quinta-feira, 11 de abril de 2019

Prefeitos querem punição por abusos de autoridade dos Promotores de Justiça

Prefeitos atacam Ministério Público e Lava Jato e põem Bolsonaro em saia justa

Promotores de Justiça criaram verdadeiro poder paralelo nas gestões municipais

por César Fonseca*
Os prefeitos estão putos da vida com a criminalização da política. Na prática, não têm poder algum. Estão todos submetidos ao que chamam de governo paralelo. São os procuradores que ficam diariamente no pé deles. Por isso estão dispostos a apoiarem projeto de lei que ataca abuso de autoridade.
(Manifestações aconteceram na 22ª Marcha Nacional dos Prefeitos, em Brasília, de 9 a 11.04.2019)
Quem manda nos municípios são os homens do Ministério Público. Eles ganharam poder excessivo na tarefa de baixar a torto e a direito resoluções em pencas exigindo dos executivos estaduais respostas impossíveis de serem dadas por cada decisão tomada ao longo do dia. Vão para casa com espada de Dâmocles no pescoço.
A discriminalizacão política generalizada pela justiça, pelos integrantes do poder paralelo transformam eles em alvos críticos da população em escala incontrolável. Perderam capacidade de governar. Pressionam agora para que o Congresso tenha, segundo eles, coragem de ir para o embate com os procuradores. Estão convencidos de que a Operação Lavajato se transformou em partido político que cerceia suas iniciativas políticas.
O desdobramento político de suas ações desenvolvidas nessa semana em encontro nacional configura reação ao governo paralelo e se transforma em grande pressão política sobre Bolsonaro. Ficou claro: os executivos municipais financeiramente quebrados estão em pé de guerra contra o Ministério Público e Sérgio Moro, identificado com a Lavajato , que o levou ao poder. Veem ele como xerife implacável. Trata-se de rebelião politicamente incontrolável.

*César Fonseca é jornalista de política e economia, blogueiro e editor do Independência Sul Americana.

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Jessé Souza: Os 100 dias de um idiota no poder

* Jessé Souza

A eleição de Jair Bolsonaro foi um protesto da população brasileira. Um protesto financiado e produzido pela elite colonizada e sua imprensa venal, mas, ainda assim, um "protesto". Para a elite o que conta é a captura do orçamento público e do Estado como seu "banco particular" para encher o próprio bolso. 
A reforma da previdência é apenas a última máscara desta compulsão à repetição.
Mas as outras classes sociais também participaram do esquema. A classe média entrou em peso no jogo, como sempre, contra os pobres para mantê-los servis, humilhados e sem chances de concorrer aos privilégios educacionais da classe média. 
Os pobres entraram no jogo parcialmente, o que se revelou decisivo eleitoralmente, pela manipulação de sua fragilidade e pela sua divisão proposital entre pobres decentes e pobres "delinquentes". Juntos, a guerra social contra os pobres e entre os pobres, elegeu Bolsonaro e sua claque.
Foi um protesto contra o progresso material e moral da sociedade brasileira desde 1988 e que foi aprofundado a partir de 2002. Estava em curso um processo de aprendizado coletivo raro na história da sociedade brasileira. 
Como ninguém em sã consciência pode ser contra o progresso material e moral de todos, o pretexto construído, para produzir o atraso e mascará-lo como avanço, foi o pretexto, já velho de cem anos, da suposta luta contra a corrupção.
A "corrupção política", como tenho defendido em todas as oportunidades, é a única legitimação da elite brasileira para manipular a sociedade e tornar o Estado seu banco particular. A captura do Estado pelos proprietários, obviamente, é a verdadeira corrupção que, inclusive, a "esquerda" até hoje, ainda sem contra discurso e sem narrativa própria, parece ainda não ter compreendido.
Agora, eleição ganha e Bolsonaro no poder, começam as brigas intestinas entre interesses muito contraditórios que haviam se unido conjunturalmente na guerra contra os pobres e seus representantes. 
Bolsonaro é um representante típico da baixa classe média raivosa, cuja face militarizada é a milícia, que teme a proletarização e, portanto, constrói distinções morais contra os pobres tornados "delinquentes" (supostos bandidos, prostitutas, homossexuais, etc.) e seus representantes, os "comunistas", para legitimar seu ódio e fabricar uma distância segura em relação a eles. 
Toda a sexualidade reprimida e toda o ressentimento de classe sem expressão racional cabem nesse vaso. O seu anticomunismo radical e seu antintelectualismo significam a sua ambivalente identificação com o opressor, um mecanismo de defesa e uma fantasia que o livra de ser assimilado à classe dos oprimidos. Olavo de Carvalho é o profeta que deu um sentido e uma orientação a essa turma de desvalidos de espírito.
A escolha de Sérgio Moro foi uma ponte para cima com a classe média tradicional que também odeia os pobres, inveja os ricos, e se imagina moralmente perfeita porque se escandaliza com a corrupção seletiva dos tolos. 
Mas apesar de socialmente conservadora, ela não se identifica com a moralidade rígida nos costumes dos bolsonaristas de raiz que estão mais perto dos pobres. Paulo Guedes, por sua vez, é o lacaio dos ricos que fica com o quinhão destinado a todos aqueles que sujam a mão de sangue para aumentar a riqueza dos já poderosos.
Os 100 dias de Bolsonaro mostram que a convivência desses aliados de ocasião não é fácil. A elite não quer o barulho e a baixaria de Bolsonaro e sua claque que só prejudicam os negócios. Também a classe média tradicional se envergonha crescentemente do "capitão pateta". 
Ao mesmo tempo, sem barulho nem baixaria Bolsonaro não existe. Bolsonaro "é" a baixaria. 
Sérgio Moro, tão tolo, superficial e narcísico como a classe que representa, é queimado em fogo brando já que o Estado policial que almeja, para matar pobres e controlar seletivamente a política, em favor dos interesses corporativos do aparelho jurídico-policial do Estado, não interessa de verdade nem a elite nem a seus políticos. Sem a mídia a blindá-lo, Sérgio Moro é um fantoche patético em busca de uma voz.
O resumo da ópera mostra a dificuldade de se dominar uma sociedade marginalizando, ainda que em graus variáveis, cerca de 80% dela. 
Bolsonaro e sua penetração na banda podre das classes populares foi útil para vencer o PT. Mas ele é tão grotesco, asqueroso e primitivo que governar com ele é literalmente impossível. A idiotice dele e de sua claque no governo é literal no sentido da patologia que o termo define. 
Eles vivem em um mundo à parte, comandado pelo anti-intelectualismo militante, o qual não envolve apenas uma percepção distorcida do mundo. 
O idiota é também levado a agir segundo pulsões e afetos que não respeitam o controle da realidade externa. Um idiota de verdade no comando da nação é um preço muito alto até para uma elite e uma classe média sem compromisso com a população nem com a sociedade como um todo. 
Esse é o dilema dos 100 dias do idiota Jair Bolsonaro no poder.


*Jessé José Freire de Souza é sociólogo, professor universitário e pesquisador  nas áreas de Teoria Social, pensamento social brasileiro e estudos teórico/empíricos sobre desigualdade e classes sociais no Brasil contemporâneo. É autor de livros como A Ralé Brasileira, A Radiografia do Golpe, A Elite do Atraso, A Classe Média no Espelho, Sub-cidadania brasileira: para entender o país além do jeitinho brasileiro, entre outros.

Graduou-se em Direito e fez mestrado em sociologia pela UnB. Fez doutorado em Sociologia pela Karl Ruprecht Universität Heidelberg (Alemanha), país onde obteve livre docência nesta mesma disciplina Universität Flensburg em 2006. Também fez pós-doutorado em Sociologia na New School for Social Research, Nova Iorque, (1994/1995). Escreveu e organizou 22 livros, em português, inglês e alemão sobre sociologia política, teoria da modernização periférica e desigualdade no Brasil contemporâneo. 
Foi presidente do IPEA - Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, em 2015/2016.

Texto publicado originalmente no brasil247.com, em 08.04.19.

Manifestações no Brasil e em 16 países pedem liberdade para Lula

Lula Livre: Em 16 países e 17 capitais brasileiras  - como foi o dia de luta pela liberdade de Lula

Milhares de pessoas tomaram as ruas do Brasil e do mundo no primeiro aniversário da prisão política do ex-presidente.

Ouça o áudio:
Apoiadores se reuniram do lado de fora da Superintendência da PF, onde Lula é mantido preso desde abril de 2018 / Ricardo Stuckert/Instituto Lula
De Caetés (PE), cidade-natal de Luiz Inácio Lula da Silva, a São Paulo (SP), Curitiba (PR), Belo Horizonte (MG) e Rio de Janeiro (RJ), passando por ao menos 16 países e 17 capitais brasileiras, as ruas se encheram, neste domingo (7), de gritos e clamores por justiça e liberdade para o ex-presidente,  preso há exatamente um ano em Curitiba (PR).
Ao todo, 32 atividades reuniram centenas de milhares de pessoas para não deixar passar em branco a perseguição judicial sofrida pelo ex-presidente. Em Curitiba, do lado de fora da carceragem da Polícia Federal, mais de 10 mil pessoas se juntaram para transmitir força e energia para Lula.
“É um ano que a gente vive esse massacre psicológico contra toda a família. E foi um ano muito difícil não só pela prisão, mas por todas as perdas de pessoas. A última, do Arthur, que foi o que mais mexeu a gente. E a gente fica pensando, como ele pode ficar sozinho, vivendo uma perda dessas? E é esse amor, esse calor, essa militância, que dá força pra ele e fortalece a família também”, disse ao Brasil de Fato a filha mais velha do ex-presidente, Lurian Lula da Silva, em Curitiba. 
O Brasil de Fato traz aqui um resumo dos atos que tomaram o país e o mundo neste domingo:
São Paulo (SP)
Mais de 10 mil pessoas se reúnem na Av. Paulista. (Foto:Reprodução)
A capital paulista reuniu, a partir das 14h, mais de 10 mil pessoas em ato convocado pela Frente Brasil Popular e a Frente Povo Sem Medo. Em outro ponto da Avenida Paulista, uma pequena manifestação em apoio à Lava Jato acontecia, que terminou com uma militante pró-Lula agredida por manifestantes conservadores.
Para Renato Simões, membro da Executiva Nacional do PT, o ato marcou “um ano de uma injustiça tão atroz que ela não morre na memória das massas, na consciência da militância. Nós estamos diante de uma grande reação da sociedade civil e dos movimentos sociais que não aceitam a continuidade da injustiça.”
Vagner Freitas, presidente nacional da CUT, lembrou que “nós não estamos comemorando nada, nós estamos lembrando que o presidente Lula está preso injustamente, que ele é inocente e que está preso por defender os direitos dos trabalhadores. Por isso, estamos no Brasil inteiro nos manifestando contra essa injustiça extraordinária”.
Mesmo após uma hora e meia do final do ato, os manifestantes seguiam concentrados na Praça dos Ciclistas, cantando e entoando gritos que pediam a liberdade de Lula. Somente às 18h20 a avenida Paulista foi liberada e o ato dispersado.
Recife (PE)
Blocos de carnaval animaram a manifestação em Recife. (Foto: Denilson Cadête)
No Recife, o ato aconteceu na Praça do Arsenal, centro histórico da cidade. Artistas e blocos carnavalescos participaram do ato, como o tradicional Bloco Eu Acho é Pouco, o Bloco Sem Terra e muitos maracatus e afoxés. Mais de dez mil pessoas se uniram para cantar e gritar por Lula Livre.
Ao todo foram cerca de dez blocos de carnaval, fizeram o "Blocão da Democracia". Um palco foi montado onde diversos artistas locais, como Flaira Ferro, fizeram da noite um espaço cheio de irreverência e com muito frevo. Um samba pela democracia trouxe diversos sambistas ao palco. Poetistas e poetas também marcaram presença, assim como Fred 04, do Mundo Livre S.A. 
Rio de Janeiro (RJ)
Festival Democracia e Justiça na orla de Copacabana no Rio de Janeiro. (Foto: Reprodução)
Na tarde deste domingo (7), cerca de duas mil pessoas estiveram reunidas na Praia de Copacabana, na altura do Posto 3, para participar do Festival Democracia e Justiça, principal manifestação organizada pelos cariocas para pedir pela liberdade do ex-presidente Lula.
O festival começou por volta das 15h, com um debate sobre os impactos da reforma da Previdência para os trabalhadores. Em seguida, as falas políticas e apresentações culturais tiveram início no trio elétrico. Um dos discursos marcantes foi feito pelo ex-ministro das Relações Exteriores Celso Amorim.
"Um dia de alegria por essa manifestação que sensibiliza e emociona, ao mesmo tempo é um dia de tristeza porque vemos o presidente Lula preso há um ano, privado com o convívio do povo que para ele é o bem mais precioso", disse Amorim.
Entre o público, diversas pessoas vestiam camisetas vermelhas e carregavam cartazes que pediam por sua liberdade, também dançavam ao ritmo de samba, que tocava no trio elétrico.
“Viemos lutar pelo Lula livre porque o pobre só conheceu o que é ser feliz na época do Lula, depois é só sofrimento”, afirmaram a técnica de enfermagem Lilian Andreia e a vigilante Marta Teixeira. As duas mulheres são netas de Elizabeth e João Pedro Teixeira - lideranças camponesas que lutaram contra a ditadura militar. João Pedro foi morto em 1962 por agentes do regime. Sua história foi tema do filme “Cabra Marcado pela morrer”, dirigido por Eduardo Coutinho. “Nós estamos tentando continuar a luta deles”, acrescentaram as duas.
"Não concordo com essa prisão política do Lula. Tem que se ligar e pressão total para cima desses caras que estão ai, precisamos agir com muita pressão e estratégia", disse o cantor BNegão durante apresentação.
Belo Horizonte (MG)
Participaram pessoas de todas as idades, entre crianças, jovens e idosos / Foto: Raíssa Lopes
Em Belo Horizonte, as mobilizações começaram por volta das 9h da manhã na Praça Afonso Arinos, no centro. Pessoas de todas as idades, entre crianças, jovens e idosos, portavam cartazes com mensagens de apoio e força ao petista, além de se posicionarem contra o governo de Jair Bolsonaro (PSL) e pelo fim de pautas que representam retrocessos para a classe trabalhadora, como a reforma da Previdência.
O momento principal do ato, que foi organizado pelo Coletivo Alvorada, foi a apresentação do Coral Mil Vozes, que pediu por “Lula Livre” e entoou a canção “Anunciação”, de Alceu Valença. O protesto teve, ainda, faixas bordadas pelas mulheres do grupo Linhas do Horizonte.
Curitiba (PR)
Milhares de pessoas fizeram uma jornada de atividades pela liberdade do ex-presidente Lula, em Curitiba (PR), nesse domingo (7) / Ricardo Stuckert
Em Curitiba, as atividades começaram por volta das 8 da manhã com uma marcha que saiu do Terminal Boa Vista e prosseguiu até a vigília Lula Livre, no Bairro Santa Cândida, em frente à Superintendência da Polícia Federal, onde Lula é mantido preso.
O ato contou com a presença de parlamentares do Partido dos Trabalhadores (PSOL), Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), Partido Comunista do Brasil (PCdoB), dirigentes de movimentos populares e entidades sindicais, além de artistas, como as atrizes Lucélia Santos, Guta Stresser e o ator Gregório Duvivier. Segundo estimativa dos manifestantes, cerca de 10 mil pessoas participaram das manifestações.
Caetés (PE)
Manifestação começou com carreata em direção à cidade. (Foto: Rani de Mendonça)
Mais de 500 pessoas participam do ato Vigília Lula Livre na cidade de Caetés, no agreste pernambucano. A atividade começou com a chegada de uma carreata vindo da cidade vizinha, Garanhuns, com mais de 30 carros desfilando entres as cidades com músicas, bandeiras e gritos pela liberdade do ex-presidente Lula.
Apoiadores do petista se reuniram em frente à Escola Severino Girino, na entrada de Caetés. Começaram com um café da manhã como forma de lembrar que Lula foi o responsável pela retirada do país do mapa de fome. "Que esse café da manhã nos lembre e nos dê energia para lutar por quem nos deu comida, literalmente. Que a gente lembre do tempo que tínhamos comida na mesa dos brasileiros. Agora estamos vendo a volta da fome não só aqui", ressalta Vado Pontes, morador de Garanhuns.
Pelo mundo
Diversas capitais da Europa também contaram com manifestações em favor da liberdade do ex-presidente Lula. Na França, os manifestantes se reuniram na Esplanada do Trocadéro, em Paris. O ato contou com a participação de Jean-luc Mélenchon, líder do partido de esquerda França Insubmissa, e com a filósofa Marcia Tiburi, que decidiu deixar o Brasil no em março deste ano após receber uma série de ameaças.
Em Londres, no Reino Unido, os manifestantes percorreram pontos da cidade com um ônibus levando cartazes escritos “Lula Livre”. O ato contou com a presença da ex-ministra do Desenvolvimento Social e Combate a fome durante o governo de Dilma Rousseff, Tereza Campello.
Em Viena, Na Áustria, um ato foi realizado na Praça de Santo Estevão, no centro da cidade. Durante a manifestação, também foi lembrado o assassinato da vereadora carioca Marielle Franco.
Na Alemanha, os manifestantes se concentraram na praça Hermannplatz, onde estenderam faixas pedindo a liberdade de Lula. Um levantamento feito pelos participantes apontou que 100 pessoas participaram do ato.
Em Portugal os protestos ocorreram na capital Lisboa, onde artistas se apresentaram e discursaram em favor da soltura de Lula.
Na Espanha, os manifestantes se reuniram no Parque de la Ciudadela, em Barcelona. Os participantes caminharam pela cidade denunciando o caráter político da prisão do ex-presidente.
Ato em Lisboa pede a liberdade de Lula. (Foto:Reprodução)
Segundo informações do site Opera Mundi, atos também aconteceram em Madri, Bruxelas, Bonn, Coimbra, Amsterdã, Bolonha, Copenhague, Munique, Frankfurt, Hamburgo, Colônia, Manchester, Tübingen e Aarhus.
Também houve atos fora da Europa, nas cidades de Montevidéu, Nova York, Los Angeles, Boston, Cidade do México, Sydney, Melbourne e Saint-Louis.
* Colaboraram Clívia Mesquita, Igor Carvalho, Leonardo Fernandes, Mariana Pitasse, Daniel Giovanaz, Rani de Mendonça, Raíssa Lopes e Tiago Angelo.

domingo, 7 de abril de 2019

Lula: um ano de prisão, mas o povo não esquece ele

Mesmo preso, o ex-presidente continua a despertar sentimentos e opiniões opostas / (Foto: Ricardo Stuckert/Instituto Lula)
Há quase um ano sem contato direto com o que acontece do lado de fora das paredes da Polícia Federal de Curitiba, em um silêncio forçado, Luiz Inácio Lula da Silva causa impacto na vida de muitos brasileiros. Aos 73 anos, o ex-presidente continua a despertar sentimentos e opiniões opostas.
De um lado, aqueles que reconhecem que grande parte da população foi beneficiada por suas políticas públicas. São os que sentiram na própria pele como as condições de vida melhoraram durante seus governos. Do outro, os que reproduzem um discurso de que Lula é um atraso para o país e, a todo custo, tentam manchar sua imagem. Tal dualidade é constante na vida política do ex-presidente, mas, sua importância na história do país é inegável. São diversos os motivos que fazem com que Lula não caia no esquecimento da população e não saia dos holofotes da mídia.  
Campanhas, atos políticos, processos, investigações e falas públicas contundentes. Esse são os cenários geralmente associados a ele. Ao longo de sua trajetória, a imagem do homem que respira política na maioria das vezes sobressai a do Lula pai e avô. Mas, subjetividades, crenças e opiniões - pilares fundamentais na formação de todo o homem político -  o fazem um ser humano como todos os outros.
Perdas inestimáveis 
A primeira vez que apareceu em público após ser preso, foi para participar da cremação de seu neto, Arthur Lula da Silva, que morreu aos sete anos idade. Com base no artigo 120 da Lei de Execução Penal, o ex-presidente foi autorizado pela Justiça Federal a participar da cerimônia. 
Por alguns segundos, entre o carro da Polícia Federal e a sala onde seu neto estava sendo cremado, apoiadores e jornalistas puderam vê-lo. Abatido, acenou rapidamente, sem esconder a dor de avô, que acabara de perder um de seus netos de forma tão trágica. 
“Nunca vi meu pai tão triste desde que eu me entendo por gente. Nunca. Ele falou que não achava justo, que não era a ordem natural, que tinham pessoas mais velhas que poderiam ter ido, que ele não entendia… Disse para o Arthur que o esperasse no céu, que ele iria levar o diploma da inocência dele”, conta Lurian Lula da Silva, filha mais velha do ex-presidente, que pode ficar apenas 1h30 com sua família, em um momento de luto tão grande. “Não foi suficiente. Ele estava há quase um ano preso, longe da convivência familiar. Longe do dia a dia do neto”. 
Além de ser privado de liberdade sem que o julgamento chegasse aos tribunais superiores do país, essa a terceira perda familiar em um curto período de tempo que Lula sofre. Em fevereiro de 2017, quase um ano após ser alvo de condução coercitiva determinada por Sérgio Moro, Marisa Letícia Lula da Silva, esposa do petista, morreu vítima de um AVC. Companheira de vida e de luta do ex-presidente por mais de 30 anos, militou ao lado de Lula desde meados dos anos 70 e encorajou outras mulheres a se juntarem ao movimento sindical.
Foi duramente atacada ao longo de sua trajetória por estar do mesmo lado da trincheira que Lula, o aconselhando e apoiando ao longo de seus dois governos. Costureira da primeira bandeira do PT, sua perda foi sentida por todos os militantes e apoiadores do partido, que carinhosamente a chamavam de "Dona Marisa", assim como Lula.
Em janeiro deste ano, Lula foi impedido de participar do velório de seu irmão mais velho, Genival Inácio da Silva, de 79 anos, conhecido como Vavá, que morreu em decorrência de um câncer no pulmão. 
“Ele resiste pelos que já foram e pelos que ficaram”, diz Lurian, que assume não saber de onde Lula continua tirando forças para lutar em defesa de sua liberdade e pelo resgaste de outro projeto de sociedade. O projeto que tirou o Brasil do mapa da fome, que inseriu pobres e negros na universidade e melhorou as condições de vida e trabalho no campo. 
“Todo mundo fala: ‘Lurian, tenha força, porque ele é gigante’. De fato, ele é gigante. A cada cem anos surge um como ele, tanto quanto homem, quanto pai, quanto político. Ele é um cara que sobreviveu a tudo. Sobreviveu à miséria, à fome, ao preconceito, à perseguição, à ditadura. Ele tem uma coisa que acho que é muito da Família Silva, de tentar ter bom humor em algum momento de dor para poder resistir”, relata a primogênita. 

"Ele é gigante", diz Lurian Lula da Silva, filha mais velha de Lula (Foto: Ricardo Stuckert)

Já Dilma Rousseff acredita que são justamente as violações e perseguições como as que ela e Lula enfrentam cotidianamente, que dão força para resistir. Torturada durante a ditadura militar brasileira, a ex-presidente argumenta que Lula também sofre uma forma de tortura, preso em uma solitária, longe do povo. 
“O sofrimento, a injustiça e a tortura fazem, na verdade, crescer dentro de alguns de nós a vontade de lutar, sobreviver para dar a volta por cima e vencer os nossos algozes. Vencer não pela força, mas pela superioridade que mostramos ao ficar vivos, ao manter a espinha ereta, a mente lúcida e os nossos princípios fortalecidos pela certeza de que estamos do lado certo da história. É exatamente o caso de Lula”, pondera.
A ex-presidente acrescenta “Ele sabe que naquele cubículo em que foi jogado está acompanhado de milhões de brasileiras e brasileiros que o amam, gente que o admira e, também, gente que sabe que, neste momento histórico, sem ele, o país continuará se desfigurando”.
Origem nunca esquecida 
De uma família de nove irmãos, Luiz Inácio passou pelas mesmas dificuldades que outras tantas crianças camponesas do semiárido nordestino. Nascido em outubro de 1945, no município de Caetés, no agreste pernambucano, a fome foi uma companhia constante em sua infância. 
Na opinião de Gleisi Hoffmann, deputada federal pelo Paraná (PT), as origens de Lula o tornaram o que é e lhe deram condições de resistir contra perseguições em toda sua trajetória política.  
“Lula é o retrato mais bem acabado do povo brasileiro. Do homem simples, lutador, do trabalhador, daquele que luta para sobreviver. Justamente por ser assim, ter vindo da onde veio e chegado à presidência da República, soube o que fazer como presidente.  Como ninguém, Lula sentiu a falta de oportunidade na vida. E seu governo foi um grande governo de oportunidades, por isso o povo melhorou, teve condições de prosperar.”
Quando falam sobre ele, muitas pessoas citam Dona Lindu, mãe do petista, que criou nove filhos pequenos sozinha e é sempre relembrada nas falas do ex-presidente. “A força [de Lula] vem de Dona Lindu. Ele sempre disse que ela dizia para ele: ‘Teima meu filho. Teima que dá certo’. E ele é um teimoso convicto. A força vem do povo, da confiança que ele tem de poder melhorar as coisas”, complementa Hoffmann. 
Líder popular
As imagens históricas de Lula são sempre acompanhadas de muitas mãos, de muita gente, de muitos abraços. A comunicação com o povo é incontestável marca do ex-presidente. Preso, privado de contato com seus próprios familiares e da população, foi por meio de cartas e bilhetes que encontrou uma forma de se expressar sobre o que acontece no Brasil e continuar a defender seus posicionamentos. 
“Sempre caminhou ao lado do povo”, afirma Paulo Okamotto, presidente do Instituto que leva o nome do ex-presidente. “Ele sabe que é uma pessoa muito querida pela população, que tem muito carinho dos trabalhadores, muito reconhecimento. E isso, para ele, é uma tranquilidade para enfrentar as adversidades que a vida apresenta. É o que tem mantido sua força”. 

(Foto: Juca Martins)

Okamotto também avalia que “os últimos anos foram de muita provação para Lula” e o define como um “profundo conhecedor do povo brasileiro”. “Quem conhece o Lula, quem de alguma forma já conversou com ele, viu como ele trata as pessoas, como ele se preocupa, realmente se apaixona porque ele é um político diferenciado. Faz política com P grande. O legado que Lula construiu e constrói é pela prática dele”, sustenta. 
Destaque internacional
O legado do petista não reverbera apenas nas falas daqueles que trilharam ao seu lado. Os números mostram os feitos de seu governo:  Em 2002, o Brasil ocupava a 13ª posição no ranking global de economias medido pelo PIB (Produto Interno Bruto) em dólar, segundo dados do Banco Mundial e FMI. Em 2011, um ano após Lula sair da presidência, chegou a ocupar a 6ª posição. 
Após seus governos, a nota do Brasil no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da ONU, que era de 0,649 no início dos anos 2000, chegou a 0,755.  Entre 2003 e 2010, houve um aumento real de 80% no salário mínimo, além de programas de transferência de renda essenciais como o Bolsa Família. Hoje, consolidado como referência internacional, atende mais de 13,9 milhões de famílias, que recebem, em média, R$ 178. O coeficiente Gini, cálculo do Banco Mundial para medir o índice de desigualdade de renda, também apresentou melhora: passou de 58,6, em 2002, para 52,9, em 2013. 
Dilma Rousseff ressalta que alcançar essa e outras marcas fez com que o Brasil chamasse atenção de potências mundiais. “Nos fortaleceu ao mostrar que nossos sonhos eram realizáveis. Deixou claro aos milhões de brasileiros, sempre excluídos do poder e vítimas da injustiça social, que era e é possível, e necessário, uma vida melhor para os mais pobres. E isto, sem violência e sem guerras. Demonstrou que a redução da desigualdade é um pré-requisito para a paz, a democracia e um efetivo desenvolvimento”, afirma a ex-presidente. 
Para ela, Lula foi subestimado pela elite, que não aceitou como um retirante nordestino poderia ter uma capacidade de articulação política tão grande e ser aclamado pelo povo. “Eu tive a oportunidade e o orgulho de, por várias vezes, assistir ao reconhecimento da liderança de Lula, nos aplausos e nas entusiasmadas manifestações feitas nos encontros internacionais. Ao perceberem o tamanho de Lula, o desprezo das elites brasileiras se transmutou numa perigosa mistura de ódio e medo”. 
São muitas as opiniões sobre ele. Mas até mesmo quem o critica não têm argumentos suficientes para negar que a história do Brasil se mistura, em muitos momentos, com a história de Lula. “Ele é filho de Dona Lindu. Ele teima, ele resiste, ele tem consciência que ele vai lutar até o fim e que ele só sai dali com a inocência dele”, garante Lurian Lula da Silva.

 Fonte: BrasildeFato

quarta-feira, 3 de abril de 2019

Diamantina: Polícia Federal fecha garimpo que rendia R$ 30 milhões por mês

Duas pessoas são presas durante operação da Polícia Federal contra garimpo ilegal.


Diamantes e outras pedras preciosas eram contrabandeadas para Europa e Ásia.

900 garimpeiros atuavam em cinco trechos do Rio Jequitinhonha, na região de Areinha, entre os municípios de Diamantina e Couto de Magalhães de Minas, no Alto Jequitinhonha.

Garimpo destruía o rio Jequitinhonha, criando assoreamento e contaminação das águas.

Duas pessoas foram presas na manhã desta terça-feira (02.03.19), em Minas Gerais, durante a Operação Salve o Jequitinhonha, da Polícia Federal (PF). 

A ação de combate a crimes ambientais teve o apoio da Polícia Militar
e da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável 
(SEMAD). 
Também foram cumpridos 16 mandados de busca e apreensão.

De acordo com a PF, um dos presos é dono do terreno onde era feita a
extração ilegal de diamantes e o outro é suspeito de financiar o garimpo. 
Oito pessoas não foram encontradas e são consideradas foragidas.

Durante as investigações, a PF apurou que 900 garimpeiros
atuavam ilegalmente em cinco trechos do Rio Jequitinhonha, entre
as cidades de Diamantina e Couto de Magalhães de Minas,
no Vale do Rio Jequitinhonha.

Ente o material apreendido, estão notas fiscais de venda de diamantes, anotações sobre o garimpo, documentos e celulares.



As investigações começaram em 2016, com foco principalmente em uma região conhecida como Areinha, no município de Diamantina. No entanto, segundo o delegado da  Polícia Federal , Luiz Augusto Pessoa, o que era uma atividade artesanal sem autorização, "cresceu de forma assustadora em 2018".

"Aí já tinha trator, retroescavadeira, caminhões, e foram surgindo novos garimpos na mesma região", detalhou Pessoa.


Balsas, dragas e bombas de sucção também foram localizadas ontem e destruídas pela Polícia Federal.

A polícia calcula que os seis garimpos investigados faturavam entre 15 e 20 milhões de reais por mês com a venda internacional. 
De acordo com as investigações, pedras preciosas eram contrabandeadas principalmente para Europa e Ásia. 
A extração ilegal de diamante teria causado o assoreamento
do Rio Jequitinhonha.

Equipamentos como dragas e tratores foram queimados pela polícia para
evitar que o grupo volte a garimpar.

Exploração
Garimpeiros exploravam região ao redor do rio Jequitinhonha
Foto: Polícia Federal

Veja video da principal área do garimpo de diamantes:

Fonte: Polícia Federal, OTEMPO e G1.