terça-feira, 5 de novembro de 2019

Jornalista do Vale lança livro sobre fake news, movimentos de rua e a conquista do poder

Escritor e jornalista minasnovense lança livro sobre o poder das novas tecnologias da comunicação.

Uma ‘biografia’ dos protestos mundo afora

'Dias de Tormenta' analisa como tecnologias de comunicação e informação levaram milhões às ruas



Branco di Fátima
Branco di Fátima: “Hoje, o poder emana da forma como a tecnologia é usada”, pondera o escritor. Foto: Hugo Alexandre Cruz

PATRÍCIA CASSESE - 04/11/19 - 03h00, no jornal OTEMPO.
Um livro-reportagem que trata do impacto das novas tecnologias na geopolítica, com uma leitura leve, ao estilo do “novo jornalismo”. É assim que o pesquisador e jornalista mineiro Branco di Fátima resume “Dias de Tormenta: Os movimentos de indignação que derrubaram ditaduras, minaram democracias no mundo e levaram a extrema-direita ao poder no Brasil” (Geração Editorial), que autografa hoje em BH. 
“O livro surgiu do mundo extraordinário e aterrador que vivemos”, diz ele. Branco aponta que o rápido desenvolvimento de novas tecnologias, como internet e smartphones, trouxe uma sensação de empoderamento político.
“Há poucos anos, pessoas comuns, com ajuda das redes sociais, derrubaram ditaduras no Oriente Médio e colocaram governos em xeque na Europa. Nunca participamos tanto da vida política, e esse é um fenômeno visto em diferentes geografias”.
Por outro lado, lembra, a forma como essas tecnologias são usadas também criaram um terreno fértil para a propagação de fake news. “Claro, notícias falsas sempre existiram. O diferencial é a velocidade de propagação, a complexidade dos conteúdos e o alcance das mensagens. Em minutos é possível chegar a milhões de pessoas”. 
Daí, diz, o objetivo da obra. “A própria história desses movimentos de indignação é arrebatadora. São pessoas comuns contra grandes instituições governamentais e corporações, como uma reprise de Davi e Golias. O problema é que nem sempre identificamos os personagens que ocupam esses lugares de poder”.  Confira, a seguir, um pouco mais da conversa do Magazine com Branco.
Como foi seu processo de escrita? E qual foi a parte mais intrincada? Contar uma história de três décadas num livro não é tarefa fácil. Demorou cinco anos para reunir as peças e montar o quebra-cabeça. Nesse tempo, li documentos secretos do WikiLeaks e telegramas diplomáticos, pesquisei dezenas de arquivos e bases de dados da Deep Web, conversei com especialistas e ativistas de diversas regiões do globo. A parte mais intrincada  foi conseguir, em meio a tantos documentos e testemunhos, milhares de relatórios, áudios e vídeos, selecionar os fatos mais importantes para a compreensão da "grande paisagem". Ou seja, dar sentido às diferentes narrativas de poder frente a tantos dados. Afinal, "Dias de Tormenta" também precisava ser um livro agradável, de fácil leitura e que cativasse o leitor de não ficção.
Qual o seu objetivo com o material que o livro abarca? Vivemos em uma sociedade complexa, em larga medida graças à popularização de novas tecnologias, mas também às mudanças na maneira como pensamos os problemas cotidianos. Mais do que nunca é preciso que as pessoas tenham acesso a informações de qualidade, bem apuradas e contextualizadas, para que possam tomar as suas decisões políticas com segurança. Não é à toa que chamamos o nosso tempo de Era da Informação. "Dias de Tormenta" desmistifica a ideia de que a internet é um anjo redentor da democracia ou um espectro para os regimes autocráticos. Hoje, o poder emana da forma como a tecnologia é usada.
Qual o lado positivo das redes sociais nos processos de mudanças sociais e políticas? É a maneira como as pessoas utilizam as redes sociais para falar com amigos, colegas e familiares, mas também para protestar, que fará a balança pender para um lado ou para outro na disputa política. Não quero dizer com isso que as tecnologias sejam neutrais. Antes pelo contrário, já que foram desenvolvidas por pessoas que têm preferências e formação ideológica. Existem pesquisas que mostram que, em caso de grandes manifestações, como as vistas no Brasil a partir de junho de 2013, as pessoas que têm perfil em redes sociais sentem-se mais confiantes para ir às ruas. Esse mesmo fenômeno foi registrado durante a Primavera Árabe, em países como Egito e Tunísia. Em todos os casos, a internet funcionou com um imã que atraiu as vozes que pediam mudanças. Mas é a forma como pensamos, altamente tecnológica, que ditará os rumos das transformações sociais.
As fake news acabaram corroborando de forma marcante na eleição presidencial... O que fazer diante dessa avalanche? Seu livro aponta caminhos para o combate às fake news? As fake news são a base material do novo populismo de direita. Foram centrais para a eleição de Jair Bolsonaro, que também contou com outros polos de influência, como o antipetismo e o impacto da Operação Lava Jato no tecido social. "Dias de Tormenta" não aponta propriamente uma saída. Como todo livro-reportagem, está centrado na narrativa realista dos acontecimentos. Porém, não há dúvida que o combate às notícias falsas exige um trabalho conjunto, que articule as escolas, a imprensa, os governos, os usuários de internet e as próprias empresas de tecnologia, como Facebook, Google e Amazon. Nas sociedades altamente dinâmicas, como a brasileira, não existem fórmulas mágicas. Já para populistas de direita, como Jair Bolsonaro, as fake news permitem dar respostas simples e rápidas para questões complexas.
Gostaria de deixá-lo à vontade para acrescentar o que julgar pertinente... É preciso destacar que "Dias de Tormenta" é um livro-reportagem que trata do impacto das novas tecnologias na geopolítica, com uma leitura leve ao estilo do Novo Jornalismo. Foram necessários cinco anos para escrever a obra, que conta com informações inéditas recolhidas em diversos países, como Brasil, Portugal, Estados Unidos, Irã, Venezuela, Egito, etc. No fundo, o livro traça um panorama de como diferentes tecnologias foram sendo apropriadas ao longo da história para promover mudanças sociais, até desaguar nas Jornadas de Junho (2013) e na Eleição de Bolsonaro (2018). Embora seja um termo recente, utilizado sobretudo a partir de 2016, o poder das fake news molda todo o livro.
Agenda 
O quê. Lançamento do livro “Dias de Tormenta”.
Onde. Livraria Leitura (Pátio Savassi).
Quando. Nesta-terça, 5, das 18h30 às 21h30.
Quanto. Entrada franca.
Fonte: Jornal OTEMPO

Branco Di Fátima é jornalista e escritor mineiro. Nasceu em Diamantina, no Alto Jequitinhonha, nordeste de Minas. Mas, viveu toda sua infância e adolescência em Minas Novas, também no Alto Jequitinhonha.
Trabalha como correspondente internacional para revistas e portais de notícias brasileiros. Já viajou por mais de 30 países de quatro continentes. É autor do livro "Ruas vazias de gente" e coorganizador da obra "Internet - Comunicação em Rede". Faz doutorado em Comunicação no Instituto Universitário de Lisboa.

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