há, inclusive, resistência – ao desmonde da Petrobrás, à censura das obras artísticas por instituições como a Caixa ou ao aumento dos assassinatos policiais, por exemplo. Os partidos comportam-se como se esperassem um fato salvador – um vazamento arrasador da Vaza Jato, por exemplo.
É em meio a este deserto de vontades que algumas ações irrompem e se destacam. Há cerca de uma década, Belo Horizonte testemunha uma delas. Começou ainda no governo Lula, quando se combinavam elementos contraditórios: garantia de novos direitos sociais, emergência das periferias e especulação imobiliária incendiada. Em diversos pontos da capital mineira – assim como em muitas metrópoles brasileiras – surgiram resistências.
Mas, por motivos que é preciso examinar mais cuidadosamente, em BH elas aglutinaram-se e se aprofundaram. A energia das periferias, e de alguns bairros da classe média, atraiu a atenção de estudantes e professores da UFMG dispostos a ir além dos corredores acadêmicos. Surgiram as Assembleias Populares Horizontais, que ocupavam baixos de viadutos. O conjunto da obra foi impulsionado pelo vendaval de 2013 – mas, ao contrário do que se deu em quase todo o país, em Minas ficaram sementes de organização. Em especial, um movimento, o Muitas, que combinava elementos chave. Atuava no território, reivindicava o Direito à Cidade, era claramente feminista e multiplicava encontros entre Periferias e Centro, que repercutiam inclusive num novo carnaval de rua.
Em 2016, novo passo. Embora veja a política muito além das eleições, o movimento também as disputou – de maneira muito inovadora e efetiva, como se verá a seguir. Num ano em que a esquerda colecionou sofridas derrotas, Áurea Carolina, uma candidata negra lançada pelo Muitas (sob a legenda do PSOL) foi a vereadora mais votada.
O experimento de BH tem atraído a atenção de quem vê o Brasil com inquietude e senso de urgência. O cineasta e crítico Jean-Claude Bernardet e o jovem documentarista e professor Douglas Resende, por exemplo. Jean-Claude é, além de diretor, roteirista, ator, escritor e um dos grandes conhecedores do cinema brasileiro, ativista e analista político há décadas. Douglas, hoje professor de Cinema e Vídeo da Universidade Federal Fluminense (UFF) em Niterói, é autor de curtas como “Avenida Junho” e “O primeiro dia depois do fim do mundo”, e do média metragem “Memórias de Izidora”. Sua busca é, como diz Bernardet, “criar um espaço comum na prática do documentário; articular as políticas da cidade e do documentário – Sempre pensando na formação de comunidades”.
Douglas participou ativamente de todo o processo de mobilização política que desembocou na formação do Muitas, em BH. Foi sobre este tema que ele e Jean-Claude dialogaram, na entrevista a seguir. (A.M.)

Douglas Resende, hoje professor na UFF, foi participante ativo dos processos políticos que levaram à formação do “Muitas” em Belo Horizonte

Jean-Claude Bernardet – Você esteve em São Paulo e me relatou aspectos da vida política de Belo Horizonte, falou das Muitas. Me interessei por não ser um movimento centralizado, o militante não espera que o cidadão chegue até ele, mas é ele que se desloca.
Douglas Resende – Posso falar dessa experiência mais como observador, testemunha um tanto distanciada desse processo específico, mas com uma relação afetiva forte com as pessoas e movimentos que o compõem. Estive mais presente em BH nos anos que precederam a criação das Muitas.
Tem algo importante que é específico de BH. A cidade tem um problema que esteve constantemente na pauta dos novos movimentos sociais – a questão do espaço público.
BH é uma cidade um tanto claustrofóbica, há uma falta de espaços de convívio, parques, praças… Uma cidade árida, quase não tem água, pouco verde. Urbanisticamente, é uma cidade trágica. Uma angústia compartilhada pela juventude principalmente. Há uns dez anos, começou um movimento de ocupação das ruas, de praças que eram abandonadas ou cujo uso era cerceado pela administração de um prefeito-empresário que se esforçava por privatizar esses espaços ou por “protegê-los” da própria população. Esses novos movimentos começaram a se encontrar, a se formar, a atuar juntos, na rua.

Batalha de MCs no Viaduto Santa Tereza: um dos pontos de encontro entre Periferias e Centro

Por volta de 2008-2009 esses novos movimentos começam a ganhar visibilidade, O movimento de moradia era especialmente forte. Uma juventude com muita energia, aliada a famílias de baixa renda, com grandes dificuldades de pagar aluguel, inicia uma série de grandes ocupações de terra na cidade, recolocando em pauta o problema central do acesso à terra, da “justiça socioespacial”, do “direito à cidade”, uma expressão que começou a ter bastante adesão. A ocupação Dandara, na região norte da cidade, foi a mais marcante nesse momento. Uma ocupação planejada por uma organização chamada Brigadas Populares, formada sobretudo por advogados.
Nesse contexto das ocupações urbanas, vão ressurgindo pequenos blocos de carnaval pela cidade, o que era uma coisa surpreendente, porque BH não tinha nenhum carnaval. Com os blocos, começa a se dar uma outra forma de ocupação dos espaços públicos. Era uma reação a essa “claustrofobia”, que provocava isolamento e nos distanciava da política.

Jean-Claude Bernardet, cineasta, escritor e ativista, fala no Festival de Cinema de Tiradentes

JCB – Que idade você tinha na época?
DR – Um pouco menos de 30. O carnaval é importante porque graças a ele começaram a se formar pequenas comunidades espalhadas pela cidade, atravessadas por um sentido político forte. Elas surgiam em conexão com as questões políticas e urbanas mais imediatas. Então os blocos começam a ocupar os espaços em diálogo com outros movimentos políticos, inclusive os de moradia, contagiando esses movimentos com paixões, alegria, com a festa.

As ocupações das ruas pela multidão em 2013 aconteceram em BH de uma maneira singular, porque ajudaram a fortalecer os movimentos de esquerda que se formavam e a criar outros. Isso fica evidente naqueles registros das Assembleias Populares Horizontais (APHs) que aparecem no Avenida Junho, o filme em que você fez uma intervenção na montagem. Reuniam, às vezes, milhares de pessoas debaixo de um viaduto para discutir as pautas políticas mais importantes da cidade.
JCB – Onde?
DR – Debaixo do viaduto Santa Tereza, no centro da cidade. As APHs aconteceram a cada 2ou 3 dias ao longo de junho. E ali se formavam grupos de trabalho, como o da “reforma urbana”, o de mobilidade – uma pauta importante naquele momento. Este último, por exemplo, se desdobrou num novo movimento, atuante nos anos que se seguiram: o Tarifa Zero BH. Dali surgiram outros grupos que, ao longo dos anos, se desdobram em outros novos movimentos sociais. Forma-se um novo contexto de movimentos na cidade, descolados dos antigos, com novas propostas, novas perspectivas políticas e constituídos de uma pluralidade de sujeitos. Desde grupos militantes e famílias sem-teto que ocupavam terras que não cumpriam sua função social. Com essas ações diretas, grupos como as Brigadas Populares e o Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB) fazem um trabalho de base importante. Envolvem inclusive professores e estudantes universitários, especialmente da Escola de Arquitetura da UFMG, que até hoje dão suporte técnico às ocupações e outros territórios da cidade. Surgiam redes de advogados, arquitetos, artistas etc., que uniam seus esforços para atuar em vários territórios da cidade. Isso tudo se intensifica em 2013. Nesse ano se dão duas ocupações urbanas de naturezas muito diferentes mas igualmente marcantes para BH – a Izidora, uma enorme ocupa de moradia numa das franjas da cidade, e o Espaço Comum Luiz Estrela, que tomou e reabriu um casarão histórico abandonado pelo Estado havia 20 anos.

Ocupação Izidora, onde ocorreram muitas das reuniões que levaram à formação do Muitas

JCB – Situado onde?
DR – No bairro Santa Efigênia, região central, você esteve lá. Ali se formou uma comunidade ligada às artes, ao patrimônio histórico, à permacultura… A ação direta que abre as portas e janelas do casarão, em outubro de 2013, foi uma intervenção política e estética no cotidiano daquele bairro, com um trabalho intenso de teatro, de vídeo, arquitetos e advogados que recebiam a Polícia Militar montados…
JCB – Montados?
DR – Se travestiam, usavam fantasias como num bloco de carnaval, ao mesmo tempo em que falavam uma linguagem jurídica impecável.

Havia então essa pluralidade incrível. Militantes de movimentos populares com discursos marxistas de repente eram contagiados por expressões do carnaval, conviviam com anarquistas, artistas, moradores de rua… Naquele momento usamos muito a palavra “comum”, evocando um espectro político que se referia a processos mais horizontalizados. Um “espaço comum” parecia uma ideia que dava conta dessa pluralidade de vidas. Perturbar a ordem do privado e do público era uma preocupação política e estética forte.

Fiz uma contextualização um pouco caótica desse ambiente político e cultural efervescente na cidade com muitas ações diretas, para chegar onde você queria. Lembro que no campo institucional tínhamos o oposto, vivíamos um governo municipal terrivelmente fascista.
JCB – Não era mais o PT?
DR – Depois de mais de dez anos no poder, o PT articulou uma coligação com o PSDB, o que foi uma tragédia. Em 2008, o então prefeito Fernando Pimentel, um dos quadros mais conservadores e neoliberais do PT, se alia ao Aécio Neves e decidem criar um personagem, o Marcio Lacerda, filiado ao PSB. Ele nem existia como político, era um empresário super-rico, com casa numa ilha em Angra dos Reis, sempre foi o prefeito mais rico do Brasil. As máquinas do PT e do PSDB, que ocupavam a prefeitura de BH e o governo de Minas, o elegeram uma vez. Depois, mesmo com o PT assumindo o erro e rompendo com Lacerda, ele conseguiu se reeleger, numa derrota traumática de Patrus Ananias, que tinha sido um ótimo prefeito nos anos 90. Lacerda ficou longos oito anos. Importaram do Rio de Janeiro o secretário de planejamento urbano, Marcelo Faulhaber, um economista com um pensamento empresarial, ultra-neoliberal.

“Praia da Estação”, na antiga estação central de BH. Em metrópoles dominadas pelo automóvel e cimento, criação autônoma de espaços de lazer tem forte sentido político

Pensavam a cidade como negócio particular. Essa coligação eliminou inteiramente o dissenso na política em Minas, não havia mais oposição. Conchavados, os dois partidos implantaram seu projeto e não havia resistência. Era uma situação institucional ruim, repressora, tínhamos que reagir às constantes investidas violentas do capital, como remoção de comunidades, vendas de propriedades públicas, privatização dos espaços públicos etc. Os anos Lacerda foram marcados por esse embate de uma política institucional ultra-conservadora e uma realidade político-social efervescente, com uma juventude ativa que criava ao mesmo tempo formas de resistência e novas comunidades político-culturais. Esse descompasso provocava um grande cansaço e seguidas derrotas diante da máquina estatal.
Foi então que começou a circular um chamado para um encontro numa certa tarde de sábado, um sábado de 2015. Compareceram umas 30 a 40 pessoas que se reuniram em círculo num gramado do Parque Municipal. Eram pessoas ligadas a diferentes comunidades da cidade, todas essas que já mencionei – movimentos de moradia, do Tarifa Zero, ocupações urbanas, blocos de carnaval, advogados, arquitetos, artistas, ativistas em geral. Durante todo o encontro praticamente não se mencionou a palavra “eleição”, mas de algum modo todo mundo ali sabia que estávamos reunidos para pensar um projeto para as eleições municipais de 2016. Isso de não ter se discutido as eleições naquele primeiro encontro me pareceu de uma maturidade política importante, não havia ansiedade para se tomar decisões rápidas, ao mesmo tempo se mantinha a inquietação necessária para gerar um movimento.
O que acontece a partir dessa conversa? Decide-se que haveria outro encontro, e que ele se daria num território de resistência, uma luta urbana que ficou conhecida como Parque Jardim América, num bairro residencial na região oeste da cidade.
JCB – Bairro residencial elegante?
DR – Não, de classe média modesta. Ali tem uma área verde que ocupa um quarteirão inteiro e, dado o seu valor de mercado e o fato de ser uma propriedade privada, uma grande construtora decide comprar o terreno para realizar um empreendimento imobiliário. Além de eliminar a área verde, isso traria um impacto sensível no bairro, uma perda da qualidade de vida – aumento do trânsito, da temperatura etc. Se inicia então uma mobilização entre os moradores no sentido de impedir o empreendimento. Creio que uma das lideranças desse movimento havia comparecido àquele primeiro encontro no Parque Municipal e convidou para que a reunião seguinte fosse no Parque Jardim América. E assim aconteceu.
Agora com uma divulgação maior e mais pessoas participando, um bairro de família mineira tradicional que não tinha uma vida política e cultural intensa, naquele dia recebeu um fluxo de pessoas vindas de outros lugares da cidade, de outras comunidades que se misturavam aos moradores locais.
Veja aí de novo o tema da pluralidade de lugares que mencionei antes. Nesse segundo encontro as questões específicas do bairro e do Parque Jardim América foram debatidas mas em relação com outras resistências da cidade, com outros territórios. É interessante notar que aquele território já era chamado de “parque” antes de o ser, ou seja, o parque começa a existir no imaginário, projetado pela vontade da própria comunidade num enfrentamento com o poderoso capital imobiliário.

Carnaval de rua. Também em BH, ele ressurgiu. Com algo a mais: forte presença dos blocos na periferia | Foto: Samuel Costa, Hoje em Dia

Nesse segundo encontro, surge o convite para um terceiro, numa outra comunidade de resistência. Foi no Cafezal da Serra, uma vila do Aglomerado da Serra, a maior favela de BH, na região centro-sul. Num certo momento, a vila iria passar por uma intervenção urbanística. Técnicos da prefeitura vieram com um diagnóstico que apontava o lugar como área de risco e que, por isso, seria necessário remover algumas dezenas de moradias. A população, que vivia ali havia décadas, se mobilizou para que a intervenção não acontecesse. Iniciaram a plantação de árvores frutíferas, bananeiras em especial, que ajudam a dar sustentação ao terreno. Enquanto isso, professores da UFMG e da PUC ofereceram um apoio técnico à comunidade e fizeram uma análise do solo, concluindo que os técnicos da prefeitura estavam equivocados. Mostraram que as placas geológicas daquele terreno estavam dispostas de forma a dar estabilidade à encosta, e com o trabalho da comunidade e o seu pomar não haveria risco de deslizamento. Logo, não haveria necessidade de remoção. Nascia assim um território de resistência e um espaço de convívio da comunidade, que ficou conhecido como pomar do Cafezal e passou a existir na cartografia afetiva da cidade.
O encontro se dá nesse espaço de resistência – mais um! Ali se discute de novo o caso específico de resistência daquele território em relação com o contexto macro da cidade e com a presença de muitas pessoas de outras comunidades. Me lembro bem que esteve presente nesse encontro um morador de um bairro chamado Ribeiro de Abreu, situado no outro extremo da cidade, na região norte, por onde corre o Ribeirão do Onça. Há alguns anos, a comunidade do bairro desenvolve um trabalho de revitalização do ribeirão. De forma autônoma, em mutirões dos moradores, constroem aos poucos o que passaram a chamar de Parque Linear do Ribeirão do Onça. Aquele morador do bairro que estava presente à reunião no pomar do Cafezal faz o convite para que o próximo encontro se dê em sua comunidade. De novo, mais um encontro vai se dar num espaço de resistência, situado numa franja da cidade, pouco ou nada frequentado por quem está no centro e que passa a existir nessa cartografia que vai se constituindo.
No ano seguinte, em 2016, o bloco de carnaval Tico Tico Serra Copo escolhe o bairro como trajeto e leva centenas de pessoas pra lá, criando um trânsito de pessoas de outros territórios. O bloco terminou o seu cortejo às margens do rio, numa bela praia, mas com água ainda poluída, já que a sua limpeza não depende só da comunidade. Foi um momento forte de criação de laços entre grupos e lugares diferentes da cidade. No bloco, as pessoas se conhecem, conversam, criam relações.

Carnaval de rua: o bloco Filhos de Tcha Tcha na Ocupação Izadora, em 2015

O quinto encontro, se não me engano, foi no Espaço Comum Luiz Estrela, que já mencionei. Mais uma comunidade de resistência da cidade. Digo resistência porque todos esses territórios têm uma proposta de autonomia na produção do espaço e de enfrentamento do capital e dos poderes dominantes que querem impor um modelo de relações com os espaços, com a vida, à revelia das pessoas. São situações em que as comunidades tomam o poder de produzir o espaço, independente do Estado e do capital, até onde seja possível.
No encontro do Estrela, o tema da eleição já estava colocado e já se discutia quem seriam as pessoas que, digamos, se sacrificariam para assumir a tarefa de atuar na política institucional. A pauta desse encontro era qual seria o nome dessa espécie de plataforma que se organiza. Surge então o termo “Muitas”, que tem a ver com essa multiplicidade de territórios, de pessoas, de relações.
O tema da eleição passa a ser crucial. 2016 se aproxima, deve haver definições para a participar do jogo eleitoral. Mas como fazer para que um movimento não-partidário caiba num pensamento eleitoral? No Brasil, ao contrário de outros países, não é possível se candidatar a cargos executivos ou legislativos sem filiação a um partido. Esses novos movimentos sociais não estavam, em geral, conformes às velhas formas políticas, do partido, do sindicato… Mas, ainda assim, havia nos encontros pessoas que eram ao mesmo tempo parte dos movimentos e filiadas ao PSOL, talvez o único partido que se permita estabelecer relações com esses movimentos políticos contemporâneos.
Eu me lembro que, a caminho daquele primeiro encontro na tarde de sábado no Parque Municipal, eu conversava sobre esse impasse com um amigo. E comentei: “Acho que a única saída seria usar o CNPJ do PSOL.” Pedi que não comentasse isso na reunião porque provavelmente haveria pessoas do PSOL e isso pegaria mal naquele momento. Ele me desobedece: não apenas reproduz o comentário como me dá o crédito. Recebo olhares de reprovação das pessoas ligadas ao partido. Mas é exatamente isso que viria a acontecer. Em algum momento desse processo – quando eu já não acompanhava mais os encontros – as Muitas reivindicam ao PSOL participar das eleições pelo partido. Esses membros do PSOL levam a demanda ao partido, que apresenta intensa resistência.

Áurea Carolina comemora, com apoiadores, eleição para a Câmara, em 2016 | Foto: Aline Correia

JCB – As Muitas apoiaram um candidato?
DR – Não. As Muitas propõem candidatas, são as próprias Muitas que se candidatam, entendeu? Houve uma batalha intensa no partido mas o núcleo do PSOL que defendia as Muitas acaba vencendo, o que chega a causar um certo trauma no partido. Então as Muitas apontam um grupo de candidatas a vereadoras.
JCB – Vereadoras?
DR – Sim, disputar a prefeitura naquele momento seria um passo maior que as pernas.
JCB – Só mulheres?
DR – A maioria mulheres, uma trans, alguns homens. Dentre elas, a Áurea Carolina, uma jovem negra com muita desenvoltura. Ela estava na casa dos 30 e vinha de uma intensa atuação no campo de políticas para juventude. Tinha trabalhado, inclusive, como educadora no campo do audiovisual, na AIC (Associação Imagem Comunitária). Entre as outras candidatas estavam a Cida Falabella e a Bella Gonçalves, cientista política e militante das Brigadas Populares, organização na qual atua há anos no campo do direito à moradia.
A campanha das Muitas se dá através de uma grande rede de voluntários, pessoas ligadas aos movimentos e comunidades que compõem a plataforma e outras que foram aderindo ao longo do processo, e também com financiamento via doações de pessoas física através de crowdfunding. De repente as Muitas revelam uma forte capacidade de mobilização, atraindo sobretudo uma juventude disposta a atuar politicamente.
Áurea acaba tendo a maior votação da história da Câmara Municipal de BH: 17 mil votos contra 11 mil do segundo lugar, que era um desses homens brancos, velhos, já com vários mandatos, a cara clássica do político. O PSOL nunca havia elegido um vereador em BH. Com essa votação, a Áurea leva mais uma vereadora das Muitas, a Cida Falabella.
JCB – Uma atriz?
DR – Sim, atriz e encenadora muito politizada, com uma pesquisa brechtiana. Mantém um teatro no bairro Serrano, divisa com Contagem, a ZAP 18 – Zona de Arte da Periferia, onde me lembro ter visto, há uns 15 anos, uma bela montagem de Mãe Coragem. Ela segue uma linha política interessante: trabalha com temas do território. Ela teve uns 3.500 votos, mas foi puxada pela votação da Áurea e eleita pelo coeficiente eleitoral.
Agora – isso é importante – ao invés de criar gabinetes individuais, como é o normal, elas criam o que passa a se chamar até hoje uma “Gabinetona”, onde ficam as duas vereadoras eleitas mais a Bella Gonçalves, que não havia sido eleita mas teve pouquíssimos votos a menos que a Cida. Por isso, acabou sendo acolhida pelos mandatos das duas, integrando também a Gabinetona. Esse modo coletivo de organizar os mandatos causou impacto na Câmara diante da lógica individual tradicional dos gabinetes. Era um novo modo de ocupação daquele espaço.

As quatro candidatas eleitas pelo “Muitas”: Cida Falabella, Andreia de Jesus, Bella Gonçalves e Áurea Carolnia

O caso desse mandato coletivo em BH é singular, porque um único gabinete acolhe vários daqueles movimentos que participaram da criação da plataforma e agora participam ativamente do mandato. Cria-se então na Câmara um trânsito de sujeitos outros, corpos que jamais tinham tido presença legítima ali dentro, algo que há pouco tempo parecia impossível.
No momento atual estamos perdendo muito no campo democrático, obviamente. Mas por outro lado há também criação de possibilidades que não existiam no campo da esquerda, de uma esquerda renovada, que não se adequa tão docilmente às lógicas partidárias tradicionais. A Gabinetona é um bom exemplo disso.
As Muitas entram na Câmara, na política institucional. Dois anos depois vêm as eleições federais. Áurea Carolina e as Muitas decidem que ela vai se candidatar a deputada federal. É de novo uma campanha colaborativa. Muita gente panfleta nas ruas da cidade. Nos vídeos de propaganda das candidatas das Muitas, cada uma pede votos para outra candidata; e a outra pede voto para uma terceira dentro da plataforma. Há uma mudança sensível nos discursos, nas formas de abordar a eleição, o voto.
Áurea foi a quinta deputada mais votada de Minas, bem mais que o Aécio Neves, por exemplo. Ela teve voto em 95% dos municípios mineiros, de novo uma votação expressiva. Ela é a única eleita das Muitas para esse cargo, mas o movimento consegue eleger também uma deputada estadual, a Andreia de Jesus, outra jovem mulher negra, militante das Brigadas Populares, aquele mesmo movimento que vinha tendo uma intensa prática de ação direta de ocupação de terrenos sem função social, tanto na periferia como em prédios do centro, mas também com atuação em diversas outras frentes políticas.
Apesar da saída da Áurea, as Muitas continuam na Câmara de BH, Bella Gonçalves assume, agora oficialmente como vereadora da Gabinetona. A ocupação se amplia para a Assembleia de Minas e o Congresso, com a Áurea – a bancada do PSOL junto com Freixo, Erundina e companhia.
JCB – E o trabalho da Áurea e da Cida como vereadoras foi o que vocês esperavam?
DR – Vivendo agora no Rio, acompanho esse trabalho de longe. Mas é certo que não há grandes frustrações. Tanto que a Áurea se elege expressivamente deputada federal. Claro que há tensões internas. Por mais que a Gabinetona instaure na Câmara um modo de trabalho mais horizontal e coletivo, tem que conviver com a centralidade dos vereadores, das lideranças… Surgem conflitos entre os diferentes movimentos e organizações que compõem esse trabalho. Não é um contexto de consenso, há muitos dissensos; imagino que isso consuma parte das energias. Talvez essa seja a maior dificuldade: produzir um trabalho que consiga lidar com essa multiplicidade radical. A Gabinetona possui quase uma centena de pessoas trabalhando diretamente no mandato coletivo… Não dá pra ser fácil.
Outro problema é ser minoria na Câmara. O que tem ajudado, em algum nível, é que ganhou um prefeito um tanto mais progressista, com um certo populismo, o Alexandre Kalil. Ele foi presidente do Galo
[o Clube Atlético Mineiro]
durante anos. Ganhou as eleições com um discurso que agradava a esses novos movimentos, embora num primeiro momento esse campo tenha lançado a campanha “não vote goleiro [em referência à candidatura de João Leite pelo PSDB] nem cartola, vote Izidora 99”, sugerindo voto nulo com um manifesto pró-ocupação Izidora. Mas o fato é que o prefeito tem cumprido alguns compromissos importantes com os movimentos, como o reconhecimento de algumas ocupações urbanas, incluindo a Izidora, e o convite para que Juca Ferreira assumisse a secretaria de Cultura.
JCB – O sucesso eleitoral alterou alguma coisa nos movimentos sociais? Ganhamos, e por isso continuamos? Ou já ganhamos e arrefeceu?
DR – Acho que fortaleceu, porque parte desses movimentos começam a ganhar uma estrutura e recursos para trabalhar, começam a participar do trabalho na Câmara e a interferir em alguma medida na política pública. Por exemplo: a Gabinetona lançou já duas edições de um edital com recursos vindos da doação dos salários das suas vereadoras, com prêmios de R$ 5 mil para 15 projetos sociais e culturais da cidade. Isso diz algo importante tanto sobre um modo heterodoxo de gestão de recursos, como sobre formas possíveis de “democracia direta”, incentivando a participação política efetiva na cidade.
Sua pergunta tem a ver com um perigo de cooptação?
JCB – Sim.
DR – Acho que não.
JCB – O PT fez muito isso.
DR – O caso das Muitas é diferente. É uma concepção de política distinta da dos partidos até então. Qual foi o impacto no PSOL? Considero, no Brasil contemporâneo, o gesto político mais radical de um partido: se abrir a uma plataforma política que vai se candidatar em seu nome, onde ele mesmo não possui centralidade, onde o partido não tem poder absoluto. Posso estar enganado, mas… Esse processo já provoca deslocamentos, perturbações na ordem partidária eleitoral.

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