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quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

A inauguração do Sobradão

Carlos Mota*
Quando ergueram o Sobradão,
O prédio mais alto do mundo,
Arranhando o céu profundo,
E organizaram a inauguração,
Uma festança foi prometida
Com muita comida e foguetão
E uma missiva foi expedida
Ao Imperador da Nação!!!


Da Corte do Rio de Janeiro
Dom Pedro mandou a resposta
Dizendo ao povo fanadeiro
Que aceitava a proposta
De entrar como cavaleiro
Por aquela enorme porta
E de subir todo faceiro
Por aquela escada torta!

Mas um Zé Bustica de então,
Assim que leu a resposta,
Rindo, quase caiu de costas:
“Mas que mentira danada,
Cavalo lá sobe escada???
Eita povo cabeça de bosta!
Que Dom Pedro, mané nada
Vai cumprir a sua aposta!?

E Zé Bustica tinha razão
Pois no dia aprazado
De Pedro vir ao Fanado,
Começou a confusão:
Ele não cumpriu o combinado
De inaugurar o Sobradão
Deixando o povo frustrado
Com aquela “senducação”!

Mais de um século era passado,
Minas Novas entrou em festa,
Com muito foguete e seresta
E o prefeito foi lembrado
Daquela antiga promessa
Que Pedro em seu reinado,
Muito levado da breca,
Deu o cano no Fanado...

Duzentos e cinquenta anos
A cidade ia completar
E aí entrou nos planos
Doutor Murilo convidar,
O tal general Figueiredo
Pro Sobradão inaugurar
Trotando naqueles lajedos
E as escadas cavalgar.

E aquele general-presidente,
Que preferia cavalo a povo,
Pois não gostava de gente,
Respondeu urgentemente:
“Diga ao povo que eu aprovo
E podem fritar leitoa e ovo
Pois irei inaugurar o Sobrado
Num bom cavalo arreado.”

Minas Novas, daquele tempo,
Bem diferente de agora,
Só tinha cavalo perebento
Machucado pelas esporas
Num deles o General montou
E desceu pela rua afora
Mas no Sobradão empacou
E feito uma metralhadora
Muitos peidos ele soltou
Que o povo se assustou
Correu e foi-se embora!!!

Não sei que presidente,
Se civil ou se arbitrário,
Que lá estará presente
No nosso Tri-Centenário
Que se dará brevemente...
Mas espero que ele consiga
Finalmente inaugurar
Nem que seja uma pocilga
Para o povo se acalmar
E parar com essa briga
De Dom Pedro reclamar !!!

*Carlo Mota é, desde abril de 1955, natural de  Minas  Novas. Bacharel em Direito, pela UFMG, técnico administrativo concursado e, depois, Procurador da República na Previdência Social. Foi deputado federal (2003-2007), autor de projeto de  lei da criação da UFVJM. 
Escreveu o livro "Dicionário Fanadês- Jequitinhonhês-Mineirês - Linguagem falada às margens do Rio Fanado e Adjacências". Aposentado, morando em Sítio, nos arredores de Brasília, cidade onde fixou moradia há 30 anos, danou-se a escrever causos e mais causos de Minas Novas, de adjacências e longinquidades, de todo o Vale do Jequitinhonha. Em breve,   promete publicar outro livro.

O Sobradão
O Sobradão é o símbolo cultural da histórica cidade de Minas Novas, no Alto Jequitinhonha, no nordeste de Minas. O povo da cidade tem um carinho especial pelo edifício, inspirador de muitos causos, pois, até hoje, não se sabe pra que função foi construído. 
O prédio foi construído em 1821 e é um dos mais originais exemplares de arquitetura do período colonial. 
Formado por um bloco de construção, com quatro pavimentos, estrutura em madeira e taipa, suas dimensões eram incomuns para a época. A fachada considerada como principal apresenta quatro portas de loja no térreo, em vergas alteadas e vedação tipo calha. Nas laterais, há mais 59 janelas, três portas de loja e a porta principal de acesso aos andares superiores, de altura incomum, atingindo o segundo pavimento.
Apesar de todas as pesquisas realizadas, não se apurou qual a destinação inicial do prédio. Sabe-se, entretanto, que ele já teve função pública em Minas Novas, como sede do Fórum da Comarca. 
Quando o Deputado Gabriel de Paula Fonseca, em 1856, apresentou à Assembléia Geral do Império, projeto de lei propondo a criação da Província de Minas Novas, o Sobradão foi indicado para ser aproveitado como o Palácio do Governo. A Província, de acordo com o projeto apresentado, abrangeria parte do território do Sul da Bahia e do Norte-Nordeste de Minas Gerais, sendo capital a antiga Vila do Fanado, hoje Minas Novas.
Eme 1730, o arraial passou à categoria de Vila de Nossa Senhora do Bom Sucesso de Minas Novas do Araçuaí ou Vila do Bom Sucesso do Fanado de Minas Novas, pertencente à Capitania da Bahia,nos planos administrativo, militar e eclesiástico. Em 13 de maio de 1757, o território foi incorporado ao Governo da Capitania de Minas.
O Sobradão foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional IPHAN, em 1959. O prédio foi reformado no anos de 1952, 1961, 1972 e 1980.
Hoje, o seu andar térreo é utilizado para exposição de artesanatos locais e regionais, além de servir como sede da Secretaria Municipal de Cultura, Esportes e Turismo.
Os outros andares não são ocupados por nenhuma atividade devido ao estado de precariedade de sua estrutura física e falta de segurança.

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Minas Novas: Chico Meio Quilo e a história de seu apelido


por Carlos Mota *


Assim que desembarcou na Estação da Luz, em São Paulo, uma vontade incontrolável de cagar se apossou do fanadeiro Chico Meio Quilo e ele se escondeu num ermo e obrou em folhas de jornal e que serviram de embalagem para a sua obra.

Ao sair com aquele embrulho e descartá-lo em algum lugar, Chico topou com uma fila de pessoas com embrulhos debaixo do braço e nela entrou.

Ele não sabia que aquilo era um concurso da Fábrica de Balanças Filizolla, onde o peso correto daqueles pacotes seria aferido.

Ao pesarem o embrulho de Chico, ele foi perguntado antes e afirmou que o seu peso era um quilo.
Não era, pois o ponteiro parou nas quinhentas gramas.


De repente, a confusão, pois abriram o pacote de Chico, viram que era bosta, chamaram a polícia e Chico foi mandado de volta para Minas Novas, no Vale do Jequitinhonha, nordeste de Minas.

Perguntado sobre o porquê de ter retornado täo rápido, Chico explicou:

⁃ Povo doido o de São Paulo, pois vai preso e deportado quem não cagar um quilo certo.

E Chico morreu com o apelido de CHICO MEIO QUILO!

*Carlos Mota é de Minas Novas- MG.
 Poeta, escritor, contador de causos. 
É Bacharel em Direito, pela UFMG, Procurador da República aposentado, na área da Previdência Social, ex-deputado federal (2003-20017), autor do projeto de lei de criação da UFVJM - Universidade Fderal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri. 
Mora em Brasília - DF, há 29 anos.

sábado, 2 de junho de 2018

Poesia sobre a Festa do Rosário dos Homens Pretos de Minas Novas


Vou chispado pro Fanado

Carlos Mota*
Junho chega ao Fanado
Mês de tudo embelezar
Deixar tudo limpo, caiado
Pra Nossa Senhora passar


Mês de fazer roupa nova
Ou as velhas remendar...
De no trigo dar uma sova
Pra quitanda bem assar

Pôr os doces nas terrinas
Os licores nas garrafas
De pinga encher as tinas
Fazer tarecos, bolachas

Assar biscoito garrancho
Num forno bem quentinho
E pendurar num gancho
Muitos panos de toucinho

E deles fazer torresmo
Misturado em farinha
Quem sabe até mesmo
Para fritar uma galinha

Mês de comer pororoca
Tira-gosto pruma pinguinha
Empanturrar em paçoca
Na Barragem de Zarinha

Mês de Nove, Mangangá
Mês do Tambor de Engoma
Mês da Taquara animar
Mês de rasgar a sanfona

Beleléu, badale os sinos
Zé Goteira solte foguete
Soltem traques, oh meninos
Viva a vida, aproveitem!!!

Nossa Festa é o que resta
Nesse mundo bem mudado
Corre logo, desembesta
Vá curtir nosso Reinado

Enfie um chapéu na testa
E vai chispado pro Fanado



*Carlos Mota é de Minas Novas, no Alto Jequitinhonha, nordeste de Minas. Poeta, escritor, contador de causos. Formado em direito pela UFMG, ex-Procurador Federal com atuação 
na Previdência Social, ex-deputado federal, autor do projeto de lei que criou a UFVJM - Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri. 
Aposentado, vive no Sítio Cafuringa,nos arredores de Brasília- DF.




sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Sou normal, gosto de Carnaval!


Carlos Mota*

Para mim a vida só tem sentido se for bem vivida. 
E o bem viver pressupõe prazer! 

O SER HUMANO, segundo Nietzsche, não procura prazer apenas eventualmente. Ele procura prazer o tempo todo. Mas como não encontra uma fonte que lhe forneça prazer o tempo todo, a natureza o forçou a se tornar inventor de seu próprio prazer. 

Se somos privados de prazer, o TÉDIO toma conta de nossa vida, nos consome e nos mata. Por isso, fugimos do tédio o tempo inteiro e, fugindo dele, é que procuramos uma excitação que, se não for encontrada, tem que ser inventada. Somos, assim, um animal que brinca! 

A MÚSICA, por exemplo, é uma invenção nossa e que entretém os nossos afetos. Aliás, não é sem razão a importância dada à música ao longo da história da humanidade, seja no mecenato, seja na manutenção de orquestras, na construção de suntuosos palácios musicais, seja, enfim, no destaque dado às celebridades da música, infinitamente maior ao dado a quaisquer outros seres humanos, dentre eles governantes, cientistas, etc.

Entre todas as artes, a música é para mim tão essencial como o comer, o beber e o prazer sensual, sobretudo pelo fato de ela - a música - ser o melhor remédio contra o tédio, esse algo pavoroso, onde vivemos o instante como passagem vazia do tempo.

"A arte ajuda a viver porque senão a vida não sabe o que fazer quando assaltada por sentimentos de ausência de sentido."

Que me desculpem os que dizem não gostar de Carnaval! 
Não gostar de cantos, danças e festas, pois são ruins da cabeça ou doentes dos pés! 

De minha parte, adoro uma folia e é nela que me livro de tudo de ruim que, ao longo do ano, não dei conta de me livrar.

Estando o Brasil sob a égide da ODIOCRACIA, implantada de dois ou três anos para cá, nada melhor para combatê-la do que se esbaldar na folia, coisa que até mesmo os sisudos, negocistas e utilitaristas paulistas e paulistanos resolveram finalmente adotar. 

Vamos aproveitar, pois a vida não se resume a saldos bancários e contracheques!




Carlos Mota é folião dos bons dos antigos carnavais de Minas Novas, sua terra natal. Foi um dos fundadores do Bloco Patota, em 1975, que deu origem ao famoso carnaval do trio elétrico, a partir de 1981. Junto com Dalton Magalhães, compôs a música do Bloco.

Afora isso, é também Bacharel em Direito pela UFMG, Procurador da República aposentado, ex-deputado federal (PSB - MG, 2003-2007). Como deputado federal foi autor do projeto de lei que criou a UFVJM - Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri. Mora em Brasília, há cerca de 30 anos.