segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Buritizeiro: Governo de Minas cria Museu das Culturas do Rio São Francisco

Os Gerais  ganham Museu da vida barranqueira, às  margens do São Chico.
Iniciativa do Governo do Estado define o lugar para sistematizar conhecimento e arte, resgate de costumes e troca de saberes das barrancas do Rio São Francisco.
imagem de destaque
A estrutura de 105 anos foi projetada pelo arquiteto italiano Miguel Micussi
Uma das mais tradicionais e imponentes construções do sertão mineiro, com mais de um século de história, tornou-se oficialmente Museu das Culturas do Rio São Francisco. No local funciona também o Centro Educacional de Buritizeiro, da Fundação Caio Martins (Fucam), instituição que completou 70 anos de existência em 2018. 
A oficialização do museu é uma iniciativa do Governo do Estado, por meio da Portaria 010/2018 da Fucam, publicada em 21 de novembro de 2018.
Em 1° de setembro o casarão já havia sido tombado como Patrimônio Histórico Estadual de Minas Gerais, conforme deliberação do Conselho Estadual de Patrimônio Cultural. 
Situado na margem esquerda do “Velho Chico”, em Buritizeiro, no norte de minas, o prédio, que chama a atenção pela grandeza, está distante 365 km da capital Belo Horizonte; 218 km de Montes Claros; 228 km de Curvelo. Apenas uma ponte de ferro sobre o rio São Francisco, de 692 metros de extensão e 8 de largura, construída na década em 1922, separa Buritizeiro de Pirapora.
A estrutura de 105 anos foi projetada pelo arquiteto italiano Miguel Micussi e erguida pela Marinha do Brasil para abrigar a Escola de Aprendizes Marinheiros de Minas Gerais, curso oferecido durante dez anos.
Em seguida foi Escola de Agricultura, Hospital Regional Carlos Chagas, referência no combate às epidemias presentes no sertão daquela época e, posteriormente, unidade da Fucam, que ainda trabalha com cursos complementares para jovens em seis municípios mineiros.
Segundo o presidente da Fucam, Gildázio Alves dos Santos, existe um movimento da comunidade, formado por servidores da Fucam, ex-servidores e ex-alunos do entorno, que se mobilizou pelo museu. “Isso nos inspirou a criar um espaço de fruição conhecimento, troca de saberes, resgate de valores e de costumes. Um lugar para sistematizar o que é produzido ali na barranca do São Francisco”, explica.
Gildázio Santos ressalta que existe uma riqueza cultural da região que precisa ser sistematizada no espaço definido, valorizando o que se faz ali, referindo-se às artes, produção de alimentos, culinária, literatura e outras formas de expressão do povo barranqueiro.
Servidora da Fucam há 15 anos, com formação em magistério superior e serviço social, Maria Alice Correa, que coordena o Comitê de Implantação do Museu das Culturas, fala do espaço com entusiasmo. “A nossa ideia e o nosso propósito aqui é de trabalhar a cultura regional, a dimensão histórica e patrimonial”.
Maria Alice conhece bem o lugar e sabe dos desafios que existem relacionados à estrutura física de um prédio centenário que sofre das ações implacáveis do tempo. Mesmo assim ela se diz otimista quando se refere à restauração, começando pelo telhado. “É um sonho não apenas da Fucam, mas de Buritizeiro e região, pois é um prédio histórico muito bonito, que precisa ser restaurado para continuar produzindo riqueza cultural”, afirma.
A coordenadora do Comitê de Implantação do Museu detalha que atualmente o espaço está recebendo exposições da arte que é produzida na região. Ao mesmo tempo, os servidores da Fucam estão recebendo capacitação do Sistema Mineiro de Museus, ligado à Secretaria de Estado de Cultura, para que a implantação ocorra dentro das normas estabelecidas para esse tipo de equipamento cultural.
O acervo do Museu das Culturas visa contemplar Buritizeiro, Pirapora e todos os municípios da extensão do Rio São Francisco, inclusive de outros estados. “Nossa equipe vai receber o acervo que pode ser composto por vestimentas, peças artísticas, instrumentos musicais, ferramentas rudimentares que fazem parte da história do povo barranqueiro, bem como arquivos físicos e digitais”, conclui.
Como representante da comunidade de Buritizeiro, o ex-aluno da Fucam, hoje aposentado, Olímpio Rodrigues da Silva diz que o prédio tem um significado especial, pois a cidade nasceu em torno dele.




Crédito: Michelle Parron/Fucam

“É uma história de muita relevância que foi escrita a partir da iniciativa de um coronel para acolher crianças carentes. Eu fui uma dessas crianças e graças ao tempo em que lá estive, pude estudar, trabalhar e ser um homem de bem. A relação com aquele lugar é semelhante a de um filho com a mãe”, revela animado com a ideia de um museu concebido com a sua participação.   
História viva da Fucam
O presidente Gildázio explica que a opção da Fucam fechada em si mesma não ajudava a fortalecê-la, razão pela qual houve construção de uma abertura para os anseios das comunidades locais nos territórios onde as unidades estão inseridas. “A nossa história está muito ligada ao São Francisco e ao que se produz no entorno do rio. A criação do Museu das Culturas não será apenas para guardar objetos antigos, mas torná-lo um espaço vivo que dissemina conhecimento, dialoga com a literatura de Guimarães Rosa e se abre para a história das comunidades ribeirinhas, os geraizeiros e os vazanteiros”, argumenta Gildázio.
Restauração do prédio
Com a parceria do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico (Iepha), a Fucam já tem pré-projeto das necessidades de restauração do prédio de Buritizeiro, destacando as mais imediatas como o telhado, as instalações elétricas e hidráulicas. Houve mobilização da comunidade da região e conseguiu-se a inserção de uma emenda popular de R$2 milhões no orçamento de 2019, destinados ao começo da restauração do Museu das Culturas.
“O telhado é o mais urgente. No segundo andar o piso é de madeira e não podemos colocar pessoas para nenhuma atividade, pois todas correriam risco. Assim estamos obedecendo às recomendações do Corpo de Bombeiros para que consigamos esperar os recursos”, disse Gildázio.
Estrutura da Fucam em Buritizeiro
O número total de servidores entre efetivos, designados e terceirizados chega a 30 para realização de todas as atividades oferecidas. O presidente relata que existe um polo de educação integral em funcionamento com atendimento a mais de 300 estudantes de escolas estaduais.
O trabalho é realizado em parceria com a Secretaria de Estado de Educação (SEE) que designa 18 servidores para atender os alunos em atividades complementares no Centro Educacional. São oferecidos reforço escolar, iniciação musical, cursos de agroecologia e hortas.
Outra parceria também se dá entre a Fucam e a Prefeitura de Buritizeiro beneficiando 100 alunos com atividades complementares depois das aulas regulares. Para isso, três servidores municipais são deslocados para o Centro Educacional de Buritizeiro.
O presidente Gildázio ratifica que a Fucam é uma instituição aberta também às famílias dos alunos com curso diversos, numa parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar).  São oferecidos cursos de culinária, panificação, práticas ambientais e higienização. A expectativa, segundo ele, com o Museu das Culturas é abrir ainda mais a Fucam. 
Fonte : Agência Minas com alterações

Atenção, professores e professoras! Para o Bolsonaro, educação e conhecimento são muito perigosos!

domingo, 30 de dezembro de 2018

"Governar não é fazer da guerra uma rotina" , alerta o jurista Eugênio Aragão.

Um governo de pichadores de paredes vem aí. 

Por Eugênio Aragão*

 
Clã Bolsonaro: (da esquerda para direita) Carlos, Flávio, Jair e Eduardo posam para foto em Taiwan
É a cultura do “nuisance”. Incomodar. Encher o saco, na linguagem popular. É isso que os protagonistas da “nova ordem” aprenderam a fazer desde 2013, contando com os olhares condescendentes e, quiçá até, simpáticos da mídia e de carreiras de estado. Uns meninos travessos com pais que sempre lhes passaram a mão na cabeça.
O tipo do pichador de paredes sem arte. Uma contracultura sem ser cultura. Gostam de chocar, causar comoção e sobretudo criar confusão. Têm verdadeiro orgasmo quando submetidos a críticas irritadas dos incomodados. Isso pode funcionar – e funcionou – como forma de promover oposição inconsequente e predatória a um governo de que parte do establishment queria se livrar.
Mas funciona para governar? E governar com esse establishment que ficou lhes lançando piscadinhas cândidas durante a derrocada do governo democrático de Dilma Rousseff? Com certeza não. As trapalhadas infantis de Eduardo Bolsonaro em suas andanças norte-americanas e em seus palpites sobre política externa mostram um total despreparo dessa turma para as graves funções de governo.
Governar não é fazer da guerra uma rotina. A guerra, hoje, só é legítima na defesa daquilo que é fundamental e inafastável, quando o núcleo de valores é atacado de modo a colocar em risco a própria sobrevivência de quem o adote. O uso da força é “ultima ratio” e não começo de conversa. Só se guerreia quando há perspectiva de perda, eis que, para conquistar, é melhor a tratativa política. Quem governa não cria conflito de graça, porque além de exigir energia na briga, a exige também para terminá-la. E energia não se joga fora, principalmente quando pode fazer falta para outras ações de governo mais produtivas.
Governar pressupõe um ambiente de paz, em que se podem construir consensos parciais. Exige transigência e capacidade de ouvir mesmo o que não se gosta de ouvir. Não se fere adversários por esporte, porque é melhor tê-los dispostos para negociar quando preciso for. A violência não leva a nada, a não ser ao travamento do diálogo, que deve ser permanente, para dentro e para fora da sociedade doméstica.
Governar exige compostura. Quem ganha tem o dever de ser generoso com o vencido se quiser que sua vitória seja sustentável. Adversário nem sempre é inimigo, sobretudo quando estão em jogo interesses comuns. É preciso sobretudo lembrar sempre que o mundo é redondo e gira. Para quem tem a prática da violência como modo de governar, isso é perigoso, pois sempre haverá o dia da caça e o dia do caçador. É a velha e batida terceira lei de Newton: a toda a ação corresponde uma reação de mesma intensidade, em sentido contrário.
Por isso tudo, o presidente eleito faria muito bem em se comportar como tal e, na qualidade de pater familias, mandar seus rebentos cretinos calarem a boca. A marola que esse trio de Katzenjammer-Kids provoca trabalha contra a sustentabilidade de seu mandato. Se não houver esse corretivo, a perspectiva é que aquilo que se chamará de “governo” Bolsonaro será extremamente breve. Não por ação da esquerda. Mas por causa das paredes, pois não haverá delas o suficiente para tanta pichação ignorante.
Eugênio Aragão , advogado, jurista, foi do Ministério Público Federal e ex-Ministro da Justiça.

Aguenta, Brasil! Ultracapitalismo vem aí!


"Isso que vem aí não é neoliberalismo. 
É ultracapitalismo!"

O neoliberal compra e suborna político para gerar lucro. 

O ultracapitalismo sequestra o Estado e elege seu lobista ou representante de vendas. O ultracapitalismo não tem nenhuma responsabilidade com a democracia. 
Pra ele, melhor sem.

Não estranhem o descaramento. O golpe do mercado rentista, contra democracias do mundo, é descarado.

O neoliberalismo escondia o interesse da elite, num candidato com "jeitão que o povo gosta e respeita".

O ultracapitalismo compra eleição com Caixa 2 e resolve o problema, se não der muito na cara, já no primeiro turno.

Pro ultracapitalismo não existe nem direita, nem esquerda, nem democracia.

Isso que está aí também não é "direita", são youtubers, são fakes, são memes, são trolls...

Essa é a trash política do ultracapitalismo.

A elite brasileira sempre acompanhou o movimento global de capitais, até por questão de sobrevivência e permanência no poder. Usou e abusou do país pra enriquecer. Destruiu o solo do nordeste, levou até o último pau-brasil daqui, contrabandeou minério e pedras preciosas, enriqueceu com comércio e exploração escrava, ingressou na política e manteve 4 ou 5 gerações com dolo do patrimônio público e exploração de mão-de-obra, no poder. Nos anos 90, ingressou no mundo dos negócios e passou a viver do rentismo. Vendeu empresas familiares pra marcas estrangeiras, ficava com 20% das ações da nova empresa, passando a vida de pernas pro ar, jogando golfe, tomando sol nas praias virgens da Bahia.

Nossa elite roubou o que tinha que roubar, explorou o que tinha que explorar, enganou o que tinha que enganar, sai da economia patrimonial e vira sócia dos donos do mundo.

Não cabe indignação da nossa parte, porque Bolsonaro só indica lobista. Porque o #Caixa2doBolsonaro elegeu governadores-empresários, inquilinos do NOVO, num mesmo #ZapGate.

Tá tudo desenhadinho. O golpe da Janaina Paschoal, a "Ponte para o Futuro", o processo contra Lula, a condenação unânime... Era isso que queria o mercado. Os que dominam o mercado do petróleo, da energia, do combustível, de fármacos e de serviços, em todo o planeta.

Nossa elite entregou o Brasil com comida, água, luz e gasolina pagas por 30 anos, mais 210 milhões de pessoas pra lavar, passar, cozinhar e carregar peso, de graça.

Com o controle do Estado, do Banco Central, da Casa da Moeda com todo o tipo de informação privilegiada, pra ganhar mais dinheiro nas bolsas mundiais e articular golpes financeiros, nossa elite já elegeu seus trash-memes e, como eles mesmos confessaram, gastaram muito menos dinheiro em whatsapp.

Não cabe indignação. Cabe denúncia. O ultracapitalismo comprou a Democracia Brasileira em pacotes do whatsapp. 

O "elenco Bolsonaro" é a distração de mais 4 anos, enquanto os mais criminosos lobistas atuam no ingresso da nossa elite, na festa dos donos do mundo.

A elite que já vendeu vida que não era dela, já vendeu terra que nunca foi dela, já comprou juiz e bandeirinha, agora está vendendo um país inteirinho que não é dela. 

Não cabe indignação. Cabe denúncia".
Cristiana Araújo

As elites políticas foram incapazes de evitar o pior

Os anos perdidos

Tereza Cruvinel
O ano que se finda ainda será muito revisitado para ser compreendido. Nele, constatamos que o fundo do poço pode sempre ser mais escavado. A autoflagelação destrutiva iniciada em 2013, e os desatinos dos anos seguintes, resultaram na opção eleitoral pelo projeto extremista que começa a ser implantado com a posse de Bolsonaro.
E com isso começa o ciclo político que substituirá o da Nova República, iniciado em janeiro de 1985 com a eleição de Tancredo Neves e coroado com a Constituinte, legado que o Brasil e suas elites não souberam aprimorar. Não se pode falar de 2018 sem olhar também para os cinco anos anteriores.
Em 2013, nossas elites políticas não entenderam as manifestações “contra tudo e todos”, especialmente o PT, que governava, e o PSDB, maior força de oposição. Partiram para o confronto eleitoral sangrento em 2014, com a nascente Lava Jato adubando a polarização. No futuro, alcançou outros partidos mas naquela hora, só demonizou o PT. Dilma errou na campanha, omitindo o verdadeiro estado da economia e das contas públicas. Liderado por Aécio Neves, o PSDB não errou menos. Não aceitou a derrota, embarcou na sabotagem ao governo e jurou que Dilma não governaria.
Em 2015 ela tentava corrigir erros econômicos mas o Congresso sabotava seus esforços. A recessão deu as caras. O fogo da Lava Jato se espalhou, jogando a política na lama. Desesperados, os políticos buscavam um bote salva-vidas. Para a estancar a sangria, “a solução é o Michel”, disse o senador Jucá, pregando o acordão “com Supremo e tudo”. A palavra impeachment saltou de suas bocas para as ruas. Dilma foi deposta numa sessão de horrores, comandada por Cunha, com Bolsonaro homenageando o torturador Brilhante Ustra.
E vieram os anos perdidos com Temer, de mais recessão, desemprego e corrupção, moendo os partidos que deram o golpe do impeachment. Não sobrava ninguém. Afinal, prometeram que tirando o PT do governo tudo iria melhorar, e piorou. Parecia o fundo do poço, mas a saída viria em 2018 com a eleição de um presidente legítimo.
O ano começou com rebeliões nos presídios e as facções criminosas mostrando força. A violência pipocou, o carnaval foi sangrento num Rio acéfalo. Temer fez então sua “jogada de mestre”, com a intervenção federal. Apesar da rejeição, sonhou com a reeleição. Em março, a brutal execução de Marielle Franco informou que forças malignas sentiam-se liberadas. A intervenção chega ao fim melancolicamente.
Em abril, Lula foi preso. A demolição política chegava ao ápice com a prisão do líder mais popular do país, após uma condenação de fundamentos duvidosos, pelo juiz que agora será ministro. Começou a peleja do PT para fazê-lo candidato.
Em maio a greve dos caminhoneiros parou o país e o Temer deu um show de vacilação. Mandou tropas para as estradas mas rendeu-se oferecendo o subsídio ao diesel que acaba amanhã. E agora, farão greve sob Bolsonaro?
Vem a campanha. Lula é líder nas pesquisas e Bolsonaro posa de candidato anti-sistema. Promete guerra aos bandidos e aos corruptos, liberar as armas, varrer o PT e a esquerda, governar sem partidos. Prega a valorização da família e dos bons costumes, enquanto deprecia mulheres, gays, negros e índios. Uma sociedade conservadora sai do armário em seu apoio, para espanto do Brasil envernizado. A esquerda racha e a direita liberal também. 
Alckmin é um candidato fraco mas o PSDB não tem outro. 
Em agosto a candidatura de Lula é barrada e o PT lança Haddad com atraso. A transferência de votos começa a funcionar mas, em setembro, Bolsonaro é esfaqueado, e tudo muda. Vitimizado, poupado dos debates, vai ao segundo turno e derrota Haddad. A disputa é suja, com o disparo eletrônico de calúnias contra o petista. Ainda em combate, inclui a imprensa entre os inimigos.
Sua equipe é de duvidosa competência para enfrentar os desafios que tem pela frente. Venceu porque as elites políticas foram incapazes de construir o consenso mínimo para evitar o pior. O voo incerto vai começar. Apertemos os cintos.
Publicado no Jornal do Brasil, 30.12.2018

Video "A facada no Mito" viraliza, pois levanta suspeitas que não foram explicadas

Vídeo organiza imagens do atentado a Bolsonaro e levanta questões sem resposta

Postado há uma semana pelo canal no YouTube "True Or not", documentário começa a ampliar audiência por levantar dúvidas e suspeitas que nem autoridades, nem mídia se empenham em resolver

por Redação RBA publicado 29/12/2018 15h55
Da Rede Brasil Atual – 
O documentário Facada no Mito, postado há uma semana no canal True Or Not, no YouTube, está se espalhando por meio das redes sociais. O trabalho, que não identifica seus autores, praticamente não traz imagens inéditas do episódio que vem sendo tratado como "atentado" contra o então candidato Jair Bolsonaro, em 6 de setembro. Mas traz apontamentos minuciosamente elaborados em torno das cenas que antecederam à facada desferida por Adélio Bispo de Oliveira.
Mostra o comportamento da equipe de segurança, levanta questões relacionadas à "logística" em torno do autor, relembra dúvidas em torno do atendimento e contradições em torno das reações de pessoas próximas a Bolsnoaro. Adélio agiu sozinho mesmo para organizar e executar o atentado? Por que tinha tantos celulares e laptop se usava lan house? São coincidências as mortes de pessoas ligadas a sua hospedagem? E o fato de o escritório de advocacia que o defende atender também envolvidos em confronto entre policiais de Minas e de São Paulo? São listadas, enfim, muitas perguntas sem respostas, como qual teria sido o desempenho de Bolsonaro se não tivesse ocorrido o crime.
"Não somos direita ou esquerda. Não estamos acima e nem abaixo. Somos nós, somos vocês, somos eles, somos todos... ...e merecemos respostas", dizem os responsáveis pelo canal, que abrem o documentário explicando não se tratar de uma "acusação", mas de levantamento de pontos de vista que permitam "uma narrativa diferente da divulgada".
Os responsáveis observam que até o momento a Polícia Federal apresentou uma conclusão que "deixa de fora muitas questões". "Questões que queremos dividir com o público para que possamos exigir as devidas respostas."
Para eles, o assunto não pode ser tratado como crime comum. "Trata-se de um crime de segurança nacional contra um candidato eleito presidente. Além de, como veremos, pode tratar-se de um crime de falsidade ideológica que poderia levar à cassação do mandato presidencial."
Assista ao filme A Facada no Mito (57 minutos)

sábado, 29 de dezembro de 2018

Minha família é a humanidade

Ouça a matéria:

"Partidários da entronização da família no lugar supremo da sociedade pregam valores particulares, de modelos de família muito específicos" / Mídia NINJA

Papai e mamãe são, na escola sem partido, proprietários da consciência do filho
Família não é um conceito único e menos ainda as famílias são todas iguais. Como escreveu o romancista russo Liev Tolstói na abertura de “Anna Kariênina”: “Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira”. Para não dar vez à ignorância é bom explicar: o romance foi escrito entre 1873 e 1877. É russo, não soviético.
Em outras palavras, em matéria de família, a regra é a diversidade. Por isso defender os chamados “valores familiares” nada mais é que uma forma de autoengano. Na verdade, os partidários da entronização da família no lugar supremo da sociedade pregam valores particulares, de modelos de família muito específicos. Quase sempre conservadores, tradicionais, quando não regressivos e autoritários.
Nunca se falou tanto de família na República como agora. Num contexto em que pega bem acabar com ministérios, sobretudo aqueles ligados aos direitos, chega-se a falar de boca cheia em Ministério da Família. Sugerindo, é claro, seu comando por evangélicos convocados nas hostes neopentecostais. Ministério no sentido teológico, algo bem próprio da teocracia que ronda a vida brasileira.
Por trás dessa ideia, como vem sendo mostrado de forma intensiva pelo governo eleito, está a chamada pauta dos costumes. Mas que não ficam estacionadas apenas na faixa do comportamento, com repercussões perigosas que vão da política externa à política educacional. A divisão do governo em czares (da economia, justiça e caserna) deixou para o presidente eleito o comando do playground dos valores.
A mesma divisão parece contemplar grande parte dos eleitores. Para eles, o que interessa é a economia, a corrupção do sistema político e a segurança pública. Para isso têm Guedes, Moro e generais a mancheias. Aceitam, embora por vezes com certo constrangimento ilustrado, as bizarrices do mandatário supremo e de seus rebentos, como contrapeso do filé neoliberal, antissistema e autoritário.
Um dos grandes equívocos de um governo ainda não empossado, mas com capacidade aparentemente infinita de gerar crises, está no projeto da escola sem partido. Sem entrar em detalhes desse monstrengo anti-intelectual e na contramão da liberdade, destaca-se a declaração do presidente eleito sobre educação sexual. Com uma candura que parece psicologicamente perversa - em razão de sua forma de expressão habitualmente grosseira -, o capitão afirma que sexo é questão para “o papai e a mamãe”.
Há muitos riscos nessa postura. Em primeiro lugar a desmontagem de conquistas pedagógicas no campo da educação sexual, que contribuíram para diminuir a incidência de doenças, educar para sexualidade saudável e formar jovens mais autônomos. Em segundo lugar, pode trazer de volta preconceitos e atitudes violentas que vinham sendo reduzidas com informação, inclusão e respeito às diferenças, em um ambiente preparado para o debate. Sem falar no estímulo ao tabu, com sua já conhecida carga repressiva, decorrente da limitação do debate sobre o tema apenas ao recesso familiar.
O mesmo projeto registra outras formas de manifestação incisiva e não democrática dos pais na condução do processo escolar, dando à família a exclusividade e juízo inquestionável no tratamento de temas referentes a valores morais e religiosos. Papai e mamãe são, na letra da escola sem partido, proprietários das consciências de seus filhos. Uma espécie de neoliberalismo no campo da moral, fundado no direito à propriedade. Meu filho, minhas regras.
Já que a defesa da família entrou em cena de forma avassaladora, é importante resgatar o debate sobre a verdadeira face da família na sociedade contemporânea. Há um processo de permanente de discussão em torno do tema, seja no âmbito da psicologia, da política, do direito e da moral. Por isso a família não pode ser um tema apropriado apenas pela direita, como se fosse seu território exclusivo.
O avanço na compreensão da dinâmica familiar aponta para valores que são universais, como a busca da igualdade e o respeito à diferença, que são suporte de uma visão de mundo humanista e civilizador. O que vale para uma família deve valer para todas.
O sentido do conceito de fraternidade, evocado pela Revolução Francesa, não é apenas um complemento do par igualdade e liberdade, mais explicitamente político, mas a condição de possibilidade desses dois universos.
Não há vida pública digna sem liberdade e igualdade. Vem daí as grandes correntes ideológicas, com a direita se identificando mais com a liberdade e a igualdade sustentando principalmente os projetos da esquerda. Mas, no limite, não há vida humana sem fraternidade. Sem a liberdade há o arbítrio, sem a igualdade a injustiça, sem a fraternidade a barbárie.
Por isso a família é hoje uma estrutura tão importante e precisa ser repensada em sua dimensão política, muito além do moralismo que tumultua o cenário. Ela não retira as pessoas do mundo para o egoísmo de projetos pessoais, das convicções morais inquestionáveis e dos muros reais e imaginários que separam as pessoas em castas. É preciso conceber a família como algo que liga as pessoas ao mundo, e não o contrário. 
A defesa da família com viés conservador perde o que ela tem de melhor: a capacidade de ver o outro como irmão.
Fonte: Brasil de Fato - Edição Minas Gerais
* João Paulo Cunha é  jornalista, colunista do BrasildeFato-MG e Diretor Cultural do BDMG. Após 18 anos como editor de Cultura do jornal Estado de Minas, pediu demissão quando foi impedido de escrever sobre política na coluna que assinava semanalmente.

Ano novo, luta nova


"É importante recuperar toda a tradição de resistência das esquerdas e dos movimentos populares" / Foto: Ravena Rosa/Agência Brasil

Forças sociais precisam ganhar corpo na unidade das lutas
Em tempo de balanço e mensagens necessárias de esperança, nada melhor que renovar os votos de resistência. É uma forma de não capitular diante do que vem por aí. O fim do ano carrega com ele a certeza que a democracia precisará de muita disposição para a luta. O primeiro dia do ano que se avizinha, com a já anunciada cerimônia de posse do presidente eleito marcada por militarismo e desconfiança será o marco zero de uma nova etapa política para os defensores da democracia. Que já chega embalada em vexame duplo: a barbeiragem diplomática em desconvidar nações amigas da região e a esnobada do presidente Trump em participar da festa montada por acólitos mirins.
Antes mesmo da parada militar que vai inaugurar o novo momento, o governo Bolsonaro já deixou claro como se moverá: extinção de direitos, escola sem crítica, política externa isolacionista e tosca, defesa dos interesses privatistas e financistas, fundamentalismo moral, militarização da sociedade e incentivo à violência. A sanha prossegue nas áreas de saúde com a desmontagem do SUS, com a ideologização da justiça persecutória acima da Constituição, com a promessa de criminalização dos movimentos populares, com a entrega da questão ambiental e indígena aos interesses das mineradoras e agronegócio.
A lista completa de barbaridades pode ser conferida orgulhosamente nos veículos da chamada mídia profissional, com destaque, entre outros, para a reforma da previdência, para a retirada dos direitos trabalhistas que escaparam da primeira onda de terra arrasada promovida por Temer, para a desmontagem da comunicação pública e para o obscurantismo cultural e fanatismo fundamentalista. Não se trata de um programa de governo, mas de uma estratégia determinada de extermínio das liberdades.
E, exatamente pelo calibre da afronta à democracia e aos valores da civilização, se torna urgente preparar a reação popular, consequente e responsável com os destinos do país. O começo do novo ano e do novo governo precisa ser acompanhado de uma transformação no padrão crítico exercido até aqui. O jogo começa pra valer. E a reação não pode se fazer esperar apenas nas arenas consagradas da negociação política no Congresso, na disputa da opinião pública pelos canais convencionais, ou no campo do conflito clássico capital e trabalho.
Há um patamar novo para um renovado conflito de classes. A organização da resistência precisa ampliar o domínio tradicional, com uma estratégia que congregue várias frentes e focos de disputa. Afinal, a conquista do Executivo não se deu separada dos outros poderes da República. Bolsonaro não seria nada sem a presença orgânica de políticos eleitos, partidos fisiológicos, magistrados sem respeito às leis, policiais obtusos e promotores escatológicos. Operadores do direito e da direita.
Tanto o Legislativo tem se mostrado entregue (e exercitou sua sabujice durante a campanha) como o Judiciário se prestou ao aparelhamento ideológico e populista, trocando a letra da lei pela conveniência da aprovação popular conduzida pelo moralismo punitivista. Para completar, o quarto poder, a mídia comercial, cimentou o projeto antipopular com sua já conhecida habilidade de manipulação e defesa de interesses próprios, sob a capa de uma falsa racionalidade e interesse público.
A reação democrática e popular impõe, para os primeiros dias de 2019, a ocupação de todos os espaços de contestação. Na oposição sistemática no Congresso, com a conjugação das forças progressistas. Na crítica consistente ao Judiciário partidarizado, congregando a ação por parte de juristas democráticos e suas representações profissionais e acadêmicas. Na construção de novos canais de expressão de todas as vozes sociais, num misto de crítica da mídia e construção de uma mídia crítica.
Mas não basta. É importante recuperar toda a tradição de resistência das esquerdas e dos movimentos populares. O enfrentamento deverá se dar em todas as vertentes: na luta sindical, nas organizações partidárias, nas ONGs, nos grupos voltados para questões específicas, na defesa das minorias, nas políticas setoriais, no contexto acadêmico, na criação cultural libertária e na imprensa. A grande convocação contra o neofascismo é a pluralidade de ações.
Desta forma, tem tanta importância o fortalecimento das frentes amplas como a mobilização em torno de temas como escola sem partido, luta antimanicomial, rádios livres, restrição do uso de venenos na agricultura, demarcação de terras indígenas, mobilidade e moradia, entre dezenas de outras. A refundação da esquerda não passa pela seletividade de táticas, mas pela necessidade urgente de ocupar todas as trincheiras ao mesmo tempo. O espectro das forças sociais precisa ganhar corpo na unidade das lutas. É preciso cuidar do quintal e do planeta.
A capacidade de fazer conviver as grandes bandeiras estruturais com temas culturais e identitários desenha a pauta ambiciosa para a política em todas as dimensões. Esse propósito se torna ainda mais pungente com a interseção de formas de opressão, como as registradas contra as mulheres, negros e pessoas LGBTI, deve guiar os defensores da democracia e dos valores populares. O que já foi fragilidade, em sua dispersão, hoje é a única possibilidade de recuperar a força política.
Entre os desafios estão a recuperação das tarefas de formação e o respeito à dinâmica dos movimentos em sua autonomia. O abandono do campo de preparação política e intelectual, em nome da conquista de espaços de poder institucional, cobra agora sua conta. O retorno às bases não é um movimento de recuo, mas de avanço real. Não se conquistam corações e mentes com mensagens verticais, mas com conhecimento e confiança. A emancipação é fruto do saber e da solidariedade.
A esquerda não deveria ter abandonado sua vocação intelectual, sua disposição para o conhecimento crítico da realidade, sua capacidade de instaurar a práxis como união dialética entre teoria e prática. O consumo, já se sabe, não faz nada mais que consumidores insatisfeitos e egoístas. As palavras de ordem vazias abrem espaço para outras palavras de ordem, igualmente ocas de sentido.
Não se trata de começar tudo de novo, mas de começar o novo. Ano novo, luta nova.
Fonte: Publicado no BrasildeFato - Edição Minas Gerais
João Paulo Cunha é  jornalista e Diretor Cultural do BDMG. Após 18 anos como editor de Cultura do jornal Estado de Minas, pediu demissão quando foi impedido de escrever sobre política na coluna que assinava semanalmente.