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sábado, 18 de abril de 2020

Não é hora de reclamar das privações, mas de solidariedade e projetar uma vida melhor

Por que lamentas estar isolado dentro de casa? Já pensaste naqueles que nem casa têm e são obrigados a conviver com o risco iminente da infecção? Ou será que o teu coração é um cômodo entupido de ego, sem lugar para mais ninguém?
Por que lamentas se, agora, vives em uma prisão de luxo, com liberdade para estabelecer teus horários e escolher a comida que te agrada? Pensa naqueles que enfrentam longas filas para receber uma quentinha da caridade alheia. 
Por que lamentas ao se ver obrigado a cancelar a festa de aniversário ou casamento, e arcar com o prejuízo que não será ressarcido? O que preferirias, a festa com o coronavírus invisível circulando entre teus convidados ou preservar a tua e outras vidas para festas vindouras?
Por que lamentas não poder, agora, fazer a viagem sonhada e programada, e se ver forçado a ficar recolhido em teu espaço doméstico? Ou seria melhor uma passagem sem volta para a morte?
Por que lamentas não poder sair à rua, encontrar amigos e voltar a tua rotina de trabalho e lazer? Ainda podes conversar por telefone, talvez trabalhar desde casa e improvisar teus métodos de ginástica.
Por que lamentas ser idoso e figurar entre os mais vulneráveis? Alguma vez te passou pela cabeça que o melhor da velhice é não haver morrido jovem? Já que chegastes a esta idade, cuida de preservar a tua vida por mais alguns anos e, quem sabe, décadas.
Por que lamentas ser obrigado a fechar teu comércio, teu escritório, ameaçado de ter tua renda reduzida? Já imaginastes se não fossem tomadas medidas restritivas e a pandemia se multiplicasse a ponto de atingir a ti e a teus entes queridos?
Por que lamentas o que te soa como perda ou privação? Nunca pensastes nas pessoas em situação de guerra, nos refugiados, nos que não têm acesso a nenhum sistema de saúde? Não contabilizes as tuas perdas, contabiliza os teus ganhos, como estar vivo, gozar de boa saúde e desfrutar do convívio com tua família.
Por que lamentas não suportar a solidão que te obriga a um encontro mais íntimo contigo mesmo? Não é hora de dar um balanço na própria vida, reavaliar os valores abraçados e reconsiderar convicções arraigadas? Não é este o momento de reinventar-te?
Não lamentes! Tens um teto, o alimento garantido e boa saúde. És um privilegiado. Lamenta, sim, por aqueles que nada disso possuem. Não por escolha, e sim por serem vítimas de um sistema econômico seletivo e excludente, no qual os interesses do capital privado pairam acima dos direitos coletivos. 
Não te afogues em teu lamento. Extraia dele forças para mudar o que consideras injusto. E cuida-te! Não te julgues imortal. O teu e o meu dia  chegarão. Mas não apressemos os desígnios de Deus. Na vida nada tem maior valor do que a própria vida.
Guarda teu pessimismo para dias melhores. E repete a “Prece” de Fernando Pessoa: “Senhor, protege-me e ampara-me. Dá-me que eu me sinta teu. Senhor, livra-me de mim.”
*Frei Betto é escritor, autor de “O diabo na corte – leitura crítica do Brasil atual” (Cortez), entre outros livros.

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Esquerda, o resgate dos sonhos


Resultado de imagem para Esquerda , o resgate dos sonhos*Frei Betto                                              

Pertenço à geração que teve o privilégio de fazer 20 anos nos anos 60: Revolução Cubana, Che, Beatles, Rei da Vela, manifestações estudantis, Alegria, Alegria, Gláuber Rocha, McLuhan, revista Realidade, Marcuse, Maio de 68, João XXIII, naves espaciais etc.

Era a geração dos sonhos. "Sonhar é acordar-se para dentro", lembra Mário Quintana. Estávamos permanentemente despertos. Nossas quimeras não eram acalentadas por drogas, mas por utopias.

Segundo a teoria psicanalítica, todo sonho é projeção de um desejo. Nossa geração desejava ardentemente mudar o mundo, instaurar a justiça social, derrubar a velha ordem.
       
O sonho quebrou-se ao tocar a realidade. A ditadura militar (1964-1985) encarou como subversivos nossos protestos e conteve, com cassetetes e tiros, nossas passeatas. Nossos congressos estudantis terminaram em prisões e, escorraçados para a clandestinidade, não nos restou alternativa senão o exílio ou a resistência. Em nossas utopias os carrascos abriram feridas, e dependuraram nossos ideais no pau-de-arara. O que era canto virou dor; o que era encanto, cadáver. A roda-viva se encheu de medo e o nosso cálice de “vinho tinto de sangue”. 

Nossos paradigmas ruíram sob os escombros do Muro de Berlim. Não era o socialismo das massas nem os proletários no poder. Era o socialismo do Estado, pai e patrão, atolado no paradoxo de agigantar-se em nome do fim iminente da luta de classes. O economicismo, a falta de uma teoria do Estado e de uma sociedade civil forte e mobilizada, levaram o rio das fantasias coletivas a transbordar sobre as pontes férreas dos engenheiros do sistema. O socialismo real saciava a fome de pão, não o apetite de beleza. Partilhava bens materiais e privatizava o sonho. Todo sonho estranho à ortodoxia era visto como diversionista, ameaçador.
       
Astuto, o capitalismo socializa a beleza para camuflar a cruel privatização do pão. Aqui, todos são livres para falar; não para comer. Livres para transitar; não para comprar passagens. Livres para votar; não para interferir no poder. O Muro de Berlim ruiu e, ainda hoje, a poeira levantada embaça os nossos olhos.
      
Solteira de paradigmas, a esquerda é uma donzela perplexa que, terminada a festa, não consegue encontrar o caminho de casa. Há muitos pretendentes dispostos a acompanhá-la, mas ela teme ser conduzida ao leito de quem quer estuprá-la. Ansiosa, envereda-se pelo labirinto do eleitorarismo e se perde no jogo de espelhos que exarcebam o narcisismo de quem se maquia no reflexo das urnas. Deixa-se arrastar pela rotatividade eleitoral, onde ideais e programas são atropelados pela caça a votos e cargos. E, quanto mais se aproxima das estruturas de poder, mais se distancia dos movimentos populares.

É bem verdade que, ao assumir a administração pública, investe em programas sociais, aprimora o acesso à saúde, à educação, moradia e cesta básica. Contudo, desprovida de andaimes, não faz dessa massa um novo edifício teórico, alternativo à globocolonização neoliberal que execra a cidadania e exalta o consumismo, repudia os direitos sociais e idolatra o mercado.

A maré sobe – Equador, Chile, Argentina - mas, na praia, pescadores acostumados a selecionar os peixes têm os olhos cegos pelo reflexo do Sol. A história cessou?

Fora da esquerda, não há saída para a miséria que assola o planeta (1,3 bilhão de pessoas). A lógica do capitalismo é incompatível com a justiça social. O sistema requer acumulação; a justiça, partilha. E não há futuro para a esquerda sem ética, utopia, vínculos com os pobres e coragem de dar a vida pelo sonho.

Hoje, o socialismo já não é apenas questão ideológica ou política. É também aritmética: sem partilhar os bens da Terra e os frutos do trabalho humano, os quase 8 bilhões de passageiros dessa nave espacial chamada Terra estarão condenados, em sua maioria, à morte precoce, sem o direito de desfrutar o que a vida requer de mais essencial para ser feliz: pão, paz e prazer.

Resta, agora, a esquerda acordar para o sonho.

Frei Betto, dominicano, escritor e assessor de movimentos populares. Autor de mais de 60 livros como “Paraíso perdido – viagens ao mundo socialista”, "Fidel e a Religião", "Caleidoscópio do poder", "A mosca azul",  "Cartas da prisão", "Batismo de sangue", entre outros.
Esquerda, o resgate do sonho - Gente de Opinião

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

AMAZÔNIA, O ROSTO ECOLÓGICO DE DEUS, diz Frei Betto

AMAZÔNIA, O ROSTO ECOLÓGICO DE DEUS

Frei Betto

 A Igreja tem consciência de que, se agora defende a causa indígena, ainda não se libertou da influência do projeto colonizador que vigorou no passado.

       O Sínodo da Amazônia, convocado pelo papa Francisco para outubro, terá lugar em Roma, numa decisão equivocada do Vaticano, pois fora agendado, de início, para ocorrer no coração da selva. Ali se debaterá mais do que a presença da Igreja Católica naquela região interconectada e cada vez mais violenta e desigual.

       O bioma amazônico engloba nove países e ocupa mais de 7 milhões de km² habitados por 34 milhões de pessoas, das quais 3 milhões são indígenas, que dominam 340 diferentes idiomas. Ali, cada metro quadrado tem mais diversidade do que qualquer outro lugar do planeta. O bioma possui três tipos de rios: os de superfície; o subterrâneo, conhecido como “alter do chão”; e os “rios voadores”, assim chamados por acumular vapor na atmosfera e distribui-lo em forma de chuva em toda a América do Sul.

       A Amazônia exerce forte relevância no ciclo do carbono, ao absorvê-lo em bilhões de árvores e impedir sua liberação na atmosfera em forma de gás. Reduz, assim, o aquecimento da Terra.

       As quatro dádivas da região são: povos que sabem viver da selva e na selva, sem ameaçá-la; o ciclo das águas e do carbono; a biodiversidade; e a regulação do clima.

       Segundo o papa Francisco, “os povos amazônicos originários nunca estiveram tão ameaçados em seus territórios como agora”. Em sua sabedoria ancestral, eles nos ensinam a se relacionar com a natureza, os demais seres humanos e Deus. No entanto, agora são vítimas de assassinatos, expulsões de suas terras, ação de grileiros e mineradoras, desmatamento, e proibição de se reunir e organizar.

       A Igreja tem consciência de que, se agora defende a causa indígena, pela qual há tantos mártires, por outro lado ainda não se libertou da influência do projeto colonizador que vigorou no passado. O Sínodo busca justamente implantar uma Igreja pós-colonial e solidária, com rosto amazônico e indígena. Para a Igreja, a região é muito mais do que um lugar geográfico; é também um lugar teológico, no qual transparece a face de Deus criador.

       Não há como manter a floresta de pé sem a sabedoria dos povos que a habitam. O “capitalismo verde” não convém, pois se rege pelas leis do mercado e busca patentear princípios e essências, privatizar a água e promover a pirataria dos saberes populares.

       Os povos indígenas guardam ainda uma sintonia holística com o Cosmo. Seus sentidos aguçados estabelecem um diálogo permanente com a natureza. Conhecem cada ruído, prenunciam a chegada da chuva ou da seca, identificam os recursos medicinais das ervas. O índio não é um indivíduo na natureza. Seu corpo, o território no qual habita e a natureza formam uma unidade.

        Os indígenas respiram uma cultura que se traduz, de fato, em espiritualidade da reciprocidade. Através de ritos e festas, celebram a exuberância da natureza e exorcizam os espíritos malignos. Sem recorrer à escrita, passam de geração a geração a cultura do cuidado da floresta e do respeito a todos os seres vivos.

       Para eles, a terra não é um bem econômico, e sim dom gratuito de Deus no qual descansam seus antepassados, e espaço sagrado com o qual interagem para preservar sua identidade e valores.

   Sofrem, no entanto, sérias ameaças de uma equivocada concepção de desenvolvimento e riqueza que lhes cobiçam as terras para implantar projetos extrativos e agropecuários, indiferentes à degradação da natureza e à destruição de suas culturas.

       Cinco grandes sintomas da crise planetária se manifestam na Amazônia: 1) mudança climática; 2) envenenamento da água; 3) perda da biodiversidade; 4) degradação da qualidade de vida humana e da natureza; 5) conflitos sociais marcados por violência e assassinatos.

       A convocação do Sínodo Panamazônico pelo papa Francisco é uma boa nova para toda a humanidade.

Frei Betto é escritor, autor de “A obra do artista – uma visão holística do Universo” (José Olympio), entre outros livros.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Ensina a teu filho, ensina Frei Betto


















Frei Betto, escritor, é autor de mais de 50 livros como Alfabetto - Autobiografia Escolar, Calendário do Poder.  Mosca Azul, Cartas da Prisão, Felicidade foi-se embora?, Comunidades Eclesiais de Base, OSPB Introdução à Política Brasileira, Paraíso Perdido e muitos outros.
É de Belo Horizonte, mas vive há mais de 40 anos em São Paulo. Fez os cursos de Teologia, Filosofia e Jornalismo. É frade dominicano.










domingo, 4 de junho de 2017

O Estado sempre foi usado pelo Mercado para obter mais lucros, diz Frei Betto

Estado e Mercado


Frei Betto* 

No Brasil, os dois governos de Lula e o primeiro de Dilma foram os melhores
de nossa história republicana. Entre 2003 e 2011, a renda dos brasileiros cresceu
a uma taxa média de 2,8% ao ano. O volume de divisas internacionais superou 
o montante da dívida externa com os bancos internacionais, fazendo com 
que o Brasil se destacasse como credor mundial. Acreditou-se que o país 
havia superado seus problemas com as contas externas.


O aumento do salário mínimo acima da inflação a cada ano, e a política 
de facilitação de acesso ao crédito, fizeram com que o consumo fosse 
amplamente dilatado. No período Lula, entre 2003 e 2010, a geração de 
empregos chegou a 14 milhões (índice igual ao desemprego no período 
Temer). Todo esse processo criou a impressão de que o Brasil havia 
conquistado o patamar de um desenvolvimento capitalista autossustentável.



Esse processo reduziu, de fato, a desigualdade social. O índice Geni, que 
mede o grau de concentração pessoal da renda, se reduziu um pouco nos 
13 anos de governo do PT. Diminuiu a distância entre a renda média dos 10% 
mais pobres e dos 10% mais ricos. Em 2010, esta diferença era de 39 
vezes, enquanto em 2002, no governo FHC, era de 57 vezes. 

Cerca de 40 milhões de brasileiros saíram da miséria. Ampliou-se a 
rede de proteção social aos mais pobres. Em 2015, o Bolsa Família atendeu 
a quase 14 milhões de famílias.


Somam-se a isso a independência e a soberania da política externa brasileira,
como a desarticulação da Alca, o fortalecimento do Mercosul, a participação 
na Celac e no G-20, a formação do Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África 
do Sul), e a eleição do nosso país para sediar a Copa do Mundo de 2014
e as Olimpíadas de 2016.


A falta, porém, de uma ousada política de comunicação e democratização da 
mídia, aliada ao fortalecimento dos mecanismos de participação democrática, 
tanto na esfera política quanto na econômica, fragilizaram todas essas 
conquistas. Não se fez um intensivo trabalho de alfabetização política da 
população, mormente dos setores populares, concomitante à 
organização e mobilização desses setores.


Nem sempre os governos progressistas da América Latina se empenharam 
em inverter a relação, historicamente predominante, da supremacia do 
mercado sobre o Estado. Ao contrário, através de desonerações 
tributárias, subsídios generosos a juros baixos e flexibilização das leis
trabalhistas, o Estado se aliou ao mercado e se tornou seu provedor.


O Estado, por natureza, deve ser o provedor daqueles que se 
encontram marginalizados ou excluídos pelo mercado. O Estado tem, 
por dever, contrapor-se ao mercado quando este favorece a desigualdade 
social; reforça a primazia da propriedade privada sobre os direitos coletivos; 
e suga os recursos públicos, através de dívidas públicas não auditadas e, 
portanto, suspeitas.


Um governo que se pretende progressista e, no entanto, não logra assegurar 
a soberania do Estado sobre o mercado, está inevitavelmente condenado a 
ter seu poder político derrotado pelo poder econômico.

Publicado no jornal Hoje em Dia, de BH, no dia 04.06.2017.
*Frei Betto

Frei Betto
  Autor de 58 livros,no Brasil e exterior,estudou jornalismo, antropologia, filosofia e teologia. Seus livros muito conhecidos são Fidel e a Religião, Comunidades Eclesiais de Base, Cartas da Prisão, A Mosca Azul, entre outros.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Carnaval Espiritual

Frei Betto / 25/02/2017 -  Publicado nos jornais O Globo, Folha de S.Paulo e Hoje em Dia.



Meu Carnaval terá como enredo a beleza da Criação, da explosão primeva, que deu origem às partículas subatômicas, à exuberância dos corpos que se multiplicam na criatividade infinita da dança. Ao iniciar o desfile, não darei o grito de guerra, e sim de paz.
Farei do Jardim do Éden imenso sambódromo e levarei a inocência adâmica a seu extremo: nu, exibirei os contornos da alma e integrarei a comissão de frente, toda ela morada divina na pista ladrilhada de virtudes.
Serei passista na escola de samba da Via Láctea e aplaudirei o mestre-sala, o Sol, rodeado de cabrochas dançantes chamadas planetas. Ao repicar dos trovões e ao brilho incandescente dos relâmpagos, rodopiarei pela trilha dos meteoros rumo ao útero reversível dos buracos negros.
Verei estrelas desabarem qual confetes e asteroides se espalharem pelo céu como serpentinas. Todo o Universo transformado em incomensurável baile de Carnaval. E em nosso planeta, os seres humanos transmutados em seus semelhantes, despidos da própria fantasia para se encararem na face do próximo.
Na ala dos místicos, desfilarão Pitágoras, Jesus, Plotino, Rumî, Mestre Eckhart, Teresa de Ávila, João da Cruz, Gandhi, Edith Stein e Yogananda. Na dos santos, Agostinho, Tomás de Aquino, Celestino V, Oscar Romero, Helder Camara, Luther King, Pedro Casaldáliga e Paulo Evaristo Arns. Na dos sábios, Confúcio, Sócrates, Platão, Aristóteles, Eratóstenes, Hipácia, Simone Weil, Celso Furtado, Darcy Ribeiro, Milton Santos, Hélio Pellegrino, Alceu Amoroso Lima e Antonio Candido. Como destaque, o Barão de Itararé.
Ao recuo da bateria, serei todo ouvido ao silêncio, para que me envolva por fora e por dentro, até que eu seja revirado ao avesso para que a voz do mistério irrompa no mais íntimo de mim. Quero uma batucada inflamada capaz de ressuscitar os mortos e induzir os vivos ao êxtase inexprimível. Ao som do surdo, entoarão o Magnificat.
Em reverência ao Inominável, arrancarei os adereços que me recobriram ao longo da vida. Reduzido à minha própria identidade, sem paetês e lantejoulas, irei em busca do meu par, o Outro que habita o âmago do meu ser. Então, já nenhum espelho refletirá a minha face. Ali verei aquele que realmente sou e, no entanto, não ouso assumir.
Ao reiniciar a evolução da bateria, celebrarei a harmonia do congraçamento de paz enraizada na justiça. Quero o tamborim ecoando alegrias e a cuíca rememorando o lamento dos excluídos. Cornetas soarão, não para derrubar os muros de Jericó, e sim preconceitos e discriminações que impedem a embriaguez da solidariedade.
Desfilarei na ala da compaixão até o momento de subir no carro alegórico das bem-aventuranças. Então, toda a avenida contemplará a suntuosa coreografia de esperançosas utopias. Momo será destronado para dar lugar Àquele que fez jorrar vinho nas bodas de Caná.
Ao se aproximar do fim do desfile, todos os sambistas e passistas, baianas e cabrochas, pierrôs e arlequins, ao som de pandeiros e reco-recos, exibirão, na palma das mãos, seus corações de pedra transformados em corações de carne. Então, um silêncio apoteótico reinará sobre a avenida. E todos haverão de reverenciar o que há em cada um de mais profundo de si mesmo.
Rompidas as barreiras do ego e da mente, caídas as máscaras, arrancadas as escamas dos olhos e dilatados os ouvidos, o Amor irromperá como solene sagração do humano.
Frei Betto
Frei Betto




                                                                                            
É autor de 58 livros, no Brasil e exterior. Estudou jornalismo, antropologia, filosofia e teologia. Tem 72 anos, natural de Belo Horizonte. Assessor de movimentos populares. Um dos defensores da Teologia da Libertação. Mora em São Paulo.




terça-feira, 4 de outubro de 2016

Nós erramos, por Frei Betto


01/10/2016
Reproduzo esse artigo de Frei Betto com o qual me identifico. É sincero e sabe manter o equilíbrio entre os acertos e os erros cometidos pelos governos Lula-Dilma.É uma auto-crítica necessária que deverá ser ainda feita por todo o partido do PT pois somente assim faz justiça à realidade, presta conta à população e começa a resgatar sua credibilidade abalada. Nunca fui filiado ao PT. Soube distinguir entre a causa que ele levava avante, dando centralidade aos pobres e o partido que servia de instrumento para esta causa. A mim pouco importa o partido que é sempre parte. Importou e continua a importar o destino dos esquecidos e feitos invisíveis que constituem um permanente desafio para a consciência ética .Para aqueles que se orientam pela mensagem de Jesus eles eles constituem um imperativo teológico, pois o Mestre os fez nossos juizes no termo final da história. Isso é o que definitivamente conta para mim: Leonardo Boff
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Continuo a fazer coro com o “Fora Temer” e a denunciar, aqui na Europa, onde me encontro a trabalho, a usurpação do vice de Dilma como golpe parlamentar. Porém, as forças políticas progressistas, que deram vitória ao PT em quatro eleições presidenciais, devem fazer autocrítica.
Não resta dúvida, exceto para o segmento míope da oposição, que os 13 anos do governo do PT foram os melhores de nossa história republicana. Não para o FMI, que mereceu cartão vermelho; não para os grandes corruptores, atingidos pela autonomia do Ministério Público e da Polícia Federal; nem para os interesses dos EUA, afetados por uma política externa independente; nem para os que defendem o financiamento de campanhas eleitorais por empresas e bancos; nem para os invasores de terras indígenas e quilombolas.
Os últimos 13 anos foram melhores para 45 milhões de brasileiros que, beneficiados pelos programas sociais, saíram da miséria; para quem recebe salário mínimo, anualmente corrigido acima da inflação; para os que tiveram acesso à universidade, graças ao sistema de cotas, ao ProUni e ao Fies; para o mercado interno, fortalecido pelo combate à inflação; para milhões de famílias beneficiadas pelo programas Luz para Todos e Minha Casa, Minha Vida; e para todos os pacientes atendidos pelo programa Mais Médicos.
No entanto, nós erramos. O golpe foi possível também devido aos nossos erros. Em 13 anos, não promovemos a alfabetização política da população. Não tratamos de organizar as bases populares. Não valorizamos os meios de comunicação que apoiavam o governo nem tomamos iniciativas eficazes para democratizar a mídia. Não adotamos uma política econômica voltada para o mercado interno.
Nos momentos de dificuldades, convocamos os incendiários para apagar o fogo, ou seja, economistas neoliberais que pensam pela cabeça dos rentistas. Não realizamos nenhuma reforma estrutural, como a agrária, a tributária e a previdenciária. Hoje, somos vítimas da omissão quanto à reforma política.
Em que baú envergonhado guardamos os autores que ensinam a analisar a realidade pela óptica libertadora dos oprimidos? Onde estão os núcleos de base, as comunidades populares, o senso crítico na arte e na fé?
Por que abandonamos as periferias; tratamos os movimentos sociais como menos importantes; e fechamos as escolas e os centros de formação de militantes?
Fomos contaminados pela direita. Aceitamos a adulação de seus empresários; usufruímos de suas mordomias; fizemos do poder um trampolim para a ascensão social.
Trocamos um projeto de Brasil por um projeto de poder. Ganhar eleições se tornou mais importante que promover mudanças através da mobilização dos movimentos sociais. Iludidos, acatamos uma concepção burguesa de Estado, como se ele não pudesse ser uma ferramenta em mãos das forças populares, e merecesse sempre ser aparelhado pela elite.
Agora chegou a fatura dos erros cometidos. Nas ruas do país, a reação ao golpe não teve força para evitá-lo.
Deixemos, porém, o pessimismo para dias melhores. É hora de fazer autocrítica na prática e organizar a esperança.
Frei Betto é escritor, autor do romance “Minas do ouro” (Rocco), entre outros livros. 

sábado, 29 de março de 2014

MEU 1º DE ABRIL DE 1964 - Frei Betto



Na data do golpe militar, eu participava em Belém (PA) do congresso latino-americano de estudantes. Nunca havia vivido um golpe e, muito menos, uma ditadura. Meu pai, no entanto, sofrera sob o Estado Novo de Vargas, padecera prisão, e se vira obrigado a deixar o Rio e retornar a Minas ao assinar o Manifesto dos Mineiros.
Na capital paraense as notícias chegavam confusas e difusas. Pelas ruas, viaturas militares. Lideranças estudantis de outros países do Continente, já acostumadas a quarteladas, preferiram dissolver o congresso. Foi o salve-se quem puder...
Como membro da direção nacional da Ação Católica, eu estava hospedado na residência do arcebispo Dom Alberto Ramos, a convite de seu bispo auxiliar, Dom Milton Pereira. Este era progressista; o outro, conservador.
Na noite do 1º de abril, vi na TV o arcebispo dar loas à Virgem de Nazaré por livrar o Brasil do comunismo, e sugerir que entre seu clero havia quem sofresse influência marxista... Dom Milton aconselhou-me buscar refúgio fora dali.
Fui para a casa de Lauro Cordeiro, militante da JEC (Juventude Estudantil Católica). Ali, de ouvidos colados ao rádio, tentávamos avaliar o que ocorria no Sudeste do país. Jango fora deposto e buscara exílio no Uruguai. Ranieri Mazzilli, presidente da Câmara dos Deputados, assumira a presidência da República sob tutela dos militares. Estes impunham novas eleições presidenciais a 11 de abril, pelo voto apenas de membros do Congresso Nacional que ainda não haviam sido cassados.
Mas... cadê a resistência de toda aquela multidão que aplaudira Jango no megacomício de 13 de março, no Rio? E a militância do Partidão, onde se enfiara? A esquerda não bradava ser capaz de mobilizar milhares de trabalhadores em caso de ameaça de golpe? Por que as tropas comandadas pelo general Olímpio Mourão Filho viera de Minas ao Rio sem se deparar com nenhum empecilho?
Nossos sonhos libertários se derretiam como os saborosos sorvetes da Tip Top, a mais famosa sorveteria da capital paraense. Após nove dias esperando a poeira baixar, decidi retornar ao Rio, onde morava.
Minha passagem aérea tinha sido cedida por Betinho, então chefe de gabinete do ministro da Educação, Paulo de Tarso dos Santos. Deparei-me com a agência da Varig repleta de pessoas afoitas por viajarem. Ao ser atendido, fui informado de que “estão canceladas todas as passagens de cortesia emitidas pelo governo anterior”. Sem dinheiro, me senti desamparado.
Na capa da passagem (outrora os bilhetes aéreos vinham encadernados) havia o carimbo de “Cancelado”. Rasguei a capa e estendi-a ao funcionário que avisava não ter mais assento vago em voos diretos para o Rio, a menos que o passageiro fizesse escala no Recife. Consegui embarcar.
Cheguei à capital pernambucana a 10 de abril, dia da posse de Dom Helder Camara como arcebispo de Olinda e Recife. Ele havia sido o responsável pela minha transferência de Minas para o Rio e cuidava da manutenção do apartamento das direções da JEC e da JUC (Juventude Universitária Católica).
Talvez por captar minha aflição, Dom Helder, após a missa de posse, deixou a recepção por alguns minutos para ouvir o relato do que eu presenciara em Belém. Em seguida, embarquei para o Rio, tomando assento ao lado de Dom Cândido Padin, bispo auxiliar do Rio e assessor nacional da Ação Católica.
Ao aterrissar no aeroporto Santos Dumont, o piloto avisou que todos deveriam permanecer a bordo, pois a Polícia Federal entraria para conferir a identidade de cada passageiro. Passei a Dom Padin todos os documentos do congresso de estudantes, temendo que fossem considerados subversivos. Ele os escondeu dentro do hábito beneditino.
Ao ingressar na aeronave, os policiais avistaram a figura episcopal: “O bispo pode desembarcar”, disseram. Todos os demais fomos identificados e revistados. Desembarquei ileso.
Na madrugada de 5 para 6 de junho de 1964, o apartamento da direção da Ação Católica foi invadido por agentes do CENIMAR (Centro de Informações da Marinha). Fomos todos arrastados para o Comando Naval, no centro do Rio, e depois encarcerados no quartel dos fuzileiros navais, na Ilha das Cobras.
A ditadura me atingira na pele, pela primeira vez, para mais tarde me prender por quatro anos (1969-1973) e cassar por dez meus direitos políticos.

Frei Betto é escritor, autor de “Diário de Fernando – nos cárceres da ditadura militar brasileira” (Rocco), entre outros livros.
 (http://www.freibetto.org) – twitter:@freibetto.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

" O povo tem fome de beleza - educação, cultura e participação política"

Recado das ruas
Frei Betto
As manifestações de rua no Brasil fundem a cuca de analistas e cientistas políticos. Dirigentes partidários e lideranças políticas se perguntam perplexos: quem lidera, se não estamos lá?
Recordo quando deixei a prisão, em fins de 1973. Ao entrar, quatro anos antes, predominava o movimento estudantil na contestação à ditadura. Ao sair, encontrei um movimento social –Comunidades Eclesiais de Base, oposição sindical, grupos de mães, luta contra a carestia– que me surpreendeu. Do alto de meu vanguardismo elitista fiz a pergunta: como é possível se nós, os líderes, estávamos na cadeia?
Como essa mesma perplexidade Marx encarou a Comuna de Paris, em 1871; a esquerda francesa, o Maio de 1968; e a esquerda mundial, a queda do Muro de Berlim e o esfacelamento da União Soviética, em 1989.
"A vida extrapola o conceito”, já dizia meu confrade Santo Tomás de Aquino, no século 13. Agora, aqui no Brasil, todas as lideranças políticas encaram confusas e despeitadas as recentes manifestações de rua. Com a mesma interrogação invejosa que a esquerda histórica do Brasil mirou o surgimento do PT em 1980: que história é essa de, agora, os proletários quererem ser a vanguarda do proletariado?
Historicamente eram os líderes da esquerda brasileira homens oriundos da classe média (Astrogildo Pereira, Mário Alves e João Amazonas), dos círculos militares (Prestes, Gregório Bezerra, Apolônio de Carvalho) e da intelectualidade (Gorender e Caio Prado Júnior). Marighella foi das raras lideranças provenientes das classes populares.
O recado das ruas é simples: nossos governos se descolaram da base social. Para usar uma categoria marxista, a sociedade política se divorciou da sociedade civil, risco que previ e analisei no livro "A mosca azul – reflexão sobre o poder” (Rocco, 2005).

A sociedade política –executivo, legislativo e judiciário– se convenceu de que representava de fato o povo brasileiro, e mantinha sob seu controle os movimentos de representação da sociedade civil, como ocorre, hoje, com a UNE e a CUT.

Nem só de pão vive o homem, alertou Jesus. Embora 10 anos de governo petista tenham melhorado as condições sociais e econômicas do Brasil, o povo não viu saciada sua fome de beleza – educação, cultura e participação política.

O governo petista optou por uma governabilidade assegurada pelo Congresso Nacional – onde ainda perduram os "300 picaretas” denunciados por Lula. Desprezou a governabilidade apoiada nos movimentos sociais, como fez Evo Morales, com êxito, na Bolívia.

Assim, nosso governo aos poucos perdeu os aneis para conservar os dedos. Acreditou que ‘tudo permaneceria como dantes no quartel de Abrantes’. Seja porque a oposição anda enfraquecida por suas próprias disputas internas, seja porque considera Eduardo Campos e Marina Silva meros balões de ensaio.
O que nem a Abin (olhos e ouvidos secretos do governo) previu foi o súbito tsunami popular invadindo as ruas do Brasil em pleno período da Copa das Confederações – quando se esperava que todos estivessem com a atenção concentrada nos jogos.

Agora o governo inventa o discurso de que sem partidos não há política nem democracia. Ora, basta uma aula de história de ensino médio para aprender que a democracia nasceu na Grécia muitos séculos antes da era cristã, e mais ainda do aparecimento de partidos políticos.

Hoje, a maioria dos partidos nega a democracia ao impedir um governo do povo com o povo. Não basta pretender governar para o povo e, assim, considerar-se democrata. O povo nas ruas exige novos mecanismos de participação democrática, enquanto manifesta sua descrença nos partidos. Estes são intimados a renovar seus métodos políticos ou serão atropelados pela sociedade civil.

Eis o recado das ruas: democracia participativa, não apenas delegativa, ou seja, governo do povo, com o povo e para o povo. Isso não é utopia, desde que não se considere modelo perpétuo o pluripartidarismo e se admita que o regime democrático pode e deve ganhar novos desenhos de participação popular nas esferas de poder.

Frei Betto é assessor de movimentos populares. É de Belo Horizonte, mora em São Paulo. Escritor de diversos livros, entre os quais "Calendário do Poder” (Rocco), e "Mosca Azul" e "Comunidades Eclesiais de Base". Foi Assessor Especial da Presidência da República em 2003 e 2004, tendo contribuído pela implantação do Programa Fome Zero.